Uso de inibidores de JAK na dermatologia veterinária de pequenos animais

Entenda melhor o uso destes fármacos, considerados uma grande evolução no controle do prurido em cães

Foto: HelenWalkerz65/iStock

Por Samia Malas

Os chamados inibidores de JAK (Janus Quinase) são medicações imunomoduladoras que bloqueiam a atividade das enzimas JAK, interrompendo a sinalização inflamatória em doenças, aliviando sintomas como o prurido. “Temos dois inibidores de JAK no Brasil, cujo princípio ativo é o oclacitinib, lançado em 2016 no Brasil, e em 2014 na Europa e Estados Unidos. Então já temos 11 anos de uso de oclacitinib no mundo, inclusive, temos um artigo de revisão com mais de 86 publicações falando sobre a segurança e eficácia dele. E o segundo inibidor de JAk foi lançado primeiramente no Brasil no final 2024, e existem quatro trabalhos publicados falando sobre este medicamento, cujo princípio ativo é o ilunocitinib. A diferença entre eles é que o primeiro é inibidor de JAK 1, trazendo segurança, por ser seletivo na dose de bula, inibindo as interleucinas: IL-2, IL-4, IL-6, IL 13 e IL 31, controlando a inflamação e o prurido de forma rápida e segura; e o segundo inibe o JAK 1, JAK 2 e a tirosina quinase 2”, diferencia Dra. Flávia Clare. Ela ainda explica que, antes dos inibidores de Jack, os veterinários tinham apenas a corticosteroides e a ciclosporina (inibidor de calcineurina) para controlar o prurido em cães. “A cortisona faz a inibição de toda a cascata da inflamação e tem dezenas de efeitos colaterais. E a calcineurina tem uma ação muito mais abrangente no processo anti-inflamatório e antipruriginoso, trazendo efeitos colaterais mais evidentes. Com os inibidores de JAK temos um medicamento com ação rápida que nos traz muito mais segurança no tratamento dos pacientes alérgicos”, enfatiza.
Dr. Maurício Piovesan Henrique concorda que os inibidores de JAK revolucionaram o tratamento da dermatite atópica em cães. “Os inibidores de JAK são os mais prescritos no tratamento de animais alérgicos, pioneiros ao aliar segurança com eficácia no longo prazo, e com um mercado promissor nos próximos anos, com novas moléculas sendo desenvolvidas”, diz Dr. Maurício, que será palestrante do Congresso Dermato em Foco 2026, em Campinas-SP, abordando o tema: Inibidores da JAK na rotina dermatológica: benefícios, limites e desafios.

RECEITANDO OS INIBIDORES
Maurício percebe que ainda há certa arbitrariedade na escolha de determinado fármaco para o paciente alérgico, como se a prescrição fosse, de certa forma, na base da “tentativa e erro”.
“O foco da minha palestra será voltado para este objetivo: auxiliar o colega a fazer uma prescrição mais assertiva, demonstrando que os inibidores de JAK atuam sobre vias distintas e com seletividades diferentes, e que na dependência do perfil alérgico do paciente, um medicamento pode se tornar mais indicado que outro”, acrescenta o médico-veterinário.
Dra. Flávia também explica que embora não seja necessário realizar exames de sangue para acompanhamento do oclacitinib, porque os efeitos colaterais não são importantes (apenas em torno de 5 % dos animais podem apresentar efeitos colaterais), no uso do ilunocitinib, por ainda ser um medicamento novo, sem um número grande de publicações, ela aconselha realizar exame de sangue periódico para acompanhar o paciente. “Isso porque existe a inibição de JAK 1, JAK 2 e tirosina quinase 2, que são os JAKs que participam não só no processo inflamatório, mas também na imunidade nata, no crescimento celular, na resposta imunologia, na hematopoiese, dentre outros. Então, aconselho acompanhar estes pacientes por um período e ver se apresentam algum efeito colateral ou não”, diz. Ainda segundo Flávia, sua experiência com o oclacitinib se estende para diferentes condições que causam prurido e inflamação, não somente a dermatite atópica, como a dermatite úmida aguda, todos os tipos de alergia como a por picada de pulga, hipersensibilidade alimentar, entre outros. “Ele pode ser usado em qualquer processo inflamatório pruriginoso, como na escabiose, onde observamos diminuição do prurido, mas claro que precisa tratar a sarna. Em doses mais altas você tem ação imunossupressora para doenças autoimunes, então já usei para lúpus, pênfigo, vasculite, dermatomiosite, dermatose de margem de orelha, enfim, existe até um trabalho falando do seu uso em mastocitoma. Podemos usar em várias enfermidades desde que tenha publicação, mas na bula ele é indicado apenas para as alergias”, explica.

USO EM GATOS
Dra. Flávia explica que a bula dos inibidores de JAK citados não indica o uso dos medicamentos em gatos, porém, há vários artigos publicados sobre o uso do oclacitinib em felinos. “A dose usada em gatos é maior para atingir os níveis séricos eficazes, pois ele é metabolizado de forma mais rápida no felino. Assim, ao invés de fazer a cada 24 horas, precisa ser feito a cada 12 ou 8 horas. Então, sabemos por estas publicações que o uso em felinos tem resposta”, finaliza.

Flávia Clare
Médica-veterinária com mestrado e doutorado em Medicina Veterinária – Clínica Médica pela UFRRJ, expert em dermatologia com 28 anos de atuação na área, professora da UNIFAA e de pós-graduação em Dermatologia Veterinária na Anclivepa/SP, UFARPE e UNIFAA e palestrante.
Proprietária da empresa Flávia Clare Dermatologia Veterinária.
Site: www.flaviaclare.com

Maurício Piovesan Henrique
Clínico autônomo, palestrante, professor de pós-graduação e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV), atua em São Paulo e Região Metropolitana.
Site: dermato.vet.br