NUTRIÇÃO PARENTERAL EM CÃES E GATOS, QUANDO POSSO USAR?


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Fonte: Ceqnep

Por: Msc. André Freccia

O suporte nutricional de pequenos animais gravemente doentes pode reduzir a morbidade e a mortalidade de muitas doenças. Na maioria dos animais, fornecendo nutrientes pela via enteral consegue-se este resultado que é simples, barato e fisiologicamente melhor tolerado. No entanto, alguns animais hospitalizados estão temporariamente incapazes para assimilar os nutrientes que são administrados pelo trato gástrico (GI) e outras formas de acesso nutricional são essencais para manutenção da exigência mínima calórica deles.

Segundo a ASPEN (2021), que é a Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral, em humanos, a desnutrição hospitalar é a causa do aumento de 3,4 vezes no número de óbitos em relação a pessoas equilibradamente nutridas. Aumento dos dias de hospitalização de 1,9 dias a mais e aumento de 2 vezes do custo de internamento por período. Se estes números já são alarmantes na medicina humana, imagine na medicina veterinária onde o médico-veterinário não sabe e não calcula a necessidade energética basal (NEB) para seu paciente internado. É neste contexto que o suporte nutricional do cão ou gato hospitalizado precisa ser revisto, estudado e incentivado para que cada vez mais os protocolos nutricionais possam ser incorporados na rotina clínica do médico-veterinário para impulsionar resultados e desta forma reduzir os dias de internamento do cão hospitalizado.

ESTUDOS E ORIGEM
A nutrição parenteral vem sendo estudada desde o final do século XIX, quando Hodder e Thomas administraram leite de vaca intravenoso em um homem (VEADO, 2019). No final dos anos sessenta, Stanley Dudrick junto da equipe liderada pelo Dr. Jonathan Rhoads, acompanhado por Harry Vars e Douglas Wilmore, provou que a administração intravenosa de todos os macros e micronutrientes podem garantir o crescimento adequado, mantendo um bom estado nutricional e o bem-estar. Os testes foram feitos em filhotes de Beagle alimentados apenas com nutrição parenteral até chegar em sua idade adulta. Essa técnica foi usada depois em medicina humana, um recém-nascido com atresia em intestino delgado que sobreviveu e foi o primeiro salvamento com nutrição intravenosa (KLEK; HARDY, 2020).

NO QUE CONSISTE?
A nutrição parenteral é fornecida por via intravenosa, podendo ser nutrição parenteral parcial ou periférica (NPP) e nutrição parenteral total (NPT). A NPT é composta por constituintes mais completos, sendo hipercalórica, porém precisa de um acesso central. A NPP pode ser aplicada em veias de menor calibre, como a cefálica, contudo a formulação é mais simples, com uma osmolaridade que é aceita pelas veias periféricas (VEADO, 2019).
A nutrição parenteral parcial (NPP) fornece apenas parte das necessidades de energia, proteína e outros nutrientes do animal, que pode ser administrada através de uma veia periférica ou central (CHAN; FREEMAN, 2006;CHAN, 2020).
De acordo com a Federação Europeia da Indústria de Alimentos para Animais de Estimação (FEDIAF, 2018), as necessidades nutricionais diárias devem ser calculadas para evitar subalimentação. Aproximadamente 60 kcal/kg/dia é razoável para as necessidades de manutenção de gatos e cães adultos. Em casos de doenças severas recomenda-se cálculos exatos (NELSON, 2015). A necessidade energética do paciente que receberá a nutrição parenteral é calculada pelo requerimento energético basal (RER). O RER é a quantidade mínima de energia necessária para as atividades basais do paciente, a forma clássica para cães e aceita internacionalmente é RER = 70x P0,75, para cães e RER = 70 x P0,67 para gatos, onde P significa peso em kg e 70 é uma constante (VEADO, 2019).
Chan et al. (2002) indica como procedimento para colocar cateter de nutrição parenteral de forma asséptica na jugular externa, safena lateral, femoral ou veia cefálica. O cateter da NP não deve ser usado para nenhum outro propósito.

