
Por Alessandra Ribeiro Lucena
RESUMO
O trabalho descreve o acompanhamento clínico de uma cadela com tosse persistente, cuja investigação buscou diferenciar possíveis causas respiratórias e cardíacas. Inicialmente, o quadro foi compatível com broncopatia crônica, sendo instituído tratamento voltado ao controle da inflamação, secreção e possível infecção. Apesar de apresentar melhora parcial, a tosse não cessou completamente, indicando que o protocolo terapêutico não contemplava toda a complexidade da doença, que apresentava evolução progressiva. Com o agravamento dos sinais clínicos, novos exames foram realizados, incluindo tomografia computadorizada e uma segunda broncoscopia. Esses exames revelaram broncomalácia, condição caracterizada pelo colabamento das vias aéreas, explicando a persistência da tosse mesmo após intervenções iniciais. A confirmação do diagnóstico permitiu um ajuste mais específico do tratamento, direcionado ao suporte das vias aéreas e ao controle das alterações estruturais crônicas. O manejo passou a incluir broncodilatadores, mucolíticos, anti-inflamatórios, nebulizações e suporte intensivo em momentos de descompensação, resultando em estabilização progressiva do quadro. Embora fossem observadas alterações cardíacas leves compatíveis com valvulopatia degenerativa inicial, concluiu-se que elas não eram responsáveis pelos sinais respiratórios. Ao final do acompanhamento, houve melhora significativa, com redução da dispneia e controle da tosse, embora episódios ocasionais ainda ocorram devido ao caráter crônico da broncomalácia.
Palavras-chave: Bronquite. Cão. Ecocardiograma. Endocardiose. Traqueobroncomalácia.
ABSTRACT
This paper describes the clinical follow-up of a female dog with a persistent cough, whose investigation sought to differentiate possible respiratory and cardiac causes. Initially, the condition was consistent with chronic bronchopathy, and treatment focused on controlling inflammation, secretion, and possible infection was instituted. Despite partial improvement, the cough did not completely cease, indicating that the therapeutic protocol did not address the full complexity of the disease, which was progressing. With the worsening of clinical signs, further examinations were performed, including computed tomography and a second bronchoscopy. These examinations revealed bronchomalacia, a condition characterized by airway collapse, explaining the persistence of the cough even after initial interventions. Confirmation of the diagnosis allowed for a more specific adjustment of the treatment, directed at supporting the airways and controlling chronic structural changes. Management then included bronchodilators, mucolytics, anti-inflammatories, nebulizations, and intensive support during decompensation episodes, resulting in progressive stabilization of the condition. Although mild cardiac changes consistent with early degenerative valvular disease were observed, it was concluded that they were not responsible for the respiratory signs. At the end of the follow-up, there was significant improvement, with a reduction in dyspnea and control of the cough, although occasional episodes still occur due to the chronic nature of bronchomalacia.
Keywords: Bronchitis. Dog. Echocardiogram. Endocardiosis. Tracheobronchomalacia.
RELATO DE CASO
Uma cadela SRD, 8 anos, castrada, pesando 8,9 kg, foi atendida em 3 de maio de 2024, com histórico de mastectomia unilateral (cadeia mamária esquerda), e diagnóstico de sarcoma mioeptelial de baixo grau e adenocarcinoma bem diferenciado. A responsável relatou presença de tosse progressiva nos últimos 3 meses, engasgos mais frequentes, possivelmente associados ao quadro alérgico devido a obra intensa no vizinho. O paciente realizou o exame ecocardiográfico como parte da avaliação de risco cirúrgico para tratamento periodontal e broncoscopia que demonstrou alterações compatíveis com valvulopatia degenerativa no estágio B1. Um exame radiográfico demonstrou discreto colapso traqueal e sugestão de pneumonia com padrão alveolar e bronquial. Após o diagnóstico de pneumonia, foi iniciado tratamento injetável por 3 dias (como descrito na tabela 1) em razão da dificuldade da responsável em administrar os medicamentos orais, utilizando:
Tabela 1 – Tratamento injetável.
| Maropitant 0,9 ml |
| Ondasetrona 0,8 ml |
| Acetilcisteína 1,5 ml |
| Furosemida 0,7 ml |
| Enrofloxacina 1,3 ml |
Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
Sendo indicado nebulização com Dipropionato de beclometasona (Clenil A) ½ ampola + soro fisiológico 3 ml BID por 7 dias e depois SID por mais 7 dias; além de Gentamicina 1 ml + soro fisiológico 3 ml BID por 14 dias. Ao final do tratamento injetável, observou-se melhora clínica: ausência de tosse durante euforia e redução da crepitação na ausculta pulmonar. A paciente retornou poucas vezes para reajuste do protocolo com introdução de nutracêuticos e suporte cardiorrespiratório.
