Fotobiomodulação na veterinária de pequenos animais

Quando, como e por quem esta terapia pode ser utilizada

Foto: MirasWonderland/iStock

▪ Por Profa. Flaviana Amado

A fotobiomodulação (FBM) é uma terapia que utiliza luz de laser ou LED para modular processos biológicos de forma não invasiva e não térmica. Diferentemente dos lasers cirúrgicos, que atuam por ablação, vaporização e danos térmicos, na FBM a luz é absorvida por cromóforos celulares, desencadeando uma cascata de sinais bioquímicos que resultam em analgesia, redução da inflamação, imunomodulação e regeneração tecidual. Na prática veterinária, a FBM tem aplicações amplas, como:
• Dermatologia: aceleração da cicatrização deferidas, controle de inflamações cutâneas e suporte no pós-operatório.
• Lesões musculo esqueléticas: recuperação muscular, redução da dor e estímulo à reparação óssea.
• Sistema nervoso: pesquisas em humanos e animais mostram benefícios em condições neurológicas e no suporte ao reparo cerebral.
Além da aplicação local, existe também a fotobiomodulação sanguínea, conhecida como ILIB (Intravascular Laser Irradiation of Blood). Originalmente descrita como técnica invasiva, porém, hoje, no Brasil, é realizada de forma não invasiva por via transmucosa (nasal ou oral) ou transdérmica (sobre grandes vasos superficiais, como a artéria femoral em cães e gatos). Estudos relatam que essa modalidade promove imunomodulação sistêmica, melhora a oxigenação sanguínea e até características reológicas, favorecendo a microcirculação e contribuindo para o equilíbrio sistêmico dos pacientes.

RECORTE HISTÓRICO
A fotobiomodulação começou a ser estudada na saúde humana no final da década de 1960. O marco inicial foi em 1967, quando Endre Mester utilizou laser de baixa intensidade em camundongos e observou aceleração da cicatrização cutânea e estímulo do crescimento de pelos. Desde então, a FBM tem se expandido em várias áreas humanas, incluindo dermatologia, neurologia, odontologia e reabilitação, com ampla evidência científica de seus efeitos em analgesia, cicatrização e modulação inflamatória (Hamblin,2017; Anders et al., 2015).
Na Medicina Veterinária, a aplicação é mais recente, ganhando força principalmente a partir dos anos 2000, quando começaram a surgir estudos clínicos sistematizados em cães e gatos. Desde então, a FBM tem se consolidado em dermatologia, ortopedia e neurologia, sendo hoje considerada uma ferramenta indispensável na rotina clínica e cirúrgica veterinária (Riegel & Godbold, 2017; Riegel & Godbold, 2025).

VANTAGENS DA TERAPIA
• Segurança: quando bem indicada e realizada com os parâmetros adequados, não promove efeitos colaterais, sendo uma terapia não invasiva e indolor.
• Versatilidade: pode ser aplicada em clínica geral e nas diversas especialidades da veterinária, como em dermatologia, ortopedia, neurologia, cirurgia, odontologia, entre outras.
• Benefícios clínicos consistentes: analgesia, modulação da inflamação, estímulo à cicatrização e regeneração tecidual.
• Redução do tempo de recuperação e do uso de medicações: em muitos casos, permite diminuir a necessidade de fármacos, como analgésicos e anti-inflamatórios, favorecendo uma recuperação mais rápida.
• Facilidade de aplicação: pode ser incorporada à rotina clínica sem grandes complexidades, inclusive em atendimentos ambulatoriais.
• Aplicação local e sanguínea: possibilidade de atuar diretamente nos tecidos ou pelo sangue (ILIB), ampliando seu alcance terapêutico.

CONTRAS/LIMITAÇÕES
A seguir, listo alguns pontos de atenção sobre o uso desta terapia:
• Variabilidade de protocolos: ainda não há consenso absoluto sobre parâmetros (dose, potência, tempo de aplicação), o que exige formação técnica adequada.
• Efeito bifásico da dose: doses muito baixas podem não gerar resposta; doses excessivas podem neutralizar os efeitos.
• Equipamento: aparelhos de baixa qualidade ou sem aferição confiável comprometem os resultados.
• Contraindicações da terapia: recomenda-se cautela em lesões ou doenças sem diagnóstico estabelecido e em pacientes com suspeita de neoplasia, visto que, até o presente, não se indica a aplicação dessa terapia em lesões neoplásicas. A decisão deve basear-se no bom senso clínico e no atendimento individualizado.
• Evidências ainda em construção na veterinária: grande parte da literatura vem da saúde humana, e os dados em pets estão em expansão.