POSSÍVEIS COMPLICAÇÕES
A hiperglicemia é a complicação metabólica mais frequente na nutrição parenteral. As complicações mecânicas e sépticas podem ser evitadas ou reduzidas com protocolos preventivos (CHAN; FREEMAN, 2012). Que au, et al. (2011), demonstrou que 61% dos cães que receberam NP tiveram hiperglicemia, porém a hiperglicemia não se mostrou um fator de risco para óbito. A única complicação metabólica encontrada como fator de risco para morte foi o desenvolvimento de hipercreatininemia que ocorreu em 10% dos pacientes.

VANTAGENS
Quando um animal está doente e necessita de hospitalização observa-se que na maioria das vezes, o primeiro sintoma por ele apresentado é inapetência que pode durar dias sem intervenção. A inapetência pode impedir esse paciente de se recuperar da doença primária elevá-lo à um estado de catabolismo (VEADO,2019). Após 24 horas de jejum a gliconeogênese é a única via capaz de manter a glicemia, o substrato para a síntese da glicose são os aminoácidos provenientes em maior parte do músculo esquelético, porém essa forma de conseguir glicose afeta todas as vias metabólicas (MARZZOCO; TORRES, 2015).
Em período prolongado de jejum ou subnutrição não é vantajoso para o organismo usar proteínas musculares, pois levaria o animal a fraqueza intensa. Por isso existem mecanismos protetores que preservam o músculo esquelético. A baixa concentração de glicose vai levar a mobilização de ácidos graxos do tecido adiposo (HERDT, 2021).
No entanto, em animais doentes essa resposta adaptativa não ocorre, por alterações metabólicas hormonais e nas citocinas inflamatórias que estão associadas com a resposta catabólica, sendo assim, esses animais continuam mobilizando proteínas para conseguir glicose. A perda de massa magra afeta o sistema imunológico, a cicatrização de feridas e deixa o músculo esquelético e o cardíaco enfraquecidos. O suporte nutricional deve ser usado não só para animais desnutridos, mas também para atenuar a perda de peso (CHAN;FREEMAN, 2012). Segundo Brunettoet al.(2010), mesmo em doenças graves a administração de alimentos pode melhorar a recuperação. O estudo concluiu que fornecimento de energia a animais hospitalizados através de diversas formas de suporte nutricional foi associado positivamente à alta hospitalar, mostrando-se uma importante resposta terapêutica. A condição corporal foi associada ao desfecho hospitalar, já que a taxa de morte foi maior em animais com baixo ECC (escore de condição corporal).
Muitas são as lacunas na nutrição parenteral em cães e gatos que precisam ser esclarecidas e evangelizadas para a maior parte dos médicos veterinários que trabalham com internamento e intensivismo, pois o fornecimento precoce de nutrição parenteral é benéfico, mesmo em casos que o fornecimento calórico não foi completamente atendido.
A NP mostra-se eficaz na redução do tempo de internação, reduz a taxa de mortalidade no internamento quando comparados a pacientes que não receberam suporte nutricional e mantém menos apáticos, mantendo seu peso corporal.
As principais limitações quanto ao uso são a falta de profissionais qualificados para prescrever as nutrições parenterais, empresas capacitadas para fornecer de forma confiável e com qualidade recomendada dento dos padrões nacionais e internacionais de bioseguridade. Necessita-se mais estudos a respeito da desnutrição hospitalar em cães e gatos, avaliando o escore corporal, tempo de suplementação e diferentes requerimentos de uso da NPP e NPT em pacientes críticos hospitalizados assim como o atendimento mínimo dos requerimentos nutricionais por via enteral.

REFERÊNCIAS

ASPEN (2021).https://doi.org/10.1002/ncp.10771

BRUNETTO, M.A.et al. Effects of nutritional support on hospital outcome in dogs and cats. J Vet Emerg CritCare. San Antonio. v. 20(2), pp224–231, april 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20487250/. Acesso em 21 mai. 2022.

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André Freccia Médico-vetrinário com mestrado no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2011). Atua, principalmente, nos seguintes temas: manejo alimentar, dietas prescritivas, formulações de rações, metaboloma e endocrinologia. Atualmente é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) dedicando ao projeto da tese na área de nutrição parenteral de cães. Docente da Fundação Educacional Barriga Verde – FEBAVE (UNIBAVE/SC) nos cursos de Agronomia e Medicina Veterinária. Membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE) e Colegiado do Curso de Medicina Veterinária do Curso de Medicina Veterinária (UNIBAVE/SC). Coordenador do CEUA (Comitê de Ética em Uso de Animais) do UNIBAVE.