
Por Letícia Leone Ferreira de Sousa, Dr. Carlos Eduardo Alves Fonseca, Jorge Luiz Meneghello e Priscila Gil Quadros
INTRODUÇÃO
Os carcinomas de glândulas apócrinas são neoplasias malignas raras com poucos relatos em literatura, sendo mais comum em cães e, raras em gatos. Sua apresentação pode ser em placas, massas subcutâneas e nódulos intradérmicos ou ulcerados com tamanhos distintos. O tratamento de eleição é a exérese do tumor com ampla margem associado ou não à eletroquimioterapia. Este trabalho tem como objetivo relatar o comportamento clínico da doença em um felino, sem raça definida, 15 anos de idade, fêmea e castrada com histórico inicial de dois nódulos ulcerados em região de pescoço e dorso, que apresentou recidiva após exérese sem margem ampla. A quimioterapia foi utilizada com intenção de citorredução para tentativa de segundo procedimento cirúrgico. Entretanto, não obteve resultado positivo com a quimioterapia, apresentando metástase pulmonar e óbito devido a complicações respiratórias.
Palavras-chaves: Carcinoma, glândula apócrina, felino.
- RELATO DE CASO
Foi atendido no setor de pequenos animais do Hospital Veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), um felino, sem raça definida, pelagem preta, fêmea, com 15 anos, castrada. Como queixa principal, a presença de múltiplos nódulos cutâneos em região cervical e mandíbula há aproximadamente 20 dias. Anteriormente a esse novo quadro, foi realizado procedimento cirúrgico para retirada de dois nódulos em uma clínica veterinária externa, por um colega sem informação sobre margem de segurança.
A primeira formação era nodular em topografia de região cervical ventral, medindo 2,8cm em região esquerda, aderido, macio, e presença de calor e rubor na região com diagnóstico histopatológico compatível com carcinoma simples de padrão tubulopapilar de glândula apócrina. A segunda formação era nodular em região ventral próximo a mandíbula, medindo 0,4cm, não aderido, macio e com diagnóstico histopatológico compatível com carcinoma simples de padrão tubulopapiplar.
O animal encontrava-se em bom estado geral, normorexia com alimentação apenas pastosa, normoquesia, ausência de êmese e cansaço fácil ou cianose, sem acesso à rua, porém com acesso à laje para banhos de sol diários.
Durante o exame físico, notou-se a presença de múltiplas formações nodulares, sendo a maior em região escapular medindo 1,6cm, não aderido, não ulcerado, avermelhada e macia. O paciente apresentava-se alerta, com mucosas normocoradas e durante a palpação notou-se aumento do linfonodo cervical superficial esquerdo. Devido a hiporexia e apetite seletivo abordados pela tutora, foi solicitado realização de exames complementares, como: raio-x de tórax, ecodopplercardiograma, hemograma, GGT, fosfatase alcalina, ureia e creatinina dentro dos valores de referência para a espécie. Em ultrassom abdominal realizado, não foi descrita alterações dignas de nota. Durante a anamnese, tutora relatou que o paciente não tem histórico de retirada ou presença de outras neoplasias. Devido à grande quantidade de nódulos recidivantes presentes na região cervical e escapular, foi sugerido a tentativa de citorredução com quimioterapia adjuvante para segundo procedimento cirúrgico. Para tratamento residencial foi manipulado piroxicam na dose de 0,3mg/kg a cada 24 horas durante 30 dias, e mirtazapina 3,75mg a cada 72 horas, até novas recomendações.


Figura 1: Raio-x de tórax realizado no dia 24/11/2020 (dia 6) sugestivo de neoformações pulmonares.
No raio-x de tórax foram visualizadas diversas diminutas áreas de radiopacidade elevada e bordos parcialmente delimitados, aspecto tendendo a nodulares distribuídas pelo parênquima pulmonar, mais evidenciado na altura do 6º e 4º espaços intercostais (vista LLD), sugestivos de neoformação pulmonar.
Uma semana após a consulta (dia 7), foi iniciado o protocolo quimioterápico com carboplatina na dose de 200mg/m², com intervalo de 21 dias. Tutora relatou que animal se manteve prostrado e com hiporexia. Durante a segunda sessão de quimioterapia (dia 28), foi notado diminuição visual do nódulo em região cervical.

Figura 2: Imagem dos nódulos presentes na primeira sessão de quimioterapia com Carboplatina no dia 25/11/2020 (dia 7).

