MASTOCITOMA EM FELINOS

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Por Letícia Oliveira Reis

INTRODUÇÃO

Os mastócitos são células pertencentes ao sistema imunológico, considerados importantes na resposta inflamatória (1). São originados de células precursoras da medula óssea e tecido conjuntivo (2, 3), podendo migrar para qualquer tecido ou órgão. A proliferação desordenada dessas células é denominada mastocitoma (2). Esse tipo neoplásico acomete 20% de cães sendo uma neoplasia comum nessa espécie, e corresponde a 21 % dos tumores cutâneos em felinos. (1, 2, 3).

O mastocitoma pertence ao grupo de células redondas devido a sua morfologia. Quanto à distribuição, podem ter apresentação única ou múltipla, variando a agressividade de acordo com local, tamanho e tempo de evolução. No Brasil não se tem muitos relatos dessa neoplasia acometendo felinos (20).

Em felinos, a forma cutânea dessa neoplasia apresenta um caráter prognóstico melhor do que em cães (21), sendo registrado também acometimento em baço, fígado, sistema gastrointestinal e medula óssea (2, 4).

Quando falamos da forma cutânea, os sinais clínicos, além do aumento de volume evidente, são desencadeados devido a resposta a hipersensibilidade de acordo com a degranulação dos mastócitos, sendo eles: vômito, diarreia, perda de apetite, entre outros (7). Sua apresentação cutânea pode confundir com vários outros tumores de morfologia redonda, como, linfoma, tumor venéreo transmissível, histiocitoma, fazendo com o que o mastocitoma sempre seja um diagnóstico diferencial (22, 23, 24).

O diagnóstico desta enfermidade depende do local acometido, referente à sua forma visceral (baço, fígado, trato gastrointestinal), de acordo com os sinais apresentados e realizando o uso de exames complementares como ultrassonografia e radiografia. Pode-se fazer o uso da citologia pelo método de PAAF (punção aspirativa por agulha fina), onde caso seja realmente a causa, evidencia-se mastócitos na análise microscópica (7).

Um achado patognômonico de mastocitoma visceral é a mastocitemia encontrada no esfregaço sanguíneo desses animais, uma vez que a realização da capa leucocitária é um método importante quando se trata de tal suspeita (25, 26).

O prognóstico de mastocitoma em gatos depende da manifestação da doença e do protocolo terapêutico aplicado. Mesmo a sua apresentação cutânea tendo um prognóstico favorável, a sua associação com a forma visceral diminui a expectativa de vida (5, 6). A esplenectomia utilizada como forma terapêutica em mastocitomas esplênicos tem uma considerável estimativa de vida (7). Em contrapartida, o mastocitoma gastrointestinal apresenta um alto índice metastático, levando a um prognóstico desfavorável (8). Mesmo a mastocitemia sendo um achado incomum está associada a um prognóstico desfavorável (9).

O objetivo deste trabalho é enfatizar a importância do diagnósticode mastocitoma em felinos, comparando as diferentes apresentações clínicas de um único tipo neoplásico em gatos, a fim de acrescentar positivamente na conduta terapêutica melhorando a expectativa de vida de futuros casos na rotina da medicina felina.

OCORRÊNCIA E SINAIS CLÍNICOS

Em felinos esta neoplasia se comporta de forma diferente do que nos cães, não apresentando tantas variações, de acordo com sua malignidade cutânea. A sua apresentação visceral, esplênica e intestinal é tão importante quanto à cutânea nos cães, uma vez que a cutânea nos felinos em sua maioria tem caráter benigno (9, 21).

A sua etiologia e ocorrência são desconhecidas, embora outros estudos sugerem que sua causa seja uma junção de fatores, como, inflamações crônicas, fatores genéticos, ambientes e uso de produtos carcinogênicos (22).

Sua forma visceral é menos comum quando comparada aos mastocitomas cutâneos em cães. Acomete animais de jovens a adultos, não apresentam predileção racial e de gênero (4, 16). Estudos apontam que não existe relação com animais positivos para Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e Vírus da Leucemia Felina (FeLV) (16). Mas outros estudos descrevem a sua relação com infecções virais que se associam com imunossupressão (22). Esta neoplasia em gatos apresenta 21% de sua forma cutânea (FIGURA 1), sendo menos lesiva ao animal (19). Em contrapartida, as formas viscerais representam 15 a 26% das neoplasias nessa espécie, sendo a forma esplênica, a mais comum. A forma intestinal e/ou alimentar é a mais agressiva, porém, é incomum (4).

FIGURA 1: Felino. Nódulo acima do olho, não ulcerado e firme (Silva et al, 2020).

