The nutrition of cancer patients in veterinary medicine

Por Aline Zoppa, Alexia Hoffmann, Dayana Nunes, Lívia Fidelis Mota
Resumo
Além do câncer ter um caráter genético, ele também pode se desenvolver através de alterações metabólicas e inflamações crônicas, um exemplo sendo a obesidade nos animais de companhia. Durante o desenvolvimento de uma neoplasia, o paciente pode vir a ter um quadro de caquexia, uma síndrome paraneoplásica que afeta drasticamente o escore corporal e a qualidade de vida do animal. Para auxiliar no tratamento de um câncer ou até prevenir o mesmo, é importante formular um manejo nutricional especializado para o paciente. Dietas com mais proteínas e gorduras, métodos como o jejum intermitente e a suplementação correta de ômega 3 e antioxidantes podem ser benéficos ao reduzir a proliferação de células tumorais, além de ajudar na manutenção do organismo durante o tratamento quimioterápico.
palavras-chave: alterações metabólicas, obesidade, caquexia, manejo nutricional
Abstract
In addition to cancer having a genetic trait, it can also develop through metabolic changes and chronic inflammation, an example being obesity in pets. During the development of a neoplasm, the patient may have cachexia, a paraneoplastic syndrome that drastically affects the animal’s body condition score and quality of life. To assist in the treatment of cancer or even prevent it, it is important to formulate a specialized nutritional management for the patient. Diets with more protein and fat, methods such as intermittent fasting and the correct supplementation of omega 3 and antioxidants can be beneficial in reducing the proliferation of tumor cells, in addition to helping to maintain the patients organism during chemotherapy treatment.
keywords: metabolic alterations, obesity, cachexia, nutritional management
1. Introdução
No decorrer dos últimos anos, os tutores vêm se importando cada vez mais com a saúde dos seus animais. Podemos observar uma mudança na visão que muitas pessoas têm sobre os pets, incluindo-os mais na família além de tratá-los com os cuidados equivalentes a um filho. Isso se encaixa também na parte da alimentação. Atualmente, diversos tutores adquiriram o conceito da alimentação natural para os seus pets, e buscam por rações mais saudáveis no mercado. Com a falta de informações e sem as devidas orientações de um médico veterinário, estas mudanças na dieta dos animais podem vir a ser prejudiciais à sua saúde. Por este motivo é de extrema importância o acompanhamento de um veterinário na vida destes animais, além de constantes estudos e pesquisas sobre alimentação animal.
Assim como a questão da alimentação ganhou maior relevância na veterinária, a sua relação com o desenvolvimento e tratamento de doenças também. O manejo dietético vem ganhando força no lado mais integrativo e preventivo das doenças. A nutrição do paciente está sendo utilizada para auxiliar no tratamento de neoplasias, por exemplo, junto com o uso de medicações. O manejo nutricional específico para o paciente oncológico pode ajudar a reduzir os efeitos colaterais que a quimioterapia, radioterapia e cirurgia causam no animal. Esses tratamentos oncológicos, por mais que eficazes na maioria dos casos, podem reagir de maneira agressiva ao corpo do paciente, causando uma perda de peso significativa, alterações metabólicas e prejudicando a imunidade ¹.
Portanto, é importante considerar uma dieta personalizada para o paciente oncológico, a fim de melhorar sua qualidade de vida durante o tratamento, além de atender suas necessidades nutricionais prejudicadas devido ao câncer ² .
2. Objetivo e métodos
Trata- se de uma revisão baseada na literatura científica, as bases de dados utilizadas para pesquisa foram anexadas no Google Acadêmico. Como critério de seleção foi utilizada a data de publicação nos últimos cinco anos. As buscas foram realizadas entre março e abril do ano de 2024, e foram considerados artigos de revisão sistemática, revisão de literatura e estudo preliminar em idiomas português e inglês.
Mediante a importância do tema, o objetivo deste estudo foi analisar o impacto de uma dieta personalizada para o paciente oncológico, tendo em vista a manutenção de sua saúde e escore corporal durante o tratamento da doença, assim como um controle do desenvolvimento do câncer no animal.
