Infecção do Trato Urinário Inferior e Bacteriúria Subclínica em Gatos: Quando Tratar?


Deprecated: strpos(): Passing null to parameter #1 ($haystack) of type string is deprecated in /home/medicinaveterinariaemfoco/public_html/wp-content/themes/blocksy/inc/components/blocks/blocks-fallback.php on line 16

Por Lilian Stefanoni Ferreira Blumer, Rafael Bonito e Thaynara Suellen Souza Sa

Infecção do Trato Urinário Inferior e Bacteriúria Subclínica em Gatos: Quando Tratar?

INTRODUÇÃO

O sistema urinário é constituído pelos rins, que realizam a filtração do sangue e formação da urina, ureteres, que são responsáveis pela condução da urina até a bexiga (órgão responsável pelo armazenamento da urina), e uretra que realiza a condução da urina para o ambiente externo (DYCE et al., 2019). Devido às características fisiológicas e anatômicas dos gatos, a espécie apresenta um grau significativo de enfermidades do trato urinário (LITTLE, 2015).

A infecção de Trato Urinário Inferior (ITUI) é definida como uma inflamação decorrente da colonização e multiplicação de microrganismos, com aparição de sinais clínicos decorrentes das lesões causadas no epitélio acometido (MOTTA et al., 2021). A bacteriúria assintomática ou subclínica refere-se à incidência e eliminação de bactérias pelo trato urinário, sem sinais de inflamação e danos epiteliais (SIMÕES, 2019).

{PAYWALL_INICIO}

As ITUI acometem principalmente cães de maneira geral, apresentando baixa ocorrência em felinos, principalmente quando não observamos um fator predisponente (WEESE et al., 2019). Em relação ao sexo, observamos que as fêmeas são as mais acometidas em decorrência da proximidade entre a uretra e o ânus, o que acaba sendo um fator contribuinte para a contaminação do trato urinário (HONDA, 2021). Por essa razão, as ITUI acontecem principalmente por via ascendente, ou seja, quando ocorre a ‘’subida’’ de bactérias oriundas da microbiota intestinal para o trato urinário (MACHADO, 2019).

Em felinos com ITUI é observado em conjunto com a ascensão existe outros fatores que favorecem sua ocorrência, como as alterações dos mecanismos de defesa do hospedeiro, e a presença de fatores de virulência bacterianos que as tornam mais aptas ao parasitismo (POSSAMAI et al., 2019).

Para o desenvolvimento desta enfermidade, são fatores considerados predisponentes, a idade do animal, sexo, presença de comorbidades como diabetes mellitus, doença renal crônica e doenças gastrointestinais (SALAS et al., 2021).  Além disso, procedimentos como uretrotomia, colocação de cateter urinário, urólitos, neoplasias e stent duplo J, podem predispor esses animais ao desenvolvimento de ITUI (DORSCH et al., 2019).

Nos gatos saudáveis observamos, como principais defesas do hospedeiro frente a infecções bacterianas, a micção frequente e completa, um volume de urina adequado, presença de microbiota residente em volumes normais, anatomia funcional do trato urinário, com Imunocompetência local e sistêmica preservados, além de alta osmolaridade e densidade urinária (DORSCH et al., 2019; SIQUEIRA et al., 2020).

De forma geral os trabalhos apontam que as cistites bacterianas, são responsáveis apenas por uma pequena parcela das desordens do trato urinário inferior de felinos (BYRON, 2018; PUCHOT, 2017). O diagnóstico pode ser considerado um desafio, uma vez que as alterações decorrentes de ITUI não são patognomonicas, sendo usualmente observadas em outras enfermidades do trato urinário inferior, como é o caso da disúria, hematúria, polaciúria e periúria (DORSCH et al., 2019).

CLASSIFICAÇÃO

A cistite é caracterizada pela inflamação do epitélio vesical. Nos casos de cistite bacteriana (CB), o processo inflamatório ocorre devido à presença de infecção bacteriana. A enfermidade é classificada em esporádica ou recorrente. CB é definida como esporádica quando o animal apresenta no máximo 03 episódios em um ano. Sendo classificada como esporádica quando o animal apresenta no máximo 3 episódios em um ano (GUTIERREZ et al; 2019). Classifica-se como CB recorrente, os casos em que o animal apresenta 3 ou mais episódios de cistite nos últimos 12 meses (FELTRIN et al., 2021).

Infecções posteriores causadas pela mesma bactéria, são chamadas de quadros recidivantes, ao passo que a infecção posterior por bactérias diferentes, nomeia-se reinfecção (VIEIRA, 2020).

