
Por Dr. Alisson Olbera
1- INTRODUÇÃO
Os meningiomas são neoplasias primárias do sistema nervoso central (SNC) extra-axiais, ou seja, crescem dentro da dura-máter, mas fora do parênquima cerebral e da medula espinhal, embora a invasão direta do tecido nervoso possa ocorrer em alguns casos2. São as neoplasias mais relatadas em cães e gatos, e podem representar até 59% de todas as neoplasias intracranianas em felinos1-2. Esses tumores, embora geralmente benignos, podem causar complicações significativas devido à sua localização intracraniana e à pressão exercida sobre estruturas neurais vitais2. Em geral, os meningiomas em felinos ocorrem mais frequentemente em gatos mais idosos, embora possam afetar animais de qualquer idade1. Os sinais clínicos variam dependendo do tamanho, localização e taxa de crescimento do tumor4. Os sintomas podem incluir crises epilépticas, alterações de comportamento, dificuldades motoras, cegueira, desorientação e até mesmo coma, à medida que o tumor exerce pressão no tecido cerebral adjacente1-2.O diagnóstico de um meningioma intracraniano em gatos geralmente requer uma combinação de exames clínicos, como avaliação neurológica, imagem por ressonância magnética (MRI) ou tomografia computadorizada (CT), e, em alguns casos, análise de líquido cefalorraquidiano1-3. A identificação precisa do tumor e a avaliação de sua localização são essenciais para determinar o plano de tratamento mais adequado1-3.O tratamento pode variar e geralmente envolve a abordagem cirúrgica para remoção do tumor, sempre que possível, seguida ou combinada com radioterapia/quimioterapia para reduzir o crescimento ou recorrência do meningioma1-3,8. No entanto, devido à localização complexa desses tumores, nem sempre a cirurgia é viável1,8.
O prognóstico após o tratamento também pode variar, com alguns gatos respondendo bem à remoção cirúrgica completa, enquanto outros podem enfrentar recorrência do tumor ou complicações neurológicas persistentes.
2- EPIDEMIOLOGIA E ACHADOS PATOLÓGICOS
A idade média no diagnóstico de gatos com meningioma é de 12,1 anos e não existem predileções sexuais conhecidas para o desenvolvimento de tumores cerebrais em gatos1. Gatos domésticos de pelo curto parecem ter uma predisposição para desenvolver meningiomas1. Em gatos, as localizações comuns incluem o terceiro ventrículo, as meninges supratentoriais e, raramente, as meninges cerebelares1-3. Meningiomas múltiplos são comuns em felinos, ocorrendo em aproximadamente 17% dos casos de meningioma, enquanto em cães é um achado raro1,3,6. No exame histológico, os meningiomas são caracterizados principalmente por uma mistura de folhas de células epitelioides exibindo citoplasma abundante e homogêneo sem bordas definidas (Figura 1)1-8. Esse padrão lobular é caracterizado por formações sinciciais em espiral (padrão meningotelial)1,8.A classificação histológica atual da OMS para meningiomas em animais domésticos os divide em dois grupos principais: (1) tumores benignos de crescimento lento, com oito subtipos, e (2) tumores anaplásicos8.

Note as ilhas e espirais de células neoplásicas meningoteliais caracterizadas por células fusiformes.
Fonte: Motta et al, 2012.
1- SINAIS CLÍNICOS
Alterações comportamentais frequentemente estão presentes em neoplasias intracranianas1-3. Dentre as mais comuns estão: temperamento alterado, aumento da irritabilidade ou depressão, andar em círculos e/ou compulsivo e pressionar a cabeça contra obstáculos1-3. Sinais físicos podem incluir crises epilépticas, especialmente as do tipo focal, onde uma parte específica do corpo treme ou tem movimentos bruscos (mais comum na face)1-3. Além disso, gatos afetados podem apresentar mudanças na coordenação, como ataxia, paresia ou falta de equilíbrio2. Alterações na visão também são indicadores comuns2. Com o desenvolvimento do tumor, ele exerce pressão sobre o encéfalo, levando a sinais mais pronunciados, como alteração da consciência, confusão ou até mesmo coma em casos mais avançados. Alguns gatos podem ter mudanças de vocalização ou apresentar padrões vocais incomuns1-3.
2- DIAGNÓSTICO
A avaliação do histórico, anamnese e exame físico minucioso são essenciais para a suspeita de um quadro de neoplasia intracraniana3,5. Um felino com manifestação neurológica possui diversos diagnósticos diferenciais, principalmente doenças infecciosas, que devem ser descartadas através de exames moleculares ou sorológicos5. Além disso, a realização de hemograma, bioquímicos séricos, urinálise, ultrassonografia abdominal e radiografia torácica podem auxiliar no descarte de outras doenças sistêmicas, que podem estar associadas à sinais neurológicos, principalmente em pacientes de idade avançada3,5. ARM e aTC são consideradas as principais ferramentas de diagnóstico por imagem disponíveis para neoplasias do SNC (Figura 2)1-4. No entanto, a avaliação histopatológica de amostras de biópsia continua sendo a maneira mais confiável de alcançar um diagnóstico definitivo. O exame citológico realizado durante a cirurgia ou com técnicas estereotáxicas pode auxiliar no diagnóstico de meningioma. Técnicas avançadas de imagem também podem ser muito úteis para identificar a localização anatômica precisa e as relações intracranianas entre os tumores cerebrais e os tecidos circundantes. Essas informações são importantes e úteis, especialmente quando a excisão cirúrgica for a opção terapêutica optada1,3,6. A análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) não apresenta boa sensibilidade, e frequentemente não está alterado, porém análises moleculares para o descarte de agentes infecciosos podem complementar o diagnóstico2.