3. Desenvolvimento
3.1. Manejo nutricional de pacientes oncológicos
Ao longo dos anos, cães e gatos tornaram-se muito mais do que animais que ficavam do lado de fora da casa, no quintal sozinhos. Agora, eles são considerados membros da família, tratados com o mesmo amor e cuidado que verdadeiros filhos. Por esse motivo, intensificou-se o desenvolvimento em pesquisas na área da oncologia veterinária e na nutrição de pacientes oncológicos. (ALBUQUERQUE, 2019)¹ enfatiza a importância da nutrição e o quão fundamental ela é para o paciente, pois os nutrientes afetam todas as células do organismo.
As neoplasias comprometem o metabolismo e a demanda energética no organismo do animal e, segundo as pesquisas de (COELHO; JAINES, 2018)³, uma alimentação adequada e terapia nutricional são capazes de suprir esse déficit metabólico e energético, intervindo no desenvolvimento tumoral e até garantindo melhores resultados e uma maior expectativa de vida ao paciente.
Além disso, as neoplasias são capazes de funcionar como órgãos diferenciados, sobrevivendo pelo consumo de nutrientes e com comportamento metabólico próprio4.
3.2. Desenvolvimento tumoral e alterações metabólicas
O câncer é considerado uma doença de caráter genético, que surge através de mutações de genes ou proteínas que fazem a regulação do ciclo celular5. Porém há estudos que indicam como indutores de câncer as alterações metabólicas, sendo um exemplo comum a obesidade 6. Pode-se observar um aumento de casos de obesidade nos animais de companhia, seja por erro de manejo alimentar, falta de exercício físico ou por consequência de outras doenças. Raças comuns de cães que sofrem com a obesidade são os Labradores e Golden Retrievers7.
A obesidade pode desencadear quadros de inflamação crônica, e quando o organismo está com uma inflamação, ele tem presente em grande quantidade, as espécies reativas de oxigênio (ROS) e as espécies reativas de nitrogênio (RNS), além de citocinas interleucinas pró inflamatórias8. Essas ROS e RNS danificam o material genético, acelerando o desenvolvimento tumoral 8. Cães obesos podem apresentar resistência à insulina 9 e contribuir para a proliferação de células tumorais. Isso significa que é possível melhorar a qualidade de vida e impedir a progressão de uma doença neoplásica prevenindo e tratando a obesidade com uma nutrição adequada 10. A contínua ingestão dos nutrientes cálcio, zinco, selênio, fosfato e vitaminas C e E11 pode reduzir a inflamação e estresse oxidativo, assim como a obesidade.
As células tumorais se diferenciam das células normais do organismo, pois além de se multiplicarem de maneira rápida e desordenada, elas apresentam um comportamento independente12.
Essas células vão consumindo rapidamente os nutrientes do corpo dos animais (principalmente glicose e glutamina)13, sendo sua principal fonte nutricional via carboidratos, através do metabolismo anaeróbico de glicose14. Os tumores metabolizam preferencialmente a glicose para obter energia pela glicólise anaeróbica, formando lactato como produto final15. Vale ressaltar ainda, que para obtenção de glicose são utilizadas fontes como a glicina, glutamato, alanina, aspartato e aminoácidos para síntese de proteínas16. Em decorrência das células neoplásicas se alimentarem preferencialmente de carboidratos, tornou-se recomendado reduzi-lo na dieta de pacientes com câncer. Cortar da rotina um dos principais componentes da alimentação de células tumorais levou a hipóteses de uma possível regressão do tumor, reduzindo a possibilidade de energia suficiente para crescer de maneira agressiva17.
Ademais, levando-se em consideração os cuidados com o paciente oncológico, sugere-se que as calorias da dieta de cães e gatos doentes, por exemplo, baseiam-se preferencialmente em proteínas e gordura. O fato de a maioria dos tumores não obter suporte energético suficiente pela oxidação de lipídeos14, sugere a ingestão de ácidos graxos para animais com neoplasias.
Uma terapia nutricional com esse enfoque é capaz de proporcionar ao paciente a quantidade de energia necessária para seu corpo, e principalmente, reduzir o gasto energético tumoral, retardando seu crescimento, expansão e oferecendo melhor tratamento e qualidade de vida18.
3.3. Proteínas e Gorduras
Em decorrência da principal fonte nutricional de tumores ser via carboidratos, uma elevada oferta de proteínas pode limitar o acesso às células. Entretanto, apesar da via preferencial não ser a proteína, é importante ressaltar que quando em expansão, tumores também utilizam aminoácidos para síntese de proteínas, e aminoácidos gliconeogênicos para obtenção de glicose19. O crescimento acelerado do tumor pode afetar a reserva proteica do organismo e, se não implementado uma dieta nutricional adequada, que equilibre em perdas e ganhos, esse problema pode acarretar perda muscular, hipoalbuminemia, supressão do sistema imune, má resolução de traumas e mau funcionamento gastrointestinal20.
