Alopecia X: do diagnóstico aos tratamentos


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Por: Camila Domingues

Alopecia X: do diagnóstico aos tratamentos

Alopecia X  é um quadro dermatológico caracterizado pela interrupção do ciclo folicular, na qual os folículos pilosos permanecem na  fase de repouso conhecida como telógeno, sendo por isso também denominada de “Folicular Arrest” ou Parada Folicular. O termo Alopecia X, tem sido utilizado atualmente para nomear condições cutâneas caracterizadas por alopecia não inflamatória, não pruriginosa associada a melanose e xerose cutânea, que apresentam resposta distintas a diversos protocolos terapêuticos. Desta forma, a alopecia responsiva à castração, ao GH, à melatonina, ao trilostano, ao mitotane, hiperplasia adrenal congênita, alopecia responsiva à biópsia, são todas condições englobadas na alopecia X.

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A alopecia X já foi  descrita em várias raças nórdicas como: Malamute do Alaska, Samoieda, Chow Chow, Keeshonden, Huskie Siberiano e Spitz Alemão consideradas como predispostas.  Cerca de 15% dos Spitz Alemães podem vir a sofrer de alopecia X. Além das raças nórdicas,  Poodles toys e miniaturas ocasionalmente são diagnosticados com este quadro. Acredita-se que seja uma doença de origem genética, com envolvimento de múltiplos genes, sendo por este motivo desaconselhado a reprodução de pacientes com esta condição. A  forma de transmissão genética ainda é desconhecida e  testes genéticos para detectar possíveis carreadores desta condição, apesar dos esforços, ainda são inexistentes no momento. Um estudo recente identificou que cães com Alopecia X apresentam alteração na expressão de pelo menos 47 genes associados com: o metabolismo de hormônios sexuais, diminuição da expressão de genes associados com a indução e manutenção do anágeno e de genes marcadores de células-tronco, e aumento da expressão gênica de marcadores de quiescência folicular.

A causa da Alopecia X, ainda permanece obscura, motivo pelo qual recebe esta denominação. Os estudos até agora falharam na identificação de alterações sistêmicas contundentes em hormônios como cortisol, hormônios intermediários adrenais e sexuais, que pudessem explicar as manifestações clínicas e o comportamento da doença aos distintos protocolos terapêuticos. Atualmente, acredita-se que a Alopecia X possa estar associada a uma hipersensibilidade dos receptores foliculares  frente aos hormônios adrenais e/ou sexuais periféricos presentes na pele. Em humanos, pacientes com alopecia androgenética, apresentam uma maior afinidade  dos receptores foliculares à dihidrotestosterona (DHT), um metabólito formado na pele a partir da  ação da enzima 5-alfa-redutase sobre a testosterona. Esta mesma enzima conversora de testosterona já foi detectada na pele de cães, mas ainda é desconhecido o significado clínico deste achado.

A Alopecia X pode ocorrer em machos e fêmeas, de ambos os sexos, com a maioria dos sintomas se apresentando por volta de 1 a 3  anos de idade. A falta de muda da pelagem de filhote, pode ser um fator indicativo da manifestação futura de alopecia X . É uma doença insidiosa, antes da perda de pelo propriamente dita, os animais apresentam alteração na textura e qualidade do pelame, com perda dos pelos primários, e desenvolvimento de uma pelagem áspera, lanosa, ressecada e mais rarefeita. Com a perda progressiva dos pelos, a pele exposta ao sol começa a se pigmentar, motivo que leva a doença  a ser também conhecida como  “Black Disease”.

A alopecia X apresenta um quadro clínico bastante peculiar, no qual  os animais perdem o pelo em regiões específicas do corpo, iniciando pela face caudal e lateral de membros posteriores, região perineal, cervical e lateral de tronco. Com o tempo,  a alopecia se dissemina  por todo o tronco, poupando somente a cabeça e extremidades. O padrão da alopecia X se assemelha a outras doenças endócrinas sendo simétrica bilateral, não pruriginosa. A pele embora tendendo ser bastante ressecada, não apresenta sinais de inflamação. Devido ao ressecamento e perda da proteção pela alopecia é relativamente comum o desenvolvimento de infecções bacterianas secundárias.

Os animais que apresentam Alopecia X são hígidos sobre outros aspectos, e não apresentam alterações sistêmicas comumente observadas em outras doenças endócrinas como: poliúria, polidipsia, polifagia, alterações no comportamento sexual, alterações no grau de atividade, nem tampouco alterações laboratoriais nos exames de hemograma e bioquímica sérica e nem nos exames  imagem como ultrassonografia. Os exames hormonais de triagem endócrina para hipotiroidismo e hiperadrenocorticismo se mostram dentro da normalidade. Alguns cães, eventualmente podem apresentar alterações nos hormônios intermediários produzidos pela glândula, adrenal. Porém, em um estudo, este aumento não pode ser correlacionado com resposta positiva ao tratamento com o mitotane e melatonina, e mesmo naqueles que responderam, não foi observado diminuição destes hormônios após o tratamento, sendo concluído pelos autores deste estudo, que o crescimento piloso em cães com alopecia X não seria mediado por alterações nas concentrações dos hormônios intermediários das glândulas adrenais.

O diagnóstico da Alopecia X é considerado um diagnóstico de exclusão,  feito partir da junção dos dados do  histórico clínico, das características e topografia das lesões e pela exclusão de outras dermatopatias, como dermatofitose, demodiciose e  doenças hormonais, como: hipotiroidismo, hiperadrenocorticismo, hiperestrogenisimo. Para o diagnóstico definitivo, são realizados exames laboratoriais como hemograma, bioquímica sérica, testes hormonais para avaliação da função tiroidiana e da glândula adrenal e também pela avaliação da ultrassonografia abdominal, que permite a avaliação das glândulas adrenais e sistema reprodutor. O exame histopatológico deve ser avaliado com cautela, visto que as alterações observadas são, em geral, as mesmas em outras endocrinopatias, com maior número de folículos apresentando queratinização tricolemal (folículos em chama), um achado comumente observado até mesmo em Spitz Alemães saudáveis.

