Considerações sobre alergia alimentar em cães


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Por Dr.ª Ciciane Marten Fernandes

Considerações sobre alergia alimentar em cães

A alergia alimentar ou dermatite trofoalérgica se apresenta com grande frequência na rotina das doenças dermatológicas alérgicas, classificando-se logo após a dermatite alérgica a picada de pulgas e a dermatite atópica (Olivry et al., 2020; Salzo et al., 2009). A doença se conceitua como uma reação orgânica adversa ao alimento, uma resposta alérgica. Os mecanismos da fisiopatogenia ainda não foram totalmente descritos, mas há envolvimento das reações de hipersensibilidade tipos I, III e IV (Salzo et al., 2009).

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A idade para aparecimento dos sinais é bem variável, entre menos de um ano até dez anos de idade. No estudo de Jackson (2009) 50% dos cães apresentaram sintomatologia antes de um ano de idade e na pesquisa de Salzo et al., foi observado um predomínio de animais com idade entre quatro e seis anos. O aparecimento precoce dos sinais de alergia alimentar em um filhote pode ser justificado devido a imaturidade intestinal, ocorrendo o desmame antes das seis semanas de vida, e introdução da dieta com proteínas, que possuem alto peso molecular. Em relação a predisposição racial, as que apresentam maior acometimento são Dálmata, Cocker Spaniel, Lhasa Apso, Labrador, Boxer e Dachshund (Salzo et al., 2009; Jackson, 2009).

A sintomatologia clínica é pleomórfica, com a manifestação mais comum sendo o prurido intenso, não estacional, com alívio satisfatório com uso de corticoides (Chesney, 2001).  Além do prurido é observado na pele eritema, pápulas, vergões e pústulas e, secundariamente ao traumatismo induzido pelo prurido, erosões, alopecia, escoriações e hiperpigmentação. Na topografia da doença, os locais mais afetados são a região perilabial, periocular, pavilhão auricular, região inguinal e perianal (Fig. 1 e 2) (Cerdeiro, 2016).

Figura 1 – Região de dígitos e interdígitos apresentando infecção secundária devido a alergia
Figura 2 – Paciente apresentando eritema em região perianal.

Além da sintomatologia dermatológica os sinais gastrointestinais podem ser observados como vômito, diarreia intermitente, flatulência, fezes mucoides e aumento da frequência de defecação (Cerdeiro, 2016). No estudo de Moreno et al. (1999) foi observado que os animais com dermatite trofoalérgica também apresentaram alterações comportamentais como irritabilidade, hiperatividade e depressão.   

Durante a vida os animais são expostos a uma grande variedade de alimentos e a alergia alimentar pode ser desenvolvida com uma pequena ingestão de um alimento alergênico. Usualmente, os alérgenos são produtos básicos da dieta do animal e as proteínas possuem um papel importante como alimentos potencialmente alergênicos. Essas têm altos pesos moleculares, entre dez e setenta kDa, e na parede intestinal estimulam a produção de IgE e liberação de histamina pelos mastócitos. Na pesquisa de Olivry (2020) os alimentos mais alergênicos observados foram carne bovina, peixe, frango, produtos lácteos, trigo, milho e cordeiro.

Para iniciar o diagnóstico da alergia alimentar, deve-se primeiramente realizar triagem de exclusão de outras causas pruriticas como as sarnas, eliminação de infecções secundárias por Malassezia sp. e Staphylococcus sp. e o controle rigoroso de ectoparasitas também deve ser realizado.  A partir desse momento, o método diagnóstico consiste em alimentar o paciente com uma dieta com fonte de carboidrato e proteína inéditos, com objetivo de eliminar o suspeito trofoalérgico que seja responsável pelos transtornos cutâneos e gastrointestinais.

