Hemoterapia na Medicina Veterinária


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Por Dra. Suzane Gallardo Xavier

Hemoterapia na Medicina Veterinária

As primeiras transfusões sanguíneas em animais foram relatadas no meado de 1600 e ocorriam de forma experimental. A hemoterapia na Medicina Veterinária é relativamente nova, mas ao longo dos anos, investimos em técnicas e informação, tanto para os médicos veterinários quanto para os responsáveis ou tutores dos animais, sejam eles receptores ou doadores de sangue.

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Selecionando um doador

A doação deve ser um procedimento rápido e calmo, onde o animal sinta-se confortável e receba um reforço positivo.

A correta seleção de animais doadores é fundamental para a obtenção de hemocomponentes livres de patógenos, que poderão salvar a vida de outros animais (Figura 1). Portanto devemos realizar uma minuciosa anamnese para saber o histórico do candidato a doador.

No caso dos cães, esses precisam seguir os seguintes critérios:

•Temperamento linfático/dócil

•Idade entre 1 e 8 anos

•Pesar acima de 25 kg

•Clinicamente saudável

•Vacinação atualizada

•Desverminação adequada

•Ausência de qualquer doença crônica

•Não estar gestante nem lactante

•Livres de ectoparasitas

Já os felinos, devem seguir os mesmos critérios dos cães, entretanto o peso mínimo deve ser de 4,5 kg. Um animal doador pode salvar até 3 vidas.

Figura 1: Doador de sangue – Foto: Arquivo pessoal

Grupos sanguíneos

Assim como os humanos, os cães possuem grupos sanguíneos, que são denominados DEA (dog erytrocyte antigen). Essa sigla vem acompanhada de um número correspondente ao antígeno presente na superfície das hemácias dos cães que são espécie – específicos (Thrall, 2014).

Hoje são conhecidos sete grupos DEA (1,3,4,5,6,7 e 8) e mais recentemente foram adicionados os grupos Dal (Gouletet al., 2017), Kai1 e Kai2 (Euler et al., 2016).

O grupo DEA 1 possui três subgrupos DEA 1.1, DEA 1.2 e DEA 1.3. O DEA 1.1 é o mais importante em relação às transfusões de sangue, sendo considerado o mais imunogênico. São raros os cães que possuem anticorpos naturais contra esse grupo sanguíneo. Entretanto se um paciente DEA 1.1 negativo receber o sangue de um doador DEA 1.1 positivo, desenvolverá anticorpos contra esse grupo sanguíneo, e posteriormente recebendo um novo sangue DEA 1.1 positivo desenvolverá uma reação hemolítica aguda. Isso ocorre, pois os anticorpos produzidos contra a primeira bolsa de sangue irão provocar a hemólise das células da segunda bolsa de sangue.

Os felinos possuem três grupos sanguíneos: A, B e AB. Apresentam antígenos eritrocitários A e B e aloanticorpos naturais.

O grupo A apresenta o antígeno eritrocitário A e anticorpos naturais contra o antígeno B. Já o grupo B apresenta o antígeno eritrocitário B e anticorpos naturais contra o antígeno A. E o grupo AB possui tanto o antígeno eritrocitário A quanto o B, e não possui anticorpos naturais. (Thrall, 2014).

A realização dos testes de compatibilidade é fundamental para uma maior segurança durante o processo transfusional. E devem ser realizados antes de qualquer transfusão sanguínea.

No entanto, mesmo sendo um teste rápido e de baixo custo, alguns profissionais renunciam a sua realização, visando realizar a transfusão com maior rapidez.

O teste de compatibilidade é realizado em laboratório, utilizando a amostra de sangue do doador e a do receptor. É um teste de triagem, in vitro, que propicia a observação da presença de hemoaglutinação provocada por anticorpos do doador ou do receptor. Caso ocorra hemoaglutinação, esses animais são considerados incompatíveis e a bolsa de sangue não deve ser transfundida no paciente (Figura 2).

Figura 2: Teste de compatibilidade apresentando aglutinação na prova maior. Foto: Arquivo pessoal

Hemocomponentes

Com a evolução da Medicina Veterinária, a terapia transfusional passou por inovações e começou a seguir o curso da Medicina, com a introdução de hemocomponentes. Cada vez mais, os profissionais têm se atualizado e descobrindo as vantagens do uso de concentrado de hemácias, plasma fresco congelado, concentrado de plaquetas e crioprecipitado.