Tumores possuem dificuldade em obter suporte energético suficiente de glicólise aeróbica ou pela oxidação de lipídeos14, e por esse motivo
sugere-se uma maior ingestão de ácidos graxos como principal fonte energética. Ácidos graxos do ômega 3, ALA, DHA e EPA vêm sendo estudados como coadjuvantes no tratamento e na prevenção de câncer em animais domésticos21.
3.4. Tipos de dietas
Uma técnica interessante a se considerar seria o jejum intermitente, ou seja, aumentar o intervalo de tempo entre as refeições do animal, porém sem necessariamente prejudicar sua obtenção de calorias. Essa alimentação pode fazer com que o organismo fique mais sensível à insulina, o que consequentemente reduz a quantidade de citocinas inflamatórias e ROS, além de diminuir a proliferação de células tumorais22. O jejum intermitente também auxilia no tratamento de quimioterapia e radioterapia, pois ele reduz a sobrevivência de células tumorais submetidas a esses tratamentos, ao mesmo tempo que protege as células saudáveis dos efeitos das medicações23. Além disso, um jejum maior de vinte e quatro horas pode causar a apoptose de células tumorais ao fazer uma redução de concentração sérica da glicose24.
Fala-se também da dieta cetogênica, que por sua alta concentração de corpos cetônicos (acetona, acetoacetato e β-hidroxibutirato) gerados, reduz a quantidade de ROS e insulina25.
Em relação a dieta dos animais de companhia, pode se dizer que muitas rações ultra processadas no mercado podem ter uma escassez de nutrientes funcionais, e nesse caso as dietas não convencionais seriam benéficas para pacientes obesos ou oncológicos, isso se a alimentação for feita de maneira correta e indicada por um médico veterinário 26. Caso contrário, uma dieta mal formulada pode levar a graves deficiências nutricionais, piorando o seu quadro clínico. Um exemplo disso seria o excesso de vitamina A e ferro na dieta, que sobrecarregam o fígado que já está sensibilizado por conta da quimioterapia. Outro exemplo é o excesso de vitamina D e cálcio, que poderia levar a complicações renais.
Para um paciente oncológico, são necessários os antioxidantes, as proteínas e o ômega- 3 na dieta. Isso porque os antioxidantes protegem as células dos radicais livres e combatem efeitos colaterais do tratamento oncológico, as proteínas como a glutamina mantém a massa muscular do organismo durante a quimioterapia, tratamento que tem risco de perda de peso e caquexia. As proteínas também atuam no sistema imunológico do animal. Os ácidos graxos ômega 3 estão presentes em óleo de peixe, atum, salmão e sementes de chia e linhaça. Eles diminuem a inflamação presente no organismo2.
3.5. Caquexia em pacientes oncológicos
As neoplasias influenciam na qualidade e na perspectiva de vida de cães e gatos, e um dos principais reflexos dessa patologia é a caquexia, uma síndrome paraneoplásica complexa e multifatorial de perda de peso involuntária e progressiva que ocorre mesmo quando o animal faz uso de uma correta e adequada ingestão nutricional27.
De acordo com sua fisiopatologia, a caquexia pode ser classificada como primária: quando há alterações metabólicas causadas pelo tumor, ou secundária: alterações do olfato, vômito, paladar ou até em casos de tumores obstrutivos do TGI. Além disso, um animal com essa síndrome comumente apresenta como manifestações clínicas, alterações no apetite, anorexia, fadiga, anemia, perda de massa magra e estoques de gordura ou até mesmo comprometimento da função imunológica28.
Vale ressaltar, que apesar de todas as manifestações clínicas que a síndrome paraneoplásica demonstra no animal, é importante investigar as causas para saber em que momento ocorre e se realmente faz referência ao tumor ou alguma outra afecção. Muitas vezes ela pode demonstrar ser o primeiro sinal de malignidade, ser indicativo de algum tipo de tumor, pode ser reflexo do tratamento quimioterápico ou pela radioterapia ou até mesmo pode fazer referência a alguma outra doença que não possua nenhuma ligação com o câncer.
