Entre as especialidades que mais cresce, a dermatologia exige atenção do clínico que atua com pequenos animais

Por Samia Malas
São muitas as evidências que mostram o quanto o mercado de Dermatologia Veterinária de Pequenos Animais tem crescido. O aumento de cursos de especialização na área, os lançamentos da indústria voltados para esse segmento e o crescimento de Congressos pelo país são alguns deles. Segundo a pesquisa Radar Pet 2025, realizada pela Comissão de Animais de Companhia do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Comac/Sindan), especializações em nutrição, dermatologia, acupuntura e terapias complementares têm ganhado destaque, acompanhando a demanda por atendimentos mais personalizados. A seguir, conversamos com profissionais da área para traçar um panorama desta especialidade.
DOENÇAS RECORRENTES
Segundo Márcia Sonoda, médica-veterinária especializada em Dermatologia Veterinária pela Universidade de São Paulo (USP), mestre pela FMVZ-USP, atual diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV) e sócia fundadora da clínica Derme for Pets, de São Paulo-SP, as doenças mais frequentes de quem atua na área são as alérgicas.

“Aplicar abordagens amigáveis fear free pets é essencial para reduzir o estresse do paciente, melhorar a experiência da
consulta e apoiar também os responsáveis nesse processo” diz Márcia Sonoda, sócia fundadora Derme for Pets
“Em cães, a dermatite atópica; e em gatos, a síndrome atópica cutânea felina. Também vemos alergia alimentar, dermatite alérgica à picada de pulgas, piodermites, malasseziose e otites crônicas. Essas condições são multifatoriais: genética, ambiente, estilo de vida e até o estresse influenciam. Não são resultado de manejo incorreto do responsável, embora hábitos de higiene, controle de parasitas e o bem-estar emocional do animal possam contribuir para o controle ou agravamento da doença”, afirma a veterinária, que será palestrante no Congresso Dermato em Foco 2026, em Campinas-SP, falando sobre: Testes Alérgicos e Imunoterapia em Felinos: Evidências, Desafios e Resultados. “Escolhi esse tema de palestra porque os testes alérgicos e a imunoterapia com alérgenos em gatos ainda geram muitas dúvidas entre os colegas. A espécie felina é especialmente desafiadora, tanto no diagnóstico quanto no tratamento e na manutenção da síndrome atópica cutânea felina. Na palestra, quero mostrar a prática clínica real: quando indicar os testes, como interpretá-los e de que forma podemos utilizar a imunoterapia com alérgenos em gatos para trazer qualidade de vida e segurança no tratamento a longo prazo”, acrescenta Márcia.

“Vejo que há uma carência enorme de estudos mais robustos quando o assunto é alergopatias em felinos. Não temos o mesmo
nível de compreensão da doença nos gatos, e seria fundamental o incremento de pesquisas neste campo’
diz Maurício Piovesan Henrique, vice-presidente da SBDV
Maurício Piovesan Henrique, clínico autônomo, professor de pós-graduação e vice-presidente da SBDV, de São Paulo-SP, concorda que as doenças mais prevalentes na clínica dermatológica de cães e gatos são as alergopatias, especialmente a dermatite atópica. “Inclusive, são muito frequentes os dias em que atendemos apenas animais alérgicos, tamanha a frequência. Existem alguns motivos que tornam as alergopatias tão corriqueiras, dentre os quais podemos citar a elevada predisposição racial em algumas raças hoje em dia bastante comuns, como Shih Tzu, Lhasa Apso, Spitz Alemão e Buldogue; e o fato de hoje vivermos em ambientes cada vez mais controlados, limpos e com menor exposição a patógenos, gerando distúrbios de tolerância imunológica”, aponta Maurício, que também será palestrante no Dermato em Foco de 2026.
Luiza Quintela, médica-veterinária da página @luizaquintela e pós-graduanda em Dermatologia e Alergologia pela Anclivepa-SP, de Vitória-ES, aponta que em seu consultório, de 8 a cada 10 consultas que ela faz, os casos são de pacientes acometidos pela dermatite atópica.“Essas condições são corriqueiras por uma série de fatores: o ambiente doméstico moderno, com maior convivência íntima entre responsáveis e pets; uso frequente de produtos de limpeza; banhos com produtos que não são ideais; e dietas altamente processadas, isso cria um contexto propício para o desequilíbrio da barreira cutânea e do microbioma da pele. Além disso, a urbanização e o confinamento dos animais reduziram a exposição natural a estímulos ambientais que ajudariam o sistema imune a se desenvolver de forma equilibrada, contribuindo para o aumento das doenças alérgicas, fora as questões genéticas”, explica. Ainda segundo ela, muitos casos acabam se tornando crônicos por falhas no manejo como o uso irregular de antiparasitários, banhos com produtos inadequados, automedicação e dificuldade em manter protocolos de controle a longo prazo. “A dermatologia exige constância, e não apenas tratamento pontual. O manejo ambiental, a escolha correta da dieta, a identificação e controle de gatilhos alérgicos e o cuidado com o microbioma são peças-chave para manter a pele saudável”, diz.

