
Por Priscila Marcondes Toinaki
RESUMO
A leishmaniose felina (LF), causada predominantemente por Leishmania infantum, tem ganhado relevância crescente na medicina veterinária, especialmente em regiões endêmicas do Brasil. Nas últimas décadas, o gato deixou de ser considerado apenas um hospedeiro acidental e passou a ser reconhecido como possível hospedeiro competente, capaz de participar do ciclo de transmissão da leishmaniose visceral ao infectar flebotomíneos. O aprimoramento dos métodos diagnósticos, em especial das técnicas moleculares, resultou em aumento do número de casos identificados e na descrição de manifestações clínicas próprias da espécie, com predomínio de dermatopatias nodulares e ulceradas.
Este artigo tem como objetivo revisar os principais aspectos clínicos, diagnósticos, terapêuticos e preventivos da leishmaniose felina, com enfoque na realidade brasileira. Foram incluídos nessa revisão, estudos científicos recentes que abordassem aspectos epidemiológicos, clínicos, diagnósticos, terapêuticos, preventivos ou o diagnóstico diferencial entre as doenças, e os dados selecionados foram organizados nos eixos de manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento, prevenção e diagnóstico diferencial. Além disso, discute a eficácia e a potencial toxicidade de alguns fármacos utilizados no tratamento da doença, à luz de relatos de casos recentes e referências atuais de infectologia veterinária, ressaltando a importância da padronização de protocolos específicos para diagnóstico e tratamento da leishmaniose em felinos.
Palavras-chaves: gatos; Leishmania infantum; zoonoses; dermatopatias; esporotricose.
- INTRODUÇÃO
A leishmaniose felina (LF) é uma enfermidade infecciosa causada, na maioria dos casos, por Leishmania infantum, parasita transmitido por flebotomíneos do gênero Lutzomyia nas Américas. Embora cães sejam considerados os principais reservatórios domésticos da leishmaniose visceral, nas últimas décadas tem sido crescente o número de relatos de infecção e doença em felinos domésticos, especialmente em áreas urbanas e periurbanas de elevada endemicidade (SILVEIRA NETO et al., 2015; NASCIMENTO et al., 2021).
Inicialmente, o gato era classificado apenas como hospedeiro acidental, porém estudos experimentais e de campo demonstraram que animais infectados podem infectar flebotomíneos, indicando seu potencial papel como hospedeiro competente e reservatório secundário (PENNISI et al., 2015; COSTA-VAL et al., 2020). Esse cenário torna a LF relevante não apenas para a clínica de animais de companhia, mas também para a saúde pública, inserindo os felinos em programas de vigilância epidemiológica em algumas regiões endêmicas (SILVA R. B. S. et al., 2020; LEISHVET, 2023).
Embora historicamente considerada rara em gatos, avanços nos métodos diagnósticos — especialmente PCR e imunofluorescência — vêm aumentando o número de casos documentados (PANISSI et al., 2022).
Nos últimos anos, relatos de caso demonstraram que gatos podem desenvolver manifestações clínicas variadas, frequentemente dermatológicas, além de servir como potenciais hospedeiros competentes no ciclo epidemiológico, ainda que em menor grau que os cães (NAPOLI et al., 2022). Do ponto de vista clínico, a LF caracteriza-se predominantemente por lesões cutâneas nodulares ou ulceradas, principalmente em face, pavilhão auricular e extremidades, podendo ocorrer manifestações oculares, linfadenomegalia e alterações sistêmicas em menor frequência (FERNANDEZ-GALLEGO et al., 2020; SILVA D. T. et al., 2023). Muitas dessas lesões são semelhantes às observadas em outras dermatopatias infecciosas, como a esporotricose felina, fortemente endêmica em algumas regiões brasileiras, o que reforça a importância do diagnóstico diferencial baseado em exames laboratoriais específicos (GREMIÃO et al., 2020; SILVA G. L. et al., 2023).
Diante do aumento de relatos de casos e da expansão do conhecimento sobre o comportamento epidemiológico e clínico da LF, torna-se fundamental revisar criticamente as evidências atuais, particularmente no contexto brasileiro, em que a leishmaniose e a esporotricose felina frequentemente coexistem.
O presente trabalho visa apresentar uma revisão bibliográfica sobre a leishmaniose felina, abordando manifestações clínicas, métodos diagnósticos, opções terapêuticas, medidas de prevenção e a semelhança clínica com a esporotricose, a partir de artigos recentes e livros clássicos de infectologia veterinária, e assim, consolidar e atualizar o conhecimento sobre a leishmaniose felina no cenário brasileiro, reunindo evidências recentes que esclarecem a importância epidemiológica dos felinos no ciclo de transmissão da doença e destacando suas manifestações clínicas mais características. Ao organizar dados científicos em eixos temáticos, o estudo oferece uma síntese abrangente que facilita a compreensão dos desafios diagnósticos e terapêuticos.
- METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada a partir de artigos científicos, documentos técnicos e diretrizes oficiais obtidos em bases de dados nacionais e internacionais, como SciELO, PubMed e Ministério da Saúde. Foram priorizadas publicações recentes e documentos normativos relevantes para a compreensão epidemiológica, clínica e sanitária da leishmaniose visceral no contexto da saúde pública e da medicina veterinária. Também foram incluídos capítulos de livros de infectologia e doenças infecciosas de cães e gatos amplamente utilizados no ensino de medicina veterinária no Brasil.
Os critérios de inclusão abrangeram publicações que tratassem de aspectos epidemiológicos, clínicos, diagnósticos, terapêuticos ou de prevenção da leishmaniose felina, bem como artigos que discutissem o diagnóstico diferencial entre LF e esporotricose. Foram excluídos trabalhos sem revisão por pares, textos de divulgação sem caráter científico e artigos cujo foco fosse exclusivamente leishmaniose canina ou humana, sem menção a felinos. Os dados foram organizados em eixos temáticos para discussão: epidemiologia, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento, prevenção e diagnóstico diferencial com esporotricose.
- DISCUSSÃO
Epidemiologia
Diversos estudos demonstram que a leishmaniose felina está presente em diferentes biomas brasileiros, com registros em áreas urbanas e rurais de estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia e Rio de Janeiro (SILVEIRA NETO et al., 2015; ROCHA et al., 2019; SILVA R. B. S. et al., 2020). As taxas de infecção variam amplamente conforme a metodologia, população estudada e tipo de amostra analisada, com prevalências sorológicas e/ou moleculares variando de cerca de 3% a mais de 20% em populações de gatos de regiões endêmicas para leishmaniose visceral canina (COSTA-VAL et al., 2020; NASCIMENTO et al., 2021).