Os sinais clínicos relacionados ao mastocitoma em gatos podem variar de acordo com a localização, mas de forma geral, há emagrecimento, diarreia, vômitos, perda de peso, desidratação, dispneia e febre. Animais com mastocitoma gastrointestinal podem apresentar melena e hematoquezia (17, 18).

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO           

O diagnóstico de mastocitoma em felinos depende da correlação de achados, além do exame físico se faz o uso de ferramentas diagnósticas de muita importância na rotina veterinária, como exame de citopatologia (FIGURA 2), de imagem, hematológico e exame histopatológico (FIGURA 3) (10, 11, 12). São exames complementares que auxiliam no diagnóstico de neoplasias, estadiamento clínico, conduta cirúrgica e prognóstico (13). O exame citopatológico já é um exame de triagem bem utilizado na rotina, além de ser um exame prático, rápido, de baixo custo, não é invasivo e nos traz muitas informações importantes, dando direcionamento para as próximas etapas, diferenciando alterações neoplásicas, inflamatórias, infecciosas e/ ou hiperplásicas (14). A escolha do método de coleta mais eficaz depende da localização da alteração (15).

FIGURA 2: Fotomicrografia, felino. Imagem apresentando acentuada quantidade de mastócitos, distribuídos em manto, contendo de discreta a moderada quantidade de grânulos basofílicos em seu interior 40x, panótico rápido (Arquivo pessoal, 2024).
FIGURA 3: Fotomicrografia, felino. Imagem evidenciando proliferação de mastócitos distribuídos em cordões, contendo infiltrado eosinofílico em permeio 40x HE.
(Arquivo pessoal, 2024)

Sendo assim, quando estamos diante de um felino com suspeitas de tumor esplênico ou hepático, o órgão analisado em ultrassonografia pode apresentar algumas alterações como, aumento de volume, tendo presença ou não de nódulos (16). Para os tumores gastrointestinais, devemos estar atentos a espessamento das camadas do epitélio, e também verificar a presença de nódulos ou não (4).

Todavia, quando nos deparamos com tais achados, a princípio é utilizado o exame de citopatologia, mais especificamente o método de PAAF (punção aspirativa por agulha fina), onde iremos identificar a presença ou não de mastócitos (16). Um achado raro, bem incomum que está relacionado com mastocitoma esplênico, é a mastocitemia em esfregaço sanguíneo, patognomônica de neoplasias viscerais (25, 26).

Diante de um felino que está apresentando vômitos recorrentes, anorexia, falta de apetite e diarreia, é obrigatória a realização de capa leucocitária, a fim de encontrar mastócitos, e já associar a existência de tumores viscerais. A capaleucocitária também serve como controle de tratamento dessas enfermidades (9, 25).

A retirada cirúrgica desses tumores é associada a terapias coadjuvantes, como radioterapia, quimioterapia, eletroquimioterapia e criocirurgia, podendo fazer combinações eficazes para aplicar o melhor protocolo a cada forma e apresentação da neoplasia (9).

PROGNÓSTICO

Em gatos, quando falamos de prognóstico, devemos nos atentar em qual forma da doença estamos lidando, uma vez que seu estadiamento e conduta terapêutica são diferentes dentre as apresentações. Quando se tem associação do mastocitoma cutâneo com o visceral a sobrevida do paciente diminui, assim como critérios de malignidade acentuados, tornando o tumor mais agressivo (5, 6).Alguns estudos trazem que a sobrevida do animal tem que ser calculada a partir do aparecimento do primeiro tumor e, calculando os dois, devido à baixa incidência e falta de estudos, não é confiável (26, 27).

No mastocitoma esplênico, devido a esplenectomia, uma das únicas alterativas terapêuticas instituídas, a expectativa de vida tem em média 38 meses de vida (7, 26). Mas mastocitomas que acometem o trato gastrointestinal dispõem de um potencial metastático considerável, levando a um prognóstico ruim (8, 25, 26).

O estadiamento dessa doença é feito diante da característica do tumor e se já há presença de metástase. Sendo 0 – relacionado a um único tumor e de fácil remoção com margem; I – tumor único, com remoção cirúrgica sem margem; II – tumor único com metástase em linfonodos regionais; III mais de um tumor com ou sem presença de mestastase regionais; IV – tumor com presença de metástase a distância (28).