A caquexia pode ainda ser classificada em sua fase pré-clínica, clínica e fase final. Na primeira é o momento em que ocorrem alterações bioquímicas como a hiperlactacidemia, por exemplo, alterações de aminoácidos e lipídeos. Já a segunda, fase clínica, é caracterizada por anorexia, letargia, e início da perda de peso corporal, e a fase final já entra no critério de classificação como severa perda de peso no animal e alterações bioquímicas de equilíbrio nitrogenado negativo29.

Figura 1. Sistema de Avaliação da Condição Corporal. Nestlé PURINA, 2019 adaptado de Laflamme (1997).
3.6. Importância da dieta na oncologia
A dieta do paciente oncológico deve ser avaliada sobre três óticas: causadora, preventiva ou tratamento. O questionamento sobre a segurança de dietas comerciais disponíveis é crescente e é verídico34.
Diversos aditivos, ingredientes e contaminantes encontrados nas rações tem sido apontados como carcinógenos potenciais. Entre eles, podemos citar o uso de resíduos de abatedouros, metais pesados, conservantes e corantes proibidos para consumo humano, aflatoxinas, pesticidas e resíduos de promotores de crescimento34.
A dieta é sem dúvida o fator ambiental mais importante na expressão fenotípica. Ou seja, não somente o DNA determina como o corpo responde a diferentes alterações dietéticas. Estas também interferem na expressão gênica através da modulação na transcrição, processamento e transporte de mRNA, afetando a síntese proteica. Nutrientes específicos, como antioxidantes e ácidos graxos da série ômega 3 podem diminuir agressões ao DNA que resultem em mutações e, consequentemente, carcinogênese34.
Alguns autores acreditam ainda, que rações comerciais secas convencionais, que são o principal tipo de alimento oferecido aos cães e gatos, oferecem uma inadequação nutricional, quanto ao balanceamento de nutrientes, o que provoca, nos animais, um estado de incompetência imunológica, além de servir de substrato para que células tumorais iniciais evoluam para a doença clínica Estudos que relacionam a composição nutricional com o aparecimento de tumores são escassos e, geralmente, pouco esclarecedores. Observou-se uma possível redução na incidência de tumores mamários em cadelas alimentadas com teores elevados de proteína, no entanto, alterações nos teores de extrato etéreo, parecem não interferir no aparecimento da doença34.
Se a primeira preocupação da nutrição e não fazer o mal, evitando componentes potencialmente carcinogênicos, os avanços na nutrigenômica ou interação de um nutriente diretamente na expressão genética tem se revelado uma nova ferramenta na prevenção direta de câncer. A dieta e sem dúvida o fator ambiental mais importante na expressão fenotípica. Ou seja, não somente o DNA determina como o corpo responde a diferentes alterações dietéticas. Estas também interferem na expressão genica através da modulação na transcrição, processamento e transporte de mRNA, afetando a síntese proteica. Nutrientes específicos, como antioxidantes e ácidos graxos da série ômega 3 podem diminuir agressões ao DNA que resultem em mutações e, consequentemente, carcinogênese34.
Se informações genéticas específicas relacionados ao aparecimento de tumores forem descobertas, poderemos manipular a dieta de forma que haja modulação da sua expressão, prevenindo o aparecimento da doença34.
Assim, concluímos que um paciente desnutrido tem dificuldade para metabolizar drogas quimioterápicas de forma adequada, mostrando sinais colaterais de toxicidade com mais intensidade e frequência. Porém, o princípio fundamental da nutrição do paciente oncológico é mantê-lo em normorexia, ou seja, toda e qualquer alteração dietética não é válida se o paciente não ingere o alimento34.
3.7. Particularidades nutricionais do paciente oncológico
Diversas alterações metabólicas já foram elucidadas no paciente oncológico, principalmente, nos cães. O declínio de alguns aminoácidos, a perda de peso por proteólise, a depleção das reservas de lipídios e a hiperlactatemia são as principais delas. A perda de peso pode estar relacionada a anorexia, devido a efeitos colaterais de drogas quimioterápicas, por exemplo, ou diretamente relacionada a síndrome paraneoplásica de caquexia, definida como perda de peso mesmo com aporte calórico aparentemente adequado, em virtude da esfoliação do paciente pelo próprio tumor34.
A caquexia no paciente com câncer é explicada por diversos mecanismos.
