Aumento do potencial arritmogênico t-wave peak-end (tpte) em cães obesos

Foto: divulgação

▪ Por Santos, L. A., Marques, G. R., Rodrigues, A., Ramos, G. V., Braz, J. B.

T-wave peak-end (TpTe) é um índice de repolarização cardíaca e marcador precoce de arritmogênese. A obesidade acomete a atividade elétrica do coração pois provoca apoptose dos cardiomiócitos, fibrose da parede cardíaca e capilarização reduzida. Visto que aproximadamente 50% da população mundial canina está em sobrepeso, este estudo apresentou como objetivo analisar o desempenho elétrico do coração de cães obesos por meio do TpTe e delimitar a derivação eletrocardiográfica mais sensível para prever arritmias. Logo, 40 cães entre 1 e 11 anos foram recrutados e divididos em dois grupos: controle (ECC 5) e experimental (ECC 8 e 9). Após triagem criteriosa, os animais passaram pelo eletrocardiograma, sendo feita mensuração do intervalo TpTe em 10 derivações (D1, D2, D3, aVR, aVL,
aVF, rV2, V2, V4 e V10). Os dados foram analisados estatisticamente por meio do teste T de Student (p≤0,05) e da análise de componentes principais (ACP). Os resultados demonstraram que a média geral do grupo experimental apresentou valor maior (27,82 ± 1,7) em relação ao grupo controle (23,81 ± 3,25). Além disso, o teste T de Student confirmou que para as derivações D2 (p=0,032), D3 (p<0,01), aVL (p<0,01), aVF (p<0,01) e V4 (p<0,01) havia diferença significativa entre os grupos. Em seguida, tais derivações foram utilizadas para a realização da
ACP, a qual indicou que a análise do TpTe é mais fidedigna quando feita em aVF. Portanto, cães obesos apresentam aumento do intervalo TpTe, indicando distúrbios de repolarização e maior predisposição para arritmias, sendo recomendada a derivação aVF para realizar tal análise.

INTRODUÇÃO
De acordo com Masood (2024) estima-se que a obesidade é um distúrbio que acomete cerca de 50% da população mundial canina. Tendo em vista que essa afecção causa prejuízos ao bem-estar, qualidade e expectativa de vida dos animais, sua alta prevalência é preocupante (Porsani et al., 2019). Segundo Csige et al. (2018) o acúmulo de triglicerídeos aumenta a apoptose dos cardiomiócitos; a ativação do SRAA e, consequente elevação da aldosterona, contribuem para a fibrose do miocárdio; a intensa liberação de citocinas inflamatórias devido ao excesso de adiposidade provoca fibrose e rigidez da parede cardíaca; e a expansão do tecido adiposo pelo coração causa capilarização insuficiente, podendo levar à hipóxia miocárdica.
Dessa forma, a atividade elétrica do coração é afetada, visto que as células e tecidos cardíacos são lesados, os quais são responsáveis por gerar e conduzir o estímulo elétrico, predispondo o surgimento de arritmias (Csige et al., 2018). O estudo de Mazini (2011) constatou que 37,5% dos cães com ECC 9 apresentam arritmias ventriculares. Com isso, Santilli et al. (2021) afirmam que a partir do eletrocardiograma é possível mapear a atividade elétrica do coração e constatar possíveis alterações. Ainda, de acordo com Vila, Camacho e Sousa (2021) o intervalo T-wave peak-end (TpTe) é um índice de repolarização cardíaca, sendo um importante marcador precoce para arritmogênese.
Logo, o objetivo do presente estudo foi analisar a atividade elétrica do coração de cães obesos através do intervalo TpTe. Além disso, também buscou-se identificar qual derivação eletrocardiográfica é mais fidedigna para realizar a investigação de distúrbio de repolarização que predispõe arritmias.

MATERIAS E MÉTODOS
A pesquisa recrutou 40 cães entre 1 e 11 anos, divididos igualmente em dois grupos (controle e experimental) segundo o escore de condição corporal (ECC) definido por Laflamme (1997). O grupo controle continha cães da raça beagle com ECC 5, enquanto o grupo experimental foi composto por 8 Labradores, 8 sem raça definida (SRD), 2 Border Collies, 1 Blue Heeler e 1 Golden com ECC 8 (n=11) e 9 (n=9), sem distinção de sexo. Todos os animais passaram por triagem criteriosa (anamnese, exames físicos, laboratoriais, de imagem e ecocardiograma) para descartar doenças sistêmicas. Dessa forma, os cães selecionados realizaram eletrocardiograma de
acordo com os critérios estabelecidos por Santilli et al. (2021), com mensuração do intervalo TpTe em 10 derivações (D1, D2, D3, aVR, aVL, aVF, rV2, V2, V4 e V10), repetida 3 vezes para cálculo de média. Os dados foram tabulados e analisados estatisticamente por meio do teste T de Student (p≤0,05) e da análise de componentes principais (ACP).

