
Por Letícia Oliveira Reis
INTRODUÇÃO
As mudanças climáticas e aumento da temperatura média no mundo têm gerado uma preocupação global relacionada aos efeitos negativos do calor excessivo sobre a saúde dos seres vivos (1). Tal evento acarreta alterações importantes no organismo, gerando doenças que afetam diversos sistemas, entre eles: cardiovascular, respiratório, gastrointestinal e sistema nervoso (1, 9).
Os animais, assim como os seres humanos, também sofrem com o aumento da temperatura (27). Os cães, por sua vez, têm uma capacidade de autorregulação térmica limitada por questões fisiológicas e evolutivas, sendo assim, ambientes fechados e a exposição solar prolongada pode ser muito prejudicial, trazendo um desiquilíbrio térmico severo, alterando funções vitais do organismo (2).
A hipertermia é definida pelo aumento da temperatura central do corpo e resulta na perda do equilíbrio de calor. Deste modo, o calor passa a ser produzido e/ou armazenado em uma taxa excessiva, após a falha na radiação, convecção ou evaporação, após atividades intensas expostos a altas temperaturas, estresse elevado e/ou em ambientes fechados. Podendo ser classificada como: febre verdadeira, hipertermia do exercício, dissipação inadequada de calor, golpe de calor ou heatstroke (5). É um evento que acomete principalmente cães de porte grande e raças braqueocefálicas (3, 4, 5, 24).
A sintomatologia clínica é apresentada de forma variada, podendo manifestar alterações neurológicas, danos renais, hepáticos, gastrointestinais, síndromes respiratórias agudas e desencadear uma coagulação intravascular disseminada (CID) (6, 7, 8).
Este assunto representa um desafio clínico crescente para médicos veterinários, principalmente diante dos atuais recordes de temperatura que estamos passando nos últimos anos, exigindo um diagnóstico rápido e preciso para evitar complicações severas ou até mesmo fatais.
Além do histórico clínico, alguns achados hematológicos podem nos guiar diante desta enfermidade (5).
Este trabalho tem como objetivo relembrar a fisiologia da termorregulação em cães, explicando e exemplificando as alterações sistémicas, facilitando uma intervenção rápida para um diagnóstico certeiro e eficaz, uma vez que tal alteração térmica pode acarretar um péssimo prognóstico aos cães.
FISIOLOGIA DA TERMORREGULAÇÃO
A Termorregulação é um mecanismo fisiológico dos animais, ajudando no funcionamento do organismo e mantendo a homeostase do corpo, estando relacionada com a qualidade de vida e bem-estar animal (2, 17).
O hipotálamo é o principal órgão responsável pela regulação térmica, ele engloba impulsos originados na base cutânea e tecidos profundos. Quando estes impulsos ficam variando entre o limiar de temperatura, acontece os feedbacks termorreguladores de forma independente que, mantém a temperatura corporal no seu valor adequado (18, 19).
Diante disto, os cães por se encaixarem no grupo de animais endotérmicos (animais de sangue quente) (2), tem a capacidade de manter sua temperatura constante, fazendo o uso de mecanismos fisiológicos em situações de condições extremas em relação à temperatura ambiental (2, 9,10, 11). A temperatura fisiológica normal dos cães varia entre 37,8°C a 39,2°C (20).
O corpo produz calor em consequência da realização de metabolismo de forma contínua, sendo assim, caso não tivesse mecanismos para controlar a dissipação de calor, a temperatura corporal chegaria a níveis insuportáveis (2, 12). A pele é o maior órgão do corpo e também uma das principais responsáveis pela dispersão do calor através de quatro mecanismos, sendo eles: Irradiação, evaporação, condução e convecção, sendo encarregados de 75% da dissipação do calor (2, 9, 12, 13).
A irradiação consiste em um processo natural, onde se perde calor para o ambiente, quando a temperatura se encontra abaixo comparada ao corpo. A Evaporação é a perda de água por meio do aparelho respiratório; o aumento de produção de saliva também ajuda na evaporação através da língua e cavidade oral. No caso dos cães, a transpiração seria uma terceira forma importante de evaporação, mas as suas glândulas sudoríparas presentes não são tão bem desenvolvidas. A convecção é a perda de calor em contato com movimentação de ar ou água pela superfície do animal. A condução é a transferência do calor pelas superfícies frias no qual o animal entra em contato (2, 9, 12, 13).
Não deixando de citar, a excreção das fezes e urina também são dois mecanismos de autorregulação térmica, mas como a sua perda de calor é bem pequena, acaba sendo desconsiderado (9).
A irradiação e convecção possibilitam 70% de perda de calor, uma vez que a temperatura ambiente tem que estar inferior à do corpo (14, 15). Quanto mais a temperatura aumenta mais esses mecanismos ficam ineficazes. A evaporação acaba se tornando a única forma de perda de calor possível, uma vez que sua capacidade diminui, além do calor extremo, com o aumento da umidade do ar (12, 15, 16).
Ademais, existem métodos comportamentais que regulação a temperatura: procura de sombra, lugares mais frescos e arejados, aumento na ingestão de água, deitar-se de decúbito ventral e lateral em pisos frios (12) (FIGURA 1).

HIPERTERMIA SINAIS CLÍNICOS/ ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS
A hipertermia é o termo utilizado para representar o aumento de temperatura corporal central, é a consequência do desequilíbrio dos mecanismos responsáveis pela dissipação do calor no corpo. Desta maneira o calor passa a ser produzido e/ou armazenado de forma desacerbada (2, 3, 22).