Em 12 de junho de 2024, foi realizada Broncoscopia associada ao tratamento periodontal. Nesse dia, a ausculta apresentava crepitação bilateral e discreta cianose e, ao longo do procedimento, a oxigenação manteve-se baixa entre 80-90%. Não foi evidenciado broncomalácia, porém havia secreção abundante no lavado broncoalveolar. Após o procedimento, foi iniciado o tratamento para aguardar a cultura do lavado broncoalveolar, onde a paciente recebeu 3 doses de ceftriaxona SID endovenoso e suporte de terapia intensiva na internação pós broncoscopia, apresentando melhora bilateral na ausculta pulmonar. A Figura 1 demonstra o resultado da cultura e antibiograma do lavado broncoalveolar coletado:
Figura 1 – Resultado da cultura aeróbica e antibiograma do lavado broncoalveolar.

No exame de cultura e antibiograma, a Concentração Inibitória Mínima (MIC), quanto menor for o seu valor, mais potente é o antibiótico contra a bactéria. Segundo a microbiologista, não havia contagem significativa de bactérias para caracterizar uma infecção, sugerindo a presença de bactérias saprófitas (comensais do trato respiratório) sugerindo a hipótese de Mycoplasma. No exame de cultura e antibiograma, tem-se a Concentração Inibitória Mínima (MIC), indicando a potência do antibiótico contra a bactéria identificada, ou seja, quanto menor for o seu valor, mais potente é o antibiótico, sendo esse o de melhor escolha. Diante disso, foi uma decisão clínica prescrever a doxiciclina 80 mg/kg ½ comprimido VO BID durante 30 dias. Entretanto, após 27 dias de tratamento, a ausculta pulmonar manteve padrão crepitante, com intensificação da tosse e eliminação de uma secreção esbranquiçada. Embora a paciente estivesse apresentando um quadro clínico melhor, o uso da doxiciclina não cessou completamente a tosse e crepitação.
Em agosto de 2024, novas radiografias de tórax (VD, LLD, LLE) foram realizadas (observadas nas Figuras 2, 3 e 4), considerando o histórico de broncopatia crônica em tratamento desde maio de 2024.
Figuras 2, 3 e 4 – Imagens radiográficas do tórax.

Nesse período, foram incluídos: Hidroxizine xarope 7 ml BID VO durante 7 dias; e Furosemida 40 mg/kg ½ comprimido VO SID por 3 dias e, em seguida ¼ comprimido SID por mais 3 dias. Além disso, iniciou-se novo protocolo injetável EV de 4 dias, composto por: Acetilcisteína ½ ampola, Amoxicilina + Clavulanato de Potássio 1 ml SC, Enrofloxacina 0,8 ml SC durante 2 dias, seguida de Maropitant 1 ml, Dipirona 0,4 ml, Ondasetrona 0,8 ml, Furosemida 1 ampola, Ornitil (Aspartato de L-Ornitina, Cloridrato de L-Arginina, Acetilmetionina, Colina, L-Citrulina) 2 ml. Realização de Nebulização com Atrovent.
Em novembro de 2024, o paciente retornou apresentando um comportamento mais sedentário, ganho de peso, intensificação da tosse principalmente em momentos de euforia, além Da dificuldade de locomoção durante os passeios, segundo observações da responsável. Foi realizado um novo ecocardiograma que revelou: átrio e ventrículo direito dilatados, secundário à cor pulmonale, válvula mitral levemente espessada, compatível com valvulopatia degenerativa em estágio B1 e leve refluxo mitral e tricúspede, conforme demonstrado nas Figuras 5, 6 e 7:
Figuras 5, 6 e 7 – Ecocardiograma.