Por muito tempo acreditou-se que ela ocorria, principalmente, por uma alteração da taxa de metabolismo basal, com o aumento da requisição energética em repouso, o que e questionado por estudos recentes. Nos últimos anos, são descritos sistemas proteolíticos, ativados por citocinas e outros fatores tumorais, como o fator de necrose tumoral alfa (tumor necrosis fator alpha, TNF-α) e o fator indutor de proteólise induzido por tumor (proteolysis-inducing factor, PIF). O principal deles e o sistema proteolítico ubiquitina/proteassoma34.
Há uma redução dos aminoácidos glutamina, cisteína e arginina na corrente circulatória. Logo, uma dieta com altos teores de proteína de alta biodisponibilidade, bem como a complementação com aminoácidos específicos, pode ser benéfica ao paciente, mas também ao tumor. A suplementação de cisteína, componente importante do sistema antioxidante da glutationa, principal defensor da integridade celular e mobilizador da resposta imune, tem mostrado atividade anticâncer e inibidora da neoangiogenese. A administração de arginina, aminoácido mais estudado na nutrição oncológica, tem sido benéfica em pacientes humanos com diversos tipos de tumor e sua resposta já foi avaliada em pacientes caninos com linfoma e tumores nasais.
Ela favorece a resposta a tratamentos quimioterápicos e radioterápicos, bem como reduz a imunossupressão induzida pelo tumor34.
Os perfis séricos de lipídios têm sido estudados em alguns pacientes oncológicos caninos. Cães com linfoma têm valores significativamente mais altos de triglicérides e valores mais baixos de lipoproteínas de alta densidade. Mesmo que dietas com altos teores de gordura, quando comparadas com dietas ricas em carboidratos, tenham sido relacionadas a uma melhor resposta a quimioterapia, sugere-se que o tipo de lipídios oferecidos seja ainda mais importante. O efeito anti-inflamatório dos ácidos graxos da série ômega 3 já e bem caracterizado. Sua degradação, após uma possível agressão contra a parede celular, resulta na liberação de eicosanoides menos inflamatórios, ou mesmo com propriedades anti-inflamatórias, quando comparados ao ômega 6. Isso, por si só, já é benéfico para pacientes de tumores, que frequentemente possuem algum processo inflamatório regional associado34.
Ainda há dúvidas sobre a dosagem efetiva de ácidos graxos ômega 3 no tratamento do paciente oncológico, bem como a efetividade de outras fontes diferentes do óleo de peixe, como o óleo de linhaça. Mais estudos são necessários para esclarecer estas questões. A maioria dos alimentos secos de qualidade superior apresenta proporções entre ácidos ômega 3 e 6 entre 1:10 e 1:5. Suplementação adicional pode levar a valores próximos de 1:1, mas alterações de coagulação já foram descritas nessa faixa. Pelo menos um estudo chegou a proporções ainda mais altas, como 1:0,3, com maiores períodos de remissão em cães com linfoma, sem efeitos colaterais34.
Células tumorais têm uma taxa mais alta de metabolismo energético anaeróbio, dependendo mais de glicose para suprimento de calorias. Isso leva ao acúmulo de lactato na corrente circulatória (acidose metabólica), convertido a partir do piruvato, metabólito da glicólise. Além disso, o acúmulo de lactato leva o organismo a um ciclo energético ineficiente, pois há necessidade de transformá-lo em glicose novamente no fígado, o que pode agravar a caquexia34.
Assim, as células tumorais, que preferencialmente utilizam carboidratos como fonte energética, encontram dificuldades para metabolização de lipídeos, e consequentemente, reduzem sua taxa de proliferação. Evidências que carboidratos simples são contraindicados para pacientes oncológicos ganham cada vez mais força. Pacientes com linfoma alimentados com dietas ricas em gordura tem maiores períodos de remissão. E com isso, uma dieta rica em gordura e geralmente recomendada para a maioria dos pacientes com câncer34.
Antioxidantes (vitamina E, C, carotenoides, zinco e selênio) podem ser benéficos como preventivos da carcinogênese, protegendo o DNA de agressões, levando a um menor índice de mutações2. Seu uso em altas doses para pacientes oncológicos, porém e controverso, porque pode interferir no mecanismo de ação de quimioterápicos que matam células tumorais por oxidação, bem como sobre o efeito de ácidos graxos da série ômega 3. Contudo, pelo menos um autor tem sugerido que eles, ao contrário, aumentam o efeito dos quimioterápicos. Também se acredita em um efeito sinérgico entre vitaminas, minerais e enzimas antioxidantes, como a coenzima Q10, sendo recomendada a sua utilização em conjunto, em doses baixas ou moderadas34.
