Relato de caso de pseudomicetoma dermatofítico em um cão da raça yorkshire terrier


Deprecated: strpos(): Passing null to parameter #1 ($haystack) of type string is deprecated in /home/medicinaveterinariaemfoco/public_html/wp-content/themes/blocksy/inc/components/blocks/blocks-fallback.php on line 16

Por Julieta Lisboa Ramos Crivelaro

Relato de caso de pseudomicetoma dermatofítico em um cão da raça yorkshire terrier

Os dermatófitos que mais acometem cães e gatos são do gênero Microsporum e Trichophyton. MULLER et al. 2019, de importante valor zoonótico pela sua natureza infecciosa e contagiosa HEINRICH et al. 2019.

Devido a raridade de casos, o pseudomicetoma dermatofítico é uma apresentação pouco conhecida MORAES et al, 2001, incomum em gatos e raro em cães. Em felinos tal síndrome tem predileção pela raça persa GROSS et al, 2005. Em cães apenas três relatos de doença granulomatosa dermatofítica que contemplam um cão da raça Manchester terrier, dois Yorkshires terrier e um Chow Chow MACKAY et al.,1997; ABRAMO et al.,2001; BERGMAN et al., 2002.

{PAYWALL_INICIO}

Um caso de dermatofitose grave e pseudomicetoma dermatofítico com envolvimento acentuado dos linfonodos foram relatados em Yorkshire terriers em associação com M. canis e infecções por T. mentagrophytes. MACKAY et al,1997 MULLER et al, 2013

Sua apresentação é caracterizada por nódulos de consistências firmes ou friáveis de formato irregular PEREIRA et al, 2006, tendo locais de predileção em região de dorso, e base da cauda BLACK et al, 2001. Essa rara infecção acomete o subcutâneo causando uma reação granulomatosa que envolve as hifas dermatofíticas ABRAMO et al, 2001.  Pode ocorrer a formação de fistulização com formação de material granular e infecções localizadas. LARSSON et al. 2020

Sua nomenclatura também gera controvérsias, AJELLO et al, 1980 consideram que tais lesões não exibem drusas ou grãos verdadeiros, ou seja, o dermatófito penetra no folículo piloso onde estão as hifas e agrupamentos de hifas, esse folículo rompe e libera o material fúngico, causando uma reação de Splendore-Hoeppi, ou seja, de hipersensibilidade pelo hospedeiro, com deposição de material amorfo em volta do fungo com uma resposta tecidual granulomatosa, sendo relacionado ao granuloma tricofítico de Majochi CHEN et al, 1993. Pela ausência de ontogenia granular e uma grande reação de Splendore-Hoeppli, dando origem a massas lobuladas constituídas por agregados micelianos, esses agregados de hifas estão frouxamente entrelaçados, diferindo dos grãos observados nos micetomas verdadeiros, sendo assim foi proposto o termo de pseudogrânulos e para infecção o de pseudomicetoma dermatofítico AJELLO et al, 1980. O comitê encarregado da nomenclatura das doenças fúngicas da International Society for Human and Animal Mycology (ISHAM) recomenda também a utilização do termo “mycetoma-like” LARSSON et al. 2020.

O diagnóstico pode ser baseado nos sinais clínicos, citologia, cultura micológica e hispopatologia MEDLEAU et al, 1994, o diagnóstico diferencial deve incluir: criptococose, entre outras micoses sistêmicas, esporotricose, infecções cutâneas de outros fungos oportunista, além de outros granulomas infecciosos, corpo estranho, paniculite estéril e neoplasias MULLER et al., 2019.

Quando lesões forem encontradas em gatos da raça persa, sempre aumentar o índice de suspeita por pseudomicetoma dermatofítico. Se houver suspeita de infecção fungica sistêmica, a cultura fungica não deve ser realizada até que as micoses como blastomicose, histoplasmose e coccidioidomicose seja descartada por histopatologia e citologia. GROSS et al. 2005

Culturas positivas de regiões distantes, fluorescência positiva com a lâmpada de Wood e tricrograma positivo aumentam a chance de diagnóstico. GROSS et al, 2005, porém para confirmação dos achados citológicos é necessário o cultivo micológico LARSSON et al. 2020.

Biópsias de pele podem ser submetidas e são bem vindas nas formas nodulares de dermatofitose como nos pseudomicetomas MULLER et al, 2013, mas a histologia pode não ser tão sensível quanto a cultura porque muitas vezes requer colorações especiais como por exemplo, coloração com ácido periódico de Schiff [PAS] ou coloração com prata de Grocott-Gomori, HEINRICH et al, 2019, que pode ser fundamental para caracterização do processo LARSSON et al. 2020.