“A dermatologia moderna é cada vez menos sobre ‘remédios que curam’ e mais sobre estratégias
que reequilibram diz Luiza Quintela, médica-veterinária
PESQUISA NA ÁREA
Em termos de pesquisa, Márcia aponta que os temas mais atuais focam muito na imunoterapia com alérgenos e na compreensão dos mecanismos imunológicos da dermatite atópica canina e da síndrome atópica cutânea felina. “Também há crescente interesse no estudo do microbioma cutâneo e intestinal e sua relação com inflamação crônica e alergias. Ainda faltam estudos aplicados em felinos, especialmente no que diz respeito à resposta à imunoterapia com alérgenos. Outras áreas que demandam mais atenção são as alopecias de origem genética e algumas dermatoses autoimunes”, diz.
Maurício também crê que, do mesmo modo que a dermatite atópica é altamente frequente na rotina clínica, ela também acaba se tornando o foco de uma maior quantidade de pesquisas. “É o assunto mais pesquisado e trabalhado no campo científico dentro da dermatologia veterinária, especialmente no que tange à terapêutica e diagnóstico molecular. Porém, vejo que há uma carência enorme de estudos mais robustos quando o assunto é alergopatias em felinos. Não temos o mesmo nível de compreensão da doença nos gatos, e seria fundamental o incremento de pesquisas neste campo”, diz.
Luiza aponta que, nos últimos anos, as pesquisas em dermatologia veterinária têm se voltado fortemente para o estudo do microbioma cutâneo, da resistência bacteriana e da modulação imunológica nas doenças alérgicas crônicas. “Temos entendido cada vez mais que a pele não é apenas uma barreira física, mas um ecossistema complexo, onde bactérias, fungos e o próprio sistema imune do animal interagem de forma dinâmica. Alterações nesse equilíbrio, muitas vezes provocadas por uso excessivo de antibióticos, banhos frequentes ou alergias, podem perpetuar inflamações, prurido e infecções de difícil controle”, diz. A médica-veterinária também destaca que a Síndrome Atópica Cutânea felina deveria ser mais explorada por clínicos. “Diariamente recebemos pacientes com essa condição e que, muitas vezes, estão sendo tratados com ansiolíticos por acreditarem que o prurido é de origem psicogenia, quando na verdade é causada por uma alergopatia”, diz.
DESAFIOS NA CLÍNICA DE DERMATO
Uma vez que as alergopatias são as doenças mais frequentes na rotina da especialidade, Maurício afirma que, do ponto de vista biológico, elas trazem consigo um grande desafio: o caráter crônico e recidivante. “Essa característica se traduz muitas vezes em frustração, tanto para o clínico quanto para o responsável pelo paciente – além de, claro, o próprio animal. Isso porque o caminho do diagnóstico até o tratamento efetivo é longo e turbulento. É preciso sempre alinhar expectativas, fornecer orientações claras e ter empatia. Se o médico-veterinário não dominar a boa comunicação com seu cliente, certamente ele terá dificuldades, e o desafio será enorme”, diz Maurício.
O principal desafio para Márcia é lidar com doenças crônicas, que não têm cura definitiva, mas sim controle. “Isso exige comunicação clara, paciência e parceria com o responsável para manter a adesão ao tratamento”, diz.
Outro ponto que Márcia destaca é o medo, a ansiedade e o estresse do paciente na consulta, que podem prejudicar o atendimento e até agravar o quadro alérgico. “Aplicar abordagens amigáveis fear free pets é essencial para reduzir o estresse do paciente, melhorar a experiência da consulta e apoiar também os responsáveis nesse processo. E, acima de tudo, precisamos nos apoiar sempre em práticas baseadas em evidências: em foco cada conduta deve ter respaldo científico, garantindo segurança e efetividade para os pacientes”, completa.
Para Luiza, a dermatologia é uma das áreas mais desafiadoras da clínica de pequenos animais, porque as doenças de pele raramente têm uma única causa. “Muitas vezes estamos lidando com pacientes que chegam com histórico longo, múltiplos tratamentos anteriores, e responsáveis cansados emocional e financeiramente. O maior desafio está em identificar o que está por trás do quadro… se é uma doença alérgica, infecciosa, endócrina, nutricional ou uma combinação de fatores e, principalmente, em fazer o responsável compreender que o tratamento dermatológico é um processo de manutenção, não uma cura imediata”, diz.
