Utilização de Fentanil na analgesia de cães e gatos

Fentanyl Use in Canine and Feline Analgesia: A Literature Review

Foto: Imagem de freepik

Por Beatriz Da Silva Pereira¹, Giovanna Domingues Ramos², Luciana Pinheiro Barreto Cavalcante ³, Sara Lisa Tanaka⁴, Orientadora: Thainá Fortaleza Spinelli de Freitas⁵

Resumo

A dor é definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial. Nesse cenário, a analgesia eficaz torna-se um componente essencial da anestesia equilibrada, onde os opioides têm grande destaque, como os mais utilizados para controle de dor aguda e crônica em animais. Entre esses, o Fentanil, um agonista opioide-μ puro, destaca-se pela ausência de metabólitos ativos, o que reduz significativamente os efeitos adversos prolongados frequentemente observados em outros analgésicos opioides. Esse fator é crucial em cirurgias de longa duração ou em pacientes que requerem controle contínuo da dor, pois minimiza riscos como depressão respiratória e efeitos cardiovasculares indesejáveis. Apesar de seu curto período de ação, cerca de 30 minutos, o Fentanil conta com início rápido (3 a 5 minutos), sendo amplamente utilizado no controle de dores crônicas, intensas e em procedimentos cirúrgicos de curta a média duração. O fentanil também apresenta versatilidade quanto às vias de administração, podendo ser utilizado por via intravenosa, epidural, transdérmica e por infusão contínua, o que facilita sua adaptação a diferentes protocolos anestésicos e espécies animais. Além disso, sua utilização como parte de uma abordagem multimodal da dor contribui para a redução da dose de outros anestésicos, promovendo maior estabilidade hemodinâmica e melhor recuperação pós-operatória.
Este artigo tem como objetivo relatar o uso e a importância do Fentanil na rotina anestésica veterinária, destacando as vias de administração mais adequadas e seus efeitos, reforçando sua relevância como uma ferramenta terapêutica segura e eficaz no manejo da dor em animais.

Palavras-chave: Manejo da dor; opioide; pequenos animais;

Abstract

Pain is defined by the International Association for the Study of Pain (IASP) as an unpleasant sensory and emotional experience associated with actual or potential tissue damage. In this context, effective analgesia becomes an essential component of balanced anesthesia, with opioids playing a prominent role as the most commonly used agents for managing acute and chronic pain in animals. Among them, fentanyl, a pure μ-opioid receptor agonist, stands out due to the absence of active metabolites, which significantly reduces the risk of prolonged adverse effects often observed with other opioid analgesics. This characteristic is crucial in both long and short surgical procedures, as well as in patients requiring continuous pain control, as it minimizes risks such as respiratory depression and undesirable cardiovascular effects.
Despite its short duration of action—approximately 30 minutes—fentanyl has a rapid onset (3 to 5 minutes) and is widely used in the management of chronic and severe pain, as well as in surgical procedures of short to moderate duration. Fentanyl also demonstrates versatility in its routes of administration, including intravenous, epidural, transdermal, and continuous infusion, which allows for its integration into various anesthetic protocols and across different animal species. Furthermore, its use as part of a multimodal analgesic approach contributes to dose-sparing of other anesthetic agents, promoting greater hemodynamic stability and improved postoperative recovery.
This article aims to report on the use and importance of fentanyl in veterinary anesthetic practice, highlighting the most appropriate routes of administration and its effects, reinforcing its relevance as a safe and effective therapeutic tool in pain management for animals.

Keywords: Pain management; opioid; small animals;