Diante da piora do quadro cardiológico, optou-se por aumentar a dose de Pimobendam para 1+ ½ comprimido VO BID de uso contínuo, acrescentar Sildenafila manipulada (8 mg/kg) e Espirolactona (15 mg/kg) em pasta sabor picanha VO BID, uso contínuo.
Em janeiro de 2025 (10/01/25), a responsável relatou que, durante a viagem para Teresópolis, a paciente manteve-se estável e sem tosse. Entretanto, ao retornar para o Rio de Janeiro, os episódios de tosse retornaram. O apetite se manteve normal, dormindo bem, sem cansaço, pesando 8,400kg.
Após 14 dias (24/01/25), foi observado pela proprietária que a paciente evoluiu negativamente passando a tossir quase o dia inteiro sem parar. Foi decidido então modificar alguns medicamentos e fazer adição na prescrição oral (ilustrado na Tabela 2) em razão da piora do quadro:
Tabela 2 – Prescrição oral direcionado ao paciente.
| Acetilcisteína (160 mg/kg) | 1 dose em pasta sabor carne BID por mais 3 meses |
| Nebulização: ½ ampola Clenil A (Dipropionato de Beclometasona) + Atrovent (2 gotas) + Soro Fisiológico (3ml) | BID por 3 dias; em seguida BID sem Atrovent durante 7 dias e, por fim, SID por 7 dias. |
| Ondasetrona (8 mg/kg) | 1 comprimido BID por 15 dias. |
| Doxiciclina (80 mg/kg) | ½ comprimido BID (com alimento) por 15 dias. |
| Clopidogrel manipulado (2 mg/kg) | 1 dose SID em pasta sabor carne por 7 dias; depois 1 dose a cada 48 horas por 7 dias e, por fim, 1 dose 3x por semana durante 3 semanas (uso contínuo). |
Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
A decisão de retornar com o uso da doxiciclina deve-se ao fato de ser um antibiótico indicado em quadros de broncopatia descompensada.
Após 12 dias, encontrava-se ainda ofegante e a nebulização passou a não mostrar melhora no quadro, por isso decidiu-se ajustar o protocolo de medicação para: nebulização com ½ ampola de Clenil A + 2 gotas de Atrovent + 3ml de Soro Fisológico BID durante 5 dias, depois, SID durante 3 dias e, por fim SID sem o atrovent por 7 dias. Além de modificar a Teofilina (aminofilina) (100 mg/kg) ½ comprimido SID, até a revisão; e Clopidogrel manipulado (18 mg/kg) pasta sabor carne, 1 dose 3x por semana durante 3 semanas (uso contínuo). Sendo necessário a realização Tomografia e Broncoscopia novamente (8 meses após a primeira), devido a suspeita clínica de Broncomalácia, em razão da tosse persistente. A Figura 8 apresenta o laudo da tomografia:
Figura 8 – Tomografia.

A tomografia confirmou broncomalácia e evidenciou padrão em vidro fosco, sugestivo de edema ou pneumonia. Para diferenciar essas condições, optou-se pela realização de broncoscopia com lavado broncoalveolar. Entretanto, por mais que a paciente apresentasse valvulopatia degenerativa com remodelamento, o edema pulmonar apresentado não tinha origem cardiogênica, pois nas imagens ecocardiográficas não mostraram alterações compatíveis com o quadro clínico, além de a paciente já estar sob tratamento cardiológico de suporte. Conclui-se, portanto, que a origem do edema era pulmonar. Observou-se ainda que, embora houvesse melhora transitória com o uso de diurético, não havia evolução clínica, o que levou à decisão de realizar uma nova broncoscopia.
A paciente deu entrada para internação no dia 26/02/2025, iniciando a fluidoterapia EV com ringer aplicando de 1 ampola de furosemida, apresentando cianose, respirava de boca aberta e relutava para sentar. Durante o período de internação (antes e pós broncoscopia), foram aplicados os seguintes medicamentos, conforme apresentado na Tabela 3:
Tabela 3 – Medicamentos aplicados na internação.