Em relação ao tratamento da Alopecia X, é importante salientar que não existe um tratamento que seja 100% eficaz para todos os animais e a possibilidade de recidiva é real, independentemente do tratamento escolhido.  Existem várias possibilidades de tratamento com diferentes percentagens de sucesso, e na escolha do tratamento deve-se  levar em consideração as vantagens e desvantagens em relação a eficácia e sobretudo segurança.

Para aqueles cães inteiros que apresentam esta condição, a castração pode levar a repilação dos pelos e resolução do quadro em partes destes animais. Naqueles cães já castrados, pode-se tentar a utilização de suplementação com melatonina. A melatonina é um hormônio produzido principalmente pela glândula pineal, e atua no controle do ciclo circadiano, tendo também ação folículo estimulante e inibitória da aromatização dos hormônios sexuais periféricos. A melatonina embora tenha baixa eficácia quando usada isoladamente, apresentando resposta em 30% dos casos, normalmente é utilizada como primeira opção pela sua segurança, com raros efeitos colaterais e utilizada como coadjuvante com outras terapias.

Outra opção terapêutica no tratamento da alopecia X é o trilostano, medicamento utilizado para tratamento de cães com hiperadrenocorticismo. O trilostano, é um inibidor competitivo e reversível da enzima 3-beta hidroxiesteroide desidrogenase (3B-HSD), responsável conversão de  17OH-Pregnenolona em 17OH-Progesterona, com consequente inibição da produção de cortisol, mineralocorticoides e esteroides sexuais cortisol.

O uso do trilostano deve ser instituído com cautela, com doses menores que as utilizadas em cães com HAC, pelo risco do desenvolvimento de hipoadrenocorticismo. Os efeitos colaterais mais comuns são inapetência, êmese, letargia, tremores, diarreia. Relatos mais graves como depressão intensa, colapso, necrose adrenal, crise addisoniana podem ocorrer de forma mais rara. Pela possibilidade de efeitos colaterais, exames hormonais de estimulação com ACTH devem ser feitos regularmente nestes pacientes para monitoramento de dosagem. Com o uso do trilostane é esperado até 60-80% de chance de resposta, sendo que melhora pode demorar até 6 meses para ocorrer.

O hormônio de crescimento (GH) pode ser utilizado no tratamento de alopecia X com possibilidade de sucesso, porém o fato de ser de difícil acesso, preço elevado e possibilidade de efeitos colaterais como o desenvolvimento de Diabetes melitus, por si desencorajam o seu uso frente à outras opções terapêuticas.

Atualmente, o microagulhamento é o tratamento aparentemente com melhor resposta terapêutica, levando a repilação em até 70%-80% dos pacientes. Trata-se de uma técnica descrita recentemente, introduzida a partir da observação de que cães com Alopecia X, que sofreram algum tipo de trauma cutâneo como exame parasitológico de raspado cutâneo, biópsia e até mesmo tosa, apresentavam repilação no local traumatizado. Em 2015, um estudo que demonstrou taxa de sucesso em 100% em dois  cães Spitz Alemães submetidos a técnica de microagulhamento pelo rolo dérmico,  foi o ponto de partida para que mais estudos fossem realizados demonstrando, de fato, a eficácia do procedimento. O microagulhamento consiste na produção de micro traumas na pele através da puntura de múltiplas agulhas. Estes micros traumas, pelo sangramento que originam, ativam o sistema plaquetário e induzem um processo inflamatório, capaz de ativar células-tronco foliculares e a liberação de diversas substâncias e fatores de crescimento, que induzem o retorno do folículo ao anágeno. O microagulhamento, realizado originalmente pelo rolo dérmico, também pode ser executado com a técnica da caneta dérmica, desenvolvida no Brasil, com menor potencial traumático e com mesma eficácia.

Outros tratamentos que visam o bloqueio de hormônios sexuais têm sido empregados no tratamento de alopecia X com resultados promissores, como a deslorelina, que é um agonista de hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH), que demonstrou taxa de sucesso de 75% em machos inteiros. Este medicamento ainda não se encontra disponível no Brasil. Outros princípios ativos, que atuam bloqueando a conversão de hormônios sexuais periféricos como o DHT e bloqueando a produção de testosterona pela glândula adrenal ainda se encontram em  fase de pesquisa.

A Alopecia X é uma condição complexa, ainda não totalmente compreendida e com resposta variada aos distintos protocolos de tratamentos existentes. Mais estudos necessitam ser desenvolvidos na elucidação da real etiopatogenia da doença, de forma que tratamentos seguros e menos invasivos possam ser estabelecidos, visto a natureza estética da doença. Sobretudo, estudos que consigam identificar os genes envolvidos na manifestação da doença e sua forma de transmissão genética poderiam quiçá no futuro eliminar a Alopecia X no cenário da dermatologia veterinária.

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Camila Domingues

Graduada em Medicina Veterinária em 2004 pela Universidade Federal de Minas Gerais. Curso de Especialização em Dermatologia Veterinária pela FMVZ/USP em 2007. Mestrado em Saúde Animal com ênfase em Dermatologia Veterinária pela FMVZ/USP em 2010. Doutorado em Clínica Veterinária com ênfase em Dermatologia Veterinária pela FMVZ/USP em 2019. Atendimento exclusivo em Dermatologia e Alergologia Veterinária desde 2007.

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