A mastocitemia é considerada um achado importante quando se trata de mastocitoma em gatos, apesar de ser rara sua aparição é determinante para animais com tumores viscerais e está interligada a prognósticos desfavoráveis (9, 25).                                                                     

CONCLUSÃO

Diante da diversidade de apresentações do mastocitoma este trabalho conclui que, a utilização de ferramentas disponíveis de acordo com as apresentações clínicas citadas faz com que haja um diagnóstico rápido e assertivo. Também visa à diferença de prognóstico quando se trata de neoplasias com apresentações diferentes, podendo alertar médicos veterinários diante de tal situação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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2 SOUSA FILHO, REGINALDO PEREIRA DE; SAMPAIO, KEYTYANNE DE OLIVEIRA; ALVES, LYS OLIVEIRA; CAGNINI, DIDIER QUEVEDO; CUNHA, MARINA GABRIELA MONTEIRO CARVALHO MORI DA. Mastocitoma visceral felino. Medvep – Revista Científica de Medicina Veterinária: – Pequenos Animais e Animais de Estimação, Curitiba, v. 45, n. 14, p. 1-6, 13 out. 2016

3 SILVA, RÚBIA SCHALLENBERGER; WOLKMER, PATRICIA; TORRES, STÉFANI DOS SANTOS; GARLET, NATALIA PEGORARO; FRANCO, MIRYÂNE PEREIRA; SIQUEIRA, LUCAS CARVALHO. Aspectos clínicos, citológicos e hematológicos de mastocitoma cutâneo em felino: relato de caso. Brazilian Journal Of Development, [S.L.], v. 6, n. 3, p. 16249-16256, 2020. Brazilian Journal of Development.

4 AUGUST, J.R. Medicina interna de felinos. 6.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. 697 p.

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7 ALLAN R, HALSEY TR AND THOMPSON KG. Splenic mast cell tumour and mastocy teaemia in a cat: case study and literature review. N Z Vet J 2000; 48: 117–121.

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9 ROGERS KS.. MAST CELL DISEASE. IN S. J. ETTINGER & E. C. FELDMAN, Veterinary Internal Medicine. Missouri: Elsevier – Health Sciences Division, 2009, 7th ed.; pp. 2193-2199.

10RODRIGUES, YANKA DOS SANTOS. Levantamento dos casos de mastocitoma em cães e gatos atendidos na universidade federal rural da Amazônia (2021- 2023). 2024. 47 f. TCC (Doutorado) – Curso de Medicina Veterinária, Universidade Federal Rural da Amazônia, Belém, 2024

11DE NARDI, ANDRIGO BARBOZA ET AL. Diagnosis, prognosisandtreatmentofcaninecutaneousandsubcutaneousmastcelltumors. Cells, v. 11, n. 4, p. 618, 2022.

12JACOBSEN, MURILO SILVA ET AL. Estudo comparativo entre citopatologia e histopatologia no diagnóstico de mastocitoma canino. 2022

13SALZEDAS, BRENO AGUIAR; CALDERARO, FRANCO FERRARO. Estudo retrospectivo comparativo entre as análises citológicas e histopatológicas no diagnóstico de tumores de células redondas em cães. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 4, n. 1, p. 1119-1133, 2021.

14SILVA, SAMARA ALBINO ET AL. Exame citopatológico na medicina veterinária. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 6, p. 39519-39523, 2020.

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21TEIXEIRA, A. A. Mastocitoma felino: revisão de literatura. Pós-Graduação, Belo Horizonte, 2015.

22DOBSON, J. M.; SCASE, T. J. Advances in the diagnosis and management of cutaneous mast cell tumours in dogs. Journal of Small Animal Practice, v. 48, n. 8, p. 424-431, 2007.

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24FURLANI, JULIANA MAZIERO ET AL. Mastocitoma canino: estudo retrospectivo. Ciência Animal Brasileira, v. 9, n. 1, p. 242-250, 2008

25WOLDEMESKEL, MOGES; MERRILL, ANITA; BROWN, CINDY. Significance of cytologicals mear evaluation in diagnosis of splenic mast cell tumor-associated systemic mastocytosis in a cat (Feliscatus). The Canadian Veterinary Journal, [S.I], v. 58, n. 3, p. 293-295, mar. 2017.

26SKELDON, NICOLA C.A.; GERBER, KAREN L.; WILSON, RANDY J.; CUNNINGTON, SOPHIE J..Mastocytaemia in cats: prevalence, detection and quantification methods, haematological associations and potential implications in 30 cats with mast cell tumours. Journal Of Feline Medicine And Surgery, [S.L.], v. 12, n. 12, p. 960-966, dez. 2010

27 LITSTER AL, SORENMO KU. Characterization of the signalment, clinical and survival characteristics of 41 cats with mast cell neoplasia. JFelineMed Surg2006.

28 SABATTINI, SILVIA; BETTINI, GIULIANO. Grading Cutaneous Mast Cell Tumors in Cats. Veterinary Pathology, [S.L.], v. 56, n. 1, p. 43-49, 24 set. 2018.

Letícia Oliveira Reis
Graduação em Medicina Veterinária pela UNIFRAN;
Residência em Patologia animal e Laboratório clínico;
Pela UNIFRAN; Médica veterinária Patologista autônoma.