3.8. Opções de dieta
Por mais que haja no mercado dietas específicas para pacientes oncológicos deve-se levar em conta a disponibilidade do produto, o custo para o proprietário e a procedência dos ingredientes utilizados para sua fabricação, mesmo apresentando melhora em pacientes com linfoma. Vale ressaltar que se trata de um alimento processado, alvo de questionamento por defensores da alimentação natural. Se a dieta comercial for a opção mais viável, considerando as particularidades do paciente e do tutor, devem-se priorizar rações convencionais de alta qualidade, com mais de 35% de proteínas e 25% de gorduras, para o cão, e mais de 40% proteínas e 30% de gorduras, para o gato (em matéria seca). A suplementação, principalmente, com óleo de peixe, nesse caso, e especialmente indicada. Pacientes com restrições alimentares específicas, com insuficiência renal crônica, hipertrigliceridemia e pancreatite devem reconsiderar esta dieta.
No quadro 1, e apresentada uma adaptação de uma dieta natural sugerida para pacientes com câncer5. Trata-se de uma dieta básica, que não e testada para consumo em longo prazo, ou seja, não há garantias se e completa para todos os animais, nas diversas condições metabólicas que se encontram.
Mesmo assim, serve de referência para utilização na maioria dos pacientes oncológicos e recomenda-se reavaliação periódica para ajustes de acordo com a resposta e evolução da doença. A melhor opção seria buscar o auxílio de um nutrólogo veterinário para confeccionar uma dieta livre de desbalanços nutricionais34.

Quadro 1- Dieta natural sugerida para pacientes com câncer. Adaptado de WYNN, S.G. Natural medicine for cancer patients. Procedings of North American Veterinary Conference, 2006.
Vários ingredientes de uso culinário possuem interesse na nutrição do paciente oncológico. A cúrcuma ou o açafrão da terra possui atividade anticarcinogênica e antioxidante. Sugere-se o uso de uma colher de chá para cada 25 kg de peso vivo. O alho pode induzir diferenciação e apoptose em células tumorais, mas seu efeito anticarcinogênico ainda não e totalmente esclarecido1. E recomendado em doses de até um dente de alho fresco para cada 20 kg de peso vivo5. Porém, sua utilização e questionável pela possibilidade de indução de anemia hemolítica em altas doses34.
Os alimentos e extratos vegetais ricos em flavonoides (frutas vermelhas, chá verde, soja), devem ser utilizados com cautela por não possuírem estudos o suficiente sobre dosagem e segurança para carnívoros domésticos. Por mais que possuam propriedades antioxidantes e indutoras de diferenciação e apoptose em células tumorais, porém, novamente, seu uso só faz sentido combinado com outras modificações dietéticas e terapia convencional.

3.9. Administração da terapia nutricional
A melhor opção de alimentação é a voluntária, por ingestão oral espontânea, mas caso isso não ocorra nos pacientes oncológicos, é necessária uma alimentação de suporte por via enteral ou parenteral30. A nutrição enteral é feita através de uma sonda que chega no lúmen do trato gastrointestinal31. Ela é utilizada em caso de anorexia ou quando a ingestão de alimento feita pelo animal não cumpre suas necessidades nutricionais para sua manutenção30. É possível, por exemplo, o uso da sonda nasoesofágica e a esofagostomia. A esofagostomia tem como vantagem a introdução de mais alimento comparada com a sonda nasoesofágica.
Tratando-se da nutrição parenteral, existem dois tipos de acordo com (Nelson e Couto, 2010)32. São eles a nutrição parenteral total e a parcial. A nutrição parenteral total necessita de um cateter específico pois os nutrientes são administrados diretamente na corrente sanguínea. Ela é usada quando o animal não consegue absorver os nutrientes no intestino32.
É importante considerar uma dieta através de sondas quando o paciente se encontra em estado de desnutrição no tratamento oncológico, visto que ele precisa ter um escore corporal adequado para responder bem à quimioterapia e à radioterapia.
4. Conclusão
A nutrição se tornou bastante abordada na Medicina Veterinária, principalmente quando associada ao tratamento e prevenção do câncer. Ao passo que se investigou a importância de uma alimentação adequada e o diferencial que ela pode ter no combate à doença, tornou-se possível garantir aos animais um avanço no tratamento e maiores chances de cura.
