Ácaros de estocagem e seu papel em reações alérgicas em cães

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Por Gabrielly Ferreira Franca1, Marco Antonio Pereira da Silva 2* ,Fabiana Ramos dos Santos 3*

Resumo.

As reações alérgicas em cães representam um desafio frequente na prática clínica veterinária, especialmente em casos com resposta limitada ao manejo convencional. Nesse contexto, a identificação de fontes não usuais de alérgenos torna-se essencial. O presente estudo teve como objetivo revisar a participação dos ácaros de estocagem nas manifestações alérgicas em cães, abordando aspectos relacionados à contaminação de alimentos, mecanismos de hipersensibilidade, impacto no diagnóstico e estratégias de manejo. Trata-se de uma revisão narrativa baseada em literatura científica recente. Evidências indicam que esses organismos podem colonizar rações comerciais após a abertura, principalmente em condições inadequadas de armazenamento, favorecendo a exposição contínua dos animais a proteínas alergênicas. Além disso, a reatividade cruzada com ácaros ambientais pode dificultar a interpretação de testes diagnósticos. Dessa forma, a consideração desse fator na rotina clínica pode contribuir para maior precisão diagnóstica e melhora na resposta terapêutica. 

Palavras-chave: hipersensibilidade; contaminação alimentar; diagnóstico clínico; manejo nutricional; dermatopatias.

Storage mites and their role in allergic reactions in dogs

Abstract. Allergic reactions in dogs represent a frequent challenge in veterinary clinical practice, especially in cases with limited response to conventional management. In this context, identifying unusual allergen sources becomes essential. This study aimed to review the role of storage mites in allergic manifestations in dogs, addressing aspects related to food contamination, hypersensitivity mechanisms, diagnostic impact, and management strategies. This is a narrative review based on recent scientific literature. Evidence indicates that these organisms may colonize commercial dry food after opening, particularly under inadequate storage conditions, leading to continuous exposure of animals to allergenic proteins. In addition, cross-reactivity with environmental mites may complicate the interpretation of diagnostic tests. Therefore, considering this factor in clinical practice may improve diagnostic accuracy and therapeutic outcomes. 

Keywords:hypersensitivity;food contamination; clinical diagnosis; nutritional management; dermatopathies.

Introdução As doenças alérgicas em cães têm aumentado significativamente nos últimos anos, sendo uma das principais causas de atendimento clínico em pequenos animais. A dermatite atópica canina caracteriza-se como uma enfermidade inflamatória crônica associada a alterações imunológicas, fatores ambientais e disfunção da barreira cutânea (Marsella & De Benedetto, 2022; Santoro & Marsella, 2023). Apesar dos avanços terapêuticos, muitos pacientes apresentam resposta clínica limitada, sugerindo a participação de fatores alergênicos ainda pouco investigados.

Nesse contexto, os ácaros de estocagem têm recebido maior atenção devido ao seu potencial alergênico e à associação com alimentos armazenados. Espécies como Tyrophagus putrescentiae podem colonizar rações comerciais após a abertura das embalagens, especialmente em condições inadequadas de armazenamento. Estudos recentes destacam que a exposição contínua a esses organismos pode contribuir para a persistência de manifestações alérgicas em cães predispostos (Mueller et al., 2022; Olivry & DeBoer, 2023).

Além disso, a semelhança antigênica entre ácaros de estocagem e ácaros ambientais, como Dermatophagoides farinae, pode favorecer reatividade cruzada e dificultar a interpretação de testes diagnósticos (Morales-Romero et al., 2025). Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo revisar o papel dos ácaros de estocagem nas reações alérgicas em cães, destacando suas implicações clínicas e diagnósticas.

Diferença entre ácaros ambientais e de estocagem

Os ácaros são importantes fontes de alérgenos na medicina veterinária, especialmente em cães com doenças cutâneas inflamatórias. Entre os ácaros ambientais, destaca-se Dermatophagoides farinae, frequentemente associado à poeira domiciliar e implicado em reações de hipersensibilidade (Bajwa, 2022; Santoro & Marsella, 2023). Esses organismos se desenvolvem em ambientes internos e produzem proteínas alergênicas capazes de estimular respostas imunológicas em animais sensibilizados.

Em contraste, os ácaros de estocagem estão relacionados principalmente a produtos armazenados ricos em matéria orgânica, como grãos e rações comerciais. Espécies como Tyrophagus putrescentiae apresentam elevada capacidade de proliferação em condições de alta umidade e temperatura, especialmente após a abertura das embalagens (Mueller et al., 2022; Olivry & DeBoer, 2023). Diferentemente dos ácaros ambientais, sua presença está diretamente relacionada ao manejo alimentar.

Além disso, estudos recentes demonstram que a semelhança estrutural entre os alérgenos dessas espécies pode resultar em reatividade cruzada, dificultando a identificação da fonte primária de sensibilização (Morales-Romero et al., 2025). Esse fator representa um desafio importante para a investigação clínica de cães com sinais alérgicos persistentes.

Contaminação de alimentos e ambiente

A contaminação de alimentos por ácaros de estocagem representa uma importante via de exposição a alérgenos em cães, especialmente no contexto de dietas comerciais secas. Esses organismos possuem capacidade de colonizar alimentos ricos em proteínas e lipídios, proliferando principalmente após a abertura das embalagens e em condições inadequadas de armazenamento (Mueller et al., 2022; Olivry & DeBoer, 2023). Fatores como temperatura elevada, umidade e armazenamento prolongado favorecem o crescimento populacional desses artrópodes. Além disso, a contaminação pode ocorrer durante o manuseio do alimento ou por falhas nas embalagens, dificultando sua percepção pelos tutores. Estudos recentes reforçam que mesmo baixas concentrações desses organismos podem desencadear respostas alérgicas em cães previamente sensibilizados (Torres et al., 2024).