Figura 3: Após a 3ª sessão de quimioterapia (dia 49), paciente não apresentou diminuição das lesões, percebendo aumento de tamanho e quantidade de nódulos.
Após 70 dias do primeiro atendimento, na data prevista para a quarta sessão de quimioterapia, paciente apresentou alterações nas enzimas renais (creatinina 2,45 e ureia 87,3), sendo necessário o adiamento da sessão. Apesar das alterações, o paciente voltou a se alimentar, porém foi notado aumento do nódulo em região cervical, e surgimento de outros nódulos com mesmo aspecto dos iniciais, aparentemente subcutâneos, durante palpação.
Após 77 dias do primeiro atendimento, paciente apresentou normalização das enzimas renais, acompanhado do início de quadro de leucopenia (3.300), sendo realizada a aplicação de filgrastim (dose de 5microgramas/kg), com retorno em 4 dias para realização de leucograma e continuidade da quimioterapia. Novamente foi observado aumento das lesões em região cervical e escapular. Paciente continuou apresentando leucopenia, sendo mais uma vez adiada a quimioterapia. Após 92 dias do primeiro atendimento, foi realizada a quarta sessão de quimioterapia com carboplatina e, 21 dias após a quinta sessão de quimioterapia (dia 113), caso houvesse melhora das lesões, foi recomendada a cirurgia paliativa do paciente para conforto com eletroquimioterapia associada.

Figura 4: paciente com aumento das lesões escapulares, apresentando ulceração e sangramento.
Foram solicitados exames complementares de rotina para confirmação de metástase pulmonar e estadiamento da doença, sendo confirmada a presença de nódulos miliares em pulmões. Foi optado pela tutora apenas o conforto do animal e medicações suporte para o quadro com gabapentina, piroxicam e mirtazapina.


Figuras 5 e 6 – raio-x de tórax realizado 26/04/2021 (dia 113), sugestivo de neoformações pulmonares miliares (menores de 0,3cm) distribuídas pelo parênquima pulmonar e moderado aumento da densidade radiográfica da porção alveolar dos campos pulmonares, de aspecto homogêneo e levemente ativo.
Algumas semanas após o início do tratamento paliativo, a paciente começou a apresentar dispneia e veio a óbito, decorrente de parada respiratória.
Segundo Hauck (2013), em gatos, os carcinomas de glândula apócrina ocorrem dos 6 aos 17 anos de idade, nenhuma raça ou predileção por sexo foi identificada. Já descrito por Rodaski e Werner (2009), o siamês é uma raça com alta predisposição a esse tipo de neoplasia.Como descrito por Haziroglu, Haligur e Keles (2012), as regiões mais comuns para esse tumor, em gatos, são cabeça, pavilhão auricular, pescoço, axila, membros e cauda. Em espécies de felinos, a maioria das lesões é solitária.
A idade do paciente relatado se enquadra na literatura, assim como as localizações dos nódulos, na região da cabeça e pescoço. Houve discrepância em relação as características das lesões, sendo elas múltiplas no paciente descrito. Na literatura, Somente Simko, Wilcock e Yager (2003) relatam a ocorrência de 11% das nodulações múltiplas em estudo retrospectivo com cães. Como descrito por Rodaski e Werner (2009) o tratamento de eleição para os casos de carcinoma de glândula apócrina é a excisão cirúrgica com ampla margem e retirada do linfonodo sentinela, sendo que a primeira abordagem cirúrgica deve ser realizada de maneira planejada e correta devido à alta capacidade de recorrência e invasão local desse tipo de neoplasia. No caso descrito, a primeira intervenção cirurgia não foi eficaz, deixando margem comprometida por células neoplásicas com rápida recidiva e piora do quadro.
Em um caso relatado por Spugnini et al. (2008) foi descrito o tratamento bem-sucedido, com administração de mitoxantrona dentro das células tumorais através da eletroquimioterapia, onde houve redução do tumor na primeira sessão, evoluindo para remissão completa na quarta sessão. A eletroquimioterapia é uma terapia segura e eficaz para o carcinoma metastático, merecendo uma investigação mais aprofundada; entretanto, não existem outros relatos na literatura e em artigos relacionados ao uso de eletroquimioterapia com ou sem a mitoxantrona neste tipo de neoplasia.
No caso descrito neste trabalho, a eletroquimioterapia com bleomicina poderia ter sido uma opção associada a primeira intervenção cirúrgica, no entanto, como não ocorreu, foi planejada como segunda opção de tratamento após a recidiva. Em literatura e artigos, não foi comprovada a eficácia da quimioterapia para o tratamento de carcinomas das glândulas apócrinas da pele. Como descrito por Matiz e Semolin (2021), a carboplatina é um fármaco quimioterápico muito utilizado para diversas neoplasias, entre elas o carcinoma de células de transição, carcinoma de células escamosas, carcinomas hepatocelulares e carcinomas mamários. Dentre as suas alterações de toxicidade hematológica causada pela carboplatina, a leucopenia por neutropenia é a mais comum, seguida por trombocitopenia e anemia em até 25% dos casos.
Segundo Steffenon (2014), a toxicidade hematológica é um importante fator limitante da quimioterapia,pois dependendo da intensidade da neutropenia, é necessário a redução das doses ou até mesmo a suspensão da aplicação do fármaco, o que pode comprometer o tratamento de forma transitória ou definitiva e a eficácia do mesmo.Foi apresentado nesse trabalho que a quimioterapia associada a carboplatina não apresentou melhora do quadro do paciente, nem diminuição dos nódulos; além de não controlar a metástase a distância no paciente.
A taxa de metástase a distância é baixa em pacientes diagnosticados com carcinoma de glândula apócrina, que segundo Withrow e Vail (2007) pode ocorrer em apenas 2% dos casos, sendo o pulmão e a derme os principais locais. Entretanto, como descrito por Rodaski e Werner (2009), quando ocorrem, invadem tecidos linfáticos da derme e é comumente observado recorrência local após excisão cirúrgica e, em até 20% dos casos, ocorrência de metástase a distância. Relatado por Terzi, Dogän e Kapçak (2021), o paciente felino descrito também apresentou quadro de metástase pulmonar, com nódulos em região de lobo caudal esquerdo.
No caso descrito no trabalho, a paciente foi diagnosticada com metástase pulmonar antes do início da quimioterapia, complicando a segunda intervenção cirúrgica. No final do tratamento apresentou sintomas respiratórios, como cansaço fácil, dispneia e angústia respiratória, vindo a óbito devido ao quadro de metástase.
O prognóstico da neoplasia, segundo Rodaski e Werner (2009), varia entre reservado a ruim; e a sobrevida baixa depende de fatores como, a primeira intervenção cirúrgica correta, histopatológico, estadiamento clínico do paciente e a presença de metástases a distância. Na paciente descrita no trabalho, já havia fatores prognósticos envolvidos como a falha na primeira intervenção cirúrgica, presença de metástase a distância no início do tratamento quimioterápico, o que acarretou o agravamento do prognóstico, seguido de óbito.
A quimioterapia, mesmo pouco abordada na literatura como tratamento para esse tipo de neoplasia, não apresentou eficácia e benefício para o paciente relatado, comprovando que o melhor tratamento para o carcinoma de glândulas apócrinas é a exérese cirúrgica com margem ampla, associado ou não à eletroquimioterapia.
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Priscila Gil Quadros
Realizou aprimoramento em clínica cirúrgica no hospital veterinário da Universidade Metodista de São Paulo. Formada em medicina veterinária pela Universidade Metodista de São Paulo em 2014.
Profissional voluntário do hospital veterinário da Universidade Metodista de São Paulo em clínica cirúrgica (março/2015-março/2016).
Trainee em Oncologia de pequenos animais hospital veterinário da Universidade Metodista de São Paulo (2016-2018).
Pós-graduação em Oncologia de cães e gatos pelo instituto Bioethicus – Botucatu (2019). Veterinária oncologista na clínica Vet Câncer Oncologia e Patologia Animal (2018-2022).
Atualmente veterinária oncologista no serviço volante em São Paulo.