O registro recente de um gato doméstico infectado por Leishmania (Viannia) guyanensis no Sudeste do Brasil, descrito por Garcia et al. (2024), reforça a relevância epidemiológica da doença, indicando possível ampliação da distribuição geográfica e da diversidade de espécies de Leishmania que podem acometer felinos. Esse achado aponta para mudanças no cenário epidemiológico e destaca a necessidade de vigilância contínua na interface entre humanos, animais e vetores.
Fatores como vida semidomiciliada, livre acesso ao ambiente externo em períodos crepusculares e noturnos, presença em colônias e coinfecção com vírus da imunodeficiência felina (FIV) e vírus da leucemia felina (FeLV) têm sido associados ao aumento do risco de infecção por Leishmania spp. em gatos (PENNISI et al., 2015; NASCIMENTO et al., 2021). A capacidade de gatos infectados transmitirem o parasito a flebotomíneos foi demonstrada em estudos experimentais e de campo, reforçando o papel potencial do felino como hospedeiro competente e reservatório secundário em ambientes urbanos (PENNISI et al., 2015; LEISHVET, 2023).
- Manifestações clínicas
A apresentação clínica da LF difere, em vários aspectos, da leishmaniose canina. Em felinos, predominam as lesões cutâneas nodulares, ulceradas ou crostosas, localizadas especialmente em cabeça (plano nasal, pálpebras, pavilhão auricular), região periocular e extremidades dos membros (FERNANDEZ-GALLEGO et al., 2020; RIVAS et al., 2018). Em muitos casos, as lesões são únicas ou em pequeno número, e podem cursar com evolução crônica, discreta dor e eventual prurido.
Outras alterações que acontecem em casos esporádicos além de lesões cutâneas, são os sinais viscerais. Casos com envolvimento sistêmico tem acometimento frequentemente em baço, fígado, rins, linfonodos, causando leucopenia, anemia, icterícia, linfonodomegalia. A pancitopenia grave também é um achado encontrado (MORAIS, 2014).
Manifestações oculares, como uveíte, conjuntivite, blefarite e ceratite, também foram relatadas com relativa frequência em gatos com LF, muitas vezes associadas ou não às alterações cutâneas (NASCIMENTO et al., 2021; SILVA D. T. et al., 2023). Linfadenomegalia periférica, emagrecimento progressivo, apatia, alterações hematológicas e bioquímicas são descritos em parte dos animais, porém a maioria dos relatos aponta maior predominância de doença cutânea localizada em relação às formas sistêmicas observadas com maior frequência em cães (SILVEIRA NETO et al., 2015; FERNANDEZ-GALLEGO et al., 2020).
Problemas renais associados à leishmaniose felina, são descritos como menos evidentes, quando relacionado aos cães, tendo em vista que é uma das causas reconhecidas de morte dessa espécie, logo, o diagnóstico a partir de sinais clínicos não é considerado viável, visto que há ausência de um padrão de alterações que direcione o profissional a afirmar que se trata de Leishmaniose, pois os sinais quando presentes, são similares a outras doenças (LIMA et al, 2024).
Um estudo abrangente conduzido por Passini et al. (2022) apresentou a maior análise já realizada sobre o manejo clínico da leishmaniose felina, reunindo e avaliando cerca de 150 casos descritos na literatura mundial. Os autores identificaram que as manifestações mais frequentes incluem dermatopatias nodulares ou ulceradas, linfoadenomegalia e alterações oculares, geralmente associadas a um comprometimento sistêmico menos intenso em comparação ao observado em cães.
De forma complementar, Batista et al. (2023) investigaram 60 gatos infectados por Leishmania infantum, avaliando alterações clínicas, hematológicas e histopatológicas. Nesse estudo, foram identificados achados como linfoadenomegalia, lesões cutâneas, perda de peso, anemia e alterações hepáticas e renais, reforçando o espectro clínico descrito por Passini et al. (2022) e evidenciando a variabilidade de apresentações em felinos acometidos pela doença. Relatos recentes também descrevem manifestações extra-cutâneas, como uveíte associada à LF, exigindo terapêutica combinada.
Silva et al., (2023) elaborou um estudo envolvendo 166 gatos de abrigos, com diagnóstico de Leishmania spp. Através de sorologia, PCR e parasitologia; identificou naqueles positivos tendência a plaquetopenia e hiperproteinemia com hipoalbuminemia, sugerindo que gatos com sinais clínicos e alterações laboratoriais evidenciam que a leishmaniose felina pode permanecer silenciosa enquanto já produz desequilíbrios hematobioquímicos detectáveis, reforçando a necessidade de atenção clínica mesmo em quadros pouco específicos.
- Diagnóstico
O diagnóstico da leishmaniose felina é desafiador e, frequentemente, exige associação de diferentes métodos. Cães e gatos podem apresentar cargas parasitárias e respostas imunes distintas, de modo que a interpretação de testes sorológicos desenvolvidos originalmente para cães requer cautela quando aplicados a felinos (PENNISI et al., 2015; NASCIMENTO et al., 2021). Em muitos estudos, gatos infectados por Leishmania spp. apresentaram sorologia negativa, sobretudo quando avaliados por testes rápidos ou ELISA com antígenos caninos padronizados (COSTA-VAL et al., 2020; SILVA D. T. et al., 2023).
As técnicas sorológicas mais utilizadas disponíveis na literatura são: Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), Ensaio Imunoenzimático (ELISA) e WesternBlot (WB). No entanto, embora a RIFI seja considerada como uma técnica de referência para detecção da infecção em cães e humanos, a resposta imunológica apresentada por grande parte dos felinos faz com que sua adoção não seja consensual. É importante ressaltar que em áreas endêmicas de tripanossomíase, animais infectados com Trypanosoma spp. podem apresentar resultado falso-positivo nos testes sorológicos devido à reação cruzada com Leishmania spp. Já o exame rápido de imunoensaio cromatográfico (Dual Path Platform) utilizado para triagem em cães, demonstrou ineficiência para detecção de LF, e, portanto, não é recomendado para esta espécie (CUKIER et al., 2025).
A citologia de lesões cutâneas, aspirados de linfonodos ou medula óssea pode evidenciar macrófagos repletos de formas amastigotas, configurando forte evidência de LF, especialmente quando associada a quadro clínico compatível (SOUZA et al., 2009; RIVAS et al., 2018). A biópsia com exame histopatológico e, quando disponível, imuno-histoquímica, podem auxiliar na confirmação. Segundo Cukier et al. (2025) o exame parasitológico é amplamente utilizado para detecção da infecção nos felinos, sendo a citologia, biópsia e histopatologiacitologia as técnicas mais utilizadas atualmente.
Os testes moleculares baseados na PCR ou outros métodos de amplificação de DNA tem se tornado cada vez mais acessíveis na rede de laboratórios veterinários no Brasil e em outros países da América Latina. Esses testes geralmente apresentam boa sensibilidade e especificidade, mas isso depende de vários fatores, incluindo tipo de amostra e protocolo utilizado (BRASILEISH, 2025). PCR e a qPCR têm demonstrado maior sensibilidade quando realizadas em fragmentos de pele, inclusive de áreas aparentemente íntegras, em comparação com sangue periférico ou medula óssea (ROCHA et al., 2019; SILVA D. T. et al., 2023).
