
Por Rochana Rodrigues Fett, Carolina Leites de Leite e Pâmela Marques
RESUMO – Aelurostrongylus abstrusus é o parasito pulmonar que mais frequentemente acomete a espécie de felinos domésticos. Sendo seu habitat habitual neste hospedeiro na região dos alvéolos, dos bronquíolos, dos brônquios e da traqueia de gatos. A infecção ocorre através da ingestão de hospedeiros intermediários ou paratênicos. Dentre os sinais clínicos podem estar incluídos os sintomas respiratórios como dispneia, respiração abdominal, tosse, espirros e secreção nasal mucopurulenta.
Palavras-chave: gato; parasita; Hartmann
ABSTRACT– Aelurostrongylus abstrusus is the most common lung parasite of domestic cats. It lives in the alveoli, bronchioles, bronchi, and trachea of cats. Animals become infected by ingesting intermediate or paratenic hosts. Clinical signs include respiratory signs such as dyspnea, abdominal breathing, coughing, sneezing and mucopurulent nasal discharge.
Key words: cat; parasite, Hartman.
Aelurostrongylus abstrusus é o parasito pulmonar que mais frequentemente acomete a espécie de felinos domésticos e felinos silvestres1. Sendo estes, os hospedeiros definitivos do nematódeo e seu habitat para replicação neste hospedeiro as regiões dos alvéolos, dos bronquíolos, dos brônquios e da traqueia de gatos. Tendo a capacidade de produzir seus ovos por cerca de 25 dias depois da sua ingestão e após a eclosão destes ovos, tornam-se larvas de primeiro estágio, que migram dos brônquios e traqueia, chegando dentro da faringe e sendo uma das poucas causas de tosse crônica de gatos 2.
Os animais são infectados de forma indireta através da ingestão de hospedeiros intermediários, como moluscos gastrópodes (caracol ou lesma), e/ou hospedeiros paratênicos como roedores, pássaros, répteis ou anfíbios1,3. Por se tratar de um nematódeo cosmopolita, o tipo de ambiente em que o animal vive representa um grande fator de risco de infecção. Pois, gatos procedentes do meio rural são maioritariamente suscetíveis à doença, em relação a gatos do meio urbano, pincipalmente os com criação indoor, isto se deve devido ao fato de terem acesso constante ao ambiente externo 3,1. Assim como, felinos com acesso irrestrito a rua, mesmo em meio urbano. O tempo de vida também pode ser um possível fator de risco para a exposição ao parasito e sua infecção, sendo os animais adultos normalmente os mais acometidos4.O acesso à rua somado aos hábitos de caça intrínsecos da espécie felinas são fatores muito importantes para a ocorrência de infecção por A. abstrusus.
O gato se infecta através da ingestão do hospedeiro intermediário ou paratênico carreador do estado larval infectante, terceiro estágio (L3). Por isso, a caça é um fator de risco, no qual a presa então é ingerida e posteriormente digerida, possibilitando assim que a forma larval seja libertada. As larvas em terceiro estágio (L3), possuem a capacidade de penetrar então na mucosa do estômago e migrar através da corrente sanguínea e/ou sistema linfático em direção à região pulmonar do corpo, chegando ao tecido de predileção para a replicação, o parênquima pulmonar. Os vermes adultos podem ser encontrados nos alvéolos e nos bronquíolos terminais 8-9 dias após a ingestão da forma larval 19.
As fêmeas adultas do nematódeo podem ser localizadas nos alvéolos e bronquíolos terminais em 8 a 10 dias após a ingestão. Sendo o local de início da deposição de ovos não embrionados os quais, após a eclosão, resultam em larvas de primeiro estágio (L1) que evoluem até o terceiro estágio (L3). Neste estágio torna-se capaz de atravessar a parede do sistema digestório, tornando-se capazes de começar a subir ao trato respiratório através de mobilidade própria e da ajuda do sistema mucociliar, além do próprio ato de tossir do hospedeiro. Ao alcançarem a faringe tornam a ser deglutidas e posteriormente eliminadas para o ambiente através das fezes 18. As formas adultas de A. abstrusus residem em nódulos formados nos bronquíolos e ductos alveolares de gatos infectados1,2.
Os sinais clínicos ocasionados pela infecção por Aelurostrongylus abstrusus podem ser facilmente confundidos com outras doenças, como a doença brônquica felina ou a asma felina, além da pneumonia verminosa, o edema pulmonar e a contusão pulmonar.21
Dentre os sinais clínicos estão inclusos os sintomas respiratórios, como a dispneia, a respiração abdominal, a tosse, os espirros e a secreção nasal mucopurulenta6. Além disso, as infecções podem progredir para broncopneumonia grave, e como consequência os gatos apresentarem a respiração com a boca aberta. Ainda podendo evoluir para sinais sistêmicos como a anorexia, a letargia e a emaciação .20
Os fatores como umidade e temperatura podem estar relacionados ao desenvolvimento de determinados parasitos, agindo como fatores favoráveis ao desenvolvimento, como ocorre no caso das larvas de primeiro estágio (L1) de Aelurostrongylus abstrusus8. Podendo as larvas em estágio adulto de evolução viverem cerca de 9 meses ou mais. 21 O diagnóstico pode ser feito através da realização de exames de rotina como a radiografia torácica que pode revelar um padrão intersticial difuso com densidades peribrônquicas focais, podendo ser vistos como nódulos nos pulmões.20 Além de, lavagem broncoalveolar, que evidencia inflamação eosinifílica, a hematologia que evidencia a eosinofilia.20