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico das infecções de trato urinário inferior é realizado com base nos sinais clínicos, em conjunto com achados de urinálise, cultura e antibiograma associados a exames de imagem, podendo esses últimos auxiliarem na confirmação das enfermidades em quadros mais avançados (PEREIRA et al., 2020).

A urinálise é o exame de escolha, e deve ser realizado sempre que possível, pelo método de cistocentese sem que o paciente esteja fazendo uso de antibióticos. De maneira geral, o aumento da contagem de leucócitos, eritrócitos e bactérias sugere a presença de cistite bacteriana (MOTTA et al., 2021; PEREIRA et al., 2020).

A cultura quantitativa é a análise o resultado da contagem do exame coletado, ou do material biológico introduzido em meio de cultura, a fim de avaliar-se o crescimento, onde, se houver valores maiores que 100000 UFC/ml em amostras de urina (coleta realizada por cistocentese), é considerado valor significativo para diagnóstico de cistite bacteriana em gatos (KAUL et al., 2020).

Entre as bactérias, a Escherichia coli é a mais prevalente nos casos de cistite bacteriana em felinos. Em seguida são observados os cocos gram negativos, como Staphylococcus, Streptococcus e Enterococcus. Outras bactérias como Proteus e Pasteurella são encontradas em menor proporção ITU (DA SILVA, 2019; DORSCH et al., 2019).

TRATAMENTO

Para a bacteriúria subclínica, os estudos mais recentes têm demonstrado que o uso de antibióticos não influencia os indivíduos assintomáticos, podendo inclusive ocasionar efeitos negativos como reação medicamentosa ou formação de resistência antimicrobiana. Portanto, a decisão deve ser realizada de forma individualizada, levando-se em consideração cada caso (SALAS et al., 2021; WEESE et al., 2019).

Nos casos de CB esporádica, o principal a se considerar é o uso de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) – com cautela, para alívio dos sinais relacionados à inflamação vesical (WEESE et al., 2019). De preferência, deve-se aguardar a realização do isolamento bacteriano para análise de susceptibilidade, para melhor escolha de antibiótico, evitando assim o uso desnecessário e/ou empírico de tais fármacos (DA SILVA et al., 2022; SALAS et al., 2021). 

O guideline mais recente a respeito de infecções bacterianas do trato urinário de cães e gatos recomenda que para casos de CB esporádica, o uso de antimicrobianos seja instaurado após a obtenção de resultados de cultura e antibiograma e que seu uso se estenda por cerca de 03 a 05 dias no máximo (WEESE et al., 2019).

Quando o tratamento é realizado de maneira empírica, o antibiótico de primeira escolha é a amoxicilina, quando essa não estiver presente de forma isolada, pode-se utilizar a amoxicilina com clavulanato de potássio, ou ainda sulfa com trimetropim (requer mais cuidado, principalmente com relação aos seus efeitos adversos) (WEESE et al., 2019). O uso de quinolonas, cefalosporinas de terceira geração e nitrofuranos deve ser reservado para situações excepcionais, sob acompanhamento do médico veterinário e avaliação através da resposta clínica. De maneira geral, nas cistites esporádicas, não é recomendada a realização de urinálise e cultura após o fim do tratamento, caso os sinais clínicos tenham melhorado (DORSCH et al., 2019; WEESE et al., 2019).

Para cistites recorrentes, as terapias empíricas devem ser descartadas, sendo recomendado o uso de analgésicos e AINE para controle do desconforto e inflamação, enquanto aguarda-se os resultados da urocultura e antibiograma (FELTRIN et al., 2021).

Se o tratamento empírico da cistite recorrente for realmente necessário, são preconizados os mesmos antibióticos abordados na cistite esporádica, onde, de maneira geral se recomenda um período de tratamento de 7 a 14 dias (WEESE et al., 2019).

Durante o acompanhamento do tratamento, recomenda-se a avaliação da resposta clínica, solicitando-se uma nova urocultura em um período de 5 a 7 dias após o início do tratamento e, se necessário, também de 5 a 7 dias depois da interrupção da medicação (WEESE et al., 2011). Vale ressaltar que nesses casos, o sucesso da terapia é embasado na cura clínica.

Nos trabalhos atuais não existe a recomendação da administração de antibióticos, anti-inflamatórios ou outros tipos de drogas diretamente na vesícula urinária (WEESE et al., 2019). Isto porque não existem evidências científicas da eficácia desses procedimentos, e predispõe a outros riscos como trauma, irritação ou infecção iatrogênica.

