Medicina veterinária nos Estados Unidos: por quê todo profissional deveria pensar em seguir esse caminho?


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Por Matheus Bahia

Instalação do All 4 Pets Emergency Hospital Foto: Divulgação

Os Estados Unidos possuem a maior economia do mundo. País sólido, forte, democrático, livre e com oportunidades ímpares para se fazer negócios e desenvolver a carreira.
Tais características tornam essa grande nação um excelente local para prosperar e viver com qualidade. Quando pensamos especificamente na medicina veterinária, alguns pontos se juntam a esses já citados. Ao contar um pouco da minha experiência, irei abordar os pontos que, na minha visão, são grandes diferenciais e precisam ser ponderados por quem pensa em buscar novos ares na terra do Tio Sam.

Me formei como médico-veterinário na UFRRJ há 10 anos, tenho um carinho enorme pela instituição, tendo sido também o local onde fui residente em cirurgia de pequenos animais. Durante muito tempo, me dediquei a cirurgia de tecidos moles, mais precisamente a vídeo cirurgia, área a qual cultivo grande admiração e entusiasmo. Junto com essa paixão, também descobri outra fascinante área da veterinária: Gestão hospitalar, que se tornou um capítulo a parte nesta jornada.

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Quando pensamos na formação de médico-veterinário, devemos considerar o número de faculdades existentes no Brasil: mais de 500. É até difícil precisar o número exato, visto a constante abertura de novos cursos. O grande número de instituições gera, pelo menos, dois problemas básicos: qualidade do ensino e número de profissionais lançados no mercado. O primeiro se torna preocupante: faculdades sem estrutura física necessária, professores acumulando mais de uma matéria para lecionar, carga horária reduzida, falta de aula prática imersiva e pouco tempo destinado a vivências como estágios, são alguns pontos que precisam ser questionados e solucionados. A lei da oferta e demanda é implacável no mercado de trabalho, o grande número de profissionais gera maior oferta de mão de obra, entretanto a demanda pelo serviço, apesar de crescente, não segue o mesmo ritmo. Resultado: salários mais baixos e condições de trabalho ruins.
Nos Estados Unidos, existem apenas 33 faculdades licenciadas pelo AVMA (American Veterinary Medical Association), que seguem um alto padrão de qualidade estrutural e curricular. Se o número de faculdades é baixo, o número de profissionais que se formam anualmente também é. Vale lembrar que o país norte americano possui uma população em torno de 50% maior que a brasileira, o que gera maior demanda por serviços veterinários. Se levarmos todas essas variáveis em conta, a comparação fica muito mais favorável para os Estados Unidos: salários mais altos e melhores condições de trabalho são características presentes no mercado veterinário.

Como um profissional formado no Brasil pode usufruir destas vantagens oferecidas pelo mercado americano? Para atuar nos Estados Unidos como médico-veterinário, o interessado deve se perguntar qual área de atuação ele quer seguir. Algumas exigem validação de diploma, outras não. De forma simples e geral, na carreira acadêmica como residência, mestrado, doutorado e docência não há a necessidade de validar o diploma, da mesma forma ocorre em algumas posições de consultores técnicos na indústria farmacêutica ou alimentícia. Claro que existem exceções. Para atuar na prática de clínicas e hospitais privados, o médico-veterinário precisa passar pelo processo de validação de diploma para obter a licença do estado. O caminho mais utilizado para isso é através do ECFVG (Educational Commission for Foreign Veterinary Graduates), processo longo e com alto valor de investimento, composto por algumas provas teóricas e práticas sobre todo o conteúdo veterinário, além de prova de proficiência de língua inglesa e análise de documentos da universidade de origem. Para cumprir todas as etapas, o tempo médio é de 2 a 3 anos, dependendo do ritmo de estudo e disponibilidade de investimento do candidato. Após concluir o processo, o profissional também precisa ser aprovado no exame de validação nacional, o NAVLE (North American Veterinary Licensing Examination).

Centro cirúrgico e UTI do All 4 Pets Emergency Hospital – Fotos: Divulgação

Falaremos mais a fundo sobre a atuação no mercado privado num parágrafo próximo, mais precisamente em clínicas e hospitais de pequenos animais. Esse é o caminho que eu escolhi trilhar nos Estados Unidos. Depois de muitos anos atuando no Brasil nas áreas de gestão, docência e vídeo cirurgia, entendi que era necessário buscar novos desafios. Sou extremamente grato a tudo que a medicina veterinária me proporcionou no meu país, apesar de todos os desafios enfrentados, pude ter momentos ímpares de muita felicidade e realizações. A escolha por mudar de país se deu pela oportunidade e por entender que minha missão no Brasil estava cumprida, viajei pelas 5 regiões ministrando cursos e palestras, com a responsabilidade de falar sobre o que acredito como veterinária de qualidade e com muito respeito aos pacientes.