A cooperação do tutor é de extrema importância para o sucesso do propósito da fase diagnóstica, essa deve ser bem compreendida para evitar frustações financeiras e desmotivação. A dieta pode ser feita de forma caseira ou industrial, no entanto, o tutor deve ser informado, como na opção da dieta caseira, que haverá a necessidade de tempo para a produção dessa e controle rígido da fonte proteica para evitar contaminações. Na opção da dieta comercial hipoalergênica, a questão financeira também deve ser abordada no momento da consulta. A dieta alimentar diagnóstica deve ser feita por oito até doze semanas (Olivry, 2020) e, se houver melhora dos sinais clínicos, deve ser feita a dieta de provocação. Se a resposta até a décima semana for negativa, continuar com a dieta após esse período pode ser inútil. Deve-se iniciar o diagnóstico para outras patologias como a dermatite atópica (Harvey, 2006).

A dieta de provocação pode ser realizada com a introdução progressiva de cada componente da antiga dieta, com intervalo a cada sete dias. O reaparecimento dos sinais clínicos pode ocorrer de dois a quatro dias. Se houver o reaparecimento do prurido com um dos ingredientes, reinicia-se a dieta de eliminação por outros quinze dias e, com a melhoria do quadro, reintroduz-se o ingrediente que ocasionou o sinal clínico. Caso haja positividade com a volta do prurido está confirmado o componente responsável pela alergia alimentar (Vandresen et al., 2018).

A condução do tratamento da alergia alimentar consiste em evitar o contato com o alérgeno, diminuindo a frequência dos sintomas. Por isso que a realização da dieta diagnóstica e a reintrodução dos alimentos de provocação são eficazes para a direção do tratamento do paciente (Vandresen et al., 2018). Contudo, a utilização de ração comercial hipoalérgica (Tab.1) com o acompanhamento do médico veterinário pode ser uma boa opção. Nessa vertente, o prognóstico da doença é satisfatório, principalmente quando o alérgeno é identificado e excluído da dieta. Brinquedos mastigáveis, petiscos e suplementos devem ser controlados para diminuir a ingestão acidental de algo que possa desencadear uma reação alérgica.


Tabela 1 – Algumas rações hipoalérgicas disponíveis no mercado.

Referências bibliográficas

Cerdeiro, A. P. S.; De Assunção, D. L.; Ganho, R. G. R. Dermatite trofoalérgica em um cão de 30 dias. Medvep Dermato-Revista de Educação Continuada em Dermatologia e Alergologia Veterinária, v.4, 2016.

Chesney, C. J. Sistematic review of evidence for the prevalence of food sensitivity in dogs. Veterinary Record, v.148, p.445-48, 2001.

Jackson, H. A. Food allergy in dogs – clinical signs and diagnosis. European Journal of Companion Animal Practice, v. 19, n.3, p. 230-33, 2009.

Olivry, T; Mueller, R.S. Critically appraised topic on adverse food reactions of companion animals (9): time to flare of cutaneous signs after a dietary challenge in dogs and cats with food allergies. BMC Veterinary Research, v.16, 2020.

Moreno, E. C.; Tavera, F. J. T. Hipersensibilidad alimentaria canina. Veterinaria México, v.30, n.1, p. 67-77, 1999.

Salzo, P.S.; Larsson, C.E. Hipersensibilidade alimentar em cães. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.61, n.3, p.598-605, 2009.

Vandresen, G.; Marconi R. F. Efficacy of hydrolyzed soy dog food and homemade food with original protein in the control of food-induced atopic dermatitis in dogs. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.38, n. 7, 2018.

Dr.ª Ciciane Marten Fernandes

Médica-veterinária dermatologista e alergologista. Docente de ensino superior. Especialização em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre em Sanidade Animal / UFPel. Doutora em Sanidade Animal /UFPeL. Atendimentos em Campinas-SP: - Centro Veterinário Cambuí Rua Maria Monteiro, 1599 Agendamentos pelo telefone (19) 2515-2300 - Centro Médico Veterinário Rua Camargo Paes, 680 Agendamentos pelo telefone (19) 3241-7765

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