O diagnóstico do primeiro caso documentado de infecção por L. guyanensis em um gato doméstico no Sudeste do Brasil, baseou-se na combinação de exames histopatológicos e técnicas moleculares, permitindo alta precisão na identificação da espécie de Leishmania. No caso descrito, o histopatológico confirmou a presença do parasito, mas foi a PCR-RFLP e o sequenciamento Sanger do hsp70 que permitiram identificar especificamente Leishmania (Viannia) guyanensis, algo essencial porque essa espécie é incomum em felinos e tem implicações epidemiológicas importantes. (GARCIA, et al., 2025). O sequenciamento Sanger do gene hsp70 é uma ferramenta molecular de alta precisão amplamente utilizada para a identificação de espécies de Leishmania. Após a amplificação do gene alvo, o método permite a leitura exata da sequência nucleotídica, que é posteriormente comparada a bancos de dados genômicos para definição da espécie envolvida. O gene hsp70 é especialmente útil por apresentar regiões conservadas e variáveis que facilitam a diferenciação entre espécies próximas, tornando-se um dos marcadores mais confiáveis em estudos diagnósticos e epidemiológicos da leishmaniose. (SANGER; NICKLEN; COULSON, 1977).
Um estudo detectou anticorpos e DNA de Leishmania braziliensis e L. infantum em gatos no Brasil, incluindo em mucosa oral e conjuntiva, o que abre a possibilidade de usar swab oral para diagnóstico. O estudo ainda alerta que sorologia isolada não é suficiente como prova de infecção (COSTA-VAL et al., 2020). Amostras menos invasivas, como swab conjuntival ou sangue, podem ser utilizadas quando não é possível obter materiais mais adequados, embora geralmente contenham menor quantidade de DNA. Nesses casos, a PCR em tempo real é preferível por apresentar maior sensibilidade e permitir a quantificação da carga parasitária, informação essencial para acompanhar a resposta ao tratamento e decidir sobre a necessidade de novos ciclos terapêuticos (DANTAS-TORRES et al., 2017). Um estudo brasileiro recente com 205 gatos atendidos em hospital-referência; usou PCR em tempo real e identificou 3,9% de positividade. Entre os positivos, cerca de 37,5% apresentavam sinais clínicos compatíveis com leishmaniose felina. Observou-se maior prevalência em gatos não domiciliados (PAIVA et al., 2024).
Apesar dos avanços, a escolha e interpretação dos métodos diagnósticos deve sempre considerar a história clínica, os achados de exame físico e a presença de comorbidades.
Testes moleculares rápidos para uso remoto (point-of-care) têm sido desenvolvidos (Latrofa et al.,2024; Luna et al., 2025), mas ainda não estão amplamente disponíveis.
- Estadiamento
O estadiamento da leishmaniose é fundamental para orientar decisões clínicas, terapêuticas e prognósticas, especialmente na medicina veterinária, onde a apresentação da doença pode variar amplamente entre os animais. De acordo com orientações divulgadas pelo Brasileish 2025, que se baseia nas diretrizes internacionais, a classificação adequada do paciente em estágios clínicos permite não apenas a escolha do tratamento mais seguro e eficaz, mas também o acompanhamento evolutivo e a prevenção de complicações associadas à progressão da enfermidade. Essa abordagem sistematizada é essencial para reduzir falhas terapêuticas, otimizar o manejo de animais infectados e fortalecer práticas alinhadas ao conceito de Uma Só Saúde, considerando o impacto da leishmaniose na interface entre saúde animal, humana e ambiental. O estadiamento da leishmaniose em animais — incluindo gatos, embora o sistema tenha sido desenvolvido principalmente para cães — segue uma avaliação clínica, laboratorial e epidemiológica que permite classificar o paciente em diferentes graus de gravidade. Os pilares do estadiamento da leishmaniose, conforme diretrizes internacionais mais atuais (2025), incluem:
- Avaliação clínica, na qual são identificados sinais cutâneos e sistêmicos que indicam a gravidade da doença;
- Exames laboratoriais, como hemograma, bioquímica sérica, urinálise e testes específicos (sorologia, PCR), que permitem avaliar o impacto orgânico, especialmente a função renal;
- Classificação em estágios, que integra achados clínicos e laboratoriais para orientar condutas terapêuticas e definir prognóstico.
Também é recomendado o reestadiamento periódico, garantindo ajustes no tratamento conforme a evolução do paciente. A escolha do protocolo terapêutico também se baseia no estadiamento da infecção de cada paciente. Esse estadiamento se baseia nos resultados de testes sorológicos, parasitológicos e moleculares e nos achados clínicos e laboratoriais (BRASILEISH, 2025).
- Protocolos Terapêuticos
Nos gatos assintomáticos positivos para Leishmania, que não apresentam sinais clínicos ou alterações laboratoriais indicativas de doença ativa, o tratamento específico com fármacos antileishmaniais não é recomendado, uma vez que a maioria desses animais permanece clinicamente saudável e não há evidências suficientes de benefício terapêutico nesse estágio; por isso, a conduta indicada baseia-se em monitoramento periódico, controle vetorial rigoroso e avaliação de possíveis coinfecções, reservando a terapia apenas para casos que evoluam para doença clínica efetiva (Pereira et al., 2023). No caso descrito por Garcia et al. (2025), envolvendo o primeiro relato de infecção felina por Leishmania (Viannia) guyanensis, o gato não recebeu tratamento antileishmanial específico, uma vez que apresentava lesões cutâneas autolimitantes, bom estado geral e evolução clínica favorável sem intervenção medicamentosa. Os autores enfatizam que, diante da ausência de protocolos terapêuticos validados para felinos infectados por espécies do subgênero Viannia e considerando o caráter autolimitado das lesões observadas, a conduta escolhida foi o monitoramento clínico periódico, sem registro de recidivas durante o acompanhamento.
Ainda não há protocolos terapêuticos totalmente consolidados para a leishmaniose felina, sendo a conduta muitas vezes extrapolada da experiência acumulada em cães e dos relatos de caso em gatos. Entre as drogas mais utilizadas, destacam-se o alopurinol, a miltefosina e, em situações específicas, o antimoniato de meglumina (FERNANDEZ-GALLEGO et al., 2020; NASCIMENTO et al., 2021).
