Inteligência artificial começa a entrar nos plantões veterinários, mas o maior impacto talvez não seja o que todos imaginam

Uma parte importante do raciocínio clínico, das decisões médicas, dos exames, das imagens e até das discussões estratégicas começou a sair do ambiente protegido das instituições e migrar para plataformas externas sem qualquer governança técnica ou jurídica

Foto: SergeyNivens/iStock

Durante décadas, a medicina veterinária hospitalar se acostumou a funcionar em uma lógica quase artesanal. Plantonistas trocando mensagens em grupos de WhatsApp, profissionais buscando rapidamente uma referência no Google durante uma emergência, imagens sendo compartilhadas informalmente entre colegas e discussões clínicas acontecendo fora do ambiente institucional dos hospitais. O modelo sempre funcionou, até que a complexidade dos atendimentos, o volume de informações e a velocidade das decisões começaram a crescer mais rápido do que a capacidade humana de organizar tudo isso. Agora, um movimento silencioso começa a surgir dentro da medicina veterinária brasileira: o uso estruturado de inteligência artificial como suporte técnico e operacional em plantões hospitalares. Mas, diferente do que muitos imaginam, o impacto deste novo movimento não parece estar apenas na automação deste suporte. “Hoje praticamente todo mundo usa algum tipo de inteligência artificial, busca no Google ou consulta grupos paralelos durante os atendimentos. O problema é que ninguém está discutindo o tamanho do risco operacional e jurídico disso para os hospitais”, explica o médico-veterinário intensivista Prof. Dr. Rodrigo Rabelo.

Ainda segundo ele, clínicas e hospitais passaram a conviver com um fenômeno pouco percebido: uma parte importante do raciocínio clínico, das decisões médicas, dos exames, das imagens e até das discussões estratégicas começou a sair do ambiente protegido das instituições e migrar para plataformas externas sem qualquer governança técnica ou jurídica.

VETIAS: UMA SOLUÇÃO INTEGRADA

Foi tentando enfrentar esse problema que surgiu o VetIAS, plataforma brasileira desenvolvida para funcionar como um ambiente estruturado de suporte clínico e operacional voltado especificamente para medicina veterinária. A proposta da ferramenta não foi criar apenas “mais uma IA”. “Inteligência artificial isolada hoje todo mundo consegue acessar. O desafio real é transformar experiência humana acumulada em um fluxo consistente, seguro e aplicável dentro da rotina hospitalar”, afirma Rabelo.

O sistema foi desenvolvido a partir de mais de três décadas de atuação em emergência, terapia intensiva e gestão hospitalar veterinária, utilizando fluxos reais de tomada de decisão construídos ao longo de milhares de atendimentos e treinamentos realizados em mais de 17 países, e mais de 11 mil consultas veterinárias por telemedicina. Segundo os desenvolvedores, o VetIAS não opera simplesmente como uma interface conectada a ferramentas públicas de Inteligência Artificial.

“Hoje praticamente todo mundo usa algum tipo de inteligência artificial, busca no Google ou consulta grupos paralelos durante os atendimentos. O problema é que ninguém está discutindo o tamanho do risco operacional e jurídico disso para os hospitais […] O desafio real é transformar experiência humana acumulada em um fluxo consistente, seguro e aplicável na rotina hospitalar”

diz o médico-veterinário intensivista Rodrigo Rabelo

A plataforma utiliza bases de conhecimento separadas, curadas e organizadas especificamente para veterinária, além de um modelo operacional de prompting criado para orientar os profissionais sobre como estruturar melhor perguntas, raciocínios clínicos e tomadas de decisão. Na prática, a intenção foi transformar comportamento humano em arquitetura operacional. “O que tentamos fazer foi reproduzir dentro da ferramenta aquilo que funcionou durante anos na vida real dos plantões: como organizar prioridades, estruturar um raciocínio clínico, discutir risco, como passar um caso, como montar uma linha de pensamento consistente sob pressão”, explica.

Segundo usuários da plataforma, essa organização gera uma sensação incomum mesmo para profissionais já habituados ao uso de IA. “Muitas pessoas relatam que parece uma conversa humana contínua. Como se existisse contexto, memória e continuidade lógica dentro do processo”, comenta Rabelo.

Além do suporte técnico, o VetIAS também começou a atuar em áreas consideradas extremamente sensíveis dentro da medicina veterinária moderna: organização documental, mitigação de risco jurídico e previsibilidade financeira. A plataforma reúne, atualmente, dezenas de tabelas reais de precificação utilizadas por hospitais e clínicas veterinárias brasileiras, permitindo estimativas orçamentárias alinhadas à realidade do mercado. Ela também auxilia profissionais na estruturação documental de atendimentos, comunicação entre equipes e padronização operacional dos plantões.

Mas talvez um dos aspectos mais impressionantes da ferramenta seja sua capacidade multilíngue e integração com literatura científica internacional.

CASOS CONCRETOS

Recentemente, o sistema foi utilizado no suporte ao atendimento de um leão na Rússia, envolvendo documentação clínica integralmente escrita em cirílico. “Conseguimos organizar toda a informação técnica do caso, integrar os dados, discutir o paciente e devolver relatórios estruturados mesmo trabalhando com documentação originalmente em russo. Isso mostra como a tecnologia pode reduzir barreiras que antes eram praticamente impossíveis de transpor em tempo real”, relata Rabelo.

Experiências semelhantes ocorreram em atendimentos remotos envolvendo pacientes no Equador. Segundo os desenvolvedores, a capacidade de integrar idiomas diferentes, estruturar raciocínio técnico complexo e buscar literatura complementar em bases de evidência internacionais faz com que a plataforma consiga atuar como uma espécie de amplificador de expertise clínica sem fronteiras geográficas.

A tecnologia pode reduzir barreiras que antes eram praticamente impossíveis de
transpor em tempo real

diz o médico-veterinário intensivista Rodrigo Rabelo

Lançado oficialmente em 14 de abril de 2026, durante o Congresso Vet em Foco, realizado no Expo Dom Pedro em Campinas-SP, o VetIAS ultrapassou mais de 11.000 consultas realizadas em 5 meses de operação, contabilizando mais 60 clínicas e hospitais utilizando a ferramenta e mais de 2.000 usuários em 6 países.

Para Rabelo, o crescimento rápido demonstra uma mudança comportamental que provavelmente será irreversível dentro da medicina veterinária.

“A discussão não é mais se a inteligência artificial vai entrar na rotina dos hospitais. Isso já aconteceu. A questão agora é se ela será usada de forma desorganizada, informal e sem responsabilidade… ou se conseguiremos construir ambientes tecnicamente seguros, estruturados e realmente úteis para os profissionais e para os pacientes”, finaliza o médico-veterinário.

Mais informações:
https://vetias.net

Por Assessoria de Imprensa