Eixo intestino-pele e suas implicações nas dermatopatias em cães

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Por Gabrielly Ferreira Franca, Marco Antonio Pereira da Silva e Fabiana Ramos dos Santos

Resumo

As dermatopatias inflamatórias em cães estão entre as principais enfermidades observadas na clínica de pequenos animais, sendo frequentemente associadas a alterações imunológicas e fatores ambientais. Nos últimos anos, o microbioma intestinal passou a ser reconhecido como importante modulador da resposta imune e da homeostase do organismo. Nesse contexto, o eixo intestino-pele surge como um mecanismo de interação entre alterações gastrointestinais e manifestações cutâneas. O presente estudo teve como objetivo revisar a relação entre microbiota intestinal, sistema imune e dermatopatias caninas, destacando possíveis aplicações terapêuticas. Trata-se de uma revisão narrativa baseada em literatura científica recente. Evidências indicam que alterações na microbiota intestinal podem favorecer processos inflamatórios sistêmicos e contribuir para o agravamento de doenças alérgicas cutâneas. Além disso, estratégias como uso de probióticos, prebióticos e dietas específicas demonstram potencial complementar no manejo clínico dessas enfermidades. Contudo, ainda são necessários estudos para maior padronização dos protocolos terapêuticos e compreensão dos mecanismos envolvidos no eixo intestino-pele.

Palavras-chave: disbiose; microbioma; inflamação sistêmica; imunomodulação; probióticos

Gut-skin axis and its implications in canine dermatopathies

Abstract. Inflammatory dermatopathies in dogs are among the main conditions observed in small animal practice and are frequently associated with immunological alterations and environmental factors. In recent years, the intestinal microbiome has been recognized as an important modulator of immune response and organism homeostasis. In this context, the gut-skin axis emerges as a mechanism of interaction between gastrointestinal alterations and cutaneous manifestations. This study aimed to review the relationship between intestinal microbiota, immune system, and canine dermatopathies, highlighting possible therapeutic applications. This is a narrative review based on recent scientific literature. Evidence indicates that alterations in intestinal microbiota may favor systemic inflammatory processes and contribute to the worsening of allergic skin diseases. In addition, strategies such as probiotics, prebiotics, and specific diets show complementary potential in the clinical management of these conditions. However, further studies are still needed for better standardization of therapeutic protocols and understanding of the mechanisms involved in the gut-skin axis.

Keywords: dysbiosis; microbiome; systemic inflammation; immunomodulation; probiotics

Introdução

As dermatopatias inflamatórias em cães representam uma das principais causas de atendimento na clínica de pequenos animais, destacando-se pela elevada frequência e impacto na qualidade de vida dos pacientes. Entre essas enfermidades, a dermatite atópica canina caracteriza-se por um processo inflamatório crônico associado a alterações imunológicas, disfunção da barreira cutânea e fatores ambientais (Marsella & De Benedetto, 2022; Santoro et al., 2021). Apesar dos avanços terapêuticos, muitos pacientes apresentam controle clínico insatisfatório, reforçando a necessidade de compreender mecanismos sistêmicos envolvidos na patogênese dessas doenças.

Nesse contexto, o microbioma intestinal tem recebido crescente destaque devido à sua participação na modulação do sistema imune e manutenção da homeostase do organismo. A microbiota intestinal exerce funções relacionadas à integridade da barreira intestinal, produção de metabólitos bioativos e regulação de respostas inflamatórias (Pilla & Suchodolski, 2020; Suchodolski, 2022). Alterações em sua composição, conhecidas como disbiose, têm sido associadas ao desenvolvimento de doenças inflamatórias e alérgicas em diferentes espécies.

Diante disso, o conceito do eixo intestino-pele surge como uma importante via de interação entre alterações gastrointestinais e manifestações cutâneas. Evidências recentes indicam que a disbiose intestinal pode influenciar diretamente processos inflamatórios sistêmicos e contribuir para a exacerbação de dermatopatias em cães (Rodrigues Hoffmann et al., 2014; Torres et al., 2023). Assim, o presente estudo tem como objetivo revisar a relação entre o eixo intestino-pele e suas implicações nas dermatopatias caninas, destacando possíveis aplicações clínicas e terapêuticas.