- Alopurinol
Apesar da ausência de recomendações formais específicas para felinos, o alopurinol permanece o fármaco mais utilizado no tratamento da LF, sendo empregado em mais de 70% dos gatos descritos em literatura científica recente (PANISSI et al., 2022). O alopurinol, em doses aproximadas de 10 a 20 mg/kg, duas vezes ao dia, por períodos prolongados, mostrou-se eficaz em melhorar lesões cutâneas e sinais clínicos em gatos com LF, embora a cura parasitológica nem sempre seja alcançada (FERNANDEZ-GALLEGO et al., 2020). Segundo França et al. (2025), quando usado como monoterapia, dosagens relatadas mais comuns são 10 mg/kg duas vezes ao dia via oral, por pelo menos 6 meses. Em 2022, Napoli et al. relataram um caso tratado com alopurinol (20 mg/kg/dia) associado ao megluminato de antimônio, resultando em remissão clínica das lesões dermatológicas e melhora sistêmica significativa, com acompanhamento favorável por mais de 12 meses.
Outros relatos reforçam a eficácia do alopurinol na redução da carga parasitária e melhoria das manifestações clínicas (NAPOLI et al., 2024). Entretanto, estudos também descrevem potenciais efeitos adversos, incluindo alterações renais em tratamentos prolongados, requerendo monitorização contínua (NAPOLI et al., 2024).
- Miltefosina
França et al (2025) afirma que a miltefosina, é usada como opção em alguns gatos, geralmente em combinação ou como alternativa quando outras terapias falham. É utilizada na dose de 2 mg/kg uma vez ao dia por cerca de 28 dias, tem sido relatada como alternativa segura em felinos, isoladamente ou em associação ao alopurinol, com boa resposta clínica em muitos casos (RIVAS et al., 2018; NASCIMENTO et al., 2021).
O uso de antimoniais pentavalentes em gatos deve ser criterioso, em razão do potencial de toxicidade renal e hepática, sendo geralmente reservado a casos selecionados e sob monitoramento laboratorial rigoroso (LEISHVET, 2023). França et al. (2025) alertam para a falta de dados robustos de segurança e eficácia em gatos, sugerindo cautela.
- Antimoniato de meglumina
Usado em monoterapia ou em combinação com alopurinol.
O protocolo mais relatado: 50 mg/kg uma vez ao dia, via subcutânea durante 30 dias (FRANÇA et al.,2025). Em relatos de caso com alopurinol associada ao antimoniato, houve cura clínica com fechamento de lesões cutâneas e sem recidivas dentro do período de acompanhamento.
França et al., (2025) relataram que a combinação de alopurinol com antimoniato foi usada em gatos que não respondiam à monoterapia — e, nesses casos, observaram melhora clínica.
- Terapias combinadas
As combinações terapêuticas relatadas no estudo de França et al., (2025) surgem como alternativa diante de casos resistentes ou com resposta parcial ao uso de monoterapias. Em alguns relatos, a associação entre alopurinol e antimoniato de meglumina resultou em regressão mais rápida de sinais clínicos, sugerindo efeito potencialmente sinérgico. No entanto, o risco terapêutico aumenta significativamente, pois a probabilidade de efeitos adversos somados — especialmente nefrotoxicidade, hepatotoxicidade e intolerância sistêmica — passa a ser maior. Já combinações envolvendo miltefosina mostram ainda menos respaldo científico e são consideradas experimentais. De forma geral, embora essas abordagens possam beneficiar casos específicos, sua indicação deve ser criteriosa e baseada em avaliação cuidadosa de risco-benefício, dado que faltam estudos padronizados que comprovem segurança e eficácia em felinos.
- Desafios diagnósticos
Entre os principais diagnósticos diferenciais da leishmaniose felina, destaca-se a esporotricose, dada sua alta prevalência em felinos no Brasil e sua capacidade de produzir lesões cutâneas ulceradas, nodulares ou crostosas muito semelhantes às observadas na leishmaniose; além dela, outras doenças como dermatofitoses, sarna notoédrica, demodicose, complexo granuloma eosinofílico, neoplasias cutâneas, toxoplasmose, hemoplasmoses, bartonelose e infecções por FIV/FeLV também devem ser consideradas no processo diagnóstico (Pereira et al., 2023). A semelhança entre as lesões cutâneas observadas na leishmaniose felina e na esporotricose felina é um dos principais desafios diagnósticos na rotina clínica. Em ambas as enfermidades, são comuns lesões nodulares e/ou ulceradas de evolução crônica, localizadas em face, plano nasal, pavilhão auricular, região periocular e extremidades, frequentemente acompanhadas de linfadenomegalia regional. No Brasil, a esporotricose felina, causada por Sporothrix brasiliensis, destaca-se como uma importante zoonose emergente, apresentando alta incidência em regiões como o Sudeste e o Sul do país (GREMIÃO et al., 2020; SILVA G. L. et al., 2023). Nesse contexto, as Figuras 1 e 2 ilustram dois pacientes felinos com lesões ulcerativas em plano nasal, evidenciando como diferentes enfermidades podem manifestar apresentações clínicas semelhantes.

Figura 2 mostra outro gato diagnosticado com leishmaniose felina (Fonte: SOUZA et al., 2009).
Estudos de leishmaniose cutânea felina descrevem quadros clínicos indistinguíveis, à inspeção, de outras micoses sistêmicas e subcutâneas, incluindo esporotricose e criptococose, reforçando a necessidade de confirmação laboratorial e desencorajando o diagnóstico baseado apenas no aspecto da lesão (SOUZA et al., 2009; RIVAS et al., 2018). As diretrizes para manejo da esporotricose felina também recomendam que a leishmaniose tegumentar seja considerada no diagnóstico diferencial de gatos com dermatopatias nodulares-ulcerativas em áreas endêmicas para ambas as doenças (GREMIÃO et al., 2020; PODESTÁ JUNIOR et al., 2022).
Do ponto de vista histopatológico, a esporotricose felina costuma cursar com intensa resposta inflamatória piogranulomatosa e presença de elevado número de leveduras compatíveis com Sporothrix spp. nas lesões, enquanto a leishmaniose caracteriza-se por macrófagos repletos de formas amastigotas de Leishmania spp. (MIRANDA et al., 2013; RIVAS et al., 2018). Entretanto, o padrão inflamatório pode ser semelhante, o que torna desejável a associação de colorações especiais, cultura micológica e/ou técnicas moleculares específicas quando há suspeita clínica concomitante.
Em regiões hiperendêmicas para esporotricose zoonótica, é comum que gatos com lesões ulceradas em face e membros sejam inicialmente tratados empiricamente com antifúngicos sistêmicos, como itraconazol, tendo o diagnóstico de LF considerado apenas tardiamente, quando a resposta terapêutica é insatisfatória (GREMIÃO et al., 2020; SILVA G. L. et al., 2023). Tal conduta pode atrasar o início do tratamento adequado da leishmaniose e contribuir para a manutenção de animais infectados no ambiente.
