Gatos de terapia assistida: comparando o treinamento de um filhote e um idoso

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Por Priscila Marcondes Toinaki

RESUMO

Esse artigo tem o objetivo de comparar o comportamento de um felino filhote e de um felino adulto idoso durante etapas iniciais de um protocolo estruturado de treinamento voltado à aplicação em Tratamentos Assistidos por Animais (TAA), avaliando capacidade de aprendizagem, estabilidade emocional e aprendizagem social.

É um estudo observacional comparativo envolvendo dois felinos domésticos, um juvenil e um adulto idoso, submetidos a um protocolo estruturado de treinamento. As avaliações foram realizadas por meio de observação sistemática do comportamento e monitoramento do estado emocional com base na Cat Stress Score (CSS).

O felino adulto idoso apresentou maior consistência comportamental, baixa reatividade a estímulos ambientais e execução estável de comportamentos treinados, como permanecer em local específico e responder ao comando verbal. O felino filhote demonstrou elevada motivação exploratória e rápida aquisição do comportamento-alvo, incluindo respostas aprendidas por observação do indivíduo mais experiente. Não foram observados sinais comportamentais de estresse durante as atividades avaliadas.

Os achados indicam que tanto felinos jovens quanto adultos idosos podem apresentar potencial para participação em Tratamentos Assistidos por Animais, desde que submetidos a protocolos estruturados de treinamento que considerem as características comportamentais individuais.

Palavras-chave: Tratamentos Assistidos por Animais, Felinos Domésticos, Aprendizagem por Observação, Comportamento Felino, Estabilidade Emocional, Bem-estar Animal.

ABSTRACT

This article aims to compare the behavior of a juvenile and an elderly domestic cat during the initial stages of a structured training protocol designed for Animal-Assisted Therapies (AAT), assessing their learning ability, emotional stability, and social learning.

This observational comparative study involved two domestic cats: one juvenile and one elderly adult, both subjected to a structured training protocol. Evaluations were conducted through systematic behavioral observations and emotional state monitoring using the Cat Stress Score (CSS).

The elderly cat exhibited greater behavioral consistency, low reactivity to environmental stimuli, and stable execution of trained behaviors, such as staying in a specific location and responding to verbal commands. The juvenile cat demonstrated high exploratory motivation and rapid acquisition of target behaviors, including learned responses through observation of the more experienced cat. No behavioral signs of stress were observed during the activities.

The findings suggest that both juvenile and elderly domestic cats have potential for participation in Animal-Assisted Therapies, provided they are subjected to structured training protocols that take individual behavioral characteristics into account.

Keywords: Animal-Assisted Therapies, Domestic Cats, Observational Learning, Feline Behavior, Emotional Stability, Animal Welfare.

INTRODUÇÃO

Este artigo trata da aquisição de habilidades em gatos para sua atuação como co-terapeutas em atividades de TAA – Terapia Assistida por Animais. O objetivo é problematizar os benefícios e desafios do uso de felinos jovens e idosos na TAA, registrando e analisando seu desempenho e comportamento durante o treinamento.

Os Serviços Assistidos por Animais (SAA) compreendem um conjunto de práticas terapêuticas que utilizam a interação entre seres humanos e animais como recurso para a promoção de saúde, bem-estar e reabilitação em diferentes contextos. Entre as modalidades de SAA, os Tratamentos Assistidos por Animais (TAA) têm recebido crescente atenção, sendo aplicadas em hospitais, escolas, instituições de longa permanência e centros de reabilitação (Chitic, Rusu & Szamosközi, 2012). Nesses serviços, os animais atuam como co-terapeutas, desempenhando papel de facilitadores na comunicação, no vínculo e na adesão ao tratamento.

Apesar do crescente interesse pelos Serviços Assistidos por Animais (SAA), a participação de felinos em Tratamentos Assistidos por Animais (TAA) permanece pouco explorada. A literatura disponível sobre seleção, treinamento e aplicação clínica de gatos como co-terapeutas é limitada, evidenciando lacunas quanto ao comportamento, bem-estar e respostas emocionais da espécie em contextos terapêuticos (Fedor, 2017; Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).