| Omeprazol 2 ml EV | Trazodona ½ comprimido PO |
| Ondasetrona 1 ml EV | Prednisolona 1,5 ml PO |
| Acetilcisteína 1,8 ml EV | Apevitin 2g PO |
| Dipirona 0,5 ml EV | Nutralife 2g PO |
| Furosemida 2 ampolas EV | Microlac 2g PO |
| Butorfanol 0,3 ml EV | Pimobendam ½ comprimido PO |
| Complexo B 1 ampola EV | Sildenafila ½ comprimido PO |
| Mercepton (Acetilmetionina) 1 ml EV | Espirolactona ½ comprimido PO |
| Omeprazol 2 ml EV | Teofilina ½ comprimido PO |
| Meropenem 24 mg/kg EV em 2 horas de infusão; | Ambroxol pediátrico 1ml PO |
| Nebulização: Soro fisiológico (3 ml) + Atrovent (2 gotas). | Maxsolve (Coenzima Q10) 2 gotas PO |
| Nebulização: Soro fisiológico (3 ml) + Gentamicina (1 ml). |
Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
As Figuras 9 e 10, demonstram as imagens da paciente na internação antes e após o procedimento de Broncoscopia:
Figuras 9 e 10 – Paciente na internação antes e pós Broncoscopia.

Durante a broncoscopia, ilustrado nas Figuras 11 e 12, foi observado muita inflamação, pouca secreção, hiperemia dos brônquios principais (mais caudal) com colabamento evidente. A parede dorsal estava abaulada devido a inflamação, apresentou traqueobroncomalácia bilateral até as segmentações mais internas, também com redução da luz. Durante o procedimento foi aplicado hidrocortisona EV.
Figuras 11 e 12- Broncoscopia, avaliação dos brônquios.

Foi realizada coleta de sangue para avaliar a presença ou não de infecção, como demonstrado na tabela 4:
Tabela 4 – Leucocitose indicando quadro de infecção.
| Leucócitos | 24.900 | 6.000 a 17.000 |
| Basófilos | 0 | 0 a 100 |
| Eosinófilos | 996 | 100 a 1.250 |
| Mielócitos | 0 | 0 a 0 |
| Metamielócitos | 0 | 0 a 0 |
| Bastonetes | 0 | 0 a 300 |
| Segmentados | 16.932 | 3.000 a 11.500 |
| Linfócitos | 5.478 | 1.000 a 4.800 |
| Monócitos | 1.494 | 150 a 1.350 |
| Proteínas Plasmáticas Totais | 9,2 | 6,0 a 8,0 |
| Plaquetas | 331.000 | 200.000 a 500.000 |
Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
Foi realizada uma nova coleta de sangue periférico para Hemocultura, observada na Figura 13:
Figura 13 – Hemocultura identificando Staphylococcus aureus.

Foi orientado pela microbiologista entender o quadro como uma bacteremia, em razão disso iniciou-se o tratamento oral com Marbofloxacina no dia 03/03/2025.
Prescrevendo os medicamentos para tratamento oral, apresentado na Tabela 5:
Tabela 5 – Prescrição oral direcionada ao paciente.
| Montelair (montelucaste sódico) 5 mg/kg | 1 comprimido SID, uso contínuo. |
| Acetilcisteína 160 mg/kg | 1 dose em pasta sabor carne BID por 3 meses. |
| Nebulização: ½ ampola de Clenil A (dipropionato de beclometasona) + 3 ml de Soro Fisiológico | SID por 15 dias |
| Teofilina 100 mg/kg | ½ comprimido SID, até a revisão. |
| Clopidogrel 18 mg/kg | 1 dose em pasta sabor carne durante 3 semanas, uso contínuo. |
| Furosemida 40 mg/kg | ½ comprimido BID, até a revisão. |
| Ambroxol xarope 1 ml | BID por 7 dias. |
| Marbofloxacina 27,5 mg/kg | 1 comprimido SID por 30 dias. |
| Pimobendam 1,25 mg/kg | 1+ ½ comprimido SID, uso contínuo. |
| Sildenafila 25 mg/kg | ½ comprimido BID, uso contínuo. |
| Espirolactona 25 mg/kg | ½ comprimido BID, uso contínuo. |
| Maxsolve (Coenzima Q10) | 2 gotas SID durante 2 meses, uso contínuo. |
Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
Foi solicitado a responsável do animal que realizasse uma Citologia da escavação dos brônquios durante a broncoscopia por se tratar de uma paciente portadora de broncopatia crônica com broncomalácia. O resultado descreve que as amostras enviadas são altamente celulares contendo uma população inflamatória composta por neutrófilos degenerados, associadas às células do epitélio respiratório de morfologia normal.
