Evolução da área de medicina felina: da clínica geral à especialização vet

Muitos foram os avanços na medicina veterinária de felinos que fizeram com que os gatos passassem a ser tratados como uma espécie diferente do cão

Foto: Nils Jacobi/iStock

Por Samia Malas

Muito se fala sobre o gato ser o pet do futuro e dados revelam o crescimento do pet no Brasil e no mundo. A indústria veterinária também acompanha tal crescimento, mas esta evolução nos cuidados com os felinos é recente. Dra. Giovana Mazzotti, proprietária da Clínica Mazzotti, de Brasília-DF, além de membro fundador da ABFeL e da ABINvet e membro associado da FelineVMA, lembra que há 25 anos, quando começou a atuar na área de Medicina Felina, dizer que se trabalharia exclusivamente com gatos soava quase como uma insanidade. “Naquele período havia apenas uma clínica dedicada exclusivamente aos felinos em todo o país: a Gatos & Gatos Vet, da Dra. Heloisa Justen, com quem tive a enorme honra de aprender muito sobre essa área. O cenário era completamente diferente do atual. Para se ter uma ideia, testes diagnósticos para FIV e FeLV ainda não existiam no Brasil. Não tínhamos rações terapêuticas específicas para gatos e tampouco medicamentos desenvolvidos considerando as particularidades fisiológicas dessa espécie. O manejo amigável — hoje amplamente reconhecido como essencial — era frequentemente ridicularizado por colegas. Mas havia também uma grande motivação para compreender melhor o gato e oferecer um atendimento mais adequado. Foi essa busca que permitiu que a Medicina Felina evoluísse até alcançar o nível de excelência que vemos hoje”, destaca. Para ela, nos últimos cinco anos, no entanto, observamos um avanço particularmente expressivo. “A indústria veterinária passou a reconhecer o gato como um paciente com necessidades próprias, e isso se refletiu no desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas, dietas terapêuticas e ferramentas diagnósticas específicas para a espécie. Esse movimento consolidou algo que nós, que trabalhamos com gatos há décadas, sempre soubemos: o gato não é um ‘cão pequeno’, é um paciente com características únicas que exigem uma medicina própria”, comenta. A área tem crescido tanto que tem atraído os estudantes. Giovana vê este movimento como extremamente positivo. “No entanto, é fundamental compreender que excelência profissional depende de dois pilares essenciais: estudo profundo e verdadeira paixão pela área escolhida. Sem dedicação intensa ao conhecimento científico e sem um interesse genuíno pela espécie, dificilmente o profissional conseguirá evoluir de forma consistente”, destaca.

Foto: arquivo pessoal
“A indústria veterinária costuma responder à demanda do mercado, e com o crescimento da Medicina Felina, houve grande pressão
para o desenvolvimento de medicamentos, vacinas, dietas terapêuticas e ferramentas diagnósticas específicas para gatos”
diz Giovana Mazzotti, da Clínica Mazzotti

Segundo Dra. Fernanda Vieira Amorim da Costa, professora associada de Clínica de Felinos Domésticos no Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadora permanente do Programa de Pós-graduação em Ciências Veterinárias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Ciência Animal da UFMG e autora do recente livro Manual de Clínica Médica Felina(2023), o mercado brasileiro de medicina felina vive uma curva de crescimento exponencial, superando proporcionalmente o de cães em áreas urbanas.
Fernanda cita exemplos de grandes transformações e avanços através de pesquisas científicas e eventos de educação continuada:
Implementação do manejo e de interações veterinárias Cat Friendly, diretrizes internacionais (Feline VMA/ISFM): os programas Cat Friendly Practice® e Cat Friendly Clinic® são iniciativas globais desenvolvidas para elevar o cuidado com os gatos, reduzindo o estresse e facilitando as visitas para gatos e cuidadores. Essas mudanças alteraram o ambiente hospitalar para o atendimento de gatos. Ao reduzir o medo e a ansiedade do paciente, conseguimos parâmetros fisiológicos mais fidedignos (glicemia, pressão arterial e frequência cardíaca), o que eleva a precisão do diagnóstico clínico, além de elevar o bem-estar dos pacientes felinos nas clínicas veterinárias. As Diretrizes de Manejo Amigável para Felinos e as Diretrizes de Enfermagem têm garantido que os gatos sejam manejados com cuidado e respeito.
Aumento de clínicas Cats Only: que não são mais um “nicho”, mas uma exigência de um responsável cada vez mais informado e exigente.
Terapêutica de anticorpos monoclonais: a chegada de tratamentos como o Frunevetmab para osteoartrite felina representa um marco na medicina felina (nível A de evidência em controle de dor crônica).
Manejo da PIF (Peritonite Infecciosa Felina): a maior revolução nos últimos 5 anos. Passamos de uma doença 100% letal para o uso de antivirais (como o GS-441524), ainda em fase de amadurecimento regulatório no Brasil, mas com robusta evidência científica internacional de cura.
Nefrologia e manejo de fluidos: o avanço no diagnóstico precoce (biomarcadores como SDMA) e refinamento do manejo da tríade felina.
Redução de doenças infecciosas através da vacinação: este é um dos maiores sucessos da medicina felina na última década, elevando a expectativa de vida dos pacientes, principalmente em países em que a vacinação atinge imunidade de rebanho.

