MEDICINA VETERINÁRIA: DESAFIOS DO SÉCULO XXI NA PROFISSÃO

PRESIDENTE DO CFMV CONVERSA CONOSCO SOBREO FUTURO E OS DESAFIOS DA PROFISSÃO

Foto: divulgação/CFMV
“O médico-veterinário de pequenos animais está na linha de frente do controle de doenças emergentes, especialmente aquelas que podem ser transmitidas entre animais e pessoas, as zoonoses. Somos verdadeiras sentinelas da saúde pública”, diz Dra. Ana Elisa Almeida, presidente do CFMV”

Por Samia Malas

Primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), entidade máxima da medicina veterinária e da zootecnia no Brasil, Ana Elisa Almeida é médica-veterinária graduada pela Universidade Federal da Bahia e professora titular aposentada da mesma universidade, onde lecionou por 34 anos. Já ocupou cargos como secretária-geral e presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (entre 2003-2006 e 2013-2016) e presidente da Sociedade de Medicina Veterinária da Bahia em três mandatos. Também foi vice-presidente do CFMV na gestão 2020-2023 e ocupa a cadeira de nº. 17 da Academia Baiana de Medicina Veterinária (Abamev). Sua área de atuação e experiência na medicina veterinária é da área de Morfologia, com ênfase em Anatomia Animal, atuando principalmente nos seguintes temas: anatomia, ovinos, fígado, sistema nervoso e diafragma animal, possuindo mestrado e doutorado em Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres, ambos pela Universidade de São Paulo. A seguir, confira bate-papo que tivemos com ela.

Anuário Med Vet em Foco: Qual o papel que o médico-veterinário de pequenos animais vem assumindo na sociedade do século XXI?
Dra. Ana Elisa Almeida: No século XXI, o papel do médico-veterinário de pequenos animais foi muito além do consultório. Com a mudança na forma como as pessoas veem seus pets – muitas vezes como membros da família –, o médico-veterinário se tornou uma peça-chave não só na saúde dos animais, mas também na saúde da família e da comunidade. Agimos como guardiões da Saúde Única (One Health), prevenindo doenças que podem passar dos animais para as pessoas (zoonoses), cuidando do bem-estar dos pets e, consequentemente, da sociedade como um todo. Além de cuidar da saúde, somos também consultores e parceiros dos clientes, ajudando-os a tomar decisões importantes sobre avida e a saúde de seus companheiros, do cuidado preventivo aos cuidados paliativos, sempre coma responsabilidade e o profissionalismo que essa relação exige.

AMVF: A forma como o médico-veterinário é visto na sociedade também é um desafio. Ainda existe aquela imagem de que ele “salva bichinhos por amor” e não deve cobrar por isso. Como enfrentar este posicionamento de benevolência que temos na profissão?
Dra. Ana Elisa: Essa é uma luta constante que o CFMV abraça, buscando a valorização profissional. É essencial que a sociedade entenda que, apesar de a paixão pelos animais ser o que nos move, somos profissionais altamente capacitados. Investimos muito tempo em estudos, nos dedicamos à formação contínua, utilizamos equipamentos de ponta, mantemos clínicas e hospitais com boa infraestrutura e aplicamos tecnologia avançada. A ideia de ‘salvar por amor’ não pode anular os custos de uma medicina de excelência. Para mudar essa percepção, precisamos mostrar ao público o valor real do nosso trabalho, que inclui conhecimento científico profundo, técnicas cirúrgicas complexas, diagnósticos precisos e um impacto direto na saúde pública e no bem-estar social. A cobrança justa é o que garante a sustentabilidade da profissão e a nossa capacidade de continuar aprimorando os serviços, oferecendo sempre o melhor cuidado possível.

AMVF: Podemos dizer que hoje em dia, com tutores de animais de estimação mais exigentes e informados, o médico-veterinário precisa ser muito mais qualificado? Como isso se torna um desafio para o profissional?
Dra. Ana Elisa: Com certeza. A facilidade de acesso à informação fez com que os responsáveis pelos animais cheguem às clínicas com mais perguntas e expectativas. Isso exige do médico-veterinário uma qualificação constante e profunda. O desafio está em se manter sempre atualizado com as últimas pesquisas, técnicas e tecnologias. Além disso, é preciso desenvolver uma comunicação muito boa, clara e empática, para conversar com os clientes que, às vezes, têm informações (nem sempre corretas) sobre os casos. O CFMV, com sua regulamentação e normatização e o fomento ao aprimoramento profissional, entende essa necessidade e trabalha para que nossos profissionais mantenham um alto padrão de conhecimento e prática.