Introdução

Na Medicina Veterinária, estudos recentes têm contribuído para uma maior conscientização quanto à relevância do tratamento da dor, visando seu alívio e, por consequência, a melhoria da qualidade de vida dos animais. Com o avanço no conhecimento sobre fármacos mais seguros, observa-se um aumento na confiança no uso de analgésicos, especialmente os opioides, no manejo da dor em animais (FANTONI; CORTOPASSI, 2010).
Com o aprofundamento do conhecimento sobre os mecanismos fisiológicos da dor e o desenvolvimento de fármacos mais seguros e eficazes, observa-se um avanço importante na farmacologia veterinária. Entre os analgésicos mais utilizados, os opioides se destacam por sua eficácia no controle da dor de moderada a intensa. Em especial, o Fentanil um opioide sintético de alta potência tem ganhado relevância no manejo anestésico de cães e gatos, proporcionando analgesia potente e favorecendo a estabilidade hemodinâmica durante procedimentos cirúrgicos (CARREGARO & LUNA, 2011). Classificado como um agonista puro dos receptores μ-opioides, o Fentanil apresenta alta lipossolubilidade, o que resulta em início de ação rápido e curta duração, características ideais para procedimentos anestésicos de curta a média duração (MACIEL et al., 2020). Além de seu potente efeito, o Fentanil é fundamental em procedimentos cirúrgicos mais invasivos, pois não só proporciona alívio imediato da dor, mas também auxilia na manutenção da estabilidade hemodinâmica do paciente durante a anestesia. Isso é particularmente vantajoso em cirurgias de alta complexidade, onde a capacidade do fármaco em minimizar a resposta cardiovascular ao trauma cirúrgico é crucial para a recuperação do animal. Sua capacidade de atenuar as respostas fisiológicas aos estímulos cirúrgicos reforça ainda mais sua utilidade em protocolos anestésicos balanceados (CARREGARO & LUNA, 2011; MACIEL et al., 2020).

Metodologia

O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, de caráter qualitativo e descritivo, com o objetivo de reunir e analisar criticamente os dados disponíveis na literatura científica acerca da utilização do fentanil como agente analgésico em cães e gatos, tanto no manejo da dor aguda quanto crônica.
A seleção das fontes bibliográficas foi realizada entre os meses de abril e maio de 2025, por meio de buscas manuais e eletrônicas nas bases de dados PubMed, SciELO, ScienceDirect, Google Scholar e repositórios especializados em medicina veterinária, como o Portal PubVet, além de livros clássicos e atualizados da área, como Lumb & Jones: anestesia e analgesia veterinária (Grimm et al., 2020), Manual de anestesia veterinária – procedimentos e condutas (Ambrósio; Fantoni, 2025) e Anestesia em cães e gatos (Fantoni; Cortopassi, 2010).
Os descritores utilizados nas buscas incluíram: fentanil em cães, fentanil em gatos, opioides em medicina veterinária, analgesia em pequenos animais, receptores opioides, anestesia veterinária, infusão contínua de fentanil, fentanil transdérmico, entre outros, combinados com operadores booleanos “AND” e “OR”, conforme a necessidade.
Como critérios de inclusão, foram selecionados:

  • Artigos publicados entre 1994 e 2024, com prioridade para publicações a partir de 2015;
  • Textos completos disponíveis em português ou inglês;
  • Estudos que abordam de forma direta o uso do fentanil em protocolos analgésicos em cães e gatos. 

Foram priorizadas publicações em periódicos de reconhecida relevância científica e atualidade.
Foram excluídos da revisão: trabalhos sem acesso completo ao texto; publicações em formatos não científicos (blogs, revistas de divulgação leiga, ou materiais sem revisão por pares); artigos que, embora relacionados ao tema, não tratavam especificamente do uso do fentanil em cães ou gatos.
Após a seleção, os dados foram organizados e analisados quanto à forma de administração do fentanil, indicações clínicas, efeitos adversos, combinações farmacológicas e comparação com outros analgésicos opioides, buscando compreender o papel do fármaco na analgesia de pequenos animais e sua aplicabilidade na prática clínica veterinária. A interpretação dos achados foi embasada em literatura científica robusta, incluindo livros amplamente reconhecidos por sua relevância na anestesiologia veterinária (Grimm et al., 2020; Fantoni; Cortopassi, 2010; Ambrósio; Fantoni, 2025).

