Uso de oclacitinib no manejo do pênfigo foliáceo canino: relato de caso

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Por Eunira do Carmo Rachid Pacheco

RESUMO

O pênfigo foliáceo (PF) é uma dermatopatia autoimune. Apesar de raro em cães, é o mais comum diagnosticado na rotina clínica dentro do complexo pênfigo. O diagnóstico desta doença ocorre através de exames complementares como citologia de pele e histopatologia. O tratamento do PF consiste em suprimir a resposta imunológica do paciente, sendo a prednisolona o fármaco de eleição, entretanto outros princípios ativos podem ser utilizados tais como: azatioprina, clorambucil, ciclosporina, tacrolimus, micofenato de mofetil, ciclofosfamida, tetraciclina e nicotinamida. Porém, algumas terapias tradicionais produzem efeitos adversos principalmente quando utilizadas em doses imunossupressoras. O presente relato, apresenta o oclacitinib como terapia benéfica para o PF.

Palavras chaves: Pênfigo, oclacitib, cão.

ABSTRACT

Pemphigus foliaceus (PF) is an autoimmune dermatopathy. Although rare in dogs, it is the most common one observed in clinical routine within the pemphigus complex. Diagnosis of this disease occurs through complementary tests such as skincytology and histopathology. The treatment of PF consists of suppressing the patient’s immune response, with prednisolone being the drug of choice, however other active ingredients can be used such as: azathioprine, chlorambucil, cyclosporine, tacrolimus, mycophenatemofetil, cyclophosphamide, tetracy clineand nicotinamide. However, some traditional therapies produce adverse effects, especially when used in immunosuppressive doses. The present report presents oclacitinib as a beneficial therapy for PF.

Key words: Pemphigus, oclacitib, dog.

Pênfigo foliáceo

Trata-se de uma doença órgão-específica, em que há a produção de autoanticorpos (IgG4). Esses anticorpos se dirigem a ectodomínios (EC1 e EC2) da desmogleína 1, culminando no processo de acantólise (perda da coesão entre os queratinócitos). ¹. O complexo pênfigoé classificado em: pênfigo vulgar (PV), pênfigo foliáceo (PF), pênfigo vegetante (PVg), pênfigo eritematoso (PE), pênfigo panepidermal (PP) e pênfigo paraneoplásico (PPP)¹,². A doença é considerada multifatorial, mas ainda não completamente elucidada, a literatura mostra o fator genético como principal motivo predisponente, mas pode ocorrer por fatores desencadeadores como infecções virais, exposição a fármacos, como a fenilbutazona e penicilina, raios UV e neoplasias.Estudos mostram fatores imunológicos envolvidos também, como a perda de tolerância imunológica³.A doença costuma afetar cães na faixa etária entre 4 – 9 anos, fêmeas e animais de raça definida 4. A apresentação clínica da doença é manifestada por lesões pápulo-crostosas e topograficamente as lesões são desenvolvidas mais comumente em face e pavilhões auriculares e também envolvem os coxins palmo-plantares, os membros e a região abdominal ventral2.O diagnóstico baseia-se no histórico e anamnese, apresentação clínica das lesões (localização e aspecto) e exames complementares como citologia e histopatológico, sendo o histopatológico exame ouro para confirmação do diagnóstico, pois é possível evidenciar acantólise subcorneal, que resulta na formação de fendas que são clinicamente retratadas pelo surgimento de lesões pustulares3.A terapia de eleição para doenças autoimunes é a utilização dos glicocorticóides sistêmicos em doses imunossupressoras, mas em muitos casos o glicocorticoide somente não é o suficiente para a remissão completa dos sinais clínicos, por isso, se faz necessário a utilização de uma terapia heterodoxa 4. Nos casos refratários a terapia ortodoxa, recomenda a associação de azatioprina ao esteróide4. Mas além da azatioprina, outras medicações podem ser úteis na terapia do PF, como: clorambucil, ciclosporina, tacrolimus, micofenato de mofetil, ciclofosfamida crisoterapia, dapsona, sulfasalazina e mesmo a terapia intravenosa com imunoglobulinas, mas sabe-se que a maioria dessas podem trazer efeitos colaterais indesejáveis 5.Nesse caso, o uso do oclacitinib para doenças de pele imunomediadas e os efeitos adversos sistêmicos normalmente reduzidos em comparação com outros medicamentos imunossupressores justificam o uso nesse relato de caso.

RELATO DE CASO

Uma fêmea, sem raça definida de 4 anos de idade, chegou para atendimento com sinais clínicos sugestivos para Dermatose responsiva a zinco, Leishmaniose, Dermatose Seborreica, Farmacodermiase Pênfigo foliáceo. A apresentação dermatológica consistia em lesões crostosas perioculares, no plano nasal eperilabiais, com alopecia nessas regiões (Fig.1). Em exame físico, paciente sem demais alterações significativas.

Figura 1. Lesões crostosas perioculares, plano nasal e perilabiais (arquivo pessoal)

Foi realizada coleta de amostra para histopatológico, confirmando o diagnóstico de pênfigo foliáceo. Inicialmente o tratamento foi realizado com o protocolo terapêutico preconizado, com uso de prednisolona1,5mg/kg, SID, durante 10 dias, porém paciente teve quadros de vômitos e o tutor ficou relutante em seguir com glicocorticóide. Durante os 10 dias com essa terapia paciente apresentou melhora clínica, mas não remissão completa (Fig. 2), então foi instituído terapia com uso de oclacitinib na dose de 0,45 mg/kg BID e tópico com pomada oftálmica, SID (1,0 mg de dexametasona, 5,0 mg de sulfato de neomicina (equivalente a 3,5 mg de base) e 6000 UI de sulfato de polimixina B).