O gato doméstico apresenta características que podem favorecer sua inserção em programas de TAA, como porte reduzido, adaptação a ambientes internos, comportamento geralmente silencioso e capacidade de estabelecer vínculos afetivos seletivos com seres humanos. Essas particularidades podem ser especialmente vantajosas em ambientes hospitalares, institucionais e de longa permanência, nos quais estímulos intensos devem ser minimizados (Fedor, 2017). No entanto, a ausência de conhecimento aprofundado sobre o comportamento felino, sua linguagem corporal e suas respostas emocionais em ambientes terapêuticos ainda limita a adoção dessa espécie, evidenciando a necessidade de estudos que descrevam protocolos de seleção, treinamento e manejo compatíveis com as necessidades etológicas dos gatos (Fedor, 2017; Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).

Diante desse panorama, torna-se relevante discutir tanto as potencialidades quanto as limitações dessa espécie para o Tratamento Assistido por Animais com felinos, a fim de identificar caminhos para o desenvolvimento de práticas terapêuticas multiespecíficas baseadas em evidências no respeito mútuo entre humanos e animais. Essa discussão também fortalece a fundamentação científica da TAA com gatos e oferece novas possibilidades de intervenção em saúde, considerando as particularidades e os benefícios potenciais da espécie.

Nos últimos anos, têm sido propostas diretrizes de manejo cat-friendly, baseadas na etologia e no bem-estar da espécie, que recomendam a adaptação gradual dos gatos aos ambientes de terapia, o respeito à sua linguagem corporal e a criação de espaços de fuga ou refúgio durante as sessões. Essas diretrizes são fundamentais para reduzir o estresse, prevenir comportamentos defensivos e garantir a segurança tanto do animal quanto do paciente (International Society of Feline Medicine, 2022).

Especialistas em comportamento felino também têm desenvolvido protocolos de treinamento positivo para gatos candidatos à TAA, incluindo socialização precoce, habituação a diferentes estímulos ambientais e reforço de comportamentos desejáveis, como tolerância ao toque e aproximação voluntária. Essas estratégias visam aumentar a previsibilidade e a confiabilidade da espécie em contextos terapêuticos, respondendo às críticas históricas sobre a suposta imprevisibilidade do comportamento felino (Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).

Do ponto de vista clínico, estudos têm demonstrado resultados positivos da Tratamentos Assistidos com gatos. Pesquisas recentes destacam melhorias significativas em sintomas de depressão, ansiedade e solidão, além de ganhos na qualidade de vida e no bem-estar psicológico de idosos, pacientes psiquiátricos e pessoas em isolamento social (Villalta-Gil et al., 2009; Fedor, 2017). Em revisões sistemáticas, também se observou que a interação com felinos pode favorecer a regulação emocional, estimular interações sociais e proporcionar sensação de companhia e acolhimento, elementos centrais no processo terapêutico (Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).

Conclui-se que, embora ainda haja lacunas significativas de pesquisa, as evidências disponíveis indicam que as TAA com felinos, quando realizadas sob diretrizes cat-friendly e com animais devidamente preparados, representam uma alternativa promissora para a promoção da saúde mental e da qualidade de vida em diferentes populações. O presente estudo aplicou essas técnicas de treinamento com o propósito de analisar os desafios envolvidos no treinamento de gatos jovens e idosos para aplicação em Tratamentos Assistidos por Animais. Neste artigo, serão analisadas as respostas comportamentais de dois felinos ao longo do processo de treinamento para Tratamentos Assistidos por Animais (TAA). A partir da observação sistemática do desenvolvimento de duas habilidades específicas, serão consideradas: (1) a capacidade de interação social em ambientes com diferentes indivíduos e (2) a habilidade de manter-se sentado ou em repouso em um local determinado, aguardando o comando.

O artigo está organizado em três seções. Inicialmente, apresentam-se os participantes e descreve-se a metodologia empregada no estudo; posteriormente, desenvolve-se a análise referente às habilidades observadas nos dois felinos. Por fim, são discutidas perspectivas sobre a introdução de gatos em TAA, sustentadas por literatura atual que investiga a resposta comportamental dos felinos, sua capacidade de interação social e a viabilidade da atuação terapêutica desses animais.