NOVIDADES NA ÁREA
Na área de exames, Márcia aponta que os destaques são o prick teste (teste de puntura) e os testes sorológicos, que vêm se tornando mais acessíveis e padronizados. “No tratamento, a grande evolução é a imunoterapia com alérgenos, por ser o único método capaz de modificar o curso da doença. Além dela, contamos com os inibidores de JAK, que trouxeram controle rápido e eficaz do prurido em cães. Até o momento, há apenas um anticorpo monoclonal disponível, e exclusivamente em cães, representando um avanço, mas mostrando que ainda temos espaço para crescer em inovação, especialmente na espécie felina”, diz.
Maurício aponta que, nos últimos anos, surgiram várias inovações que acrescentam muito no dia a dia, como os já citados testes alérgicos. “Eles podem nos balizar para a imunoterapia alérgeno-específica, e/ou para a escolha de alimentos numa dieta de eliminação baseada em alimentação natural, por exemplo. É preciso frisar que estes exames, entretanto, não servem para diagnóstico das alergopatias! O diagnóstico continua sendo clínico, porém os testes alérgicos nos respaldam e dão informações valiosas para terapias e investigações complementares”, acrescenta. Sob a ótica da indústria farmacêutica, Maurício também aponta grandes inovações, como a chegada dos inibidores de JAK (tema de sua palestra no Congresso Dermato em Foco 2026) e dos anticorpos monoclonais. “Certamente, mais novidades chegarão nos próximos anos”, pontua.
Luiza aponta que a dermatologia veterinária vive um momento muito interessante de inovação. “Nos últimos anos, os avanços têm se concentrado em três grandes frentes: diagnóstico mais preciso, terapias imunomoduladoras e abordagem integrativa com foco no microbioma cutâneo. No campo terapêutico, a chegada de novas moléculas imunomoduladoras vem mudando a forma como tratamos as doenças alérgicas. Outra inovação são os anticorpos monoclonais, que atuam de forma extremamente específica, bloqueando a interleucina responsável pelo prurido. Isso representa um salto em termos de qualidade de vida e segurança terapêutica. A dermatologia moderna é cada vez menos sobre ‘remédios que curam’ e mais sobre estratégias que reequilibram”, diz.
ESTUDANTE DE DERMATO
Para quem é estudante ou formado, mas pretende entrar ou está iniciando na área de Dermatologia Vet, confira algumas dicas dadas pelos nossos entrevistados: “Construa uma base sólida em clínica geral, já que a pele reflete muitas doenças sistêmicas. Valorize exames simples e fundamentais: a citologia, o parasitológico de pele e de orelhas, e o tricograma, que ainda é pouco explorado, mas extremamente útil no diagnóstico dermatológico. Desenvolva habilidades de comunicação: explicar de forma clara e empática ao responsável é tão importante quanto prescrever. Adote abordagens amigáveis (fear free) para reduzir estresse em consultas e melhorar a adesão ao tratamento. Esteja sempre atualizado com práticas baseadas em evidências: estudar muito e de forma contínua é o caminho para se tornar um bom dermatólogo. Faça parte da SBDV: é essencial para acompanhar atualizações científicas, trocar experiências e crescer junto com outros especialistas”, diz Márcia.
“Estudem e se dediquem com muita disposição, pois a dermatologia é ampla, com vários ramos possíveis de aperfeiçoamento profissional, como alergologia e otologia. É uma especialidade com perspectiva de ser cada dia mais inovadora, e exigirá profissionais cada vez mais qualificados. Portanto, sejam amantes do aprendizado, mas sem jamais ignorar o lado humano: é uma especialidade que requer empatia, comunicação e, sobretudo, paciência”, afirma Maurício.
“Minha principal dica é: aprenda a gostar de investigar. As doenças de pele raramente têm uma resposta rápida, o diagnóstico é construído passo a passo, com anamnese detalhada, raciocínio clínico e acompanhamento a longo prazo. Também é essencial desenvolver olhar clínico e empatia. O dermatologista precisa enxergar além da lesão e entender o paciente como um todo, o tutor, o ambiente e até o comportamento. Outra dica é se manter atualizado e crítico. A dermatologia está em constante evolução, com novas terapias e estudos. Busque cursos, congressos e leitura científica, mas também aprenda com a prática e com cada caso que desafiar você. Tenha paciência com o paciente, com o responsável e consigo mesmo. A dermatologia não é imediatista, mas ver um animal recuperar o conforto, parar de se coçar e voltar a ter qualidade de vida é uma das maiores recompensas da profissão”, diz Luiza.