Microbiota intestinal e sistema imune

A microbiota intestinal é composta por uma comunidade complexa de microrganismos que desempenham funções essenciais na manutenção da homeostase do hospedeiro. Em cães saudáveis, predominam bactérias pertencentes aos filos Firmicutes, Bacteroidetes, Proteobacteria e Actinobacteria, cuja composição pode ser influenciada por fatores como dieta, idade, ambiente e estado sanitário (Pilla & Suchodolski, 2020; Suchodolski, 2022). Além de atuar na digestão e absorção de nutrientes, a microbiota intestinal participa ativamente da modulação do sistema imune.

A interação entre microrganismos intestinais e células imunológicas ocorre principalmente por meio do reconhecimento de padrões moleculares microbianos por receptores presentes na mucosa intestinal. Esse processo contribui para o equilíbrio entre respostas inflamatórias e mecanismos de tolerância imunológica, fundamentais para a prevenção de doenças alérgicas e inflamatórias (Belkaid & Hand, 2014). Além disso, metabólitos produzidos pela fermentação bacteriana, como os ácidos graxos de cadeia curta, exercem efeitos anti-inflamatórios e auxiliam na manutenção da integridade da barreira intestinal (Koh et al., 2016).

Alterações na composição da microbiota intestinal podem comprometer esse equilíbrio imunológico, favorecendo processos inflamatórios sistêmicos. Estudos recentes demonstram que cães com dermatopatias alérgicas apresentam modificações importantes na diversidade microbiana intestinal quando comparados a animais saudáveis, sugerindo a participação da disbiose na fisiopatologia dessas enfermidades (Torres et al., 2023; Suchodolski, 2022). Dessa forma, a microbiota intestinal desempenha papel relevante na interação entre sistema gastrointestinal, imunidade e saúde cutânea.

Disbiose e dermatopatias

A disbiose intestinal caracteriza-se pelo desequilíbrio na composição e função da microbiota, resultando na redução de microrganismos benéficos e proliferação de bactérias potencialmente patogênicas. Esse desequilíbrio pode comprometer a integridade da barreira intestinal, favorecendo o aumento da permeabilidade e a translocação de antígenos e mediadores inflamatórios para a circulação sistêmica (Bischoff, 2021; Suchodolski, 2022). Como consequência, ocorre ativação exacerbada do sistema imune, contribuindo para processos inflamatórios crônicos.

Na medicina veterinária, evidências recentes sugerem associação entre disbiose intestinal e doenças dermatológicas, especialmente a dermatite atópica canina. Estudos demonstram que cães atópicos apresentam menor diversidade microbiana intestinal, além de alterações na abundância de grupos bacterianos relacionados à regulação imunológica (Pilla & Suchodolski, 2020; Torres et al., 2023). Essas alterações podem favorecer respostas de hipersensibilidade e intensificar manifestações clínicas, como prurido, eritema e inflamação cutânea persistente.

Além disso, a interação entre disbiose intestinal e alterações da barreira cutânea reforça o conceito do eixo intestino-pele como mecanismo sistêmico envolvido na patogênese das dermatopatias. Embora os mecanismos dessa relação ainda não estejam completamente esclarecidos, acredita-se que a modulação da microbiota intestinal possa influenciar diretamente a resposta inflamatória cutânea e o controle clínico dessas enfermidades (Marsella & De Benedetto, 2022; Santoro et al., 2021).

Aplicações terapêuticas

O crescente entendimento sobre a relação entre microbiota intestinal e dermatopatias tem impulsionado o uso de estratégias terapêuticas voltadas à modulação do microbioma. Entre as principais abordagens, destacam-se o uso de probióticos, prebióticos e dietas específicas, com o objetivo de restaurar o equilíbrio microbiano e auxiliar no controle da resposta inflamatória (Pilla & Suchodolski, 2020; Suchodolski, 2022). Estudos indicam que determinados microrganismos probióticos podem contribuir para melhora da integridade da barreira intestinal e modulação imunológica, reduzindo sinais clínicos associados a doenças alérgicas.

Além disso, dietas com ingredientes de maior digestibilidade e compostos funcionais têm sido associadas à melhora da saúde intestinal e redução de processos inflamatórios sistêmicos. No entanto, apesar dos resultados promissores, ainda existe considerável variabilidade entre protocolos terapêuticos, cepas utilizadas e respostas clínicas observadas nos estudos disponíveis (Marsella & De Benedetto, 2022). Dessa forma, a utilização dessas estratégias deve ocorrer como abordagem complementar ao tratamento convencional, considerando as particularidades de cada paciente e a necessidade de maior padronização científica nessa área.