Nenhuma evidência de bactéria foi encontrada, sugerindo Inflamação Supurativa como demonstra na Figura 14:
Figura 14 – Resultado da cultura e antibiograma do Lavado Broncoalveolar indicando presença de Staphylococcus epidermidis.

O resultado do lavado não demonstrou contagem suficiente para processo infeccioso, em razão de existir 30% de chance para ocorrer o crescimento bacteriano in vitro e 70% de chance de ter falso negativo. Por isso a conduta terapêutica, foi baseada em uma decisão clínica.
No dia 2 de abril, a paciente retornou após os 30 dias de uso de marbofloxacina com melhora significativa do quadro, não apresentando mais tosse. Em 22/04/2025 continuava apresentando apenas tosses eventuais em momentos de agitação, em razão da broncomalácia, a ausculta pulmonar estava menos crepitante. Em maio, a paciente retornou para consulta com o quadro de broncopatia crônica controlada, sem apresentar tosse persistente e quadros de descompensação.
DISCUSSÃO
No presente relato, a paciente apresentou tosse crônica progressiva, revelando o quadro de Bronquite crônica que evoluiu posteriormente para broncomalácia, complicação frequentemente diagnosticada associada às doenças respiratórias ou cardíacas1, 2, 3. (Bottero, 2013; Singh et al., 2012; Johnson et al., 2013).
Em relação aos sinais apresentados, a tosse crônica se destaca como a principal manifestação em cães portadores de bronquite crônica canina, como relata Rozanski (2014)4.
Segundo Reinero et al. (2020), a bronquite crônica canina exige uma investigação detalhada com radiografa, broncoscopia e exame de lavado broncoalveolar (LBA) para distinguir os processos inflamatórios crônicos de infecções bacterianas ou alterações estruturais5. Na maioria dos cães portadores de broncopatia crônica, as bactérias identificadas na cultura do lavado representam apenas uma colonização inofensiva, não sendo indicativas de infecção ativa (Rao et al., 2014)6. Essa orientação justifica a sequência diagnóstica empregada no caso identificando broncomalácia, inflamação dos brônquios e ausência de infecção bacteriana significativa e corrobora a pertinência da investigação endoscópica quando os sinais persistem apesar de terapêutica inicial que não se manteve sustentável.
A tomografia torácica desempenhou um papel importante evidenciando áreas em vidro fosco com edema pulmonar ou pneumonia, mas sem alterações cardiológicas que provocassem quadro de congestão cardiogênica. Essa distinção é crucial, pois o edema pulmonar de origem cardíaca apresenta um padrão radiográfico alveolar com opacidade perihilar e dilatação de veias pulmonares, o que não foi observado no caso relatado (Kealy et al., 2012; Filippi, 2019)7, 8.
A confirmação de broncomalácia por tomografia e broncoscopia no caso explica a persistência de tosse em situações de esforço e a tendência a recidivas mesmo após controle parcial da componente infecciosa/inflamatória. Lin et al. (2023) destaca que a broncomalácia é frequentemente subdiagnosticada por métodos convencionais e a broncoscopia permanece sendo o método padrão ouro para sua detecção, com a tomografia dinâmica e a fluoroscopia como ferramentas complementares quando a endoscopia não é imediata. Nas implicações práticas, a presença de broncomalácia demanda medidas de suporte como o controle de irritantes ambientais, fisioterapia respiratória e terapia de manutenção9.
A realização do ecocardiograma foi essencial para identificar espessamento valvar leve e refluxo mitral e tricúspede leve compatível com estágio B1 da classificação da ACVIM (Keene et al., 2019)10. Em cães com quadro clínico pulmonar grave, uma das complicações associadas à bronquite é o desenvolvimento de cor pulmonale indicando grave prognóstico (Piqueras e Cosio, 2001)11.
Segundo Rozanski (2014), o citrato de sildenafil é indicado para controle clínico de pacientes que apresentam hipertensão pulmonar secundária. Terapêutica utilizada após identificar a ocorrência de cor pulmonale4.
