Linfoma felino: Revisão de literatura


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Por Elaine Erika Tsuruda e Dr. Carlos Eduardo Fonseca Alves

RESUMO

O linfoma é uma neoplasia sistêmica que afeta diversas regiões do organismo dos felinos, envolvendo tecido linfóide. Em gatos, é considerada a neoplasia mais prevalente, porém, sua apresentação clínica varia consideravelmente. A determinação do prognóstico é influenciada pelo local de acometimento da doença e pela resposta individual do paciente ao tratamento. A aplicação de terapias de suporte desempenha um papel fundamental na promoção do bem-estar desses animais.
A importância epidemiológica do linfoma felino se destaca pela falta de informações sobre sua incidência e prevalência no Brasil e no mundo. Esta lacuna no conhecimento epidemiológico dificulta a compreensão completa da distribuição da doença e de seus fatores de risco, o que pode impactar a implementação de estratégias de prevenção e controle. Assim, essa revisão tem por objetivo atualizar os aspectos epidemiológicos, clínicos e terapêuticos sobre o linfoma felino.

Palavras-chave: Prognóstico, Incidência, Prevalência

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INTRODUÇÃO

Com o avanço da medicina veterinária, ocorreu um aumento na expectativa de vida dos animais domésticos, e com isso, vêm aumentando a ocorrência de doenças crônicas, como o câncer, na qual a idade é um fator importante (CRISTO, 2018).

Linfoma é um termo abrangente para uma extensão de subclasses de uma neoplasia com malignidade variada, que depende diretamente do grau de acometimento, escore corporal do paciente, origem, e classificação histomorfológica. É a neoplasia hematopoiética mais comum na rotina clínica de felinos (KRICK, 2011).

Os linfomas são neoplasias que surgem da proliferação clonal de linfócitos malignos em qualquer órgão ou tecido. Essa doença sistêmica pode afetar várias localizações anatômicas em gatos, sendo o local de origem um dado importante, pois cada tipo de linfoma em felinos tem um prognóstico e tratamento distintos. O prognóstico é determinado principalmente pelo local do tumor e pela resposta individual do paciente ao tratamento estabelecido. Além disso, o suporte durante o tratamento é fundamental para garantir o bem-estar e a tolerância ao tratamento específico (PIZA, 2023).

O linfoma representa cerca de um terço das neoplasias nos felinos domésticos, acometendo principalmente o trato gastrointestinal (PIZA, 2023). Os tipos frequentes de linfoma extranodal em felinos abrangem variações como linfoma nasal, renal, ocular, cutâneo e do sistema nervoso central ou periférico. A prevalência de linfomas no sistema nervoso geralmente se manifesta como linfoma multicêntrico, enquanto a ocorrência de linfoma primário no sistema nervoso é documentada de forma atípica. Esses casos são relatados esporadicamente, envolvendo situações isoladas no cérebro, medula espinhal e/ou nervos. Além disso, é mais comum encontrar descrições em séries de casos que abordam tanto linfomas primários quanto secundários no sistema nervoso (RISSI et al., 2022). Considerando que a imunossupressão é um estado que pode predispor ao desenvolvimento de neoplasias em geral, o vírus da leucemia felina (FeLV) se torna um fator predisponente  ao linfoma (CRISTO, 2018). Os sinais clínicos são amplos e incluem letargia, falta de apetite, perda de peso, vômito e diarréia (MASON, 2022). Devido à escassez de dados epidemiológicos das diferentes neoplasias que acometem os gatos no Brasil, o objetivo deste trabalho foi realizar um estudo epidemiológico sobre os felinos acometidos por linfoma no Brasil.