Figura 2. Paciente em remissão após 10 dias de glicocorticoide, apresentando lesões perioculares ainda (arquivo pessoal).

Após 20 dias da terapia com oclacitinib paciente obteve remissão em 80% das lesões (Fig. 3).

Figura 3. Paciente em remissão das lesões 20 dias após terapia com oclacitinib (arquivo pessoal)

Manteve-se a terapia na dose de 0,45mg/kg, BID, por mais 10 dias, totalizando 30 dias de tratamento com oclacitinib e não houve mais a necessidade do tratamento tópico, após isso, a dose foi reajustada para 0,8mg/kg, SID. A paciente não apresenta recidivas após 6 meses de terapia e até o presente momento o animal segue em acompanhamento clínico e sendo medicado com oclacitinib (Fig. 4). Exames de sangue como hemograma e bioquímicos para avaliar função renal e hepática foram realizados após os 6 meses de terapia e não houve alterações em nenhuma enzima.

Figura 4. Paciente após 5 meses de terapia com oclacitinib na dose de 0,8mg/kg, SID. Sem recidivas das lesões por PF (arquivo pessoal).

DISCUSSÃO

O Oclacitinib é um inibidor de janus quinase (JAK) que foi relatado como benéfico em doenças de pele imunomediadas. Os inibidores de JAK interferem na via de sinalização intracelular do JAK-STAT exercendo uma ampla gama de efeitos anti-inflamatórios e imunossupressores, por isso essa classe de medicamentos está sendo usada em terapias alternativas para algumas doenças neoplásicas e imunomediadas em seres humanos, cães e gatos 6.O papel exato do oclacitinib no tratamento de doenças autoimunes é desconhecido, mas seu uso foi proposto devido a sua capacidade de alterar a proliferação de linfócitos e sua função de modificar a produção de citocinas (IL-4 e IL-13) 6,7. Uma vez que ao modificar citocinas de proliferação e maturação de células B alteram a produção de imunoglobulinas importantes na patogênese do PF, como imunoglobulina G que pode ser reduzida 7.Os efeitos do oclacitinibna proliferação de células T e produção de citocinas, mostrou que o oclacitinib reduziu significativamente a secreção de citocinas IL-2 e IL-15, interferon-gama, IL-18, IL-10, produção de fator de necrose tumoral a e IL-6 foi levemente inibida, ambas podem desempenhar um papel na patogênese da acantólise no complexo pênfigo8. Este efeito foi observado somente quando o oclacitinib foi usado em concentrações muito mais altas (3–4 mg/kg) do que os 0,4–0,6 mg/kg em bula6.Porém, no caso relatado usamos uma dose de 0,45 mg/kg duas vezes ao dia e a melhora clínica foi notada dentro de 20 dias, com resolução em 80% das lesões.  Após, passou-se a terapia com oclacitinib para a dose de 0,8mg/kg, SID sem recidivas após 6 meses de terapia.

CONCLUSÃO

Este relato de caso demonstra a resolução dos sinais clínicos de PF em um cão com o uso de oclacitinib, juntamente com pomada de glicocorticóide e antimicrobiano. É importante considerar o uso de oclacitinib em outros casos de PF canino onde o uso de medicamentos imunossupressores tradicionais podem ser contraindicados ou não respondam a terapia convencional. Se faz necessário estudos adicionais em cães com PF para estabelecer a eficácia esperada do oclacitinib e seus mecanismos de ação contra esta doença autoimune.

REFERÊNCIAS

  1. OLIVRY, T. & LINDER, K. E. Dermatoses affectingdesmosomes in animals: a mechanistisc review ofacantholyticblisteringskindiseases. VeterinaryDermatology, p. 313-326, 2009.
  2. PETERMANN, M. Pemphigusfoliaceus in dogs: theimunnepathogenesisandterapies.Why are some dogs notresponsivetothetratament? https: //lib.ugent.be, 2015.
  3. WHITE SD, CARLOTTI DN, PIN D, ET AL. Putativedrug-relatedpemphigusfoliaceous in four dogs. Vet Dermatol, v. 13, p. 195–202., 2002.
  4. BALDA, ANA C. et al. Pênfigo foliáceo canino: estudo retrospectivo de 43 casos clínicos e terapia (2000-2005). Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 28, p. 387-392, 2008.
  5. ROSENKRANTZ WS. Pemphigus: currenttherapy. Vet Dermatol. 2004.
  6. CARRASCO I, MARTINEZ M, ALBINYANA G. Beneficial effectofoclacitinib in a case offelinepemphigusfoliaceous. Vet Dermatol, v. 32, p. 299–301, 2021.
  7. Hernandez-Bures A, Bidot WA, Griffin CE, Rosenkrantz WS. The use ofoclacitinibcomparedtoazathioprine in the management ofcaninepemphigusfoliaceus: A retrospectiveanalysis. Vet Dermatol, v.34, p. 554-566, 2023.
  8. Aymeric E, Bensignor E. A case ofpresumedautoimmunesubepidermalblisteringdermatosistreatedwithoclacitinib. Vet Dermatol, v. 28, p. 512–e123, 2017.

Eunira do Carmo Rachid Pacheco 

Graduada pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Especializada em Dermatologia e Alergologia de pequenos animais pela Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais SP – ANCLIVEPA SP.