Fisiopatologia da dor

Atualmente a dor é considerada como o quinto sinal vital e pode acometer todos os animais em determinada fase da vida. É reconhecida como uma experiência subjetiva, multifatorial e complexa, que envolve dimensões sensoriais, emocionais e cognitivas (GONÇALVES et al., 2021). É definida como uma sensação desagradável, relacionada a lesões reais ou potenciais dos tecidos, ou ainda relatada como tal, mesmo sem evidência objetiva de dano. Por sua natureza individual, a percepção da dor varia amplamente entre os indivíduos, sendo influenciada por fatores fisiológicos, psicológicos e contextuais (ROMEU et al., 2019).
A origem da dor está na ativação de nociceptores, receptores nervosos especializados localizados nas terminações nervosas livres dos neurônios sensoriais, que captam estímulos nocivos de natureza térmica, mecânica ou química. Esses nociceptores são classificados em dois principais tipos de fibras: as fibras C, não mielinizadas, conduzem o impulso lentamente e estão associadas à dor persistente; e as fibras A-δ, que são mielinizadas, transmitem o sinal rapidamente, originando a dor aguda e pontual (MUIR, 2003). Em situações de lesão tecidual, até mesmo as fibras A-β, geralmente associadas à condução de estímulos táteis inofensivos, podem passar a transmitir estímulos nociceptivos devido a alterações funcionais dos nociceptores (McKUNE et al., 2017).
A intensidade do estímulo necessário para gerar dor é significativamente maior do que aquele que produz sensações inócuas, sendo esse o principal determinante da gravidade da dor. Essa intensidade pode ser mensurada por meio de uma relação estímulo-resposta, como ocorre com outras sensações. A dor fisiológica, neste contexto, funciona como um mecanismo de proteção, alertando o organismo para um potencial dano, como no caso da retirada reflexa diante de um estímulo nocivo agudo na pele. Por outro lado, quando há lesão nos tecidos ou nervos, instala-se a dor patológica, que pode ser classificada como neuropática (LEE; NEUMEISTER, 2019).
Esse tipo de dor é caracterizado por uma alteração na sensibilidade do sistema nervoso, fenômeno conhecido como plasticidade neuronal. Isso pode resultar na redução do limiar para dor, levando a condições como hiperalgesia (resposta exacerbada a estímulos dolorosos) e alodinia (sensação dolorosa desencadeada por estímulos que normalmente não causam dor) (FANTONI e MASTROCINQUE, 2002; HELLEBREKERS, 2002; MUIR, 2003).  São quatro fases principais que compõem o caminho da dor: na transdução, estímulos nocivos ativam terminações nervosas livres na pele, vísceras e músculos, gerando potenciais de ação conduzidos por fibras Aδ e C (Khalida Anwar, 2016). Na transmissão, esses sinais percorrem feixes neuronais, como o trato espinotalâmico, até o tálamo e córtex cerebral. A modulação ocorre ao longo do trajeto com liberação de substâncias como prostaglandinas e citocinas, que podem intensificar ou inibir os sinais dolorosos. Por fim, a percepção é a interpretação consciente da dor no cérebro, envolvendo o córtex e o sistema límbico, responsável pelo componente emocional (GONÇALVES et al., 2021). 

FIGURA 1. Vias envolvidas no processamento de um estímulo doloroso (Muir, 2008a).
Dor aguda e dor crônica

A dor patológica pode surgir de diferentes tecidos e pode ser classificada com dor inflamatória (envolvendo estruturas somáticas ou viscerais) ou neuropática (envolvendo lesões do sistema nervoso). É importante a caracterização temporal da dor, fazendo distinção entre dor aguda (ocorrência recente) ou dor crônica (longa duração) (LAMONT e TRANQUILLI, 2000; JI e WOOLF, 2001; SCHAIBLE, 2006). A “dor inflamatória” é frequentemente incluída em “dor aguda”, mas obviamente pode estar presente em condições de dor de longa duração (crônica). A dor de longa duração pode resultar em alterações na transmissão nociceptiva em vários níveis, coletivamente denominadas “neuroplasticidade”. Tais mudanças facilitam e amplificam a dor e podem ser causadores da dor separadamente de qualquer entrada periférica. Essas alterações resultam em uma desconexão progressiva entre a lesão periférica e a dor percebida e, como tal, são frequentemente descritas como uma dor “patológica” (MONTEIRO et al., 2022).
A dor aguda é natural e fisiológica e, tem como objetivo, sinalizar ao indivíduo de possíveis injúrias e, geralmente, culmina em comportamentos que evitam maiores lesões. Por isso, ela é considerada o quinto sinal vital (Michaelides; Zis, 2019; Adebiyi et al., 2019; Lee; Neumeister, 2020). A dor aguda tipicamente surge do trauma de tecidos moles ou inflamação e está relacionada com um processo adaptativo biológico para facilitar o reparo tecidual e cicatricial. A hipersensibilidade na área da injúria (hiperalgesia primária), bem como nos tecidos adjacentes (hiperalgesia secundária) contribuem para que o processo cicatricial ocorra sem interferências (LAMONT e TRANQUILLI, 2000; JI e WOOLF, 2001; MUIR III et al., 2001). 
A dor aguda pode se estender por dias ou semanas e está associada a procedimentos cirúrgicos, traumas, queimaduras, dores musculoesqueléticas, viscerais ou pleurais, além de algumas condições clínicas. Em certos casos, é autolimitante. No entanto, quando não tratada adequadamente, pode evoluir para dor crônica, como observado em casos de mastite (ROMEU, 2019).
Prolongada no tempo, normalmente com difícil identificação temporal e/ou causal (ARAÚJO et al., 2021), a dor crônica persiste além do período esperado de uma doença ou injúria e tem sido arbitrariamente definida como aquela com duração maior que 3 a 6 meses. Pode manifestar-se espontaneamente ou ser provocada por vários estímulos externos. A resposta é tipicamente exagerada em duração, amplitude, ou ambas. A dor crônica além de simplesmente manifestar-se por um longo período de tempo, implica numa síndrome debilitante que possui um significante impacto sobre a qualidade de vida do paciente e caracteriza-se por uma resposta pobre às terapias analgésicas convencionais (LAMONT e TRANQUILLI, 2000; JI e WOOLF, 2001). A dor crônica não se resolve por conta própria, requerendo conhecimento especializado e, muitas vezes, abordagem de tratamento interdisciplinar (ARAÚJO et al., 2021). 
A distinção entre dor aguda e dor crônica é fundamental, especialmente porque a dor persistente passa a ser considerada uma doença em si, independente do estímulo inicial. A dor crônica pode ser subdividida, quanto à origem, em nociceptiva — resultante da ativação contínua de nociceptores por lesão tecidual e inflamação — e neuropática, causada por lesões nos nervos periféricos ou no sistema nervoso central (FANTONI e MASTROCINQUE, 2002; ALMEIDA et al., 2006). Também pode ser idiopática (sem causa aparente) (ARAÚJO et al., 2021). 