A terapia em gatos nem sempre vem acompanhada de sucesso, como parte do tratamento a ampla excisão cirúrgica pode ser exigida, embora podendo ter recidiva, griseofulvina e cetoconazol podem ser parcialmente eficazes MACKAY et al, 1997, MILLER et al 1986, REEDY LM. 1995.

Relato de tratamentos em gatos que levaram entre 10 e 18 meses de terapia com Itraconazol para controle MEDLEAU et al, 1992, MEDLEAU et al, 1994. Outro relato em um Yorkshire terrier com pseudomicetoma dermatofitico com envolvimento de múltiplos linfonodos associado a M. canis não respondeu a griseofulvina, cetoconazol e itraconazol MACKAY et al, 1997. 

RELATO DE CASO

Um cão da raça Yorkshire terrier, fêmea de dois anos chegou para atendimento em outubro de 2019 com o histórico de apresentar duas lesões no dorso e outra na base da cauda 15 dias após o animal passar por uma cirurgia ortopédica. Já havia passado em outro atendimento fazendo uso de Cefalexina 22mg/kg BID por sete dias sem melhora.

Na anamnese, todos os parâmetros dentro da normalidade. Após a tricotomia foi observado uma lesão maior de aproximadamente 3 cm de diâmetro drenando uma secreção serosanguinolenta com conteúdo finamente granuloso e melicérico, com exposição de tecido subcutâneo e outra menor fistulizada e também drenando uma secreção serosanguinolenta. Uma outra lesão circular de aspecto diferente, com bordas em relevo na região da base da cauda (FIG. 1).

Figura 1: Animal apresentando duas lesões no dorso, sendo uma profunda e outra menor fistulada e outra lesão na base da cauda com bordas em relevo.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

Como triagem inicial foi realizado o teste da lâmpada de Wood para detecção de dermatofitose onde o resultado foi negativo, embora seja muito útil inclusive para escolha da melhor região para cultura, nesse caso não apresentou uma resposta positiva, mesmo assim um resultado negativo não exclui o diagnóstico de dermatofitose.

Foram também coletados materiais para citologia, com ajuda de uma haste de algodão, outra com a técnica de “imprint” e para o tricograma e cultura, o material coletado foram pelos das bordas da lesão juntamente com restos celulares.

Nas citologias foram encontradas raras células inflamatórias e epiteliais e duas pequenas estruturas no formato de esferas redondas apresentando cerca de duas vezes o tamanho de bactérias como cocos, as estruturas estavam cercadas por uma cápsula que limita a coloração e da a aparência de um halo claro, compatíveis com esporos (FIG. 2).

Figura 2: Estruturas compatíveis com esporos
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

O restante da amostra de pelos e restos celulares foram colocados no meio de cultura Agar D.T.M., Agar Sabouranud Glicose e Agar BIGGY (Dermatobac).

Após 5 dias de cultura pode-se observar mudança na coloração do meio de cultura, tendendo para o vermelho com presença de colônias espraiadas de tonalidade branquicenta e com textura algodonosa (FIG.4). Porém não reagente a lâmpada de wood

Figura 4: Meio de cultura com presença de colônias de textura algodonosa.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

No tricograma corado com o corante três do panótico (azul de metileno), onde foram observados pelos com esporos esféricos, hifas e artroconídeos (FIG.3).

Figura 3: Tricrograma com presença de esporos esféricos, hifas e artroconídeos.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

Foi coletada uma pequena amostra na fita de acetato e corada com o corante três do panótico.

No exame citológico foi possível observar na objetiva de 100X com óleo de imersão inúmeras estruturas compatíveis com macroconídeos com uma parede mais espessa, fusiformes e verrucosos, com várias septações que podem variar de 5 a 15 sugerindo Miccrosporum canis (FIG.5).

Figura 5: Inúmeras estruturas compatíveis com Macroconídeos de M. canis.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

Após a identificação do agente, como tratamento tópico foi instituído banhos semanais com Miconazol e Clorexidine (Cloresten), Itraconazol por via oral na dose de 10mg/kg (Sporanox) a cada 24 horas durante 30 dias e limpeza do ambiente com cloreto de benzalcônio (herbalvet)

Como houve crescimento rápido e identificação do agente e resposta terapêutica não solicitamos exame histopatológico (FIG.6).

Figura 6: Fotos semanais da remissão da lesão.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

Após 30 dias o animal veio para retorno e coleta de novo material para cultura, no qual não houve crescimento fúngico.

Observou -se a pele já cicatrizada e o início da repilação e prescrito mais 30 dias de Itraconazol (SPoranox).

