Lobectomia total de lobo caudal esquerdo de pulmão acometido por adenocarcinoma pulmonar broncoalveolar em cão: relato de caso


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Por Luana Probst, Letícia Cardoso, Morgana de Souza, Monique de Oliveira Souza, Wendel Dietze, Joana S. Fornasa

Lobectomia total de lobo caudal esquerdo de pulmão acometido por adenocarcinoma pulmonar broncoalveolar em cão: relato de caso

RESUMO: Tumores primários pulmonares são incomuns em cães e representam um grande desafio. Neste trabalho, relata- se um caso de adenocarcinoma pulmonar em uma cadela de 10 anos, da raça Cocker, diagnosticada por meio dos sinais clínicos, exame citológico, de imagem e histológico, com tratamento cirúrgico através de uma toracotomia intercostal para excisão do lobo acometido.

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Palavras-chave: Adenocarcinoma.
Lobectomia. Cão.

ABSTRACT: Primary pulmonary tumors are uncommon in dogs and represent a great challenge. In this paper, we report a case of lung adenocarcinoma in a 10-year-old Cocker female, diagnosed by clinical signs, cytological examination, imaging and histology, with surgical treatment through intercostal thoracotomy and excision of the affected lobe.

Palavras-chave: Adenocarcinoma. Lobectomy. Dog.

INTRODUÇÃO

Neoplasias pulmonares podem surgir primariamente no parênquima pulmonar sendo menos comum ou secundariamente por meio de metástase. Os lobos frequentemente mais afetados são os diafragmáticos, com comprometimento os lobos direitos mais do que os esquerdos, são os tumores pulmonares primários mais comuns e englobam o adenocarcinoma, carcinoma broncoalveolar e o carcinoma de células escamosas. Os pontos de metástase mais frequentes são os linfonodos brônquicos, cérebro, ossos e a pleura.1

Esse tipo de neoplasia é mais comum em cães com idade entre 10 e 11 anos e felinos com em média 12 anos.1 O prognóstico é reservado e está associado a fatores como: grau de diferenciação celular, crescimento celular, diagnóstico precoce e o tratamento instituído. A lobectomia parcial ou total pode ser um tratamento de escolha nos casos em que a ressecção é possível, não sendo possível a realização da lobectomia, a quimioterapia pode ser utilizada bem como a associação de ambos.2

O diagnóstico clínico é relativamente difícil, porém alguns exames complementares podem auxiliar no diagnostico presuntivo como radiografia e ultrassonografia, tanto para a visualização geral do órgão quanto para a coleta guiada dos fragmentos de biópsia2 e o diagnóstico definitivo pode ser obtido por meio de avaliações citológicas e histológicas.1

MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa desse trabalho segue um modelo de análise descritivo, que utiliza de um estudo de caso para a sua elaboração, com abordagem qualitativa. O atendimento do paciente foi feito na Clínica Veterinária Tiago da Silva Daniel, localizada em Turvo/SC e na Própet, Centro Clínico Veterinário, localizado em Tubarão/SC.

Os materiais consultados incluem o prontuário do paciente, com histórico médico e dados do exame clínico, bem como exames, imagens e informações sobre o procedimento cirúrgico. Para analisar a relevância deste estudo, foi utilizado um comparativo dos sinais clínicos apresentados pelo paciente antes e depois do procedimento, acompanhando a sua evolução. O pós-operatório da paciente foi descrito para averiguar se houve alguma complicação ou não. Por fim, para definir se o tratamento foi bem-sucedido, a presente literatura consultada, sendo principalmente as obras de Kudnig e Séguin (2022), Vail, Thamm e Liptak (2020), Daleck e de Nardi (2017) e Meuten (2017), auxiliou em um comparativo com o resultado do tratamento proposto ao paciente.1,3,4,5

RELATO DE CASO

Foi atendida no dia 26/05/2022 um cão, da raça Cocker, fêmea, 10 anos, castrada, apresentando como queixa dificuldade respiratória e tosse. Com base nos sinais clínicos, foi realizada radiografia torácica (Figuras 1 e 2), onde foi constatado um nódulo pulmonar.

Figura 1 – Radiografia laterolateral esquerda e direita de tórax evidenciando a neoplasia pulmonar. Fonte: Autores (2022).
Figura 2 – Radiografia ventrodorsal de tórax, evidenciando aumento de volume pulmonar. Fonte: Autores (2022).

Após ser encaminhada para consulta com oncologista, foi realizado citologia aspirativa guiada por ecocardiograma, resultando da amostra disposta em fundo levemente basofílico, com vacuolização, material fibrilar basofílico, alta celularidade, composta por células pleomórficas, com citoplasma amplo, basofílico, com vacúolos evidentes, núcleos ovalados com cromatina agregada, nucléolo evidentes, membranas nucleares irregulares, amoldamento nuclear, anisocitose acentuada e anisocariose moderada, fechando o diagnóstico do exame com carcinoma pulmonar. Posteriormente foi indicada Tomografia Computadorizada (TC), revelando como resultado grande neoformação do lobo pulmonar caudal esquerdo, indicando processo neoplásico, nódulos metastáticos dispersos no parênquima pulmonar, e lesão bolhosa do lobo pulmonar acessório (Figura 3).