Controle da dor

Os fármacos desempenham um papel fundamental no tratamento da dor, e em geral são utilizados como primeira escolha. As classes de fármacos mais utilizados para o controle da dor são as que possuem potencial analgésico, como os anti-inflamatórios não esteroidais (AINES), corticosteroides, analgésicos antipiréticos, anestésicos locais, antagonista de receptores NMDA, agonistas dos receptores α-2 adrenérgicos, anticonvulsivantes e, principalmente, opioides (Fantoni et al., 2002; Tranquilli et al., 2013; (Romeu, R & Gorezak, R & Avila, M., 2019).
Quando a dor não é controlada de forma adequada, o paciente pode apresentar alterações, sendo essas: arritmias cardíacas, hipercapnia, aumento do catabolismo proteico, atraso na cicatrização de feridas e prolongamento da hospitalização (MATHEWS, 2000); isso demonstra claramente a importância do controle da dor, na qual o opioide em si destacado tem papel primordial já que suas principais indicações incluem: cirurgias ortopédicas, cirurgias abdominais como ovariohisterectomia por exemplo, cirurgias torácicas, procedimentos dolorosos como amputações ou mastectomias (BORGES et al.,2022). De acordo com Grimm et al. (2020), o fentanil pode ser utilizado em cães na dose de 2 a 10 µg/kg em bolus intravenoso, seguido de infusão contínua de 2 a 20 µg/kg/h. Em gatos, as doses recomendadas variam de 2 a 5 µg/kg para bolus e 2 a 10 µg/kg/h para infusão contínua. Segundo Costa et al., (2022) estudos demonstram que a infusão contínua de fentanil, isoladamente ou em combinação com outros agentes, proporciona analgesia adequada durante o período transoperatório e nas primeiras horas do pós-operatório. Podendo  ser utilizado em associações como lidocaína e cetamina, formando protocolos analgésicos multimodais que potencializam a analgesia e reduzem a necessidade de anestésicos inalatórios (NAVE, 2022b). 
Entretanto, é essencial monitorar os pacientes quanto a possíveis efeitos adversos, como depressão respiratória e bradicardia, especialmente em infusões contínuas (NAVE, 2022a). 
Os adesivos transdérmicos de fentanil constituem uma opção terapêutica eficaz no controle da dor aguda de origem pós-operatória, proporcionando analgesia contínua por meio da liberação gradual do fármaco (White, 2017). Estudos brasileiros demonstram que a aplicação de adesivos com doses de 12 a 25 microgramas por hora (µg/h) resulta em alívio eficaz da dor em procedimentos como artrodese de coluna e laminectomia posterior, mantendo concentrações plasmáticas estáveis e efeitos colaterais mínimos (ARAÚJO et al., 2011; LAURETTI et al., 2009). Esses sistemas de liberação transdérmica são disponibilizados em apresentações que variam de 12 µg/h, 25 µg/h, 50 µg/h, 75 µg/h até 100 µg/h, sendo selecionadas de acordo com a intensidade da dor e as características clínicas do paciente. Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que o uso desses adesivos em cirurgias ortopédicas, como artroplastia total de joelho, reduz significativamente o consumo de morfina e melhora a recuperação funcional precoce, sem aumento relevante de eventos adversos (ABRISHAM et al., 2014; MINVILLE et al., 2015). Além disso, o sistema transdérmico evita complicações associadas ao uso de agulhas e punções venosas, sendo especialmente útil em pacientes que necessitam de analgesia contínua de média a longa duração. Esses achados corroboram a eficácia, segurança e praticidade do fentanil transdérmico no manejo da dor pós-operatória.
A via intranasal de administração também tem sido explorada, mostrando-se eficaz na indução de sedação em cães, com menor incidência de efeitos adversos comparada à via intravenosa (GONÇALVES et al., 2021).