MATERIAL E MÉTODOS

Trata-se de um estudo observacional comparativo, com delineamento exploratório, seguindo abordagens metodológicas amplamente empregadas em pesquisas comportamentais baseadas em observação sistemática de animais em contextos naturais controlados (Smuts, 2001). Esse tipo de delineamento permite a descrição detalhada de padrões comportamentais sem interferência experimental direta.

O objetivo é avaliar a resposta comportamental de um felino filhote e de um felino adulto idoso durante etapas iniciais de treinamento para Tratamentos Assistidos por Animais (TAA), identificar sinais comportamentais indicativos de estresse e conforto, e relacionar características associadas à faixa etária ao processo de treinamento. Foram incluídos apenas felinos clinicamente saudáveis, com perfil sociável e previamente habituados ao manejo humano, a fim de reduzir vieses relacionados à saúde ou à aversão ao contato humano. As observações comportamentais foram realizadas durante sessões de treinamento estruturadas, conduzidas de forma padronizada para ambos os felinos, em ambiente controlado, ao longo de sessões repetidas de 5 a 10 minutos diários. As sessões incluíram atividades de interação social, permanência em local determinado e resposta a comandos verbais simples.

O estado emocional dos felinos foi avaliado por meio da Cat Stress Score (CSS), tabela 1, conforme descrito por Kessler e Turner (1997), além do registro sistemático da frequência e duração das interações e comportamentos observados durante as sessões.

TABELA 1 CAT STRESS SCORE (CSS) – ESCALA DE ESTRESSE FELINO

NívelDescrição resumidaSinais comportamentais / físicos
1 – RelaxadoTotalmente à vontadeCorpo solto/estendido, olhos semicerrados, ronronar, brinca e interage normalmente
2 – Atenção normalAlerta, com postura relaxadaCabeça erguida, orelhas atentas, observa o ambiente sem tensão evidente
3 – Discreto estresseVigilância aumentadaPupilas um pouco dilatadas, corpo mais tenso, pode interromper comportamentos de descanso
4 –Estresse moderadoInício de desconforto claroPostura encolhida, busca esconderijo, lambedura repetitiva, evita contato
5 – Estresse evidenteReação clara ao estressorPupilas bem dilatadas, respiração acelerada, movimentação inquieta, recuo ao toque
6 – Estresse altoDefesa ou fuga iminenteRosnados, silvos, orelhas para trás, piloereção, tenta fugir ou se defende ativamente
7 – Estresse extremoPânico ou terrorCorpo rígido ou congelado, ou ataques desesperados, pode urinar/defecar de medo
Fonte: Cat Stress Score – CSS (Kessler & Turner, 1997)

A população do estudo foi composta por dois felinos domésticos (Felis catus), pertencentes a faixas etárias distintas: um felino filhote (Gato A) e um felino adulto idoso (Gato B), mantidos em ambiente controlado, com enriquecimento ambiental e convivência interespecífica previamente estabelecida. Considerando o delineamento observacional e a amostra reduzida (n = 2), os resultados devem ser interpretados como descritivos e exploratórios, não permitindo generalizações estatísticas, mas oferecendo subsídios qualitativos relevantes para a compreensão do comportamento felino em contextos iniciais de treinamento para TAA.

I – Gato A – Felino Filhote

  1. Felino filhote, quatro meses, sem raça definida, mantido em ambiente controlado multiespécie. O felino apresentava temperamento predominantemente dócil e comportamento inicialmente cauteloso frente a estímulos novos, compatível com a fase juvenil de desenvolvimento. Foi submetido a um período inicial de adaptação ao ambiente e às rotinas de manejo previamente ao início das observações.
Figura 1 Gato A – Felino doméstico filhote participante do estudo observacional – Giselle

II – Gato B – Felino idoso

  1. Felino doméstico adulto idoso, oito anos, macho castrado, mantido em ambiente controlado multiespécie, com histórico prévio de dificuldades de adaptação social e comportamentos agressivos durante interações lúdicas.
Figura 2 Gato B – Felino doméstico idoso participante do estudo observacional – Lord Byron

DESSENSIBILIZAÇÃO E ADAPTAÇÃO

O Gato B já era adulto quando foi adotado, apresentando rápida adaptação ao novo ambiente e aos demais habitantes da residência. Entretanto, durante interações lúdicas, manifestava comportamentos de agressividade, incluindo mordeduras intensas, sendo então adotado um protocolo estruturado de modificação comportamental.