Da mesma forma, não existem evidências sobre a eficácia do uso de terapias coadjuvantes, como por exemplo o extrato de Cranberry ou probióticos para a prevenção de ITUI ou bacteriúria subclínica, todavia, também não existem contraindicações quanto à administração de tais suplementos (GUTIERREZ et al; 2019; WEESE et al., 2019). Portanto, o plano de diagnóstico e correção das causas predisponentes deve ser estabelecido de maneira individual, para cada tipo de caso e paciente (RABASQUEIRA, 2019).

Um fator importante para a eficiência do tratamento é o favorecimento da ingestão de água e também da micção, principalmente relacionada ao manejo das caixas de areia (BERNARDO et al., 2020).

MEDICINA VETERINÁRIA E SAÚDE ÚNICA

A resistência antimicrobiana está aumentando entre os organismos causadores de infecções nos animais, onde estima-se que esse aumento de resistência é dado à pressão pela solução imediata, associada ao uso de agentes antimicrobianos de forma equivocada e inapropriada (LOPES, 2022).

Sabe-se que animais são capazes de trocar e adquirir patógenos multirresistentes com os humanos, o que acaba tornando o tema um grande motivo de preocupação no contexto de saúde pública. É evidenciado que o uso consciente de antibióticos na clínica de pequenos animais influencia diretamente de maneira eficaz para evitar o desenvolvimento e crescimento de bactérias multirresistentes (BASTOS et al., 2022). Portanto, como dito anteriormente, antibióticos como Fluorquinolonas, cefalosporinas de 3 e 4 gerações e carbapenêmicos, devem ser usados somente em circunstâncias especiais, devendo ser realizados em ambiente hospitalar (DORSCH et al., 2019).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ITUI é uma causa importante de alteração do trato urinário inferior de felinos, particularmente em gatos idosos que apresentam outras comorbidades (DORSCH et al., 2019).

O uso desapropriado de antibióticos contribui para o desenvolvimento de resistência antimicrobiana, portanto a decisão de tratar com antimicrobianos deve ser baseada na presença de sinais clínicos decorrentes da inflamação, associada à confirmação da presença de infecção por exames laboratoriais, como a urinálise, cultura e antibiograma (LOPES, 2022).

REFERÊNCIAS

BASTOS, I. De O. et al. O papel do farmacêutico no combate à resistência bacteriana: uma revisão integrativa. 2022.

BERNARDO, I. C. F.; VARGAS, M. E. B.; ALMEIDA, C. B. Doenças do trato urinário inferior dos felinos. Revista Científica, v. 1, n. 1, 2020.

DA SILVA, M. M. C. Infeção do Trato Urinário Felino: Prevalência Caracterização Clínica Afeções Concomitantes e Adequação da Antibioterapia Empírica. 2019. Tese de Doutorado. Universidade de Lisboa (Portugal).

DA SILVA, R. V. M. et al. Manejo da dor na cólica renal por litíase urinária: uma revisão narrativa. Revista Eletrônica Acervo Médico, v. 6, p. e10101-e10101, 2022.

Dorsch, R.; Teichmann-Knorrn S.; Sjetne, L. H. Urinary tract infection and subclinical bacteriuria in cats: A clinical update. J Feline Med Surg. 2019 Nov;21(11):1023-1038. doi: 10.1177/1098612X19880435. Epub 2019 Oct 10. PMID: 31601143; PMCID: PMC6826873.

DYCE, K. M.; WENSING, C. J. G.; SACK, W. O. Tratado de anatomia veterinária. 4 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

FELTRIN, P. L. et al. Uretrostomia perineal em gato com doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) recorrente: Relato de Caso. 2021.

GUTIERREZ, R. d. C. A. et al. Doenças do trato urinário em cães e gatos: um estudo retrospectivo da prescrição e resistência aos antibióticos. 2019. Dissertação de Mestrado.

HONDA, C. N. CAUSAS DE INCONTINÊNCIA URINÁRIA EM CÃES E GATOS: revisão de literatura e relato de caso de Cistite Idiopática Felina. 2021.

KAUL, E. et al. Recurrence rate and long-term course of cats with feline lower urinary tract disease. Journal of feline medicine and surgery, v. 22, n. 6, p. 544-556, 2020.

LOPES, G. A. d. P. O papel do médico veterinário na prevenção da resistência bacteriana aos antimicrobianos: uma perspectiva de saúde única. 2022.

MACHADO, L. Caracterização clínica, laboratorial e microbiológica da infecção no trato urinário em cães com hiperadrenocorticismo espontâneo. 2019.