Os hemocomponentes são amplamente usados em terapias intensivas e cirurgias.

Hoje, temos como hemocomponentes:
•Sangue total fresco

O sangue total fresco é o hemocomponente obtido imediatamente após a venopunção do doador de sangue. Ele apresenta essa classificação até 6 horas após a coleta de sangue e quando armazenado em até 20 graus C. Essa bolsa de sangue total pode ser fracionada em diversos outros hemocomponentes, tais como: concentrado de hemácias, plasma fresco congelado, concentrado de plaquetas, crioprecipitado e sangue total refrigerado, quando simplesmente for estocado em geladeira.

•Sangue total refrigerado

O sangue total que foi refrigerado a temperatura de 2 a 4 graus ºC e tem durabilidade de aproximadamente 30 dias se bem acondicionado.

•Concentrado de hemácias

O concentrado de hemácias (Figura 3) é obtido após a centrifugação de uma bolsa de sangue total, seja ela fresca ou refrigerada. Após a centrifugação da bolsa de sangue, a maior parte do volume de plasma é direcionada a uma bolsa satélite, ficando, na bolsa principal, apenas as hemácias e um pequeno volume de plasma residual. Esse hemocomponente possui a mesma quantidade de hemácias que uma bolsa de sangue total, entretanto por ter um volume menor, reduz a sobrecarrega de volume em pacientes cardiopatas e nefropatas. Outras vantagens deste hemocomponente é a redução do tempo de transfusão (menos risco de infecção) e menor ocorrência de reações de hipersensibilidade, por possuírem um volume residual de plasma.

Figura 3: Bolsas de concentrado de hemácias – Foto: Arquivo pessoal

•Concentrado de plaquetas

O concentrado de plaquetas é utilizado em casos graves de trombocitopenias ou trombocitopatias (Thrall, 2014) e é obtido através da centrifugação do plasma fresco, antes do seu congelamento.

•Plasma Fresco Congelado

O plasma fresco congelado é obtido a partir da centrifugação de uma bolsa de sangue total fresca. Após a centrifugação, o plasma é direcionado a uma bolsa satélite e se congelado em até 6 horas após a coleta da bolsa (Figura 4). Ele possui fatores de coagulação e proteínas, sendo importante em terapias que visam repor esses fatores, nos casos de hipoproteinemia e como expansores de volume em pacientes que apresentam sinais de choque hipovolêmico.

Figura 4: Separação do concentrado de hemácias e plasma. Foto: Arquivo pessoal

•Plasma Congelado

O plasma que foi congelado após 6 horas da coleta da bolsa ou o plasma fresco congelado que está estocado há uma data superior há um ano passa a ser denominado plasma congelado. Isto porque este tempo faz com que o hemocomponente perca os fatores de coagulação, no entanto, segue com as proteínas viáveis. 

•Crioprecipitado

O crioprecipitado é rico em fatores de coagulação e fator de von Willebrand, (Thrall, 2014) sendo obtido após o lento descongelamento (aproximadamente 24 horas em temperatura de geladeira) do plasma fresco congelado e posteriormente a centrifugação em alta rotação, levando a sedimentação dos fatores de coagulação. O plasma excedente é transferido para uma bolsa satélite, restando na bolsa original um volume residual de plasma e os fatores.

Reações transfusionais

As reações transfusionais podem ser imunológicas ou não imunológicas, agudas ou tardias.

•Reações imunológicas

As reações imunológicas agudas são extremamente graves em decorrência da hemólise intravascular e dos mediadores inflamatórios decorrentes da mesma, podendo evoluir para CID e óbito. Os pacientes podem apresentar reação minutos após o inicio da transfusão ou até 48 horas após o fim do procedimento. Os sinais clínicos dessa reação geralmente são: hipertermia, taquicardia, taquipneia, êmese, diarreia, podendo ser sanguinolenta ou não, salivação e hipotensão.