Assim, recomenda-se que todo gato com dermatopatia nodular-ulcerativa crônica, especialmente em áreas onde leishmaniose e esporotricose coexistem, seja investigado simultaneamente para ambas as enfermidades. A combinação de citologia, histopatologia, cultura micológica e PCR específicas para Leishmania spp. e Sporothrix spp. aumenta significativamente a acurácia diagnóstica e possibilita a definição da terapêutica mais adequada em cada caso, além de orientar medidas de biossegurança, particularmente importantes na esporotricose em razão de seu elevado potencial zoonótico (GREMIÃO et al., 2020; PODESTÁ JUNIOR et al., 2022).
As técnicas de detecção direta do parasita, como PCR ou exame parasitológico, embora mais definitivas, enfrentam a limitação da baixa carga parasitária em muitos gatos infectados — situação que diminui a chance de detecção em amostras como sangue periférico. Além disso, nem sempre há padronização quanto ao tipo de amostra ideal (linfonodo, lesão cutânea, medula óssea, mucosa) ou aos protocolos laboratoriais, o que gera variação nos resultados entre diferentes estudos e laboratórios (FRANÇA et al., 2025).
A infecção de um gato doméstico por Leishmania (Viannia) guyanensis na região Sudeste documentada por Garcia et al (2024), destaca a urgência de métodos diagnósticos mais sensíveis e específicos, como PCR-RFLP e o sequenciamento Sanger do hsp70. Manifestações discretas podem ocultar infecções por espécies até então não descritas em gatos. A evolução clínica favorável, sem recorrências durante o acompanhamento semestral do felino do estudo, reforça a importância do monitoramento contínuo e mostra que a detecção precoce é essencial para ampliar o entendimento da leishmaniose felina e aprimorar a acurácia diagnóstica frente ao surgimento de novos agentes etiológicos (GARCIA et al., 2024).
- Desafios terapêuticos
Sousa et al. (2024) afirma que tratamentos convencionais, apesar do potencial hepatotoxicidade e nefrotoxicidade, demonstram alta eficácia na redução da carga parasitária, melhorando os sintomas clínicos e aumentando a expectativa de vida dos gatos afetados. Atualmente, o tratamento de leishmaniose em felinos é considerado experimental, e não há dados sobre sua seguridade e eficiência. Grande parte dos casos descritos na Europa envolvem a associação de alopurinol e antimoniato de megalumina, sendo esta a primeira opção de tratamento de LVC no continente. Todavia, no Brasil, o medicamento N-metil-glutamina é proibido desde 2008 pela Portaria Interministerial nº 1.426. Alguns estudos recentes apontam que o uso do alopurinol como monoterapia utilizado de forma contínua tem apresentado bons resultados na melhora do quadro clínico dos animais (CUKIER et al., 2025). Mesmo com respostas clínicas positivas, a eliminação completa do parasita é incomum, o que torna frequente a ocorrência de recaídas após interrupção da medicação (PANISSI et al., 2022).
Um relato de caso acompanhado por 24 meses demonstrou melhora clínica inicial com alopurinol, porém com recidiva após suspensão do tratamento, evidenciando o caráter crônico e recidivante da doença (NAPOLI et al., 2024). Em um caso documentado, apesar de melhora inicial, o gato evoluiu para glaucoma refratário e necessitou enucleação, demonstrando que complicações oculares em gatos podem persistir mesmo com tratamento adequado (PANISSI et al., 2022).
O alopurinol é o fármaco mais amplamente utilizado no tratamento da leishmaniose felina, sendo frequentemente associado à melhora clínica significativa, sobretudo no controle das lesões cutâneas e da linfoadenomegalia. No entanto, sua eficácia parece estar mais relacionada ao controle da multiplicação parasitária do que à eliminação completa do protozoário, o que contribui para possíveis recidivas após a suspensão do tratamento. Além disso, como ocorre em cães, o uso prolongado pode resultar em efeitos adversos, como nefrolitíase induzida por xantino, especialmente em gatos com predisposição ou função renal comprometida. Assim, embora seja considerado relativamente seguro, seu uso requer monitoramento de função renal e urinária, além de avaliação periódica da necessidade de manutenção ou ajuste terapêutico.
O antimoniato de meglumina é outro fármaco relatado na literatura e utilizado em alguns casos felinos, sendo descrito como potencialmente eficaz na redução de sinais clínicos quando usado isoladamente ou, mais frequentemente, em associação ao alopurinol. Apesar disso, sua aplicação em gatos é limitada por riscos relevantes: reações locais dolorosas, efeitos sistêmicos como toxicidade renal e hepática, além de relatos de intolerância aguda em alguns animais. A literatura aponta que, embora alguns casos apresentem resposta clínica satisfatória, a ausência de estudos controlados impede conclusões sólidas sobre sua real eficácia e segurança. Portanto, sua utilização deve ser extremamente cautelosa, reservada a casos selecionados e sempre com monitoramento laboratorial rigoroso.
A miltefosina tem sido mencionada como alternativa terapêutica em gatos, principalmente em situações refratárias ou quando os fármacos tradicionais apresentam limitações. Entretanto, os dados disponíveis são escassos e baseados quase exclusivamente em relatos de caso. Observa-se melhora clínica em alguns animais tratados, mas não há evidências consistentes de que o fármaco reduza de forma sustentável a carga parasitária ou impeça recidivas.
A discussão recente sobre a segurança da miltefosina (Milteforan®) para gatos tem sido marcada por interpretações equivocadas quanto ao papel do propilenoglicol (PG), excipiente presente em diversas formulações farmacêuticas. Essa preocupação emerge principalmente da sensibilidade hematológica particular dos felinos a agentes oxidantes, levando à hipótese de que o PG poderia causar anemia hemolítica e eventualmente óbito durante o tratamento da leishmaniose felina (LF).
A origem dessa preocupação remonta a estudos clássicos da década de 1980, especialmente o trabalho de Christopher et al. (1989), que demonstrou que gatos expostos a dietas contendo PG desenvolviam aumento significativo de corpúsculos de Heinz, redução da vida média das hemácias e queda do hematócrito, sobretudo em doses elevadas e prolongadas. No estudo, animais alimentados com 12% de PG desenvolveram até 28% de eritrócitos com corpúsculos de Heinz, enquanto dietas contendo 41% de PG produziam até 92% (CHRISTOPHER et al., 1989). Tais achados estabeleceram que o PG é um agente oxidante capaz de provocar fragilidade eritrocitária em gatos, especialmente quando administrado em doses muito superiores às encontradas em medicamentos.
Entretanto, é fundamental contextualizar esses resultados. O estudo de Christopher et al. (1989) avaliou ingestão crônica, diária e em altas concentrações, muito acima do que seria administrado como excipiente em um tratamento farmacológico. Além disso, mesmo com doses elevadas, o estudo não mostrou mortalidade direta decorrente da administração de PG, mas sim anemia regenerativa, indicando que o dano oxidativo observado era geralmente reversível com a retirada do agente.