Paralelamente, o ambiente doméstico também pode atuar como reservatório secundário de alérgenos, ampliando as vias de exposição e contribuindo para a persistência dos sinais clínicos. Dessa forma, o manejo inadequado do alimento pode representar um fator relevante na manutenção de dermatopatias alérgicas.

Relação com reações alérgicas

Os ácaros de estocagem são reconhecidos como fontes relevantes de alérgenos capazes de induzir respostas de hipersensibilidade em cães predispostos. Esses organismos produzem proteínas alergênicas capazes de estimular mecanismos mediados por imunoglobulina E (IgE), favorecendo o desenvolvimento de sinais clínicos como prurido, eritema e inflamação cutânea (Marsella & De Benedetto, 2022; Santoro & Marsella, 2023).

A reatividade cruzada entre ácaros de estocagem e ácaros ambientais representa um importante desafio diagnóstico. Revisões recentes apontam limitações na interpretação de testes alérgicos devido à semelhança antigênica entre diferentes espécies de ácaros, dificultando a identificação da fonte primária de sensibilização em cães atópicos (Morales-Romero et al., 2025).

Além disso, a ingestão contínua de alimentos contaminados pode favorecer a persistência das manifestações clínicas, especialmente em pacientes com resposta insatisfatória ao tratamento convencional. Dessa forma, a consideração dos ácaros de estocagem na rotina clínica pode auxiliar na identificação de fatores desencadeantes frequentemente negligenciados.

Implicações clínicas

A investigação do armazenamento e manejo de rações deve ser incluída na anamnese de pacientes com sinais alérgicos persistentes. Medidas simples, como utilização de recipientes herméticos, armazenamento em locais secos e redução do tempo de utilização da ração após abertura da embalagem, podem auxiliar na redução da proliferação desses organismos.

Além disso, a troca do alimento e higienização frequente dos recipientes podem contribuir para melhora clínica em casos suspeitos. Dessa forma, a abordagem integrada entre diagnóstico, manejo alimentar e controle ambiental torna-se fundamental para maior precisão diagnóstica e melhor resposta terapêutica.

Conclusão

Os ácaros de estocagem representam uma fonte relevante de alérgenos em cães, especialmente devido à sua associação com alimentos armazenados. A possibilidade de reatividade cruzada com ácaros ambientais dificulta o diagnóstico e pode comprometer a eficácia terapêutica. Assim, a inclusão desse fator na investigação clínica pode contribuir para abordagens mais completas e melhor controle das dermatopatias alérgicas.

Referências bibliográficas

Bajwa, J. (2022). Advances in the understanding of canine atopic dermatitis. Veterinary Medicine: Research and Reports, 13, 67–78. Doi https://doi.org/10.2147/VMRR.S340019.

Marsella, R. & De Benedetto, A. (2022). Atopic dermatitis in animals and people: an update and comparative review. Veterinary Sciences, 9, 624. Doi https://doi.org/10.3390/vetsci9110624.

Morales-Romero, J., Olivry, T. & Mueller, R. S. (2025). Current perspectives on allergen sensitization and diagnostic testing in canine atopic dermatitis. Frontiers in Veterinary Science, 12, 1551207. Doi https://doi.org/10.3389/fvets.2025.1551207.

Mueller, R. S., Olivry, T. & Prélaud, P. (2022). Adverse food reactions and allergen cross-reactivity in companion animals. Veterinary Dermatology, 33, 12–20. Doi https://doi.org/10.1111/vde.13012.

Olivry, T. & DeBoer, D. J. (2023). New developments in canine allergic skin diseases. Frontiers in Veterinary Science, 10, 1189021. Doi https://doi.org/10.3389/fvets.2023.1189021.

Santoro, D. & Marsella, R. (2023). Skin barrier and allergic inflammation in canine atopic dermatitis. Veterinary Sciences, 10, 214. Doi https://doi.org/10.3390/vetsci10030214.

Torres, M., Rodrigues, A., Oliveira, L. & Costa, M. (2024). Environmental allergens and hypersensitivity in dogs: current perspectives. Veterinary Medicine International, 2024, 1–9. Doi https://doi.org/10.1155/2024/8845126.

Autores:

¹ Gabrielly Ferreira Franca (autora)
Médica-veterinária, empresária do setor pet e mestranda em zootecnia com foco em Nutrição de Pequenos Animais. Atua nas áreas de clínica de pequenos animais, dermatologia veterinária, gestão e mercado pet. Proprietária do Pet Shop Bicho do Mato, desenvolve trabalhos voltados à saúde, bem-estar animal e experiência do paciente, com interesse nas áreas de nutrição clínica, dermatologia veterinária e inovação aplicada à medicina veterinária. E-mail: [email protected]

² Marco Antonio Pereira da Silva (coautor e orientador)
Currículo: Zootecnista, mestre em Zootecnia e doutor em Ciência Animal (UFG), com pós-doutorado na área de Higiene, Tecnologia e Qualidade de Alimentos de Origem Animal. Atua em ensino, pesquisa e inovação, com ênfase em tecnologia e qualidade do leite e derivados, processamento de produtos lácteos e sustentabilidade na cadeia produtiva. Possui produção científica relevante nacional e internacional e é bolsista de Produtividade Tecnológica e Extensão Inovadora (DT–2/CNPq). E-mail: [email protected]

³ Fabiana Ramos (coautora e orientadora)
Zootecnista, mestre em Zootecnia e doutora em Ciência Animal. Atua como docente/pesquisadora do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde, Go. Desenvolve pesquisas voltadas à produção de não ruminantes, com foco em nutrição, manejo e uso de aditivos e bioinsumos na alimentação de aves. E-mail: [email protected]