Foto divulgação

No início de 2022, me juntei a um seleto grupo de sócios que havia desenvolvido um projeto para montar um hospital veterinário na região de Orlando, estado da Flórida. A veia empreendedora, que já vinha despertando em mim, ganhou força e resolvi abraçar o projeto. Alguns meses depois e após resolver questões imigratórias, a mudança para os Estados Unidos aconteceu para o projeto ganhar vida. O mercado é segmentado e existem, basicamente, 3 tipos de clínicas/hospitais: clínicos gerais de cuidados primários, centros de especialidade e centros de emergência/urgência. Optamos por montar uma emergência 24 horas, focada em receber encaminhamentos de clínicas menores e também clientes sem hora marcada. Nascia o All 4 Pets Emergency Hospital.

Foto divulgação

Nosso hospital veio com o objetivo de suprir uma necessidade por serviços 24 horas na região de Orlando. Após análise do mercado local, entendemos que esse seria o melhor caminho para a estratégia que queríamos seguir. Empreender nos Estados Unidos tem grandes vantagens, o país pulsa oportunidades e negócios, o comércio é forte, o senso de comunidade estimula as pessoas a consumirem os serviços da região em que moram e o sistema tributário é muito mais simples quando comparado ao brasileiro. Atualmente, já estamos em pleno funcionamento, nossa equipe é composta por mais de 40 profissionais e atendemos mais de 500 pacientes mensalmente, número que só vem aumentando com o passar do tempo. A estrutura do hospital conta com centro de diagnóstico por imagem (Tomografia, raio-x e ultrassonografia), laboratório, centro cirúrgico, internação e consultórios separados para cães e gatos. Em breve, a marca passará por uma expansão e novas unidades serão inauguradas em outras cidades da Flórida.

Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação

Nos serviços veterinários do país norte-americano, a presença do technician, que seria como o auxiliar veterinário no Brasil, é fundamental e indispensável. O technician tem grande autonomia e responsabilidade, o que exige que ele tenha conhecimento amplo no cuidado de cães e gatos. Realização da anamnese, exame físico, manejo de internados, monitoração anestésica, conferências dos orçamentos e contato com o cliente são funções dos techs. O veterinário é o responsável por comandar todo o ambiente do hospital, coordenando os techs, atribuindo funções e sendo a cabeça pensante para os casos e tomadas de decisões clínicas. Essa é mais uma grande diferença quando comparamos com o Brasil. A medicina de emergência é muito objetiva e eficaz, visando a estabilização do paciente e rápida identificação do problema principal, todo o fluxo hospitalar é desenhado para que essa meta seja atingida.

A escassez de mão de obra veterinária já se tornou assunto de discussão do AVMA, com um crescimento de mercado esperado até 2030, acompanhado pelo ainda baixo número de faculdades, os Estados Unidos estão pensando sobre a possibilidade de não haver veterinários o suficiente para suprir a demanda por serviços. Diante destes cenários, os salários vêm subindo substancialmente, chegando até 250 mil dólares anuais para plantonista de emergência, com carga horária de 36 horas semanais, dependendo do estado.
Além do salário base, metas de produtividade e pacote de benefícios como seguro saúde, férias remuneradas, reembolso de alimentação e gasolina, educação continuada paga e auxílio mudança são comumente encontrados nas ofertas e anúncios de empregos.

Certamente, o mercado norte-americano oferece grandes vantagens e desafios para os profissionais que buscarem seguir esse caminho. Vale destacar que o Brasil possui veterinários com grande capacidade técnica, sendo um reduto de nomes de destaque na veterinária mundial. Infelizmente, assim como todo país em desenvolvimento, o Brasil enfrenta desafios importantes e os médicos veterinários passam por situações difíceis diariamente. O mercado dos Estados Unidos não é livre de problemas, mas se mostra como opção interessante para os profissionais que buscam novos ares dentro da medicina veterinária. O processo para atuar no país não é simples, porém com certeza é extremamente recompensado.

Matheus Bahia

Médico Veterinário – UFRRJ; Residência em Cirurgia de Pequenos Animais – UFRRJ; Sócio Proprietário - All 4 Pets Emergency Hospital.

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