A confusão atual sobre a suposta associação entre miltefosina e óbitos felinos deriva da extrapolação inadequada desses dados experimentais para o uso clínico. Na prática, não existe na literatura científica, até o momento, relato documentado ligando miltefosina ou seu conteúdo de PG a mortes de gatos em protocolos terapêuticos de curto prazo. O que se observa é que, apesar de haver risco teórico de indução de corpúsculos de Heinz em indivíduos susceptíveis, tal risco é considerado baixo em tratamentos de curta duração, especialmente quando há monitoramento hematológico. Por outro lado, a leishmaniose felina apresenta curso potencialmente grave, podendo evoluir para comprometimento sistêmico, debilidade progressiva e risco de morte se não tratada.
Os estudos que avaliam a resposta terapêutica dos felinos à miltefosina sugerem eficácia clínica consistente e baixa ocorrência de efeitos adversos graves, reforçando que o benefício clínico costuma superar de maneira clara o risco potencial associado ao excipiente PG. PASSINI et al. (2022) demonstraram, em sua análise estatística, que o alopurinol é a terapia mais utilizada e apresenta boa resposta clínica, enquanto a miltefosina e o antimoniato de meglumina também se mostraram eficazes, sobretudo quando usadas em protocolos combinados. Reações adversas foram raras e leves, e não houve evidências de toxicidade fatal associada à miltefosina, contrariando especulações sobre risco significativo. Os autores concluem que o prognóstico dos gatos tratados é favorável e que o benefício terapêutico supera amplamente os riscos, reforçando a importância do diagnóstico precoce e da padronização de protocolos específicos para a espécie.
Assim, embora a preocupação sobre a toxicidade do PG em gatos seja fundamentada em evidências históricas, a aplicação desses achados ao contexto clínico atual deve ser feita com cautela. A concentração do excipiente e o tempo de exposição durante o tratamento da LF são insuficientes para reproduzir os efeitos observados em estudos com dietas cronicamente enriquecidas com PG. Entretanto, sua aplicação ainda é experimental, carecendo de maior base científica para recomendação ampla.
Em conformidade com a Norma Técnica Conjunta n° 001/2016, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento autorizou o registro do fármaco com princípio ativo miltefosina para tratamento da LVC, evitando a eutanásia indiscriminada dos animais reagentes (CUKIER et al., 2025).
- Prevenção e Saúde Pública
As estratégias de prevenção da leishmaniose felina enfrentam limitações importantes, principalmente devido à escassez de produtos repelentes registrados com segurança comprovada para uso em gatos. Colares e formulações tópicas à base de piretroides, amplamente utilizados em cães, não são recomendados para felinos, em razão do risco de toxicidade (PENNISI et al., 2015; LEISHVET, 2023). Dessa forma, a prevenção em gatos foca-se no manejo ambiental e comportamental.
Medidas como o uso de telas mosquiteiras de malha fina em portas e janelas, a restrição do acesso ao ambiente externo em períodos de maior atividade de flebotomíneos (entardecer e noite), a limpeza de quintais com remoção de matéria orgânica e o controle de populações de cães e gatos errantes são recomendadas como estratégias complementares (NASCIMENTO et al., 2021; SILVA R. B. S. et al., 2020). Em alguns municípios brasileiros, gatos vêm sendo incluídos em inquéritos sorológicos e moleculares como animais sentinela para circulação de Leishmania spp., contribuindo para a vigilância e o planejamento de ações em saúde pública.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A leishmaniose felina, antes considerada rara e de importância secundária, tem se mostrado uma enfermidade relevante na medicina felina e na saúde pública, especialmente em regiões endêmicas para leishmaniose visceral. O reconhecimento de que gatos podem atuar como hospedeiros competentes de Leishmania infantum, aliados aos avanços no diagnóstico e à descrição de manifestações clínicas típicas da espécie, reforça a necessidade de incorporar a LF nos protocolos de investigação de dermatopatias e síndromes sistêmicas em felinos.
O diagnóstico da leishmaniose felina, conforme discutido nesta revisão, permanece um desafio significativo devido à variabilidade clínica dos sinais, à baixa carga parasitária em alguns tecidos e à performance ainda limitada de muitos testes em gatos. A confirmação diagnóstica geralmente requer abordagem multimodal, combinando avaliação clínica, métodos parasitológicos, testes sorológicos e técnicas moleculares, como sequenciamento Sanger do hsp70. A citologia continua sendo uma ferramenta importante, especialmente em linfonodos e lesões cutâneas, onde a visualização direta do amastigota pode ser possível; no entanto, sua sensibilidade é baixa em gatos com infecção subclínica ou com poucos parasitas. A sorologia — especialmente ELISA e IFI — é amplamente utilizada, mas França et al., (2025) enfatiza que gatos podem apresentar baixas titulações, resposta imunológica menos previsível e maior frequência de resultados negativos mesmo quando infectados, o que reduz a confiabilidade desses métodos como teste único. A PCR, por sua vez, é apontada como o método mais sensível para detecção direta, sendo considerada essencial em casos duvidosos; contudo, a sensibilidade varia de acordo com o tecido coletado, sendo o sangue total menos sensível que medula óssea, linfonodos ou pele lesional. Aguiar et al., (2023) descreve o primeiro caso de leishmaniose felina na região metropolitana de Belém (PA), envolvendo um gato errante com lesões compatíveis com a doença. Embora os testes sorológicos para Leishmania infantum (ELISA e RIFI) tenham sido não reagentes, o diagnóstico foi elucidado por meio da combinação de histopatologia, citologia — que evidenciou amastigotas no interior de macrófagos — e análises moleculares, que confirmaram a infecção por Leishmania infantum chagasi. O caso reforça que a sorologia isolada pode falhar na detecção de Leishmania em gatos e destaca a importância da investigação complementar com métodos parasitológicos e moleculares.
França et al., (2025) reforçam que a interpretação dos resultados deve sempre considerar o quadro clínico e epidemiológico, visto que muitos gatos podem permanecer infectados, soronegativos e assintomáticos por longos períodos. Assim, o diagnóstico da leishmaniose felina continua dependendo de uma combinação de métodos complementares, e o estudo conclui que ainda há necessidade de padronização dos protocolos diagnósticos e validação de testes específicos para a espécie felina.
A semelhança clínica entre LF e esporotricose felina destaca-se como um desafio importante na prática clínica brasileira. O diagnóstico diferencial baseado em métodos laboratoriais específicos é fundamental para evitar erros diagnósticos, estabelecer terapêuticas adequadas e reduzir riscos zoonóticos, particularmente no caso da esporotricose. A associação de técnicas citológicas, histopatológicas, sorológicas e moleculares aumenta a probabilidade de identificação correta da doença de base.