Figura 3 – Imagens de TC, setas verdes evidenciando o nódulo pulmonar. Fonte: Autores (2022).

O procedimento cirúrgico para retirada do tumor foi realizado no dia 26/07/2022, por meio de toracotomia intercostal lateral. Foi aplicado medicação pré-anestésica com acepromazina na dose de 0,03 mg/kg e metadona, 0,3 mg/kg, ambos por via intramuscular (IM). A indução anestésica foi realizada com cetamina 1mg/kg, lidocaína 2mg/kg e propofol 2mg/kg, pela via intravenosa (IV). Realizou-se bloqueio intercostal com bupivacaína 0,5%, dose de 1,5 mg/kg por ponto, infusão contínua com 15µg/kg/h de remifentanil, 1,5 mg/kg/h de cetamina e 0,1 a 0,4 mg/kg/h de propofol.

Após realizada antissepsia com álcool, clorexidine degermante, e álcool novamente, com o animal em decúbito lateral esquerdo, foi feita a delimitação da área operatória com campos estéreis. Realizou-se uma incisão no 5º espaço intercostal esquerdo (Figura 4), rebatendo o músculo grande dorsal, seccionando o músculo serrátil ventral, visualizando-se então o músculo intercostal, através do bordo cranial da costela, e realizando uma abertura pequena na musculatura intercostal, incisionando lentamente conforme a expansão da caixa torácica.

Figura 4 – Incisão realizada no 5º espaço intercostal esquerdo Fonte: Autores (2022).

Identificou-se o tecido pulmonar a ser removido, expondo-o e isolando-o com compressas estéreis. Utilizando um grampeador linear, foi retirado o lobo afetado pela neoplasia (Figuras 5 e 6). Após a retirada do lobo, realizou-se o teste de aerostasia para avaliar a vedação da ligadura feita, preenchendo a cavidade torácica com solução salina isotônica estéril e morna, cobrindo a ligadura bronquial realizada seguida da insuflação pulmonar por ventilação. Com a ausência de bolhas de ar e remoção da solução, foi feito o procedimento padrão de aproximação e sutura das musculaturas torácicas e pele, juntamente com a inserção de um dreno de Penrose.

Figura 5 – Ressecção do lobo pulmonar acometido com grampeador linear. Fonte: Autores (2022).
Figura 1 – Radiografia laterolateral esquerda e direita de tórax evidenciando a neoplasia pulmonar. Fonte: Autores (2022).

A amostra foi enviada para exame histopatológico tendo como resultado adenocarcinoma pulmonar broncoalveolar. A paciente permaneceu 5 dias internada com cuidados intensivos, sendo administrado meloxicam 0,2% na dose de 0,2 mg/kg, cefalotina 25 mg/kg, dipirona 25 mg/kg, IV, além da troca de curativo duas vezes ao dia.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As neoplasias pulmonares de origem primária são incomuns em cães e gatos (principalmente comparando com infiltrados metastáticos) e, normalmente, acometem o lobo pulmonar direito.6 O adenocarcinoma acaba sendo o tipo histológico mais comum nesses casos.1 Ressalva-se que o caso apresentado demonstrou que o nódulo acometeu o lobo caudal esquerdo da paciente, e que, após a confirmação histológica, foi confirmado o adenocarcinoma pulmonar, coincidindo com a maioridade de casos descritos da literatura.

O adenocarcinoma é um tumor maligno com origem epitelial, podendo se classificar por forma, sendo lepídico, papilar, micropapilar, acinar, sólido ou escamoso.5 Neoformações com tipagem histológica papilar tendem a prognóstico favorável estatisticamente.3 O exame histopatológico realizado concluiu que o fragmento apresentava uma neoplasia maligna, caracterizada por proliferação papilífera e sólida, compatíveis com o tipo histológico citado.

Os animais com tumor primário pulmonar têm, em média, mais de 10 anos de idade.6 Esses tumores têm alta chance metastática e são agressivos, atingindo frequentemente linfonodos brônquicos, cérebro, ossos e pleura.1 O sinal clínico mais comum é a tosse não produtiva; concomitantemente, hemoptise, febre, letargia, intolerância aos exercícios físicos, perda de peso, disfagia e anorexia podem estar associados.6

Animais com neoplasias pulmonares primárias comumente são diagnosticados incidentalmente durante check-ups de rotina.4 Três projeções radiográficas (laterais esquerda e direita e ventrodorsal) de boa qualidade com um bom exame físico, citologia e confirmação histopatológica fecham um bom diagnóstico.1 Neoplasias pulmonares primárias, ao serem radiografadas, comumente se apresentam como um nódulo solitário na imagem, sendo a presença de lesões miliares múltiplas raras.6

A TC se mostra muito eficaz como ferramenta imaginológica, principalmente quanto a confirmação ou não de metástase para os linfonodos brônquicos.4 Além disso, a TC possibilita um estudo mais fidedigno quanto ao tamanho, calcificação, número e densidade da lesão.1 Esse exame foi útil para o planejamento cirúrgico da paciente supracitada, além de auxiliar na visualização de pontos metastáticos.