MOTTA, N. T. de A.; FERREIRA, V. B.; SANTOS, E. S. D.; MATOS, R. A. T.; OMENA, F. D.; BOAS, F. G. V. ETIOLOGIA DAS INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO (ITU) DE CÃES E GATOS. Revista Multidisciplinar em Saúde, [S. l.], v. 2, n. 3, p. 45, 2021. DOI: 10.51161/rems/1863. Disponível em: https://editoraime.com.br/revistas/index.php/rems/article/view/1863. Acesso em: 1 maio. 2022

PEREIRA, M. L.; AGUIAR, M. H. S.; NERCOLINI, N. A. M. Infecção de trato urinário inferior por Citrobacter sp em cadela com hipoadrenocorticismo. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, v. 27, n. 2, 2020.

POSSAMAI, M. C. F. et al. In vitro bacteriostatic activity of Origanum vulgare, Cymbopogon citratus, and Lippia alba essential oils in cat food bacterial isolates. Semina: Ciências Agrárias, v. 40, n. 6Supl2, p. 3107-3122, 2019.

LITTLE, S. Distúrbios do Trato Urinário Inferior. In: LITTLE, S. O gato. Grupo Gen-Editora Roca Ltda., 2015. p, 1406-1451.

SALAS, C. S. S. et al. Caracterização da infeção do trato urinário em cães e gatos e utilização de Formula for Rational Antimicrobial Therapy na avaliação da antibioterapia empírica em Portugal. 2021. Tese de Doutorado. Universidade de Lisboa, Faculdade de Medicina Veterinária.

SIMÕES, R. d O. Infeções urinárias repetidas. Relação hospedeiro-patogeno. 2019. Tese de Doutorado.

SIQUEIRA, T. d. S. et al. Doença do trato urinário inferior dos felinos e suas implicações sistêmicas: revisão de literatura. 2020.

VIEIRA, S. E. Identificação e perfil de sensibilidade antimicrobiana de bactérias causadoras de cistite em cães atendidos no Hospital Veterinário Roque Quagliato. Almanaque de Ciências Agrárias-ACA, v. 2, n. 1, p. 22-28, 2020.

WEESE J.S.; et al. Antimicrobial use guidelines for treatment of urinary tract disease in dogs and cats: antimicrobial guidelines working group of the International Society for Companion Animal Infectious Diseases. Vet Med Int 2011; 2011. DOI: 10.4061/2011/263768.

WEESE, J. S. et al. International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID) guidelines for the diagnosis and management of bacterial urinary tract infections in dogs and cats. VETERINARY JOURNAL, v. 247, p. 8-25, 2019.

Lilian Stefanoni Ferreira Blumer

Graduação em Medicina Veterinária pela Unesp – Campus Araçatuba
Residência em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Unesp – Campus de Jaboticabal
Mestrado em Medicina Veterinária com ênfase em Nefrologia e Urologia de cães e gatos pela Unesp – Campus de Jaboticabal
Membro do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinárias – CBNUV
Professora de graduação e pós-graduação em Faculdades de Medicina Veterinária
Atendimento em Nefrologia de cães e gatos.

Rafael Francisco Bonito de Souza

Formação Acadêmica: Início em 2018, 9° semestre finalizado de Medicina Veterinária pela Universidade Paulista (UNIP) campus Swift Campinas, no período integral, e presidente do grupo de estudos de pequenos animais do primeiro semestre até 2021 (GEPETS).
Artigo científico sobre “SUPLEMENTAÇÃO CONTENDO NUCLEOTÍDEOS MODIFICA AS ALTERAÇÕES METABÓLICAS E MORFOMÉTRICAS GERADAS PELA IMOBILIZAÇÃO: ESTUDO EM RATOS” aceito para publicação na revista Varia Scientia. https://doi.org/10.48075/vscs.v5i2.22978
Trabalho sobre Selante de Fibrina apresentado no dia 30 de outubro de 2018 durante aXVI Semana Acadêmica de medicina veterinária, premiado em 2°lugar como melhor trabalho do evento.
Trabalho sobre Mieloencefalite Protozoária Equina ( MEP ) apresentado dia 17 de outubro de 2019, premiado em 2° lugar como melhor trabalho da turma do 2° ano de medicina veterinária.

Thaynara Suellen Souza Sa

Médica-veterinária graduada pela Universidade Paulista de Campinas (UNIP) 2015-2019. Residência em Clínica Médica de pequenos animais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) 2020-2022.

{PAYWALL_FIM}