A análise de relatos de caso recentes demonstra que o alopurinol, isolado ou combinado com antimoniais, é a terapia mais empregada, promovendo remissão clínica na maioria dos gatos. O risco teórico associado ao propilenoglicol presente na miltefosina existe, mas é substancialmente menor do que frequentemente interpretado, e não há comprovação de que cause óbito em tratamentos terapêuticos de curta duração. Diante disso, considerando a gravidade da leishmaniose felina e sua capacidade de causar morte quando não tratada, conclui-se que o risco de utilizar a miltefosina é menor que o risco de óbito decorrente da própria doença.
A LF apresenta múltiplos desafios para o clínico veterinário: ausência de protocolos universalmente aceitos para gatos (PANISSI et al., 2022); efeitos adversos potenciais do alopurinol quando usado por longos períodos (NAPOLI et al., 2024); persistência parasitária, mesmo após melhora clínica (NAPOLI et al., 2022) e comorbidades frequentes, como coinfecção por FIV e FeLV, que podem agravar o quadro clínico e prejudicar a resposta terapêutica (PANISSI et al., 2022);
Esses fatores tornam imprescindível o monitoramento prolongado, incluindo hemogramas, função renal e avaliações parasitológicas periódicas. Além de todas essas questões, o manejo da LF deve ser individualizado,
Um estudo realizado com 166 gatos de abrigos demonstrou que, mesmo na ausência de sinais clínicos evidentes, animais sororreagentes ou positivos por PCR e parasitologia apresentavam alterações laboratoriais importantes, como plaquetopenia e hiperproteinemia associada à hipoalbuminemia (SILVA et al., 2023). Esses achados reforçam a relevância de testar todos os gatos, sintomáticos ou não, especialmente em ambientes coletivos ou em regiões endêmicas. A infecção subclínica é frequente em felinos, e muitos animais podem permanecer assintomáticos por longos períodos enquanto já apresentam alterações hematobioquímicas compatíveis com a doença. A triagem ampla permite identificar precocemente casos ocultos, monitorar a progressão clínica, orientar o manejo sanitário e reduzir potenciais fontes de infecção para vetores, tornando o rastreamento universal uma estratégia essencial para o controle e vigilância da leishmaniose felina.
A ausência de protocolos específicos de diagnóstico e tratamento para felinos reforça a necessidade de novos estudos clínicos para a padronização de protocolos. É necessário avaliar a eficácia a longo prazo das diferentes drogas disponíveis e desenvolver medidas profiláticas, como vacinas e produtos repelentes seguros para felinos. A integração entre clínicos, laboratoristas e serviços de vigilância epidemiológica é essencial para aprimorar o diagnóstico, o manejo e o controle da leishmaniose felina no Brasil.
Assim, a abordagem da leishmaniose felina no contexto da Uma Só Saúde evidencia que a compreensão dessa zoonose não pode mais permanecer restrita ao cão, exigindo uma integração real entre saúde animal, humana e ambiental. Os gatos, antes marginalizados nas discussões epidemiológicas, têm sido progressivamente reconhecidos como potenciais hospedeiros competentes, o que reforça a urgência de incorporá-los às estratégias de vigilância e manejo em áreas endêmicas. Nesse cenário, o papel de entidades técnico-científicas como o Brasileish torna-se particularmente relevante: ao incluir oficialmente a leishmaniose felina em seus simpósios, debates e ações educativas, o grupo amplia a visibilidade da doença, promove atualização profissional e favorece a harmonização de condutas clínicas e preventivas. Essa articulação entre pesquisa, prática veterinária e saúde pública fortalece a construção de protocolos mais eficazes e sustentáveis, consolidando definitivamente a leishmaniose felina como um componente essencial das ações contemporâneas orientadas pelo conceito de Uma Só Saúde.
Durante o último debate de 2025 sobre as atualizações das diretrizes para a leishmaniose canina, o Brasileish anunciou que irá desenvolver e publicar diretrizes específicas para a leishmaniose felina, com previsão de lançamento em 2026. Essa iniciativa representa um marco importante para a padronização diagnóstica e terapêutica da doença em felinos, e sua publicação é aguardada com expectativa pela comunidade científica e clínica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR, D. C. F. et al. First molecular detection of Leishmania (Leishmania) infantum chagasi in a domestic cat (Felis catus) from an urban area in eastern Amazon. Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases, v. 29, p. 1-7, 2023. DOI: 10.1590/1678-9199-JVATITD-2022-0048.
BATISTA, J. F. et al. Clinical, hematological, biochemical, and histopathological evaluations in domestic cats (Felis catus) infected by Leishmania infantum. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária / Brazilian Journal of Veterinary Parasitology, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10399555/. Acesso em: 02 dez. 2025.
BIGARAN, L. T. et al. Diagnóstico diferencial entre esporotricose e leishmaniose cutânea: revisão. Research, Society and Development, Itabira, v. 14, n. 2, p. 1-12, 2025.
BRASILEISH – Grupo de Estudos sobre Leishmaniose Animal. Home. Disponível em: https://www.brasileish.com.br/home. Acesso em: 01 dez. 2025.
CHRISTOPHER, M. M.; BROOKS, M. B.; LOWE, A. Propylene glycol–induced Heinz body formation and anemia in cats. American Journal of Veterinary Research, v. 50, n. 2, p. 270–276, 1989.
COSTA-VAL, A. P. et al. Serological study of feline leishmaniasis and molecular detection of Leishmania infantum in cats from a Brazilian endemic area. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 29, n. 4, p. 1-9, 2020.
CUKIER, G.; BAÊTA, B. A.; OLIVEIRA, G. R. S.; SANTOS, P. N. Leishmaniose em felinos domésticos. Revista Fluminense de Extensão Universitária, Vassouras, 2025. Disponível em: https://editora.univassouras.edu.br/index.php/RFEU/article/view/4862. Acesso em: 01 dez. 2025.
DANTAS-TORRES F. et al. Sand fly population dynamics and cutaneous leishmaniasis among soldiers in an Atlantic forest remnant in northeastern Brazil. PLoS Negl Trop Dis, 2017.
FRANÇA, C. R.; COSTA, S. B. Evidences in the treatment of feline leishmaniasis: literature review. Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal, v. 19, n. 2, p. 1-11, 2025. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/10226358.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
FERNANDEZ-GALLEGOS, A. et al. Feline leishmaniosis: diagnosis, treatment and outcome in 16 cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 22, n. 8, p. 1-9, 2020.
GARCIA, T. S. et al. First report of a cat (Felis catus) infected by Leishmania (Viannia) guyanensis from Southeastern Brazil. Veterinary Research Communications, v. 49, p. 49–82, 2025. DOI: 10.1007/s11259-025-10647-6.
GREENE, C. E. (ed.). Infectious diseases of the dog and cat. 4. ed. St. Louis: Elsevier, 2012. 1376 p.
GREMIÃO, I. D. F. et al. Feline sporotrichosis: epidemiological and clinical aspects. Medical Mycology, 2014.