Conclusão

O eixo intestino-pele representa um importante mecanismo de interação entre microbiota intestinal, sistema imune e saúde cutânea em cães. Evidências recentes demonstram que alterações na composição da microbiota intestinal podem contribuir para o desenvolvimento e agravamento de dermatopatias inflamatórias, especialmente condições alérgicas. Nesse contexto, estratégias voltadas à modulação do microbioma intestinal apresentam potencial terapêutico promissor como abordagem complementar ao manejo clínico. Entretanto, ainda são necessários estudos adicionais para melhor padronização dos protocolos e compreensão dos mecanismos envolvidos nessa interação.

Referências bibliográficas

Belkaid, Y. & Hand, T. W. (2014). Role of the microbiota in immunity and inflammation. Cell, 157, 121-141. Doi https://doi.org/10.1016/j.cell.2014.03.011.

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Koh, A., De Vadder, F., Kovatcheva-Datchary, P. & Bäckhed, F. (2016). From dietary fiber to host physiology: short-chain fatty acids as key bacterial metabolites. Cell, 165, 1332-1345. Doi https://doi.org/10.1016/j.cell.2016.05.041.

Marsella, R. & De Benedetto, A. (2022). Atopic dermatitis in animals and people: an update and comparative review. Veterinary Sciences, 9, 624. Doi https://doi.org/10.3390/vetsci9110624.

Pilla, R. & Suchodolski, J. S. (2020). The role of the canine gut microbiome and metabolome in health and gastrointestinal disease. Frontiers in Veterinary Science, 6, 498. Doi https://doi.org/10.3389/fvets.2019.00498.

Rodrigues Hoffmann, A., Patterson, A. P., Diesel, A., Lawhon, S. D., Ly, H. J. & Suchodolski, J. S. (2014). The skin microbiome in healthy and allergic dogs. PLoS ONE, 9, e83197. Doi https://doi.org/10.1371/journal.pone.0083197.

Santoro, D., Marsella, R. & Pucheu-Haston, C. M. (2021). Pathogenesis of canine atopic dermatitis: current concepts. Veterinary Dermatology, 32, 195-e54. Doi https://doi.org/10.1111/vde.12927.

Suchodolski, J. S. (2022). Intestinal microbiota of dogs and cats: a bigger world than we thought. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 52, 1239-1253. Doi https://doi.org/10.1016/j.cvsm.2022.04.005. Torres, M., Rodrigues, A., Oliveira, L. & Costa, M. (2023). Gut microbiota alterations in dogs with atopic dermatitis. Microbiome Research Reports, 2, 45-53. Doi https://doi.org/10.20517/mrr.2023.05.

Autores:

Gabrielly Ferreira Franca (autora)
Médica-veterinária, empresária do setor pet e mestranda em zootecnia com foco em Nutrição de Pequenos Animais. Atua nas áreas de clínica de pequenos animais, dermatologia veterinária, gestão e mercado pet. Proprietária do Pet Shop Bicho do Mato, desenvolve trabalhos voltados à saúde, bem-estar animal e experiência do paciente, com interesse nas áreas de nutrição clínica, dermatologia veterinária e inovação aplicada à medicina veterinária. E-mail: [email protected]

Fabiana Ramos (coautora e orientadora)
Fabiana Ramos dos Santos é zootecnista, mestre em Zootecnia e doutora em Ciência Animal. Atua como docente/pesquisadora do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde, Go. Desenvolve pesquisas voltadas à produção de não ruminantes, com foco em nutrição, manejo e uso de aditivos e bioinsumos na alimentação de aves. E-mail: [email protected]

Marco Antonio Pereira da Silva (coautor e orientador)
Currículo: Zootecnista, mestre em Zootecnia e doutor em Ciência Animal (UFG), com pós-doutorado na área de Higiene, Tecnologia e Qualidade de Alimentos de Origem Animal. Atua em ensino, pesquisa e inovação, com ênfase em tecnologia e qualidade do leite e derivados, processamento de produtos lácteos e sustentabilidade na cadeia produtiva. Possui produção científica relevante nacional e internacional e é bolsista de Produtividade Tecnológica e Extensão Inovadora (DT–2/CNPq). E-mail: [email protected]