AMVF: E como o CFMV vê a formação de novos profissionais por meio do ensino semipresencial na área da Medicina Veterinária?
Dra. Ana Elisa:
O CFMV é totalmente contrário ao ensino semipresencial na formação de médicos-veterinários. Entendemos que a formação profissional na nossa área exige prática intensa, contato direto com animais, laboratórios bem equipados e acompanhamento próximo de professores experientes. Não é possível formar um médico-veterinário plenamente capacitado por meio de ensino a distância ou semipresencial. E essa não é uma preocupação nova. O Conselho Federal já articula há anos para impedir essa modalidade e proteger a qualidade da profissão. Temos atuado junto ao Congresso Nacional e ao Executivo para revisar o decreto que permite essa forma de ensino, e as articulações continuam firmes nesse sentido. Nosso compromisso é com a sociedade e com a segurança sanitária e de saúde, e isso começa com uma formação sólida e presencial. Além disso, a vivência acadêmica presencial é fundamental para o desenvolvimento de habilidades interpessoais, construção de redes de contato (networking) e integração com a comunidade científica e profissional. O ambiente universitário proporciona experiências que vão muito além do conteúdo teórico, sendo essenciais para a formação de profissionais críticos, éticos e preparados para os desafios reais da Medicina Veterinária. É essa qualidade que o CFMV defende — uma formação completa, responsável e conectada com as exigências da vida profissional.

AMVF: A humanização do animal de estimação também pode ser considerada um desafio para o médico-veterinário? Em que medida isto traz desafios ao veterinário?
Dra. Ana Elisa:
A crescente forma como os pets são vistos como membros da família pode, de fato, ser um grande desafio para o médico-veterinário. Essa ‘humanização’ intensifica a carga emocional dos clientes em relação aos seus animais, o que muitas vezes leva a decisões de tratamento mais complexas e caras, dilemas éticos em procedimentos invasivos ou no fim da vida, e até mesmo expectativas que não condizem com a realidade. O desafio está em o profissional conseguir lidar com essas emoções, oferecendo suporte ético e, por vezes, psicológico aos clientes, e equilibrar o que é clinicamente ideal com as possibilidades e os desejos dos responsáveis, sempre priorizando o bem-estar do animal.

AMVF: Em relação às doenças emergentes – incluindo as zoonoses –, qual vem sendo o papel do médico-veterinário da área de pequenos animais na saúde dos animais de estimação e de seus donos?
Dra. Ana Elisa:
O médico-veterinário de pequenos animais está na linha de frente do controle de doenças emergentes, especialmente aquelas que podem ser transmitidas entre animais e pessoas, as zoonoses. Somos verdadeiras sentinelas da saúde pública. Nosso trabalho diário de diagnosticar, tratar e prevenir doenças como leishmaniose, raiva, leptospirose, entre outras, impacta diretamente a vida dos pets, de seus responsáveis e da comunidade. Atuamos na vigilância de doenças, na orientação sobre vacinação, controle de parasitas e higiene, e colaboramos com órgãos de saúde pública, o que se alinha perfeitamente com a nossa atuação para promover a saúde única.

AMVF: Podemos dizer que a profissão se tornou mais complexa? Por quê?
Dra. Ana Elisa:
Com certeza. A profissão de médico-veterinário se tornou bem mais complexa. As razões são várias: a evolução da Medicina Veterinária, com cada vez mais especialidades e tecnologias avançadas; a maneira como os animais são vistos hoje, que trouxe novas questões éticas e emocionais; o surgimento de novas doenças e a necessidade constante de vigilância sanitária; a legislação e regulamentação que estão sempre mudando; e o próprio dia a dia de trabalho, que exige habilidades de gestão, comunicação e inteligência emocional. Não somos apenas clínicos; somos cientistas, comunicadores, gestores e, muitas vezes, precisamos ter um olhar mais sensível para as questões emocionais dos clientes. Essa atuação multifacetada é o que torna nossa profissão tão desafiadora e, ao mesmo tempo, tão recompensadora.