Foto: arquivo pessoal
“Ao reduzir o medo e a ansiedade do paciente, conseguimos parâmetros fisiológicos mais fidedignos (glicemia, pressão arterial e frequência cardíaca), o que eleva a precisão do diagnóstico clínico, além de elevar o bem-estar dos pacientes felinos nas clínicas veterinárias”
diz Fernanda Vieira Amorim da Costa, da ABFEL

ASSOCIAÇÃO EM PROL DA ESPECIALIDADE
Como atual presidente da Academia Brasileira de Clínico de Felinos (ABFeL), que conta com 292 associados e tem uma atuação em prol da valorização do atendimento especializado em Medicina Felina, Fernanda também destaca algumas conquistas da entidade: “desde nossa fundação em Florianópolis em 2007 a ABFeL transformou a percepção da espécie no Brasil. Saímos de uma clínica generalista para uma medicina especializada baseada em evidências científicas. Consolidamos um calendário científico ininterrupto e servimos de ponte para a tradução de guidelines internacionais (como os de Nefrologia e Manejo de Dor da ISFM/AAFP) para a realidade brasileira. Houve a habilitação da Academia para desenvolvimento e aplicação da prova para os veterinários se tornarem especialistas em Medicina Felina em 2017, porém a prova não foi realizada em 5 anos levando à expiração do prazo. Atualmente estamos atualizando nosso estatuto e adequando a solicitação às novas normas do CFMV para enviar a requisição novamente”. Além disso, há grande investimento em educação continuada, acrescenta Fernanda, “com a realização de congressos especializados e webinars com foco em evidência científica de alto nível, criação de um ecossistema de discussão entre especialistas, reduzindo o isolamento do clínico que atende felinos em centros generalistas, alinhamento com diretrizes globais (ISFM e AAFP), facilitando o acesso do clínico brasileiro a protocolos de Cat Friendly Practice, disseminação de guias de conduta para patologias prevalentes (como Doença Renal Crônica, Retroviroses e Complexo Respiratório).”

DESAFIOS E CARÊNCIAS
Curiosamente, um dos grandes desafios atuais da especialidade, segundo Giovana, nasce justamente do crescimento da medicina felina. “Hoje existe uma enorme oferta de cursos que prometem capacitar rapidamente o médico-veterinário em Medicina Felina. Porém, nem sempre essa formação é profunda o suficiente. O profissional acredita estar preparado, o tutor passa a associar um diploma à qualidade técnica, e alguns erros bastante graves acabam se tornando mais frequentes. Outro ponto preocupante é a origem das informações utilizadas por alguns colegas para se atualizar. Cada vez mais vemos profissionais buscando conteúdo em sites ou blogs sem qualquer rigor científico. Ou seja, o grande sonho que tínhamos há 25 anos — ver a Medicina Felina difundida pelo país — de fato aconteceu. Mas infelizmente essa expansão nem sempre veio acompanhada do nível de qualidade científica que desejávamos”, critica.
Apesar das conquistas obtidas na área, ainda existem lacunas importantes na área de pesquisa, destaca Giovana. “Carecemos, por exemplo, de vacinas intranasais para algumas enfermidades respiratórias felinas, de formulações vacinais que não incluam a fração de Chlamydia, de maior variedade de dietas terapêuticas e de mais opções farmacológicas para modulação comportamental. Também sentimos falta de algumas apresentações medicamentosas mais adequadas para gatos, como opioides em formulações orais específicas. Avançamos muito, mas ainda há um grande espaço para inovação na medicina dedicada aos felinos”, acrescenta a veterinária.

O QUE ESPERA DO FUTURO?
A Medicina Felina hoje já é uma especialidade consolidada, e isto está cada vez mais claro para os médicos-veterinários e tutores que estão a par das necessidades clínicas e comportamentais próprias dos felinos, exigindo uma abordagem especializada. “Isso abre um campo enorme para crescimento profissional. O responsável que já experimentou o atendimento em uma clínica exclusivamente felina raramente retorna a uma clínica generalista — e isso demonstra o quanto a especialização agrega valor. Para os estudantes, meu principal conselho é compreender que a Medicina Felina vai muito além de gostar de gatos ou aplicar conceitos de manejo Cat Friendly. Trata-se de uma medicina que exige estudo constante, dedicação e profundo compromisso científico. Também recomendo fortemente que realizem o máximo possível de estágios, preferencialmente em instituições diferentes. Essa diversidade de experiências permite compreender melhor a realidade da profissão e amadurecer clinicamente. Costumo dizer que quem realmente experimenta a Medicina Felina dificilmente abandona essa área”, finaliza Giovana.