Doença é preocupação constante de veterinários e agentes de saúde em geral, e precisa de mais foco na prevenção para o controle de casos

Por Samia Malas
A leishmaniose visceral canina (LVC) é uma das doenças parasitárias que mais matam no mundo e, ao mesmo tempo, uma das mais negligenciadas. No Brasil, ela é endêmica nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e, mais recentemente, tem avançado na Região Sul.
Para trazer maior clareza sobre medidas de prevenção e outros aspectos importantes da doença que o clínico veterinário precisa ter em seu atendimento de rotina, conversamos com a Prof. Romeika Reis, médica-veterinária dermatologista, especialista em leishmaniose e membro do Brasileish (Grupo de Estudos sobre Leishmaniose Animal).
UMA DOENÇA EM EXPANSÃO
O primeiro fator de preocupação que agentes de saúde têm em relação à LVC é o fato dela ser uma doença que está sempre em expansão territorial. “Por muito anos não tínhamos casos na região Sul, mas hoje, em Foz do Iguaçu-PR, por exemplo, existem áreas de transmissão intensa. Então, o potencial exponencial da doença e o fato dela não ter um controle muito bem elaborado de medidas públicas de saúde, faz com que a nossa preocupação em relação à LVC seja sempre vigente”, explica Romeika.
PROTOCOLOS DE PREVENÇÃO
Ainda segundo a médica-veterinária, a principal medida de proteção contra a LVC é controlar a sua principal forma de transmissão, ou seja, evitar que cães sejam picados pelo mosquito palha, um flebotomíneo que tem mais de 20 espécies diferentes, sendo que oito delas ocorrem no Brasil. Isso porque, o cão, é o principal reservatório da doença em áreas urbanas, o que reforça o papel do clínico veterinário em seu controle. “Para isso, o encoleiramento de animais de estimação é uma das ações consideradas fundamentais. Porém, hoje já sabendo que há outras formas de transmissão, como a vertical, da cadela para seus filhotes, e a transfusional, quando um animal infectado doa sangue infectado e contamina outros, além da forma sexualmente transmissível”, acrescenta Romeika.
A eutanásia de animais positivos foi, por muito tempo, uma política pública para controlar a doença, mas, hoje, Romeika diz que ela não vem sendo aplicada como principal forma de prevenção, pois não se mostrou eficaz. “A comprovação científica mostra que devemos unir forças, castrando, fazendo encoleiramento dos animais e tendo maior rigor na transfusão de sangue para controlar a doença”, enfatiza.

“O potencial exponencial da doença e o fato dela não ter um controle muito bem elaborado de medidas públicas
de saúde, faz com que a nossa preocupação em relação à LVC seja sempre vigente”
diz Prof. Romeika Reis, especialista em leishmaniose
DERMATOPARASITOSES: UM FATOR COMPLICADOR
Todo cão que é infectado por Leishmania infantum, não pode ser infestado por carrapatos, alerta Romeika. “Isso porque, o ectoparasita é um transmissor da erliquiose e o casamento entre as duas doenças é muito perigoso para o cachorro, pois uma doença traz gravidade à outra. Este é um desafio para o clínico veterinário”, destaca Romeika, que também alerta sobre outra doença importante que não pode ser contraída por este cão infectado: a dirofilariose, também transmitida por picada de mosquito. “Quadros verminóticos em geral precisam ser controlados, especialmente nos animais positivos para LVC”, reforça a médica-veterinária.
CAMINHOS DA PREVENÇÃO
O papel do médico-veterinário de pequenos animais na prevenção da LVC é fundamental, porém, na rotina clínica, como existem muitas opções prevenção, muitas vezes, o profissional acaba ficando perdido sem saber o que de fato importa. “A medicina da individualidade nestes casos é, de fato, fundamental. Então, aquele cão que mora em uma região endêmica para a doença, mesmo se ele morar em apartamento, sem sair de casa, ele tem que usar coleira mesmo assim, pois o flebotomíneo pode chegar nele de qualquer forma. Se o cão mora em região endêmica e ainda passeia no campo, na praia, vai na fazenda, tem que usar a coleira e fazer uso de carrapaticida mês a mês, pois o desafio de controle neste paciente é muito alto – precisa usar até preventivos para dirofilariose. Estamos falando de formas diferentes de prevenção, masque devem ser feitas associadas, pois é uma prevenção sistematizada, mas individualizada”, ressalta a médica-veterinária.
CONTROLANDO OS SINTOMAS
A leishmaniose visceral canina não tem cura, porém existem medicamentos que reduzem o número de parasitas no organismo do animal de estimação e aliviam os sintomas, dando maior qualidade de vida. “No Brasil, liberado pelo MAPA, temos a miltefosina (droga de primeira escolha) e a marbofloxacina (que chegou ao mercado brasileiro no início de 2025), mas não usamos somente um ou outro, usamos uma associação de fármacos para termos uma melhor resposta ou uma resposta mais duradoura. Isso envolve custos, então, a LVC não é uma doença barata, por isso a prevenção ainda é o melhor caminho”, acrescenta Romeika. Ainda segundo ela, poucos municípios no Brasil, como Florianópolis-SC, oferecem tratamento público para a doença, mas espera-se que políticas públicas neste sentido cresçam pelo país. “Tratar o cão contra a LVC é uma questão de saúde única, pois ter este tratamento subsidiado pelo governo está protegendo a família, o animal de estimação e faz com que haja uma maior eficácia de controle da doença, pois evita que as pessoas abandonem animais infectados ou optem pela eutanásia, pelo custo do tratamento ser caro. A eutanásia, nos casos de LVC, ainda existe sim, e é uma utopia nossa acharmos que sua prática será reduzida. Agora, como a LVC é uma doença bastante debilitante, quando o animal de estimação infectado chega com complicações como a doença renal crônica ou outras que induzam um sofrimento, em algumas situações, a eutanásia pode ser sim uma indicação”, opina Romeika.