Após o resultado da primeira cultura e antibiograma do lavado broncoalveolar, foi feita a prescrição da doxiciclina, entretanto baseando-se no resultado da Concentração Inibitória Mínima o uso da Rifamicina indica uma ação capaz de inibir o crescimento bacteriano, uma vez que o valor menor de MIC indica o antibiótico mais potente contra a bactéria.
Do ponto de vista terapêutico, a resposta clínica frente ao uso de broncodilatadores, glicocorticoides e antibióticos direcionados, como a doxiciclina e a marbofloxacina, demonstrou resultados positivos e está de acordo com o preconizado por Reinero et al. (2020), que ressalta a importância de tratar não apenas a infecção, mas também o componente inflamatório crônico e o controle ambiental para evitar recidivas5. A escolha terapêutica pela doxiciclina neste caso fundamentou-se na boa penetração tecidual e na eficácia demonstrada em cães com exacerbações de bronquite crônica conforme relatado por Szatmári e Van Geïjlswik (2022), que observaram melhora significativa de sinais clínicos respiratórios após o uso12.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho ressalta a importância de uma abordagem diagnóstica criteriosa e contínua diante de cães que apresentam tosse persistente, evitando atribuir o sintoma exclusivamente à origem cardíaca. Em muitos casos, como o descrito, o componente pulmonar é o principal responsável pela manifestação clínica, e o tratamento direcionado ao sistema correto é determinante para recuperação do paciente. Além disso, evidencia-se a relevância da integração entre as áreas de cardiologia e pneumologia veterinária, garantindo um manejo multifatorial preciso e eficiente para pacientes com doenças crônicas sobrepostas.
A diferenciação da origem da tosse mostrou-se fundamental para correta condução do caso relatado, permitindo um manejo clínico eficaz. A tosse é comumente associada às doenças cardíacas, entretanto a presença de remodelamento não é capaz de comprimir os brônquios e provocar a tosse. Portanto, esse relato reforça que a causa principal da tosse está relacionada inflamação de brônquios e alterações respiratórias primárias, uma vez que o quadro cardíaco não é determinante para o surgimento da tosse. Um paciente cardiopata apresentará tosse quando desenvolver um quadro de edema pulmonar cardiogênico agudo ou em casos de congestão, fatores relacionados ao estado de insuficiência cardíaca.
Embora houvesse a presença de valvulopatia em estágio inicial, sem repercussão hemodinâmica importante, constatou-se que a manifestação da tosse persistente era de origem pulmonar, devido ao quadro de bronquite crônica com o desenvolvimento de broncomalácia. Enfatizando a utilização de exames como a tomografia computadorizada, ecocardiograma e broncoscopia. A confirmação de broncomalácia e a presença de infecção através da hemocultura foi determinante para o ajuste do tratamento e para o controle do quadro clínico do paciente, demonstrando a necessidade de reavaliação e ajuste de protocolos terapêuticos conforme a evolução do quadro.
A estabilização clínica obtida ao final do acompanhamento evidencia que, mesmo diante de enfermidades incuráveis, é possível proporcionar melhora significativa da qualidade de vida por meio de um tratamento individualizado.
Portanto, o trabalho contribui para reforçar a importância de um diagnóstico diferencial da origem da tosse na rotina clínica veterinária, levando em considerações os fatores que efetivamente provoquem essa manifestação.
REFERÊNCIAS
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Autora:
MV, MSc Alessandra Ribeiro Lucena – CRMV RJ 4976
Graduação (1995) e Mestrado (2007) na Universidade Federal Fluminense (UFF)
Membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV) desde 1997
Sócia Proprietária e Coordenadora da Empresa CLINCARDIO Cardiologia Veterinária (Serviços, CPR Terapias, Educacional & Cardiologia Equina)
Sócia fundadora da Academia Brasileira de Medicina Veterinária Intensiva (BVECCS)
Sócia fundadora do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNUV)
Sócia fundadora da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV)
Atuante na Pneumologia & Cardiologia de Pequenos e Equinos desde 1996. Além de Holter 24horas, Strain, Diálise Peritoneal, Broncoscopia e Rinoscopia.
Foi atuante na Medicina Equina e Anestesia Equina nos primeiros anos de formada, agora apenas na CardioPneumo.
Pós-Graduada em Afecções Respiratórias Veterinária – ANCLIVEPA 2020
Pós-Graduação de Nefrologia Veterinária – CASTELO
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