Foi adotado um protocolo estruturado de dessensibilização gradual associado ao contracondicionamento e ao reforço positivo, com o objetivo de promover adaptação emocional e maior estabilidade comportamental frente a estímulos ambientais e sociais. A exposição aos estímulos foi realizada de forma progressiva, respeitando os limites individuais dos felinos e evitando a manifestação de sinais comportamentais compatíveis com estresse. A progressão do protocolo ocorreu apenas quando o felino demonstrava tolerância aos estímulos apresentados. O protocolo foi aplicado de forma consistente ao longo das sessões de treinamento

Durante todo o processo, os sinais comportamentais compatíveis com estresse foram continuamente monitorados por meio da Cat Stress Score (Kessler & Turner, 1997). As intervenções corresponderam exclusivamente a situações de manejo, convivência e treinamento habituais em ambiente controlado, alinhadas às diretrizes cat-friendly e às recomendações de bem-estar para felinos envolvidos em serviços assistidos.

Ao longo do período de intervenção, foi aplicado reforço positivo de forma contínua. Sempre que o Gato B demonstrava mordedura intensa direcionada ao braço ou às mãos de um indivíduo, o comportamento era imediatamente redirecionado por meio da apresentação de um brinquedo apropriado. Após alguns minutos de interação com o brinquedo, era oferecido um petisco como reforço positivo, fortalecendo a associação entre a substituição do comportamento indesejado e uma experiência agradável.

A socialização entre os felinos do estudo constituiu um fator potencialmente estressante para o gato B, uma vez que ele não possuía experiência prévia de convívio com outros gatos. A adaptação foi conduzida de forma gradual. Nos três primeiros dias, os animais não tiveram contato visual, sendo expostos apenas aos odores um do outro. A partir do terceiro dia, foram promovidos encontros visuais em ambiente controlado, com a presença de obstáculos que permitiam distanciamento quando necessário. Durante todo o processo, foram utilizados feromônios sintéticos em todos os ambientes, com o objetivo de reduzir o estresse e favorecer a adaptação social. Após cinco dias, os animais passaram a interagir livremente, incluindo brincadeiras e repouso compartilhado, sendo o processo considerado efetivo ao final desse período.

O gato A apresentou rápida adaptação ao gato B e aos habitantes humanos do novo ambiente; entretanto, foi necessário iniciar um processo de adaptação com um cão adulto, macho, previamente residente no domicílio. O cão apresentava comportamento dócil e elevado nível de excitação durante interações iniciais, o que provocou sinais de estresse no gato A. O processo de adaptação entre os dois animais foi conduzido de forma gradual e teve duração aproximada de 90 dias, sendo considerado efetivo ao final desse período.

RESULTADOS

I – Sinais de estresse e conforto

  1. Os sinais de estresse em gatos podem ser avaliados por meio da Cat Stress Score (CSS), que classifica respostas comportamentais graduais, variando de relaxamento até estresse severo. Entre os principais indicadores estão postura corporal tensa ou encolhida, orelhas lateralizadas ou achatadas, dilatação pupilar, imobilidade, vocalizações excessivas, agitação da cauda e tentativas de fuga ou evitação do contato (Kessler; Turner, 1997).

Durante a avaliação das atividades desenvolvidas, os felinos incluídos no estudo não apresentaram sinais comportamentais compatíveis com estresse, conforme os critérios estabelecidos pela Cat Stress Score (CSS), mantendo posturas relaxadas, ausência de comportamentos de evitação e respostas compatíveis com bom nível de adaptação às sessões de treinamento.