Ela é classificada como: febre verdadeira, hipertermia do exercício, dissipação inadequada de calor, golpe de calor ou heatstroke (2, 3, 5). O choque térmico é um resultado comum da forma ineficaz de dissipação de calor, decorrendo da exposição exagerada do animal as altas temperaturas ambientais e lugares fechados sem ventilação, fatores que aumentam a carga de calor de uma forma mais rápida (23). É particularmente recorrente em cães de grande porte e raças braqueocefálicas (3, 4, 5, 24).
Quando a temperatura ultrapassa 41,5°C a 42,5°C a função celular fica extremamente prejudicada, levando o animal a ter perda de consciência (19, 21), podendo resultar na morte do animal (32).
Cada animal pode ter apresentações clínicas variadas, podendo ter disfunções neurológicas, síndrome do desconforto respiratório, rabdomiólise, danos hepáticos, renais, gastrointestinais e, até desencadear uma coagulação intravascular disseminada (CID) (6, 7, 8).
Para um diagnóstico rápido de hipertermia, somamos uma série de fatores, principalmente relacionado ao histórico clínico recente do paciente. Sendo ele, uma exposição desacerbada a altas temperaturas ambientes, podendo ou não estar associado a ambientes desprovidos de boa ventilação, acompanhado de sinais clínicos como: ofegação excessiva, alterações neurológicas, disfunções gastrointestinais como melena ou hematoquezia (21), acompanhada ou não de taquicardia, aumento do tempo de perfusão capilar (TPC), mucosas secas, hiperêmicas, podendo apresentar petéquias e caso em caso de hemólise relacionado a coagulação intravascular disseminada (CID) (13) e também alterações hematológicas.
As alterações hematológicas são achados importantes, que somando com os sinais clínicos além de fecharmos o diagnóstico, podemos entender melhor o quadro do animal acometido pela hipertermia (8). A falha no desequilíbrio térmico resulta em diversas modificações nas análises hematológicas imediatas do animal que está com hipertermia. Uma vez que a dissipação do calor fica ineficaz, a alta temperatura leva a desnaturação das células, acarretando em morte celular. No hemograma, além de eritrocitose (aumento da concentração de hemácias) encontram-se na análise do esfregaço sanguíneo presença de leucopenia, com neutrófilos hipersegmentados, células em apoptase com núcleos picnóticos e metarrubricitos (hemácias jovens nucleadas) (8, 9, 28).

Em relação às plaquetas, é comum o animal apresentar trombocitopenia, pelo fato de ter lesões periféricas severas, petéquias e também estar relacionado ao quadro de coagulação intravascular disseminada pela lesão vascular.
Vale ressaltar que há fatores que predispõem ao quadro de hipertermia, além de fatores ambientais e lugares com má circulação de ar. Animais com obesidade, uma vez que o tecido adiposo pode atrapalhar na termorregulação (2) e animais braqueocefálicos, os quais já sofrem com a péssima qualidade da respiração devido anomalias congênitas.
TRATAMENTO/ PROGNÓSTICO
O tratamento apropriado para tal evento é o resfriamento do corpo de forma geral, com intuito de reduzir a sua temperatura corporal (2, 5). Iniciando com panos úmidos e banhos com água tépida pelo corpo do paciente, não usando água fria, uma vez que pode causar uma vasoconstrição periférica diminuindo ainda mais a capacidade de dissipar o calor, tornando mais lento o processo de resfriamento (3, 29, 30).
O uso de medicamentos antipiréticos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINES), assim como a dipirona e a flunixina meglumina, não são indicados no tratamento da hipertermia. Eles podem promovem efeitos diversos e consideráveis nesses quadros. Incluindo: hipotermia severa, ulceras gastrointestinais, aumento do tempo de sangramento e supressão da medula óssea (25, 31).
O uso da fluidoterapia é de suma importância para estabilizar o animal, pois o paciente pode passar por um déficit de volume absoluto e/ ou relativo. A lesão renal aguda é induzida em casos de hiperemia e sepse, visto que ocorre vasodilatação e isquemia causada pela diminuição da função renal, sendo assim, é de suma importância a monitoração do débito urinário (12). Portanto, em casos de oligúria recorrente e anúria, mesmo com a manutenção da hidratação adequada e a pressão arterial média, o uso do medicamente se faz necessário (34). A administração da fluidoterapia visa reanimar tal volume circulante e retormar a fluidez periférica e a perfusão das vísceras (12).
O monitoramento do sistema nervoso é essencial, visto que há casos de aumento na pressão intracraniana onde pode-se fazer uso de manitol, ou optar pelo diazepam, em casos de convulsões (15, 33).
Quando se trata de cães braquicefálicos com considerável angústia respiratória, opta-se pela intubação endotraqueal e também, suporte ventilatório mecânico. A redução da agitação e ansiedade são aliados no tratamento, muitas vezes, sendo associado a analgésicos e medicações sedativas (35).
Por desencadear fatores desfavoráveis em vários sistemas do organismo, a internação é classificada com um prognóstico reservado a ruim, com altas taxas de mortalidade, já relatado entre 50% a 64% de morte em cães (36, 37).
CONCLUSÃO
A hipertermia, particularmente em cães, representa um problema crescente em relação à saúde dos animais domésticos, pois exige uma ação rápida e eficaz dos médicos-veterinários. Com o aumento das temperaturas globais, o risco cresce. A compreensão dos mecanismos fisiológicos da temorregulação e o reconhecimento precoce dos sinais clínicos são essenciais para um manejo eficiente, podendo salvar esses pacientes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Letícia Oliveira Reis
Graduação em Medicina Veterinária pela UNIFRAN;
Residência em Patologia animal e Laboratório clínico pela UNIFRAN;
Atualmente trabalha em uma unidade TECSA, em São José do Rio Preto.