Foi realizada uma terceira cultura na qual também não houve crescimento, sendo assim optamos pela alta do paciente.

Totalizando 30 dias de terapia tópica e 60 dias de tratamento oral com ótima resposta clínica e recuperação completa das lesões.

O animal ainda teve acompanhamento clínico por 2 anos onde não houve recidivas.

Figura 7: Fase final da cicatrização.
Fonte: Arquivo Pessoal, Crivelaro, R. L. J., 2022

DISCUSSÃO

O pseudomicetoma dermatofítico é pouco comum, sendo relatado em gatos com predileção da raça persa GROSS et al, 2005 e poucos relatos em cães MACKAY et al.,1997; ABRAMO et al.,2001; BERGMAN et al., 2002.

Ambos, gatos persas e cães da raça Yorkshire terriers tem predisposição reconhecida à dermatofitose BOURDIN et al.,1975 PINARD et al.,1987

A localização das lesões está de acordo com os locais de predileção relatados por BLACK et al, 2001 como região de dorso, e base da cauda, tendo comprometimento de tecido subcutâneo causando uma reação granulomatosa que envolve as hifas dermatofíticas ABRAMO et al, 2001

Houve isolamento do agente M. canis a partir da coleta de pelo e restos celulares e cultura em meio Agar D.T.M., Agar Sabouranud Glicose e Agar BIGGY (Dermatobac)

De acordo com o relato de MACKAY et al. 1997 um jovem Yorkshire terrier com comprometimento também de linfonodos não houve sucesso na terapia com griseofulvina, cetocolazol ou itraconazol.

A resolução completa do pseudomicetoma raramente é relatada, normalmente terapias orais longas devem ser associadas a excisão cirúrgica, porém vem acompanhadas de recidivas BOND et al. 2001 MILLER et al. 1986.

A forma cutânea não é uma doença fatal, porém de difícil resolução, podendo expor o paciente a longos períodos de tratamento e cirurgias. Nas apresentações disseminadas e abdominais parecem ter mau prognóstico diante dos casos relatados. LARSSON et al. 2020

O presente relato demonstra que no caso de lesão isolada sem comprometimento sistêmico o itraconazol se mostrou eficaz na remissão do quadro e após 2 anos de acompanhamento não houve recidiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O pseudomicetoma dermatofítico é uma forma atípica de dermatofitose profunda com poucos relatos em gatos, e quando relatados em especial na raça persa e raros relatos em cães.

O presente trabalho relatou um caso em um cão da raça Yorkshire no qual o diagnóstico foi realizado através do padrão lesional e cultura fungica indo também na contramão dos demais prognósticos, no qual houve uma resposta excelente a terapia oral com itraconazol  e tópica com Clorexidine e miconazol em um curto período de tempo, devido a rápida resposta terapêutica não houve tempo hábil para coleta de material para histopatologia. Até o presente momento não houve recidiva.

Outras modalidades terapêuticas como terapia fotodinâmica e crioterapia pouco se sabe, portanto não devem ser tentativas de primeira escolha.

REFERÊNCIAS

RINALDI, M.G. et al., Mycetoma or pseudomycetoma. A distinctive mycosis caused by dermatophytes. Mycopathology, v.81, n.1, p.41-48, 1983.

AJELLO, A. et al. Dermatophyte mycetoma: fact or fiction? Proceedings of 5th International Conference on Mycoses Pan Am Health Org Sci Pub, v.396, p.135-140, 1980.

GROSS, T. et al. Skin Diseases of the Dog and Cat: Clinical and Histopathologic Diagnosis. 2nd ed. Ames, Iowa: Blackwell Science, p.288-290, 2005.

PEREIRA, A. et al. Pseudomicetoma Dermatofítico causado por Microsporum canis em gato da raça Persa. Acta Scientiae Veterinariae, [S.I], v. 34, n. 28, p. 193-196, jul. 2006. 

TOSTES R.A., GIUFFRIDA R. Pseudomicetoma dermatofítico em felinos. Ciência Rural. V. 33, p.363-365. 2003

AJELLO, A.; KAPLAN, W.; CHANDLER, F.W. Dermatophyte mycetoma: fact or fiction? Proceedings of 5th International Conference on Mycoses Pan Am Health Org Sci Pub, v.396, p.135-140, 1980.

OLIVEIRA, J. et al. Micologia Médica ao Microscópio – Respostas: fungos e outros microrganismos de interesse no diagnóstico micológico. 4. ed. P. 65 Rio de Janeiro/Rj: Controllab, 2015.