Leticia Leone Ferreira de Sousa
Formada em Medicina Veterinária pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) em 2018.
Pós-graduada em Oncologia de Cães e Gatos pelo instituto Bioethicus (2022).
Curso de Eletroquimioterapia na Oncologia Veterinária – Carlos Brunner (2023).
Cursando Dietoterapia funcional para Cães (2024).
Atualmente veterinária oncologista no serviço volante em São Paulo e grande ABC.

Carlos Eduardo Fonseca Alves
Graduou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Goiás (2004-2008) e foi residente em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Faculdade UPIS (2009-2011). Realizou especialização em Oncologia Veterinária pelo Instituto Bioethicus (2011-2013), mestrado (2011-2013) e doutorado (2013-2016) em Medicina Veterinária (Área Patologia Comparada) pela Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho (UNESP), campus de Botucatu. Realizou estágio de Pesquisa no Exterior (Bolsa BEPE) durante o doutorado no Institute for Comparative Cancer Investigation na University of Guelph (2015-2015). Fez Pós-doutorado na área de Patologia Comparada na FMVZ-UNESP, campus de Botucatu (2016-2019). Realizou programa BEPE/FAPESP em pesquisa do pós-doutorado na área de Oncologia Genética Humana no Vejle Hospital – University of Southern Denmark (2019-2019). Atualmente é professor permanente dos Programas de Pós-graduação em Biotecnologia Animal e PPG em Medicina Veterinária, da FMVZ-UNESP e Professor Titular da Universidade Paulista – UNIP, campus de Bauru. Atua principalmente nos seguintes temas: clínica médica de pequenos animais, oncologia comparada, próstata, neoplasias mesenquimais, glândula mamária e neoplasias de pênis.

MV. MA Jorge Meneghello
Formação acadêmica e mestrado pela UNESP Botucatu.
Pós-graduação em Homeopatia pela UNAERP/IBEHE.
Pós-graduação em Medicina Ortomolecular pela AMBO.
Diretor Clínico do Hospital Ethicus São Caetano.