Alguns pacientes apresentam reações contra as proteínas plasmáticas do doador, acarretando uma reação de hipersensibilidade tipo I, observada aproximadamente, 45 minutos após a administração do hemocomponente (Prittie, 2003).

Durante esse processo ocorre liberação de histamina e substâncias vasoativas que podem causar prurido, urticária, hipotensão, taquipneia, edema de face e febre.

As reações não hemolíticas febris ocorrem quando o paciente que recebe o hemocomponente reage às plaquetas e ou leucócitos presentes no sangue total. Nesses casos ocorrem hipertermia, êmese e tremores.

As reações imunológicas tardias acorrem entre 3 e 21 dias após o procedimento transfusional. Observa-se uma brusca diminuição do hematócrito e o aparecimento de icterícia, devido à hemólise extravascular, pois as hemácias são removidas da circulação por células do sistema monocítico fagocitário.

A púrpura transfusional ocorre quando o paciente desenvolve anticorpos antiplaquetários, ocasionando uma trombocitopenia pós-transfusional que dura entre 10 a 60 dias após a administração do hemocomponente.

A isoeritrólise neonatal ocorre com filhotes recém-nascidos que recebem, através do colostro, anticorpos maternos contra seu grupo sanguíneo, ocasionando uma reação hemolítica nesses filhotes.

•Reações não imunológicas

Podem ser agudas, em decorrência da contaminação bacteriana da bolsa de sangue. Portanto, o processo transfusional deve ocorrer em até 4 horas após o aquecimento e/ou violação da bolsa. Após aquecida e violada, passado o período de transfusão, essa bolsa deverá ser descartada.

A sobrecarga circulatória ocasionada pela administração rápida ou excessiva de um hemocomponente também gera reações agudas. Podendo o paciente desenvolver edema, hipertensão, êmese e diarreia.

A intoxicação por citrato, anticoagulante presente nas bolsas de sangue, ocorre quando se administra uma grande quantidade de hemocomponente no paciente. O paciente desenvolve nesses casos tremores, êmese e arritmias cardíacas.

A contaminação da bolsa de sangue por agentes infecciosos pode levar a uma reação transfusional não imunológica tardia. Entretanto a correta seleção dos doadores e os testes diagnósticos realizados nas bolsas de sangue diminuem a ocorrência dessa reação.

A concentração de amônia, nas bolsas de sangue, aumenta de acordo com o tempo de estocagem. Portanto, deve ser evitada a administração de bolsas armazenadas acima de 15 dias, em pacientes com hepatopatias, pois pode levar à intoxicação desses pacientes.

A transfusão sanguínea é um procedimento que deve ser realizado em ambiente hospitalar e por profissionais capacitados, com conhecimentos em terapia intensiva e aptos a monitorar o paciente e intervir caso seja necessário. O uso racional e criterioso de hemocomponentes tem ajudado a salvar vidas e aumentar a expectativa e a qualidade de vida de pacientes com doenças crônicas.

Doar sangue é um ato de amor e somente assim conseguiremos salvar vidas cada vez mais.

Referências Bibliográficas:

Goulet, S.,Ginger, U., Arsenaut, J., Abrams-OGG, A., Euler, C.C., Blais,M.C. Prevalence and Mode of Inheritance of the Dal Blood Group in Dogs in NorthAmerica ., v.31, p.751-758, 2017.

C.C.Euler,J.H.Lee,H.Y.Kim,K.Raj,K.Mizukami,andU.Giger. Survey of Two New (Kai 1 and Kai 2) and Other Blood Groups in Dogs of North America. , v.35p. 1642–1647, 2016.

Prittie,Jennifer E. (2003). Triggers for use, optimal dosing and problems associated with red cell transfusions. Veterinary Clinics of Small Animal Practice. Vol. 33: 1261-1275

Thrall, M.A. Hematologia e bioquímica clínica veterinária. 2ªed. São Paulo. EditoraRoca, 2014. Cap. 17, p. 440 – 454.

Suzane Gallardo Xavier

Formada pelo Universidade Federal Fluminense (2011); Pós-graduação em Patologia Clínica Veterinária , Instituto Qualittas (2015); Pós-graduanda em Hematologia e Hemoterapia Veterinária (PAV); Médica-veterinária responsável pelo Hemovitae.

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