REVISÃO DA LITERATURA

Etiologia e Epidemiologia

O linfoma é uma neoplasia hematopoiética que ocorre com maior frequência em gatos, sendo responsável por cerca de um terço dos tumores diagnosticados nessa espécie (KRUPA et al., 2022). A incidência do linfoma felino é considerada a mais elevada em comparação com outras espécies. Após a redução da incidência da infecção pelo vírus da leucemia felina (FeLV) nos Estados Unidos, que é um fator de alto risco para o desenvolvimento de linfoma, houve um aumento na ocorrência deste tumor. É importante ressaltar que os linfomas de grau intermediário a alto são identificados com frequência, afetando principalmente o trato gastrointestinal, com uma incidência que varia de 27% a 72%. Essas informações são relevantes para compreender a prevalência e a localização predominante dos linfomas em gatos, auxiliando no diagnóstico e tratamento adequados dessa neoplasia (KRUPA et al., 2022).

Vários fatores justificam a incidência deste tumor, como a idade, sexo, raça, esterilização cirúrgica, entre outros fatores.

A forma maligna de linfoma predomina entre as condições mais frequentes em gatos, sendo o trato gastrointestinal o local de origem principal comumente impactado. Em relação à prevalência, o linfoma é a neoplasia intestinal mais comum em gatos representando 55%, seguidos do adenocarcinoma 32% e mastocitoma 4%, todos diagnosticados histologicamente (BARRS & BEATTY, 2012). Existe uma relação do retrovírus da imunodeficiência viral felina (FIV) e da leucemia viral felina (FeLV) com o aparecimento dos linfomas. As taxas de prevalência do FIV em países da América do Sul, como o Brasil, variam entre 5,63% e 11.7% (BIEZUS et al., 2019), mas diferentemente dos relatos em São Paulo e Rio de Janeiro, em que as soroprevalências das populações urbanas de gatos domésticos foram de 12,9% e 21% (FILONI et al., 2008).

O vírus do FeLV possui maior impacto global e é mais patogênico, causando maiores síndromes clínicas do que outros agentes infecciosos em gatos (HARTMANN, 2012).

No Brasil, o percentual de  associação entre linfoma e infecção por FeLV tem sido maior ao encontrado em outros países (CRISTO et. al., 2019).

Sinais clínicos

O Linfoma Gastrointestinal de Células Grandes (LGAL) é uma condição clínica que apresenta diversos sinais característicos. Entre os principais sintomas observados, destacam-se a perda de peso, que ocorre em cerca de 80% dos casos, seguidas por vômitos (70%), diarreia (60%) e anorexia parcial ou completa (50%). É importante ressaltar que, em alguns casos, o apetite pode se manter normal, ou até mesmo ocorrer polifagia em determinadas situações. Além disso, outros sinais menos frequentes incluem letargia e polidipsia. Geralmente, esses sintomas clínicos persistem de forma crônica, ou seja, estão presentes por um período superior a um mês. Durante a avaliação abdominal, é comum identificar anormalidades, sendo que aproximadamente um terço a mais da metade dos gatos afetados apresentam alças intestinais com espessamento difuso. Em cerca de 20-30% dos casos, é possível palpar uma massa abdominal, resultado do aumento dos linfonodos mesentéricos ou, em situações raras, de uma massa intestinal focal (BAARS & BEATTY, 2012).

Diagnóstico

No diagnóstico do linfoma felino, é fundamental analisar a história clínica, sintomas, sinais clínicos, resultados do exame físico e estado retroviral do gato. Esses dados desempenham um papel crucial no processo de citodiagnóstico e na determinação do prognóstico. A citologia é uma abordagem rápida, eficaz e não invasiva para o diagnóstico, conforme mencionado por Twomey em 2005.

Entretanto, o diagnóstico citológico do linfoma felino pode ser desafiador devido à localização do tumor e à morfologia celular. Em muitos casos, a histopatologia é necessária para alcançar um diagnóstico definitivo, como destacado também por Twomey em (2005). Além dos exames morfológicos, pode haver necessidade de exames de imagem para melhor avaliação da doença. Radiografias torácicas podem revelar massas opacas de partes moles no mediastino cranial, que levam ao colapso de lobos dos pulmões e elevação da traquéia (YU, 2022) (Figura 1).