GREMIÃO, I. D. F. et al. Guideline for the management of feline sporotrichosis caused by Sporothrix brasiliensis and literature revision. Brazilian Journal of Microbiology, v. 52, p. 107-124, 2020.
GREMIÃO, I. D. F. et al. Guideline for the management of feline sporotrichosis caused by Sporothrix brasiliensis. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 22, n. 7, p. 1-18, 2020.
LATROFA, M. S. et al. Q3 lab-on-chip real-time PCR for the diagnosis of Leishmania infantum infection in dogs. Journal of Clinical Microbiology, 2024.
LUNA, R. L. N. et al. Rapid isothermal molecular tests to discriminate between Leishmania braziliensis and Leishmania infantum infections in dogs. Parasit Vectors, 2025.
LEISHVET. Canine and feline leishmaniosis: guidelines. 2. ed., 2023.
LIMA, T. S. N. S. et al. Aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos da leishmaniose felina: revisão de literatura. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 7, n. 4, p. 106, 2024.
MATHIAS, L. S. F. R. et al. First detection of feline sporotrichosis (Sporothrix brasiliensis) in a non-endemic region. Journal of Fungi, v. 10, n. 4, p. 1-10, 2024.
MIRANDA, L. H. M. et al. Histopathological profile of feline sporotrichosis. Journal of Comparative Pathology, v. 148, n. 2-3, p. 161-170, 2013.
MORAIS, C. S. M. Revisão de literatura: Leishmaniose Felina. Monografia – Fundação Educacional Jayme de Altavila, 2014.
NASCIMENTO, L. F. J. et al. Epidemiological and diagnostic aspects of feline leishmaniasis with emphasis on Brazil: a narrative review. Parasites & Vectors, v. 14, n. 351, p. 1-16, 2021.
NAPOLI, E. et al. Clinical case of feline leishmaniosis: therapeutic approach and long-term follow-up. Veterinary Sciences, v. 9, n. 8, p. 400, 2022.
NAPOLI, E. et al. Long-term follow-up of a case of feline leishmaniosis treated with allopurinol and meglumine antimoniate. Veterinary Parasitology, 2024.
OROFINO-COSTA, R. et al. Human sporotrichosis: Brazilian expert recommendations. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 97, n. 3, p. 1-15, 2022.
OROFINO-COSTA, R. et al. Sporotrichosis: an update on epidemiology, etiopathogenesis, laboratory and clinical therapeutics. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 92, n. 5, p. 606-620, 2017.
PAIVA, B. L. et al. Prevalence of Leishmania infection in 205 cats from a referral hospital population in Brazil (2021–2022). 2024.
PANISSI, L. et al. Review and statistical analysis of clinical management of feline leishmaniosis caused by Leishmania infantum. Parasites & Vectors, v. 15, p. 253, 2022.
PENNISI, M. G. et al. LeishVet update and recommendations on feline leishmaniosis. In: LEISHVET. Canine and Feline Leishmaniosis: guidelines, 2015.
PEREIRA, A. M.; COSTA, A. P.; SOLANO-GALLEGO, L. Feline leishmaniosis: An updated review and practical recommendations for diagnosis and management. Veterinary Parasitology, v. 319, p. 109–143, 2023.
PODESTÁ JUNIOR, R. L. et al. Feline sporotrichosis: clinical conduct, diagnosis and treatment. Research, Society and Development, v. 11, n. 4, 2022.
RIBEIRO, V. M.; GUIMARÃES, A. M. Doenças infecciosas em animais de companhia. São Paulo: MedVet, 2021.
RIVAS, A. K. et al. Clinical and diagnostic aspects of feline cutaneous leishmaniasis. BMC Veterinary Research, v. 14, n. 1, p. 1-8, 2018.
RIVAS, A. K. et al. Clinical and diagnostic aspects of feline cutaneous leishmaniasis. Parasites & Vectors, v. 11, n. 1, p. 1-9, 2018.
ROCHA, A. V. V. O. et al. Diagnosis and epidemiology of Leishmania infantum in domestic cats in Brazil. Veterinary Parasitology, v. 273, p. 80-85, 2019.
SANGER, F.; NICKLEN, S.; COULSON, A. R. DNA sequencing with chain-terminating inhibitors. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 74, n. 12, p. 5463-5467, 1977.
SILVA, D. T. et al. Hematological and biochemical analysis in cats with feline leishmaniosis. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 32, n. 1, p. 1-10, 2023.
SILVA, D. T. et al. Leishmaniose felina: hematological and biochemical analysis. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023.
SILVA, G. L. da et al. Esporotricose em felinos domésticos: revisão. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v. 21, n. 121, p. 18-24, 2023.
SILVA, R. B. S. et al. Natural infection by Leishmania infantum in domestic cats in a municipality of moderate transmission in the Brazilian semi-arid region. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 29, n. 4, p. 1-9, 2020.
SILVEIRA NETO, L. da et al. Aspectos clínicos e epidemiológicos da leishmaniose felina no Brasil. Semina: Ciências Agrárias, v. 36, n. 3, p. 1467-1480, 2015.
SOUSA, C. J.; BATISTA, J. F. et al. Feline Leishmaniasis: Evidence-based Treatments — Challenges to be Solved. Bentham Science Publishers, v. 32, n. 11, 2024.
SOUZA, A. I. et al. Domestic feline cutaneous leishmaniasis in the municipality of Ribas do Rio Pardo, Mato Grosso do Sul state, Brazil: a case report. Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases, v. 15, n. 2, 2009.
Autora:

MV Especializada Priscila Marcondes Toinaki
Bacharel em Medicina Veterinária pela FMU (2006), pós-graduada em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais; Clínica Médica Hospitalar, ANCLIVEPA-SP, especializada em Patologia e Parasitologia Veterinária; Biossegurança e Saúde Pública e especialista em Serviços Assistidos por Animais, possui Certificação Cat Friendly, Feline Veterinary Medical Association-USA. Coordena cursos intensivos na área de Infectologia Veterinária e SAA pela Sociedade Paulista de Medicina Veterinária – SPMV. Criadora e coordenadora do curso de Pós-graduação em Infectologia de Cães e Gatos, criadora e coordenadora do curso de Pós-graduação em Terapias Assistidas por Animais (TAA) com Ênfase no Desenvolvimento Atípico, ambos pela Faculdade ANCLIVEPA – SP. Atualmente é coordenadora técnica do ReabiliT.A.A., programa que regulamenta e desenvolve Tratamentos Assistidos por Animais voltados a crianças, adultos e idosos. Integra a área médica, com ênfase em Saúde Mental, desenvolvendo protocolos de preparação e manejo de felinos domésticos para participação em Tratamentos Assistidas por Animais (TAA), direcionadas a crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Médica Veterinária do Felinamente, serviço especializado no atendimento clínico e comportamental exclusivo para gatos. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1068519542705546