Antes e depois de paciente diagnosticado com Alopecia X na clínica Dermacarevet em São Paulo tratado apenas com
fotobiomodulação: o resultado acima se deu após quase 6 meses do início do tratamento.
Fotos: arquivo clínica Dermacare Vet

PROTOCOLOS DE FOTOBIOMODULAÇÃO
Podem ser encontrados em:
Livros de referência – Riegel RJ, Godbold JC. Laser Therapy in Veterinary Medicine: Photobiomodulation. 2nd ed. Springer; 2025 — obra mais atual e completa, com protocolos organizados por especialidade.
Suárez Redondo M, Stephens BJ. Veterinary Laser Therapy in Small Animal Practice. 5m Publishing; 2019 — um guia prático para cães e gatos, com protocolos aplicados à clínica de pequenos animais.
• Artigos científicos: disponíveis em bases como PubMed e Google Acadêmico, que reúnem estudos atualizados por espécie e condição.
• Diretrizes internacionais: como as tabelas de dose da WALT (World Association for Photobiomodulation Therapy).
• Instagram @invetsci: perfil que traz conteúdos sobre fotobiomodulação e terapia fotodinâmica, sempre com base na Ciência, além de oferecer cursos de capacitação para veterinários.

COMO E QUEM PODE COMEÇARA USAR ESTA TERAPIA?
O médico-veterinário precisa de alguns pré-requisitos antes de começar a usar a Fotobiomodulação. São eles:
• Capacitação sólida: prioridade absoluta. O veterinário deve buscar conhecimento em livros de referência, artigos científicos, diretrizes da WALT e cursos especializados (como os da InvetSci), garantindo domínio dos mecanismos, indicações e protocolos.
• Equipamento adequado: adquirido de empresas de confiança, mas escolhido conforme o tipo de atendimento. Por exemplo: para quem realiza home care, equipamentos mais leves e de fácil transporte podem facilitar a rotina.
• Em clínicas e hospitais: muitas vezes é vantajoso investir em aparelhos fixos, com maior potência e variedade de ponteiras.
• Profissionais que se deslocam de carro: estes conseguem transportar tanto equipamentos portáteis quanto fixos, o que amplia as possibilidades de escolha.
• Acompanhamento clínico: registro fotográfico, ficha de parâmetros e reavaliações periódicas, assegurando controle e ajustes de acordo com a resposta do paciente.

USO NA DERMATOLOGIA VETERINÁRIA
Na Dermatologia Veterinária, a fotobiomodulação tem se mostrado eficaz em diversas condições, como:
• Feridas em geral: acelera a cicatrização e favorece a regeneração tecidual, reduzindo o risco de infecção e o tempo de recuperação.
• Dermatite úmida aguda (hot spot): auxilia no controle da inflamação, dor e prurido, acelerando a resolução da lesão.
• Dermatite acral por lambedura: favorece a cicatrização, reduz dor e quebra o ciclo de autotraumatismo.
• Alopecias não inflamatórias: estimula os folículos pilosos e pode auxiliar no crescimento de pelos.
• Pênfigo foliáceo e lúpus eritematoso cutâneo: pode contribuir para modulação da resposta inflamatória e melhora dos sinais clínicos.
• Otites externas: promove analgesia, controle da inflamação e melhora dos sinais clínicos.
• Otohematoma: auxilia na redução da inflamação e do edema, contribuindo para melhor cicatrização após drenagem ou cirurgia, além de favorecer a regeneração da cartilagem auricular em casos de dano ou fratura.
• Paniculites: reduz inflamação e dor, favorecendo a recuperação da pele e do tecido subcutâneo.
• Picadas de cobras e aranhas: auxilia no controle da dor e da inflamação local, além de estimular o reparo dos tecidos lesados.
• Fístula dos sacos anais: contribui para redução da inflamação, da dor e para a cicatrização da região perianal.
• Pós-operatório em Dermatologia: diminui edema, dor e risco de complicações, acelerando o reparo.

A fotobiomodulação se consolidou como uma terapia não invasiva, indolor e sem efeitos colaterais relevantes, representando um avanço importante na Dermatologia Veterinária.
Ela possibilita:
• Acelerar o reparo tecidual, inclusive em feridas complexas.
• Oferecer novas alternativas terapêuticas em condições de difícil manejo, como dermatite acral por lambedura, alopecias não inflamatórias, pênfigo foliáceo e lúpus cutâneo.
• Proporcionar uma recuperação muito mais rápida, reduzindo o tempo de tratamento e melhorando o bem-estar do paciente. Assim, é uma ferramenta moderna e eficaz, capaz de ampliaras opções terapêuticas e melhorar a qualidade de vida de pets com doenças dermatológicas.

Profa. Flaviana Amado
Médica-veterinária pós-graduada em Dermatologia e Biofotônica; mestra em Medicina Biofotônica; pós-graduanda em Laser em Saúde; professora convidada dos programas de pós graduação: Dermatologia e Alergologia de Cães e Gatos – Anclivepa/SP, Dermatologia Clínica – UFAPE e Oncologia – FAMESP; sócia proprietária da Dermacare Vet em São Paulo; fundadora dos Grupos: InVetSci, Fotobiovet e Vet Wounds, membro da WALT (World Association for Photobiomodulation Therapy) e da IPA (International Photodynamic Association). Instagram: @invetsc