Figura 1: Radiografia torácica de um gato com massa mediastinal e efusão torácica. É possível notar deslocamento dorsal da traqueia e uma enorme massa, com densidade de tecidos moles, que ocupa a porção cranial do tórax.
Arquivo pessoal, 2023.

Em muitos casos, a biópsia é necessária para realização do diagnóstico definitivo, principalmente em gatos com linfoma gastrointestinal (Figura 2). Os linfomas do trato gastrointestinal podem ser semelhantes à outras doenças que acometem o intestino, dentre elas a enteropatia por perda de proteínas, enteropatia responsiva à antibióticos, enteropatia responsiva à alimentação e a enteropatia responsiva à glicocorticóides (SANTOS et al., 2022, MARSILIO et al., 2023). Assim, ter o diagnóstico definitivo para os pacientes com diarreia crônica é essencial. Paciente com quadro de diarréia persistente por mais de três meses são considerados pacientes com diarreia crônica, e esses diagnósticos diferenciais devem ser excluídos na abordagem do paciente.

Figura 2: Região de grande espessamento intestinal e presença de massa em região de intestino identificada durante biópsia de paciente com suspeita de linfoma intestinal.
Arquivo pessoal, 2023.

Avanços recentes no campo diagnóstico, como o uso da ultrassonografia abdominal, têm melhorado a capacidade de identificar alterações relacionadas à infiltração neoplásica. Esses avanços podem ter influenciado a reclassificação dos estágios do linfoma felino, conforme mencionado por Williams et al. (2021).

No contexto clínico, os marcadores de diferenciação celular (CD) relevantes incluem o CD3, que é específico para células T. Através da citometria de fluxo, é possível analisar os linfócitos presentes em suspensões celulares e identificar os subtipos celulares envolvidos. Essa técnica também é útil para distinguir células linfóides de outras linhagens celulares, como células granulocíticas e monocíticas. Além disso, a reação em cadeia da polimerase (PCR) pode ser empregada para detectar subtipos de linfócitos e determinar se a população de células é monoclonal ou policlonal.

Fatores prognósticos

As variáveis prognósticas relacionadas ao linfoma em felinos ainda carecem de esclarecimento. É observado que muitos gatos com linfoma extranodal apresentam uma patologia localizada em estágio I, em um sítio acessível. Uma questão de extrema relevância para os pacientes com linfoma extranodal aparentemente delimitado é determinar se o tratamento exclusivamente localizado é suficiente ou se é necessário também um tratamento sistêmico. Além disso, é comum a falta de informações específicas sobre situações particulares, como o linfoma intramuscular circunscrito. Nesses casos, é fundamental confiar na classificação minuciosa do paciente, especialmente quando se considera uma abordagem terapêutica exclusivamente local (MOORE, 2013).

Tratamento

A cirurgia é uma opção recomendada para aliviar a obstrução e o desconforto associados a massas no trato gastrointestinal de gatos. Diversos protocolos de tratamento têm sido documentados para o linfoma felino, apresentando resultados variados. A literatura existente abrange uma ampla gama de estratégias de quimioterapia, sendo os protocolos baseados em COP (ciclofosfamida, vincristina, prednisolona ou prednisona) ou em CHOP (ciclofosfamida, doxorrubicina, alcalóide da vinca, prednisolona ou prednisona) os mais frequentemente mencionados. Esses protocolos geralmente são administrados ao longo de um período de um ano ou mais. Atualmente, não há um “padrão-ouro” estabelecido para o tratamento do linfoma felino, o que resulta em uma considerável disparidade nos protocolos terapêuticos adotados por diferentes profissionais veterinários (COLLETTE et al., 2015).