posteriormente com exame histopatológico.
Note a massa expansiva e hiperintensa no hemisfério cerebral direito.
Fonte: The Downs Veterinary Practice, 2023.
3- TRATAMENTO E PROGNÓSTICO
A maioria dos meningiomas em humanos é tratada cirurgicamente, e tumores recorrentes podem ser tratados com radioterapia e/ou nova ressecção cirúrgica2-3. Complicações pós-operatórias relacionadas à remoção cirúrgica de meningiomas em gatos incluem cegueira central, anemia e insuficiência renal aguda3. A taxa de mortalidade imediata pós-operatória varia entre 17-19% dos gatos submetidos ao procedimento1-3. A erradicação completa ou parcial do tumor com cirurgia é desejada no tratamento e frequentemente resulta em melhora ou resolução dos sinais neurológicos2,3. A excisão cirúrgica resulta em desfechos favoráveis a longo prazo, com uma sobrevida média de 685 dias, no entanto, tumores invasivos ou localizados em áreas não periféricas dentro do crânio podem ser difíceis de remover ou não serem passíveis de excisão1.A idade, localização do meningioma intracraniano e presença de múltiplos meningiomas intracranianos não foram encontrados para afetar significativamente a sobrevida e resultado de gatos que passaram por excisão cirúrgica2,6. Recorrência pós-operatória de meningiomas felinos foi relatada em cerca de 20% dos casos, e um grande estudo determinou que a recorrência tumoral ocorre em média 285 dias após a cirurgia1. As estratégias de tratamento clínico mais comuns envolvem uma combinação de corticosteroides, medicamentos antiepilépticos (em pacientes que apresentam epilepsia secundária à neoplasia) e/ou diferentes agentes quimioterápicos, como a Lomustina e hidroxiureia2-3,8. O prognóstico para pacientes tratados exclusivamente de forma clínica é ruim, com uma sobrevivência média relatada de 18 dias1. A eficácia dos corticosteroides na redução do edema vasogênico associado a tumores é bem descrita2. Além disso, não há dados disponíveis sobre a melhor abordagem terapêutica a aplicar em caso de recorrência de meningiomas felinos e caninos2.
3- REFERÊNCIAS
1- TROXEL, Mark T; VITE, Charles H; VAN, Thomas J; et al. Feline Intracranial Neoplasia: Retrospective Review of 160 Cases (1985-2001). J Vet InternMed, v. 17, n. 6, p. 850–859, 2003.
2- MOTTA, Luca; MANDARA, Maria Teresa; SKERRITT, Geoffrey C. Canine and feline intracranial meningiomas: na updated review. Veterinary Journal (London, England: 1997), v. 192, n. 2, p. 153–165, 2012.
3- GORDON, LORI E.; THACHER, CHRISTOPHER; MATTHIESEN, DAVID T.; et al. Results of Craniotomy for the Treatment of Cerebral Meningioma in 42 Cats. Veterinary Surgery, v. 23, n. 2, p. 94–100, 1994.
4- ZAKI, Farouk A. Spontaneous Central Nervous System Tumors in the Dog. Vet Clin North Am, v. 7, n. 1, p. 153–163, 1977.
5- KOCH, Lydia; TICHY, Alexander; GRADNER, Gabriele, Outcome and quality of life after intracranial meningioma surgery in cats, Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 25, n. 10, 2023.
6- MCDONNELL, John J.; KALBKO, Kerrianne; KEATING, John H.; et al. Multiple Meningiomas in Three Dogs. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 43, n. 4, p. 201–208, 2007.
7- THE DOWNS VETERINARY PRACTICE. Case Report — Successful Surgical Resection of a Meningioma in a Cat. The Downs Referral Practice. Disponível em: https://www.downsvetreferrals.co.uk/case-report-%E2%80%94-successful-surgical-resection-of-a-meningioma-in-a-cat/. Acesso em: 10 dez. 2023.
8- A. KOESTNER AND; HIGGINS, Robert. Tumors of the Nervous System. Tumors in Domestic Animals, v. 4, p. 697–738, 2002.

Dr. Alisson Olbera
Graduação em Medicina Veterinária pela FMVZ-UNESP Botucatu.
Residência em clínica médica de pequenos animais pela FMVZ-UNESP Botucatu.
Mestrando em neurologia veterinária pela FMVZ-UNESP Botucatu.
Pós-graduando em neurologia veterinária pelo Instituto Bioethicus.
Membro associado efetivo da ABNV (Associação Brasileira de Neurologia Veterinária).