I – Avaliação das habilidades desenvolvidas

II – Interação com humanos e novo ambiente

  1. O gato B participou de uma atividade prática em ambiente institucional controlado voltado ao ensino na área da saúde animal. A atividade ocorreu em uma sala localizada no mesmo ambiente do Hospital Veterinário, caracterizado pela presença de múltiplos odores provenientes de diferentes indivíduos e de diversos animais. O gato foi transportado em sua caixa de transporte e posicionado sobre uma mesa de atendimentos, em torno da qual os alunos estavam dispostos. Ao abrir a caixa, o animal emergiu de forma tranquila, demonstrando curiosidade e manutenção de um estado emocional calmo. Segundo o “Cat Stress Score”, apresentou nível relaxado. Durante toda a interação, não apresentou indicadores comportamentais de medo ou estresse, aceitou o contato físico dos alunos, permaneceu no colo de diferentes participantes e não exibiu tentativas de fuga, mostrando-se indiferente aos estímulos auditivos e olfativos do ambiente (Figura 3).
Figura 3 Gato B durante atividade de interação social em ambiente institucional controlado, na presença de múltiplos indivíduos.

O gato A foi exposto ao mesmo ambiente da atividade prática. Ao abrir a caixa de transporte, a gatinha prontamente demonstrou interesse em sair e iniciou a exploração ativa do local, segundo o “Cat Stress Score”, apresentou nível de atenção normal, evidenciando elevada curiosidade (Figuras 4 e 5). Diferentemente do outro participante, não apresentou interesse pelas pessoas presentes; seu comportamento concentrou-se predominantemente na investigação do novo ambiente, cheirando os móveis, explorando superfícies e realizando tentativas de escalada.

Figuras 4 e 5 Gato A saindo da caixa espontaneamente e descendo da mesa para explorar o ambiente novo durante sessão de observação comportamental.

A comparação entre os dois felinos evidencia diferenças comportamentais consistentes relacionadas tanto à idade quanto ao repertório individual de cada gato. O gato B, felino geriátrico, apresentou comportamento estável e socialmente responsivo, demonstrando tolerância ao manejo, aceitação do contato físico de múltiplos indivíduos e ausência de sinais de estresse, mesmo em um ambiente rico em estímulos auditivos, olfativos e sociais. Em contraste, o gato A, felino filhote, exibiu maior motivação exploratória, direcionando seu comportamento à investigação do ambiente físico, com pouca responsividade social e intensa curiosidade voltada à exploração de objetos, superfícies e mobiliário. Esses achados sugerem que, enquanto gatos idosos podem apresentar maior predisposição à interação social e à estabilidade emocional em contextos controlados, felinos jovens tendem a priorizar comportamentos exploratórios, o que pode influenciar sua prontidão e adequação para atividades em Tratamentos Assistidos por Animais.

Os gatos domésticos (Felis catus), embora apresentem estratégias evolutivas associadas tanto à predação quanto à evitação de riscos, demonstram comportamento exploratório e curiosidade quando inseridos em ambientes percebidos como seguros. Nesses contextos, a exploração de novos estímulos ocorre de forma voluntária e está associada ao bem-estar e à sensação de controle sobre o ambiente, refletindo um componente adaptativo importante do comportamento felino (Vitale et al., 2023).

Comando verbal e permanência no lugar

Em rotina diária padronizada, o gato B recebia alimento úmido no mesmo horário e local. O felino permanece no lugar até que o alimento seja oferecido, momento no qual é emitido o comando verbal ‘vem papá’. Esse comando também passou a ser utilizado durante a oferta de petiscos, e o felino desloca-se prontamente ao ouvi-lo. Nesse contexto, o alimento úmido funcionou como reforço positivo para o treinamento da habilidade de permanecer em um local específico até a liberação do estímulo desejado. O gato A foi submetido ao mesmo procedimento de condicionamento.

