Hospitais, indústria, universidade e oportunidades comerciais marcaram a imersão brasileira na China

Por Prof. Marco Antonio Gioso
Durante muitos anos, a China chegou até nós principalmente por intermédio de notícias, estatísticas e produtos. Em agosto de 2026, decidimos inverter esse caminho: fomos pessoalmente conhecer algumas das instituições, empresas e pessoas envolvidas na transformação do mercado veterinário e pet chinês. A China Vet Connection 2026 levou a Xangai e Pequim uma delegação formada por 25 médicos-veterinários, gestores e empresários brasileiros. A iniciativa foi organizada pela VetCoaches, por meio do VetSolution e da Íntegra Health, com suporte turístico e logístico da Terramundi. O programa foi concebido para unir diferentes dimensões do setor: assistência veterinária, administração hospitalar, tecnologia, pesquisa, ensino, indústria, comércio e cultura. Cada compromisso ajudou a compor uma visão mais ampla sobre a evolução da Medicina Veterinária na China.
Hospitais e empresas em Xangai
As visitas ao Ruichen Pet Hospital e ao Hospital Veterinário Babitang permitiram acompanhar como diferentes organizações estruturam atendimento, especialidades, processos internos e expansão. O grupo pôde conversar com dirigentes, conhecer indicadores e analisar como a tecnologia está integrada ao cotidiano hospitalar. O objetivo não era decidir qual país possui o melhor modelo. Buscávamos identificar escolhas de gestão que pudessem provocar reflexões sobre nossas próprias empresas. Quando um gestor observa outra maneira de organizar equipes, espaços e serviços, ele adquire novas referências para revisar sua operação. Perecemos que, de fato, a gestão dos chineses é de fato baseada em números, KPIs, produtividade. Os gestores informam a seus colaboradores como está seu rendimento e as metas. Números são naturais para os médicos-veterinários.
Na United Imaging Healthcare, a delegação conheceu o ambiente industrial responsável pela criação de equipamentos avançados de diagnóstico por imagem. Sistemas de tomografia, ressonância magnética, PET/CT, PET/MR e raios X foram apresentados sob a ótica de quem pesquisa, desenvolve e fabrica essas soluções. Essa aproximação com a indústria mostrou que a aquisição de um equipamento não deve ser analisada apenas pelo preço. Desenvolvimento tecnológico, qualidade, software, assistência, capacidade produtiva e planejamento de longo prazo também precisam participar da decisão.
A Pet Fair Asia ampliou ainda mais essa perspectiva. A feira reuniu mais de 2.600 expositores em uma área aproximada de 320 mil m2. Diante de tamanha diversidade, cada integrante seguiu seus próprios interesses: equipamentos, diagnóstico, nutrição, odontologia, produtos, serviços ou novas tecnologias. Várias conversas iniciadas durante a feira evoluíram para possibilidades de importação, distribuição e representação no mercado latino-americano. O contato presencial facilitou a compreensão de quem realmente fabrica, quem comercializa e quais empresas demonstram interesse em estabelecer relações duradouras com o Brasil.
Pequim e a dimensão acadêmica
Na China Agricultural University, fomos recebidos pelo Prof. Zhaofei Xia e pelos dirigentes da instituição. A programação possibilitou conhecer detalhadamente o hospital-escola e conversar sobre assistência, ensino, pesquisa e formação profissional. A escala da operação merece atenção. O hospital pode receber cerca de 700 pacientes em um dia e realiza quase 9 mil cirurgias por ano. Sua manutenção depende das receitas geradas por consultas, exames e procedimentos. Somente o pet shop associado à instituição supera o equivalente a R$ 40 milhões em faturamento anual. Ainda assim, o aspecto mais valioso não estava apenas nos números. A visita possibilitou um intercâmbio verdadeiro. Conhecemos práticas chinesas e, ao mesmo tempo, apresentamos parte do conhecimento produzido pela Medicina Veterinária brasileira. O Brasil reúne competência clínica, pesquisa, universidades, especialidades e um dos mercados pet mais importantes do mundo. Portanto, nossa participação não foi passiva. Estávamos ali para ouvir e aprender, mas também para expor experiências, estabelecer contatos e abrir caminhos para futuras cooperações. Por exemplo, os chineses se mostraram curiosos em saber os números de nosso mercado, quantidade de faculdades, número de médicos-veterinários e quais especialidades existem no Brasil, e seu grau de desenvolvimento.
China além dos negócios
Nenhuma relação internacional se sustenta exclusivamente em propostas comerciais. Na China, confiança, respeito, hierarquia e convivência possuem grande peso na aproximação entre parceiros. As refeições com anfitriões, a gastronomia, o tradicional Pato de Pequim e os encontros com professores e empresários ajudaram a compreender esses códigos. A passagem pela Cidade Proibida e pela Grande Muralha também mostrou como uma sociedade profundamente ligada à sua história consegue, simultaneamente, avançar em velocidade impressionante na ciência, na infraestrutura e na tecnologia.
Essa combinação entre tradição e inovação talvez tenha sido uma das descobertas mais interessantes da missão.
Novos caminhos para 2027
O principal saldo da China Vet Connection 2026 está nas relações estabelecidas, nos projetos em desenvolvimento e nas decisões que poderão nascer a partir dessa experiência. Em março de 2027, uma nova delegação será formada especialmente para cirurgiões-dentistas. Em agosto, outro grupo reunirá médicos-veterinários e empresários interessados não apenas em conhecer o mercado chinês, mas também em avaliar produtos, fornecedores e oportunidades de negócios. Também está sendo planejada uma missão para a Tailândia.
Essas viagens não têm como finalidade apresentar modelos estrangeiros como soluções universais. Elas aproximam profissionais de outras realidades para que possam avaliar melhor seus próprios desafios.
Conhecer o mundo não elimina as dúvidas. Ao contrário: qualifica as perguntas – e perguntas melhores costumam produzir decisões melhores.
Eu, minha esposa e Danilo Rondinelli, CEO da Terramundi, agradecemos sinceramente aos integrantes da primeira China Vet Connection pela confiança. O que construímos na China ultrapassou o roteiro da viagem e poderá gerar resultados durante muitos anos.

Prof. Marco Antonio Gioso
Médico-veterinário, cirurgião-dentista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP). Possui MBA em Marketing pela FIA e atua como palestrante, mentor e consultor em gestão de negócios para o mercado veterinário (integrando iniciativas como a VetCoaches e VetSolution).
Instagram: @marco_gioso