Prognóstico

O fator prognóstico mais comumente mencionado para gatos diagnosticados com linfoma, independentemente da localização, é a resposta ao tratamento. Embora essa premissa pareça logicamente evidente, nem todas as categorias de neoplasias seguem essa tendência (MOORE, 2013). Aqueles gatos com linfoma que não recebem tratamento ou são tratados apenas de forma paliativa geralmente apresentam períodos de sobrevida bastante reduzidos. No entanto, nem todos os estudos categorizam os pacientes de acordo com a localização do linfoma. Em dois estudos preliminares, a média de sobrevida para gatos não tratados variou de 5 dias (em um grupo de 16 gatos) a 2 semanas (em um grupo de 15 gatos) (MOORE, 2013).

CONCLUSÃO

O linfoma felino apresenta grande relevância na rotina clínica veterinária, e são necessários mais dados nacionais sobre essa neoplasia para um melhor entendimento da doença no Brasil.

Referências:

BARRS, V.; BEATTY, J. Feline alimentary lymphoma: 1. Classification, risk factors, clinical signs and non-invasive diagnostics. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 14, n. 3, p. 182-190, 2012. DOI: 10.1177/1098612X12439265.

BIEZUS, G. et al. Phylogenetic identification of feline leukemia virus A and B in cats with progressive infection developing into lymphoma and leukemia. Virus Res, Amsterdam, v. 329, p. 199093, maio 2023. DOI: https://doi.org/10.1016/j.virusres.2023.199093.

COLLETTE, S. A. et al. Treatment of feline intermediate to high-grade lymphoma with a modified university of Wisconsin–Madison protocol: 119 cases (2004–2012). Veterinary and Comparative Oncology. DOI: https://doi.org/10.1111/vco.12158.

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KRUPA A, de Vos J, Van Eetvelde L, Teske E. Pegylated asparaginase in feline high-grade lymphoma: clinical results of single injection and continued incorporation into a modified COP regimen. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2022;24(8):e203-e213. doi:10.1177/1098612X221101533

MARSILIO S, Freiche V, Johnson E, Leo C, Langerak AW, Peters I, Ackermann MR. ACVIM consensus statement guidelines on diagnosing and distinguishing low-grade neoplastic from inflammatory lymphocytic chronic enteropathies in cats. J Vet Intern Med. 2023 May-Jun;37(3):794-816. doi: 10.1111/jvim.16690. Epub 2023 May 2. PMID: 37130034; PMCID: PMC10229359.

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Elaine Erika Tsuruda

Graduação UFV – Universidade Federal de Viçosa; Pós-graduação: Medicina Felina (Equalis), Cirurgia Oncológica e Reconstrutiva (Unesp Jaboticabal), Oncologia (Instituto Bioethicus); Mestranda: UNESP Botucatu com ênfase em Oncologia Felina.

Dr. Carlos Eduardo Fonseca Alves

Graduou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Goiás (2004-2008) e foi residente em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Faculdade UPIS (2009-2011). Realizou especialização em Oncologia Veterinária pelo Instituto Bioethicus (2011-2013), Mestrado (2011-2013) e Doutorado (2013-2016) em Medicina Veterinária (Área Patologia Comparada) pela Universidade Estadual Paulista - Julio de Mesquita Filho (UNESP), campus de Botucatu. Realizou estágio de Pesquisa no Exterior (Bolsa BEPE) durante o doutorado no Institute for Comparative Cancer Investigation na University of Guelph (2015-2015). Fez Pós-doutorado na área de Patologia Comparada na FMVZ-UNESP, campus de Botucatu (2016-2019). Realizou programa BEPE/FAPESP em pesquisa do pós-doutorado na área de Oncologia Genética Humana no Vejle Hospital - University of Southern Denmark (2019-2019). Atualmente é professor permanente dos Programas de Pós-graduação em Biotecnologia Animal e PPG em Medicina Veterinária, da FMVZ-UNESP e Professor Titular da Universidade Paulista - UNIP, campus de Bauru. Atua principalmente nos seguintes temas: clínica médica de pequenos animais, oncologia comparada, próstata, neoplasias mesenquimais, glândula mamária e neoplasias de pênis.

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