Neoplasia pulmonar primária no paciente felino – como conduzir esses casos?


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Por Paloma Helena Sanches da Silva e Rodrigo dos Santos Horta

Neoplasia pulmonar primária no paciente felino – como conduzir esses casos?

Primary pulmonary neoplasia in the feline patient – how to manage these cases?

ABSTRACT

Lung tumors of primary origin are relatively uncommon in cats. However, adenocarcinoma is considered the main primary neoplasm that affects the lungs of elderly cats. It has poor prognosis, especially when the tumor is poorly differentiated and there are signs of disease progression, such as the presence of respiratory clinical signs, pleural effusion and metastasis. The purpose of this article is to guide the approach of the feline patient with this type of pathology.

Keywords: Cats; Oncology; Lung, neoplasia, lobectomy.

Neoplasias pulmonares primárias são mais frequentes em seres humanos que em pacientes felinos cuja prevalência corresponde a uma taxa inferior de 1% detectada durante a necropsia1,2,3. Ocorre principalmente em gatos entre 11 e 13 anos, sem predileção racial1,2,3,4.

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Os lobos pulmonares mais frequentemente acometidos pelas neoplasias pulmonares primárias são os caudais, sendo o lado direito em 49% e o caudal esquerdo em 30%1,6. Dentre os tipos neoplásicos observa-se predomínio dos carcinomas pulmonares de células não pequenas, destacando-se os adenocarcinomas, que compreendem mais que a metade dos casos relatados, podendo alcançar até 90%, com destaque para os padrões histológicos papilar e acinar. Outros carcinomas podem ocorrer, com destaque para o carcinoma espinocelular (11,8%), adenoescamoso e anaplásico3,5. O comportamento biológico dessas neoplasias encontra-se diretamente relacionado ao grau de diferenciação, entretanto, de uma forma geral, metástases podem ocorrer em até 80% dos casos, com destaque para as metástases intratorácicas, no próprio tecido pulmonar, linfonodos traqueobrônquicos e mediastinais, mas também em outros órgãos1,3,4. Ocasionalmente os gatos podem ser acometidos por um quadro de acrometástase (Fig. 1), reconhecido como síndrome dígito-pulmonar, no qual ocorre metástase óssea nas falanges distais, cursando com claudicação e sangramento na base da unha. O envolvimento digital pode ser simples ou múltiplo, inclusive de membros diferentes. Aproximadamente 1 a cada 8 lesões em dígitos de gatos são neoplásicas e, dessas, quase 90% são metástases de neoplasias pulmonares primárias7.

Figura 1. Representação esquemática da síndrome dígito-pulmonar (Acrometástse) em felino com neoplasia pulmonar primária e metástase em dígito. marcação em vermelho sinalizando local de metástase em dígito a partir de neoplasia pulmonar primária, caracterizando quadro de acrometástase em felino.

Os animais podem ser assintomáticos, sendo a neoplasia um achado incidental durante a realização de exames de imagens complementares. No entanto, a maioria apresenta sinais clínicos, sendo relatado quadro de tosse (37%), pela presença de efusão (30%) ou pneumotórax (4%), como consequência da infiltração de células neoplásicas, bem como da compressão causada pela neoformação. Sinais inespecíficos como anorexia e inapetência (39%) também podem estar presentes. Claudicação pode ocorrer na síndrome dígito-pulmonar.

Exames radiográficos simples do tórax (Fig. 2) ou até mesmo exames avançados de imagem são indicados para investigar se há indícios de neoplasia pulmonar. Nesse momento é importante averiguar se a doença pulmonar remete a um quadro primário ou metastático. Após uma anamnese/histórico detalhados, exame físico completo e ultrassonografia abdominal, pode ser possível responder esse questionamento. A tomografia computadoriza do tórax é indicada então para estadiamento clínico e planejamento cirúrgico2. A coleta de material para citologia ou histopatologia anterior à cirurgia é de pouco auxílio, principalmente diante de lesões pulmonares isoladas e a citologia apresenta, usualmente baixa sensibilidade, com resultado inconclusivo em aproximadamente 40% dos casos5,6. Sendo assim, o diagnóstico definitivo é usualmente alcançado, pelo exame histopatológico, realizado após a intervenção cirúrgica para retirada do tecido pulmonar acometido1,8.

Figura 2: Radiografia torácica látero-lateral direita de felino evidenciando pneumotórax e massa solitária localizada em lobo caudal esquerdo (seta vermelha). Fonte: Arquivo pessoal.

A cirurgia desempenha papel importante não só no diagnóstico e estadiamento da neoplasia pulmonar primária em felinos, mas também continua sendo a melhor opção de tratamento da doença, desde que seja possível a ressecção completa da massa solitária (usualmente por lobectomia pulmonar total) e dos linfonodos traqueobrônquicos e mediastinais quando estes também estão acometidos. No entanto, mesmo após a ressecção tumoral completa como tratamento único, a mediana de sobrevida em felinos é de 115 dias, embora o prognóstico possa ser consideravelmente melhor em pacientes sem sinais clínicos, com tumores bem diferenciados e ausência de metástases em linfonodos regionais2,9. Felinos com metástase pulmonar e linfonodos alterados podem ter sobrevida média reduzida, de 67 dias apenas, em comparação com aqueles que não têm a disseminação da doença nesses órgãos. Da mesma forma, a remoção da neoplasia pulmonar primária de alto grau pode implicar em um tempo médio de sobrevida de 105 dias, ao passo que aquelas cujos graus são baixos e intermediários podem ter sobrevida média de 730 dias após a cirurgia2. A quimioterapia é uma abordagem ineficaz no controle da doença, embora seja encorajada, principalmente em pacientes com tumores pouco diferenciados e metástases em linfonodos, com relatos de sobrevida prolongada em gatos submetidos à quimioterapia adjuvante, particularmente com a mitoxantrona, embora os estudos sejam escassos1,8. Novas formas de administração de quimioterápicos, particularmente as vias intrapleural ou intrabronquial podem favorecer o tratamento no futuro, bem como o desenvolvimento de terapias alvo-molecular específicas, aplicáveis ao paciente felino.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Rodrigo dos Santos Horta

– Graduação em Medicina Veterinária UFMG
– Mestrado e Doutorado em Ciência Animal – Medicina e Cirurgia Veterinárias UFMG / University of Cambridge (Reino Unido)
– Professor Adjunto do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias UFMG
– Editor associado do Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Paloma Helena Sanches da Silva

– Graduação em Medicina Veterinária UFRRJ
– Residência Multiprofissional em Medicina Veterinária pela UFF
– Residência integrada em Medicina Veterinária na área de Cirurgia de Animais de Companhia UFMG
– Mestranda em Ciência Animal – Medicina e Cirurgia Veterinárias UFMG

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