Ao comparar os dois felinos, observou-se que o gato B, apesar de geriátrico, aprendeu o comando em poucos dias, demonstrando consistência ao dirigir-se ao local específico (banquinho) e aguardar calmamente pelo alimento no horário habitual. O gato A, por sua vez, aprendeu o comando em apenas um dia, sem necessidade de treinamento adicional. Felinos jovens tendem a observar e imitar o comportamento de indivíduos mais velhos, e, por meio dessa observação, o gato A não apenas passou a aguardar calmamente pelo alimento, como também respondeu ao comando verbal em aproximadamente 24 horas (Figura 6).

Figura 6 Gatos A e B aguardando alimento durante rotina padronizada de treinamento. A presença do cão Olaf reflete o contexto habitual dos felinos e não constituiu variável de análise no estudo

DISCUSSÃO

Os resultados indicam que problemas comportamentais prévios não constituem critério absoluto de exclusão para a participação de felinos em Tratamentos Assistidos por Animais. Protocolos baseados em dessensibilização gradual, contracondicionamento e reforço positivo demonstram eficácia na redução de respostas de medo, ansiedade e agressividade, promovendo maior estabilidade comportamental e previsibilidade das respostas (Landsberg, Hunthausen & Ackerman, 2013; Bain & Stelow, 2014). Diretrizes cat-friendly ressaltam que a exposição controlada a estímulos, aliada ao respeito aos limites individuais e à possibilidade de escolha, é essencial para a adaptação emocional e o bem-estar dos felinos em contextos terapêuticos (Rodan & Ellis, 2016; International Society of Feline Medicine, 2022). Dessa forma, a dessensibilização estruturada amplia, de maneira ética e baseada em evidências, a elegibilidade de gatos para Tratamentos Assistidos por Animais (Ellis, 2018; Kogan, Grigg & Hellyer, 2023).

A dessensibilização em ambiente controlado é essencial no preparo de felinos para Tratamentos Assistidos por Animais, pois possibilita a exposição gradual a estímulos novos, reduzindo respostas de medo e favorecendo maior estabilidade comportamental. Quando associada ao manejo cat-friendly e ao reforço positivo, contribui para a adaptação emocional do animal e para a previsibilidade de suas respostas em contextos terapêuticos (Rodan & Ellis, 2016; International Society of Feline Medicine, 2022). A dessensibilização combinada com contracondicionamento tem se mostrado eficaz na redução de comportamentos indesejados, como agressividade, medo excessivo e ansiedade, além de contribuir para o aumento do bem-estar geral do felino (Landsberg, Hunthausen & Ackerman, 2013). O contracondicionamento consiste em associar estímulos anteriormente aversivos a experiências positivas, como petiscos ou brincadeiras, promovendo uma resposta emocional mais tranquila. Essa abordagem é amplamente utilizada em contextos de adestramento e Terapia Assistida por Animais (TAA), promovendo interações mais harmoniosas entre o gato e os seres humanos (VCA Animal Hospitals, 2023; Best Friends Animal Society, 2023).

A utilização de felinos jovens e idosos em Tratamentos Assistidos por Animais (TAA) envolve desafios específicos relacionados às diferenças etárias, ao repertório comportamental individual e à capacidade adaptativa de cada gato. Os resultados deste estudo evidenciam que a idade, associada à história de socialização e às experiências prévias, influencia de forma significativa o desempenho comportamental e a adequação dos felinos aos contextos terapêuticos. O felino idoso apresentou maior estabilidade emocional, baixa reatividade a estímulos ambientais e comportamento social previsível, características amplamente descritas na literatura como desejáveis para animais envolvidos em serviços assistidos. Estudos recentes indicam que gatos adultos e idosos, quando adequadamente socializados, tendem a apresentar maior tolerância ao manejo humano, menor impulsividade e respostas emocionais mais consistentes, o que favorece a segurança e o bem-estar em ambientes terapêuticos (Delanoeije et al., 2025; Rusu et al., 2024). Essa previsibilidade comportamental é considerada um dos principais critérios para a seleção de felinos destinados à TAA, uma vez que reduz riscos tanto para o animal quanto para os pacientes. Em contraste, o felino jovem demonstrou elevada motivação exploratória e rápida aquisição de comportamentos, direcionando sua atenção predominantemente à investigação do ambiente físico. Esse padrão está de acordo com evidências que descrevem maior plasticidade comportamental e curiosidade em felinos juvenis, associadas a fases iniciais do desenvolvimento neurocomportamental (Rusu et al., 2024). Embora esse perfil possa representar um desafio inicial para atividades terapêuticas que exigem permanência em local determinado e interação social contínua, também indica um elevado potencial de aprendizagem quando o treinamento é estruturado e gradual.