Também pode ser evidenciado no exame macroscópico post mortem nódulos esverdeados nos pulmões e microscopicamente é possível a visualização de ovos e larvas e a reação causada pelos mesmos no parênquima pulmonar. Estas causam a hipertrofia da glândula submucosa e hipertrofia do músculo liso nas vias aéreas e nas paredes dos vasos.20

A maior parte dos relatos de infecções por A. abstrusus no Brasil vem da região sul, as taxas de prevalência variam em 29,5 %, 14,3% e 3,3%9,10,3. Casos de infecção por Aelurostrongylus spp. são amplamente distribuídos pela Europa11,12,13,14, um dos principais fatores levantados por muitos autores é o hábito de gatos errantes, que faz com que eles exerçam atividades de caça, além de percorrerem significativas distâncias geográficas.
Um estudo de 2019 demonstrou que as areias utilizadas em caixas sanitárias de gatos podem interferir na sobrevida de larvas de primeiro estágio, sendo um fator limitante no diagnóstico coproparasitológico deste parasito, podendo ocasionar resultados falso-negativos em muitos exames15. A presença de Aelurostrongylus abstrusus é um importante diagnóstico diferencial na rotina clínica em doenças respiratórias, devido ao fato de seus sinais clínicos se assemelharem à bronquite felina16.
Ainda em outro estudo, também de 2019, no qual realizou-se a técnica de broncoscopia e análise do lavado broncoalveolar em gatos com bronquite felina e gatos com aelurostrongilose, pode ser observado uma maior ocorrência de bronquiectasia no grupo de felinos infectados por A. abstrusus, sendo possível observar a presença de células inflamatórias em ambos os grupos17. Com isso, o fato de não ser possível distinguir as alterações brônquicas na pneumonia verminótica, reforça ainda mais a importância da inclusão na clínica de exames coprológicos, como exame de rotina, já que é capaz de detectar a presença de larvas de primeiro estágio. Sendo o método de Baermann é considerado o padrão-ouro para diagnosticar infecções por A. abstrusus.
O tratamento pode ser difícil e nem sempre é necessário, a não ser que o gato apresente sinais clínicos, isto devido ao fato de a doença geralmente ser autolimitante 20. No entanto, o tratamento terapêutico em pacientes sintomáticos com diagnóstico de A. abstrusus é composto por antihelmínticos como fembendazol, moxidectina, ivermectina, além de tratamento sintomático e de suporte para a tosse e demais sinais respiratórios presentes, através da oxigenoterapia, corticosteroides e broncodilatadores para o controle da reação inflamatória e melhora da capacidade respiratória em casos mais graves. 2
A aelurostrongilose em felinos é uma importante doença broncopulmonar que por vezes é subdiagnosticada, geralmente devido ao desconhecimento de um grande percentual de clínicos médicos veterinários, podendo levar a um tratamento terapêutico equivocado, como uma doença brônquica crônica. Sendo assim, todos os gatos com sintomatologia respiratória de tosse ou mesmo assintomáticos que apresentam alguma alteração no exame radiográfico de tórax devem passar pela investigação de diagnóstico diferencial para aelurostrongilose. Devendo sempre ocorrer a indicação de realização de exame complementar coproparasitológico de método Baermann seriado para o diagnóstico desta possível afecção no paciente.
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Rochana Rodrigues Fett
Médica-veterinária graduada pela UFRGS em 2004. Mestre em 2007 e Doutora em 2021.
Especialista em geriatria e paliativismo.
Professora em pós-graduação Equalis, Instituto Equilibrium e Coordenadora de pós na IBM Vet.
Professora da rede nacional de tanatologia.
Atendimento exclusivo de felinos desde 2007. Sócia proprietária do Hospital Chatterie e do Laboratório DNA Felino.

Pâmela Marques
Graduanda de Medicina Veterinária – UFRGS.

Carolina Leites de Leite
Graduada em Medicina Veterinária pela UFRGS em 2024.
Residente em Clínica Médica de pequenos animais.