Mecanismo de ação

Cada opioide produz efeitos distintos conforme sua afinidade pelos diferentes subtipos de receptores opioides, isto é, os efeitos observados variam de acordo com o receptor ativado (HANSEN, 1994; PAPICH, 1997). Os principais subtipos, μ (mu), κ (kappa), δ (delta) e o receptor de nociceptina/orphanina (NOP), apresentam distribuição variável entre as espécies, o que justifica as diferenças nas respostas clínicas observadas em cães, gatos e outras espécies (GRIMM et al., 2020; MOORE; KLAUSNER, 2022). Em felinos, estudos recentes identificaram variações genéticas no gene OPRM1, responsável pelo receptor μ, que podem influenciar a eficácia e a duração da analgesia proporcionada por opioides, como o fentanil (MICHAILIDIS et al., 2023). De maneira similar, a sensibilidade dos cães aos opioides pode ser afetada por polimorfismos genéticos em receptores e enzimas envolvidas no metabolismo desses fármacos (ROBERTSON; TAYLOR, 2023). Os principais receptores são:

  • μ (mi): Analgesia supraespinhal, sedação, euforia, depressão respiratória e dependência física.
  • κ (kappa): Analgesia medular, sedação, miose e depressão respiratória.
  • σ (sigma): Disforia, alucinações, excitação.
  • δ (delta): Analgesia espinhal, depressão respiratória e redução da motilidade gastrointestinal.
  • NOP: Em estudo, com função ainda não completamente esclarecida (AMBROSIO; FANTONI, 2025).
* Buprenorfina pode agir como agonista parcial e antagonista, dependendo do receptor. Fonte: Adaptado de GONZAGA, 1998; FANTONI et al., 2000 , Parchen,. H, 2009 e Aleixo, G. A. S. & Tudury, E. A. 2007.

Como destacado na tabela 1 o Citrato de Fentanila mais conhecido como Fentanil é um opioide sintético de alta potência que exerce seu efeito analgésico principalmente por meio da ativação dos receptores opioides mu (μ) no sistema nervoso central, especialmente na medula espinhal e no cérebro, com curto período de ação, sendo estimado em 30 minutos, seu efeito inicia em cerca de 3 a 5 minutos e é muito eficiente contra a dor mesmo em curta duração sendo 100 vezes mais potente do que a morfina (RIBEIRO, 2011). A ligação do fentanil a esses receptores resulta na inibição da liberação de neurotransmissores excitatórios, como a substância P e o glutamato, reduzindo a transmissão do impulso doloroso e aumentando o limiar da dor (RANG et al., 2015). Essa ação provoca analgesia eficaz, além de sedação e, em alguns casos, depressão respiratória, devido à depressão dos centros respiratórios no tronco encefálico (FISHER & DOHERTY, 2013).  
A via intravenosa (IV) é amplamente utilizada para a administração de analgésicos em contextos cirúrgicos e situações críticas, pois permite início de ação rápida e controle eficaz da dor. A via epidural, por sua vez, é indicada em procedimentos ortopédicos ou em intervenções que envolvam o abdome caudal, pelve e coluna vertebral, proporcionando analgesia segmentar de longa duração, com menor incidência de efeitos adversos sistêmicos. Já as vias intramuscular (IM) e subcutânea (SC) são preferidas quando se busca um efeito analgésico sustentado de menor intensidade, em contextos menos agudos ou no manejo da dor pós-operatória (GRIMM et al., 2020, p. 326–328).