Diferenças individuais observadas no comportamento de felinos jovens podem estar relacionadas a experiências precoces de desenvolvimento. Estudos indicam que a remoção de gatinhos antes das oito semanas de idade está associada a maior prevalência de agressividade e comportamentos estereotipados, como lambedura excessiva e sucção de tecidos, além de maior reatividade a estímulos estressores na vida adulta (Ahola, Vapalahti & Lohi, 2017). Gatinhos criados sem a presença materna também demonstram maior vocalização e atividade motora em situações de separação, sugerindo impacto negativo sobre a socialização e o aprendizado de comportamentos adequados (Delgado et al., 2020). Esses achados reforçam a importância da história de desenvolvimento na interpretação do repertório comportamental apresentado durante o treinamento para TAA.

A aprendizagem por observação observada neste estudo, especialmente no comportamento do felino jovem ao replicar rapidamente ações previamente executadas pelo felino idoso, reforça a relevância dos processos de aprendizagem social em gatos domésticos. Evidências clássicas já demonstravam que felinos são capazes de adquirir comportamentos com maior eficiência quando expostos a modelos conspecíficos (Adelman & Alpert, 1966). Estudos contemporâneos ampliam essa compreensão ao demonstrar que gatos também podem imitar ações humanas em paradigmas experimentais, evidenciando habilidades sociocognitivas mais complexas do que tradicionalmente atribuídas à espécie (Fugazzola & Bentos, 2021).

O comando verbal no treinamento de gatos baseia-se na associação consistente entre um estímulo sonoro curto e um comportamento específico, reforçado imediatamente por consequências positivas, como petiscos ou interação social. Evidências indicam que felinos são capazes de discriminar palavras humanas e responder a sinais vocais quando estes são apresentados de forma repetível, com entonação estável e em sessões breves, favorecendo a aprendizagem sem indução de estresse (McCOMB et al., 2019). Essas evidências reforçam a aplicabilidade do comando verbal como ferramenta complementar no treinamento de gatos candidatos à TAA

No que se refere ao bem-estar animal, a ausência de sinais comportamentais de estresse durante as atividades avaliadas, conforme os critérios da Cat Stress Score (CSS), indica que os protocolos de manejo e treinamento empregados foram compatíveis com as necessidades etológicas da espécie. A manutenção de posturas relaxadas, a ausência de comportamentos de evitação e a exploração voluntária do ambiente refletem um estado emocional compatível com conforto e adaptação, conforme descrito por Kessler e Turner (1997). A literatura destaca que a percepção de controle sobre o ambiente e a possibilidade de escolha são fatores centrais para a redução do estresse em gatos, especialmente em contextos novos ou potencialmente desafiadores (Rodan & Ellis, 2016; ISFM, 2022).

Além do bem-estar individual, a estabilidade comportamental constitui um pré-requisito para interações seguras em contextos terapêuticos multiespécie. A adaptação interespecífica depende do temperamento do animal, de experiências prévias de socialização e de treinamento específico, permitindo que os comportamentos naturais sejam expressos de maneira controlada e previsível (Serpell et al., 2017). Estudos indicam que animais submetidos a processos estruturados de adaptação interespecífica apresentam menor risco de estresse, agressividade ou evasão durante as sessões, contribuindo para a segurança de pacientes e profissionais envolvidos (Barker & Dawson, 1998). Além disso, a adaptação adequada favorece a eficácia terapêutica, promovendo interações mais positivas e fortalecendo os benefícios emocionais e psicológicos das TAA (Fine, 2019; Serpell et al., 2017).