AMVF: A rotina do profissional, as altas cargas horárias, o estresse e a pressão emocional que este profissional é submetido, aumenta as taxas de suicídio na profissão. Abaixar tais estatísticas ainda é um desafio ou houve algum trabalho efetivo para a melhora deste aspecto da profissão?
Dra. Ana Elisa:
Essa é uma questão extremamente séria e que o CFMV e os CRMVs tratam com a máxima atenção. Infelizmente, a Medicina Veterinária, em nível mundial, enfrenta altas taxas de problemas de saúde mental, estresse e, em casos mais graves, suicídio. Reduzir essas estatísticas é, sem dúvida, um desafio contínuo, mas temos realizado e apoiado trabalhos concretos. O CFMV e os CRMVs têm promovido a conscientização sobre a saúde mental do médico-veterinário, incentivando a busca por ajuda profissional e quebrando o tabu sobre o tema. Há iniciativas como palestras, seminários e grupos de apoio, visando criar um ambiente de trabalho mais saudável e equilibrado. Sabemos que é um caminho longo, mas estamos firmes no compromisso de promover o bem-estar e a qualidade de vida dos nossos profissionais, pois entendemos que um profissional saudável é essencial para a qualidade do serviço que prestamos à sociedade.

AMVF: Não podemos deixar de citar as tecnologias, como a IA, na profissão, que é o desafio mais atual que os veterinários vêm enfrentando. Como lidar com tais transformações tecnológicas sem prejudicar a profissão? A tecnologia veio para somar?
Dra. Ana Elisa:
A tecnologia, incluindo a Inteligência Artificial, é uma realidade inegável e, sim, ela veio para complementar e somar, não para prejudicar. O desafio é saber como incorporá-la de forma ética e eficiente, garantindo que ela seja uma ferramenta para aprimorar, e não para substituir, o raciocínio clínico e a relação do médico com o paciente e seu responsável. A IA pode otimizar diagnósticos por imagem, ajudar na pesquisa de informações, na gestão de clínicas e até no desenvolvimento de novos tratamentos. O CFMV acompanha essas inovações e trabalha para criar diretrizes que permitam aos profissionais explorar o potencial tecnológico de forma segura e responsável. É um processo de adaptação contínua e de aprimoramento profissional, onde a tecnologia se torna uma aliada para uma Medicina Veterinária mais precisa, rápida e eficaz, liberando o profissional para se concentrar no que é insubstituível: o julgamento clínico, a empatia e o cuidado com o paciente e seu responsável.

AMVF: Há algum desafio principal na profissão de médico-veterinário de pequenos animais que gostaria de acrescentar?
Dra. Ana Elisa:
Um desafio importante que eu destacaria é o equilíbrio entre a prática ética e a viabilidade financeira do negócio. Muitas clínicas e profissionais autônomos enfrentam a pressão do mercado e a necessidade de manter uma estrutura de alta qualidade, enquanto lidam com a percepção social do valor de seu serviço. Manter a ética profissional, como está estabelecido em nosso Código de Ética, em um ambiente de tanta concorrência e exigências crescentes, é um desafio constante que demanda discernimento, integridade e o apoio de toda a classe.

AMVF: Para finalizar, o que o CFMV vem implementando para ajudar o médico-veterinário de pequenos animais para apoiar o médico-veterinário e driblar tais desafios?
Dra. Ana Elisa:
O CFMV age em várias frentes, de acordo com as nossas principais atribuições, para apoiar o médico-veterinário de pequenos animais e ajudá-lo a superar esses desafios:
• Estamos sempre atualizando normas e diretrizes para guiar a prática profissional, especialmente diante de novos desafios que surgem, como a forma como os animais são vistos e as novas tecnologias;
• Através da supervisão dos CRMVs, asseguramos que a profissão seja exercida com qualidade e ética, protegendo o profissional e a sociedade;
• Desenvolvemos campanhas e ações para reforçar o valor social e econômico da Medicina Veterinária, combatendo a ideia de que nosso trabalho deve ser feito ‘por amor’ e sem a devida remuneração;
• Incentivamos a educação continuada por meio de eventos científicos e parcerias, para que o profissional esteja sempre qualificado para as novas demandas e tecnologias;
• Representamos os médicos-veterinários perante os governos, parlamentares, autoridades e a sociedade, buscando condições de trabalho mais justas e o reconhecimento merecido;
• Temos intensificado as ações de conscientização e apoio à saúde mental dos profissionais, visando reduzir o estresse e promover o bem-estar na rotina de trabalho.
Em resumo, o CFMV trabalha sem parar para garantir que a profissão seja exercida com excelência, ética e dignidade, assegurando que o veterinário de pequenos animais continue sendo um pilar essencial para a saúde e o bem-estar de toda a sociedade.