MORAES, Mário A. P. MACHADO, Achilles A. L. FILHO, Plínio M. REIS, Carmélia M. S. Pseudomicetoma dermatofítico: relato de um caso devido a Trichophyton tonsurans. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. V.34, n.3, p. 291-294, Brasília, DF, 2001.

ABRAMO, F.; VERCELLI, A.; MACIANTI, F. Two cases of dermatophytic pseudomycetoma in the dog: an immunohistochemical study. Veterinary Dermatology, v.12, n.4, p.203-207, 2001.

YAGER, J.A. et al., Mycetoma-like granuloma in a cat caused by Microsporum canis, Journal Comp Pathology., v.96, n.2, p.171-176, 1986.

BOND R, POCKNELL AM, TOZET CE. Pseudomycetoma caused by Microsporum canis in a Persian cat: lack of response to oral terbinafine. Journal of Small Animal Practice 2001; v. 42, p.p.557– 60.

THIAN A, WOODGVER AJ, Holloway SA et al. Dysgonic strain of Microsporum canis pseudomycetoma in a domestic long-hair cat. Australian Veterinary Journal. V. 86, p.324–8, 2008.

NARDONI S, FRANCESCHI A, MANCIANTI F. Identification of Microsporum canis from dermatophytic pseudomycetoma in paraffin- embedded veterinary specimens using a common PCR protocol. Mycoses; v. 50, n. 215, p.7, 2007

BLACK S.S., ABERNETHY T.E., TYLER J.W., GARMA-AVINA A. & Jensen H.E. Intraabdominal dermatophytic pseudomicetoma in a persian cat. Journal of Veterinary Internal Medicine. V.15 p.245-248, 2001.

CHEN, A.W.J. et al. Dermatophyte pseudomycetoma: a case report. Br Journal Dermatology, v.129, n.6, p.729-732, 1993.

MEDLEAU L. & RAKICH P.H. Microsporum canis pseudomycetoma in a cat. Journal of American Animal Hospital Association. v. 30, p.573-576, 1994.

BERGMAN RL, MEDLEAU L, HNILICA K: Dermatophyte granulomas caused by Trichophyton mentagrophytes in a dog. Veterinary Dermatology, v. 13, p. 49–52, 2002.

MILLER, W. H; GRIFFIN, C. E; CAMPBELL, K. L. in: MULLER AND LIRK’S SMALL ANIMAL DERMATOLOGY. Elsevier, 7ed. p. 247-288. 2013.

MACBAY BM, et al: Severe dermatophyte infections in a dog and cat. Aust Vet Pract v.27, n. 86, 1997.

MEDLEAU L., RAKICH P. M., Microsporum canis pseudomycetomas in a cat. Journal Am Animal Hospital Association. v. 30, p. 573, 1994.

MEDLEAU L, WHITE-WEITHERS NE: Treating and preventing the various forms of dermatophytosis. Veterinary Medicine, v. 87, p. 1096, 1992.

BOURDIN, M., DESTOMBES, P., et al., Premiere observation d’un mycetome a Microsporum canis chez un chat. Recueil de Medicine Veterinaire; v.151, pp. 475– 80. 1975.

PINARD, M.; CHERMETTE, R.; BUSSIERAS, J., Diagnostic et prophylaxie des teignes des carnivores domestiques: étude critique à partir d’une enquête à l’ENVA. Recueil de Medicine Veterinaire 1987; v. 163, 1107–16.

MILLER, W. H. Jr. GOLDSCHMIDT M. H., Mycetoma in a cat caused by a dermatophyte: A case report. V. 22, p. 255, 1986.

REEDY L. M.; An unusual presentation of feline dermatophytosis. Feline Practice v. 23n. 6, p. 25, 1995.

BOND R, POCKNELL AM, TOZET CE. Pseudomycetoma caused by Microsporum canis in a Persian cat: lack of response to oral terbinafine. Journal Small Animal Practice, 2001, v. 42, p. 557–560.

LARSSON, C. E.; LUCAS, R.  TRATADO DE MEDICINA EXTERNA:  Dermatologia Veterinária. 2. ed., São Caetano do Sul – SP: Interbook, pp. 51, 263, 340. 2020.

MV. Julieta Lisboa Ramos Crivelaro

CRMV/SP 27.239 Graduada pela Faculdade Anhanguera de Campinas em 2009; Pós-graduada em Dermatologia de Pequenos animais pela Equalis SP em 2020; Curso Avançado de Otologia Veterinária pela Anclivepa SP em 2022; Proprietária da Derma&Co, consultório especializado em Dermatologia, Otologia e Alergologia veterinária Avançada em Jundiaí-SP; Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária desde 2018.

{PAYWALL_FIM}