Considerações finais

Com base nos trabalhos revisados fica claro que o tratamento da dor em animais durante procedimentos cirúrgicos é essencial para o bem-estar dos pacientes, e o uso de opioides desempenha um papel muito importante nesse processo. O Fentanil, em particular, se destaca por ser eficaz e seguro, oferecendo alívio rápido da dor e ajudando a manter a estabilidade do animal durante a anestesia e no pós-operatório, principalmente em casos mais críticos.
Em conclusão, o Fentanil desempenha um papel crucial no controle da dor e na manutenção da estabilidade hemodinâmica durante procedimentos cirúrgicos. Sua administração adequada, ajustada de acordo com as necessidades do paciente, não só melhora a recuperação pós-operatória, mas também minimiza os efeitos adversos típicos de outros opioides, tornando-o uma escolha importante na prática de anestesiologia veterinária. É fundamental que seu uso seja cuidadosamente monitorado, respeitando as particularidades de cada animal, espécie e dose para garantir os benefícios máximos do fármaco com o mínimo de risco.

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SILVA, M. A. et al. Infusão contínua de morfina ou fentanil, associados à lidocaína e cetamina, em cães anestesiados com isofluorano. FCAV – UNESP, 2013.

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¹Beatriz Da Silva Pereira – ([email protected])

Médica-veterinária graduada em 2025 pela Universidade Anhembi Morumbi SP. 
Interesse pela área de anestesiologia realizando estágio voluntário e curricular obrigatório com objetivo residência em anestesiologia veterinária.
Trabalho de conclusão de curso – Diabetes Mellitus felina: um panorama sobre a doença e seu tratamento – Revisão de literatura. Publicado online em repositório RUNA. Artigo científico – Utilização de Fentanil na analgesia de cães e gatos –Revisão de literatura. Publicação online revista: Medicina Veterinária em foco. Curso: Ventilação Mecânica FMVZ USP –Teórico e prático – julho/2025. Curso: Introdução a anestesiologia veterinária – setembro – abril/2025. Curso: Controle da dor na clínica de cães e gatos – setembro – abril/2025.

² Luciana Pinheiro Barreto Cavalcante – ([email protected]).

Médica-veterinária graduada em 2025 pela Universidade de Fortaleza – CE. Interesse pela área de Diagnostico por imagem, realizando estágio voluntario e curricular obrigatório com objetivo residência nessa área. Curso: Ultrassonografia básica – Três capacitação veterinária, Curso: Ultrassonografia Point of Care – UFAPE.

³ Giovanna Domingues Ramos – ([email protected])

Médica-veterinária graduada em 2025 pela Universidade Anhembi Morumbi – SP. Interesse pela área de cirurgia de pequenos animais realizando estágio voluntário e curricular obrigatório com objetivo residência em clínica cirúrgica de pequenos animais.
Trabalho de conclusão de curso – Manejo conservativo de litíase vesical em paciente canino: abordagem clínica e terapêutica – Relato de caso. Publicado online em repositório RUNA. Artigo científico – Utilização de Fentanil na analgesia de cães e gatos – Revisão de literatura. Publicação online revista: Medicina Veterinária em foco.

⁴ Sara Lisa Tanaka – ([email protected])

Estudante de Medicina Veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi – SP cursando o 10° semestre. Interesse pela área de medicina de felinos e ultrassonografia em pequenos animais realizando estágio voluntário e curricular obrigatório com objetivo residência em ultrassonografia veterinária/medicina de felinos. Artigo científico – Utilização de Fentanil na analgesia de cães e gatos – Revisão de literatura. Publicação online revista: Medicina Veterinária em foco. Curso: Ânima – Socorrismo e resgate animal – fevereiro/2023; Treinamento Confraria dos Miados e Latidos: Reanimação cardiopulmonar em felinos – abril/2023; Curso: FELIWAY – Programa de Manejo de Gatos – agosto/2022; Monitoria de cursos – MedVep; Cirurgia de tecidos moles: cirurgias hepáticas e dos sistemas endócrino e hemolinfático – dezembro/2024; Procedimentos de emergência na clínica de pequenos animais -outubro/2025.

⁵ Thainá Fortaleza Spinelli De Freitas – ([email protected])

Orientadora do trabalho: Utilização de Fentanil na analgesia de cães e gatos – Revisão de literatura. Médica-veterinária graduada em 2024 pela Universidade Federal Do Agreste De Pernambuco – PE; Residente em anestesiologia de pequenos animais pela Universidade Anhembi Morumbi – SP.