O tratamento para tumores pulmonares primários que oferece maior chance de cura é a ressecção cirúrgica.1 Para tumores unilaterais, uma toracotomia lateral é preferível para ser performada, mas a esternotomia pode ser uma opção.4 A lobectomia parcial só é indicada quando o tumor se encontra na periferia; caso contrário, a opção de escolha é a lobectomia total.6 O procedimento pode ser feito com o auxílio de suturas convencionais ou com o uso de grampeador toracoabdominal (TA).4 O uso de grampeadores diminui o tempo operatório em uma lobectomia total, porém deve-se garantir que os brônquios e os vasos sanguíneos estão devidamente ligados pelo grampo.6 Deve-se ter cuidado redobrado para não ligar os nervos frênico e vago nesse momento.3

O uso de fármacos antineoplásicos quando há metástase é recomendado, como cisplatina, carboplatina, etoposídeo, ciclofosfamida, doxorrubicina, sulfato de vincristina, lomustina e ifosfamida.1 Estudos demonstram eficácia e segurança no uso de doxorrubicina para tratamento de adenocarcinoma pulmonar em cães.3

CONCLUSÃO

O adenocarcinoma pulmonar é uma neoplasia maligna com alto grau metastático. Ferramentas de imagem auxiliam ao encaminhamento diagnóstico, além de fornecerem planejamento terapêutico prévio. A citologia pode ser um guia de direcionamento, mas somente o exame histopatológico é confirmatório e dará, inclusive, a tipagem morfológica da proliferação celular. O tratamento cirúrgico, quando possível, é o mais indicado, visando remover o lobo acometido parcialmente (quando há envolvimento periférico) ou totalmente. A quimioterapia adjuvante no pós-operatório auxilia na promoção de maior sobrevida com bem-estar.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Própet Centro Clínico Veterinário e à Clínica Veterinária Tiago da Silva Daniel, bem como suas respectivas equipes de colaboradores por disponibilizarem as informações necessárias para a construção desse artigo, e por todo o cuidado com a paciente.

DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE

Os autores declaram que não possuem conflito de interesse.

CONTRIBUIÇÕES DOS AUTORES

Todos os autores contribuíram para o desenvolvimento desse manuscrito. A revisão e os ajustes foram repassados e confirmados pelos autores até a chegada da versão final deste documento.

REFERÊNCIAS

1.DALECK, Carlos Roberto; DE NARDI, Rodrigo Barboza. Oncologia em Cães e Gatos. Roca, 2 ed. Rio de Janeiro, 2016.

2.PEDROSO, T.C. et al. Adenocarcinoma papilar de pulmão em cão: Relato de caso. PUBVET, Londrina, v. 4, n. 34, 2010.

3.KUDNIG, Simon T.; SÉGUIN, Bernard. Veterinary Surgical Oncology. John Wiley & Sons, 2 ed., 2022.

4.VAIL, David M.; THAMM, Douglas H.; LIPTAK, Julius M. Withrow & McEwen’s Small Animal Clinical Oncology. Elsevier, 6 ed., 2020.

5.MEUTEN, Donald J. Tumors in Domestic Animals. John Wiley & Sons, 5 ed. 2017.

6.FOSSUM, Theresa Welch. Cirurgia de Pequenos Animais. Rio de Janeiro: Elsevier. 4 ed, 2014.

Luana Probst

Médica-veterinária formada pelo Centro Universitário Barriga Verde – UNIBAVE (2018). Pós-graduada em oncologia clínica e cirurgia pelo Instituto Qualittas (2020). Profissional capacitada em eletroquimioterapia pelo Centro de Oncologia Vetcâncer (2019). Profissional capacitada em criocirurgia pelo Instituto Qualittas (2019). Aperfeiçoamento em cirurgia oncológica e reconstrutiva pela Funep/UNESP – Jaboticabal (2022).

Letícia Cardoso

Médica Veterinária formada pelo Centro Universitário Barriga Verde – UNIBAVE (2022)

Morgana de Souza

Médica Veterinária pela Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL (2022).

Monique de Oliveira Souza

Médica Veterinária pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (2017). Pós-graduada em cirurgia de tecidos moles de pequenos animais pela Anclivepa/SP (2021). Monitora da pós-graduação em cirurgia de tecidos moles pela Anclivepa/SP (atualmente).

Wendel Dietze

Médico Veterinário pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA/Canoas (2019). Mestre em ciência animal pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC (2021), com ênfase em anestesiologia de pequenos animais. Professor nos cursos de medicina veterinária da UNISUL e FUCAP UNIVINTE (atualmente).

Joana Simiano Fornasa

Médica Veterinária formada pelo Centro Universitário Barriga Verde – UNIBAVE (2019). Pós-graduanda em diagnóstico por imagem de pequenos animais com ênfase em ultrassonografia e radiologia pelo Instituto Qualittas.

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