Do ponto de vista aplicado, os achados deste estudo reforçam que não há um único perfil etário ideal para a inclusão de felinos em TAA. Felinos idosos podem oferecer maior estabilidade emocional e previsibilidade comportamental, enquanto felinos jovens apresentam elevada capacidade de aprendizagem e adaptação, desde que submetidos a protocolos adequados de socialização, dessensibilização e reforço positivo. A literatura corrobora que a seleção de gatos para TAA deve priorizar critérios comportamentais individuais, como sociabilidade, tolerância ao toque, baixa reatividade e capacidade de recuperação frente a estímulos, independentemente da idade cronológica (Ellis & Wells, 2010; Delanoeije et al., 2025).

É importante ressaltar que o presente estudo possui caráter observacional e amostra reduzida, o que limita a generalização dos resultados. No entanto, os dados qualitativos obtidos oferecem contribuições relevantes para a compreensão das diferenças comportamentais entre felinos de distintas faixas etárias durante etapas iniciais de treinamento para TAA. Estudos futuros com amostras maiores, delineamentos longitudinais e instrumentos complementares de avaliação fisiológica poderão aprofundar a compreensão sobre os fatores que influenciam o sucesso da inclusão de gatos em contextos terapêuticos.

Em síntese, os resultados reforçam que a atuação ética e eficaz de felinos em Tratamentos Assistidos por Animais depende de protocolos estruturados, baseados em evidências científicas, que respeitem as particularidades comportamentais da espécie. A integração entre estabilidade emocional, aprendizagem social e bem-estar animal constitui um eixo central para o desenvolvimento de práticas seguras e sustentáveis envolvendo gatos como co-terapeutas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados indicam que problemas comportamentais prévios não constituem critério absoluto de exclusão para a participação de felinos em Tratamentos Assistidos por Animais quando são aplicados protocolos estruturados de dessensibilização gradual, contracondicionamento e reforço positivo. Em consonância com as diretrizes da International Society of Feline Medicine (ISFM) e da International Association of Human–Animal Interaction Organizations (IAHAIO), tais abordagens favorecem maior estabilidade comportamental, previsibilidade das respostas e bem-estar dos felinos.

Além disso, os achados sugerem que tanto felinos jovens quanto idosos podem apresentar potencial para atuação em contextos terapêuticos, desde que a seleção e o treinamento considerem as características comportamentais individuais, a história de socialização e a capacidade adaptativa, reforçando a importância de abordagens éticas e baseadas em evidências para a inclusão de gatos em Tratamentos Assistidos por Animais.

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Wilson K. Using desensitization and counterconditioning to modify feline behavior. Cattitude Adjustment; 2021.

MV Especializada Priscila Marcondes Toinaki

Bacharel em Medicina Veterinária pela FMU (2006), pós-graduada em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais; Clínica Médica Hospitalar, ANCLIVEPA-SP, especializada em Patologia e Parasitologia Veterinária; Biossegurança e Saúde Pública e especialista em Serviços Assistidos por Animais, possui Certificação Cat Friendly, Feline Veterinary Medical Association-USA. Coordena cursos intensivos na área de Infectologia Veterinária e SAA pela Sociedade Paulista de Medicina Veterinária – SPMV. Criadora e coordenadora do curso de Pós-graduação em Infectologia de Cães e Gatos, criadora e coordenadora do curso de Pós-graduação em Terapias Assistidas por Animais (TAA) com Ênfase no Desenvolvimento Atípico, ambos pela Faculdade ANCLIVEPA – SP. Atualmente é coordenadora técnica do ReabiliT.A.A., programa que regulamenta e desenvolve Tratamentos Assistidos por Animais voltados a crianças, adultos e idosos. Integra a área médica, com ênfase em Saúde Mental, desenvolvendo protocolos de preparação e manejo de felinos domésticos para participação em Tratamentos Assistidas por Animais (TAA), direcionadas a crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Médica Veterinária do Felinamente, serviço especializado no atendimento clínico e comportamental exclusivo para gatos. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1068519542705546