A obesidade, por exemplo, pode desencadear quadros de inflamação crônica no organismo e, em decorrência do estado inflamatório, haver grande quantidade de Espécies Reativas de Oxigênio (ROS) e Espécies Reativas de Nitrogênio (RNS) que, além de outras citocinas pró inflamatórias, irão danificar o material genético acelerando o desenvolvimento tumoral. Além disso, a principal dificuldade na alimentação de pacientes oncológicos é fornecer os nutrientes e calorias adequadas diante das alterações metabólicas.
Embora ainda sejam necessários muitos estudos, diversas pesquisas apontaram para a importância no consumo de alimentos com elevados teores de gordura e proteínas, carboidratos reduzidos e elevados níveis de ácidos graxos ômega-3 por evidenciarem limitar o crescimento do tumor e prevenir a caquexia. Logo, visando melhorar a qualidade de vida e longevidade de pacientes com neoplasia.
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Dra. Aline Zoppa
● Professora de cirurgia desde 2001.
● Atendimento direcionado à Oncologia desde 2008.
● Ministra aulas e palestras em Cursos de pós-graduação e congressos. Coordenadora clínica do HOVET UAM desde 2017.

Dayana Maria Nunes Carvalho
● Graduanda em Medicina Veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi
(2022-2026).
● MembrodoGrupo de Estudos de Oncologia Veterinária (GEONCO) da
Universidade Anhembi Morumbi, setor de mídias sociais- 2024
● Organizadora da Campanha de Prevenção Contra o Câncer no Complexo
Veterinário Anhembi Morumbi, pelo grupo de estudos GEONCO- 2024
● Ouvinte em cursos e projetos de extensão, palestras, simpósio e semanas
acadêmicas voltado para pequenos animais- pela Universidade Anhembi
Morumbi.
● Experiência no setor Clínica Médica de Pequenos Animais pelo Complexo
Veterinário Anhembi Morumbi- 2023
● Experiência no setor Clínica Médica de Pequenos Animais pela Clínica e
Hospital Veterinário Vital Vet- 2023

Alexia Hoffmann
Estudante de Medicina Veterinária – 5o semestre
● Bacharelado Biológicas na em Ludwig Ciências Maximilians Universität München (Universidade de Munique na Alemanha) 2020-2021 — interrompido
● Faculdade de Medicina Veterinária na Universidade Anhembi Morumbi 2022-2026 — em andamento
● Membro do setor de patrocínio no Grupo de Estudos de Oncologia Veterinária da Universidade Anhembi Morumbi
● Estágio na clínica veterinária de medicina equina Equine Center no Jockey Club de São Paulo 2022 — Julho
● Estágio em clínica de pequenos animais no Hospital Veterinário da Universidade Anhembi Morumbi 2023 — Outubro
● Estágio na clínica veterinária de fisioterapia e reabilitação de pequenos animais FisioCarePet 2023 — Novembro
● Estágio em clínica de pequenos animais no Hospital Veterinário da Universidade Anhembi Morumbi 2023 — Dezembro

Lívia Fidelis Mota
● Graduanda em Medicina Veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi (2021- 2025)
● Integrante do Grupo de Estudos de Oncologia Veterinária da Universidade Anhembi Morumbi (GEONCO)- setor de palestrantes
● Estágio Extracurricular no Hospital Veterinário Anhembi Morumbi em cirurgia de pequenos animais (atuando)
● CETAC-VET (Centro de Ensino e Treinamento em Anatomia e Cirurgia Veterinária LTDA)- Auxiliar de veterinária (conclusão em 2011)
❖ Atuante desde 2011 como enfermeira veterinária, tendo trabalhado nos principais hospitais Clinica Veterinaria São Francisco, Pets and Life
banco de sangue, Pet Care e Veros- auxiliando em consultas, atendimento ao cliente, coleta para exames, auxilio a cirurgia e parametros
● Curso de pediatria e geriatria em cães e gatos– conceitos básicos, FAMESP (Faculdade Método de São Paulo), dezembro de 2020– 6 horas
● Curso de Massagem Relaxante para Cães, AnimaTherapy, Outubro 2022 carga horária
● Micro empreendedora responsável pelo Live Home Care – auxiliar de veterinária em domicilio