RESULTADOS
A partir da tabulação dos dados, foi realizado cálculo de média e desvio padrão do intervalo TpTe para as 10 derivações eletrocardiográficas em ambos os grupos. Os resultados demonstraram que o valor médio de todas as derivações do grupo experimental foi maior (27,82 ± 1,7) em relação ao grupo controle (23,81 ± 3,25). A média de cada derivação eletrocardiográfica está representada na tabela 1.
Em seguida, o teste T de Student confirmou que para as derivações D2 (p=0,032), D3 (p<0,01), aVL (p<0,01), aVF (p<0,01) e V4 (p<0,01) havia diferença significativa para os valores registrados de TpTe entre os grupos, também descritos na tabela 1.

Além disso, através da ACP, foi possível sugerir que a derivação aVF é a mais sensível para evidenciar o alongamento do TpTe. Para o cálculo dos componentes foram consideradas apenas as derivações D2, D3, aVL, aVF e V4, que apresentaram diferença significativa para os valores de TpTe entre os grupos.
Foram selecionados os dois primeiros componentes (CP1 e CP2) de acordo com a regra de Kaiser, cujos eigenvalues foram superiores a 1, evidenciado pela tabela 2. Juntos, CP1 e CP2 explicaram 71,9% da variância original dos dados. Entretanto, apenas o CP1 foi avaliado considerado, tendo em vista que detinha 52,7% da variância, demonstrado pelo gráfico 1. Quanto ao CP1, aVF apresentou maiores valores de coordenada (0,9), de contribuição para a determinação do componente (30,8), de qualidade de representação (0,8) e de carga (0,55), destacados pela tabela 2.

DISCUSSÃO
Considerando que o intervalo TpTe é um marca dor de repolarização cardíaca (Vila; Camacho; Sousa, 2021), seu prolongamento indica que o ventrículo está demorando mais para repolarizar, o que pode predispor o surgimento de arritmias (CHO et al., 2017). Ainda, as derivações eletrocardiográficas que demonstraram aumento significativo do intervalo TpTe estão associadas ao lado esquerdo do coração (Santilli et al., 2021). A literatura relata que a obesidade pode induzir hipertrofia do ventrículo esquerdo (VE) pela elevação da pré-carga, resultando
em disfunção diastólica (Partington et al., 2022) e remodelamento eletrofisiológico das células cardíacas (Rodrigues; Falcão, 2025). Mesmo que apenas a atividade elétrica tenha sido o foco do presente estudo, acredita-se que o remodelamento cardíaco e o distúrbio de relaxamento já caracterizado em cães obesos possam explicar o aumento do TpTe nesta pesquisa.
Além disso, embora seja recomendado a derivação eletrocardiográfica D2 para verificação de arritmias pelo eletrocardiograma (Santilli et al., 2021), de acordo com o presente trabalho, para a análise do intervalo TpTe é indicado utilizar a derivação aVF.
Não há relatos na literatura acerca do uso preferencial de aVF ou de outras derivações para a avaliação do TpTe, ressaltando o pioneirismo deste estudo e encorajando novas pesquisas.

CONCLUSÃO
Portanto, conclui-se que cães obesos podem apresentar prolongamento do intervalo TpTe, indicando alteração no padrão de repolarização ventricular e, com isso, predisposição para arritmias.
Dentre as derivações analisadas, aVF apresentou-se como a mais sensível para avaliar o intervalo TpTe nesses animais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHO, J. H. et al. Delayed Repolarization Underlies Ventricular Arrhythmias in Rats With Heart Failure and Preserved Ejection Fraction. Circulation, v. 136, n. 21, p. 2037-2050, 21 nov. 2017. http://dx.doi. org/10.1161/circulationaha.117.028202.

CSIGE, I. et al. The impact of obesity on the cardiovascular system. Journal of diabetes research, v. 2018, n. 1, p. 3407306, 2018. https://doi. org/10.1155/2018/3407306

LAFLAMME, D. P. Development and validation of a body condition score system for dogs: a clinical tool. Canine Practice, v. 22, n. 3, p. 10- 15, 1997.

MASOOD, W. General and Systemic Consequences of Obesity in Cats and Dogs. Veterinary Integrative Science, v. 22, n. 1, p. 265-290, 8 ago. 2024. http://dx.doi.org/10.12982/vis.2024.020.

MAZINI, A. W. Avaliação da ocorrência de arritmias e da variabilidade da frequência cardíaca em cães obesos pelo método de holter. 2011. 144 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Medicina Veterinária, Faculdade de medicina veterinária e zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

PARTINGTON, C. et al. The effect of obesity and subsequent weight reduction on cardiac structure and function in dogs. Bmc Veterinary Research, v. 18, n. 1, p. 351, 20 set. 2022. http://dx.doi. org/10.1186/s12917-022-03449-4.

PORSANI, M. Y. H. et al. Factors associated with failure of dog’s weight loss programmes. Veterinary Medicine And Science, v. 6, n. 3, p. 299-305, 26 dez. 2019. https://doi.org/10.1002/vms3.229

RODRIGUES, M. M.; FALCÃO, L. M. Pathophysiology of heart failure with preserved ejection fraction in overweight and obesity – Clinical and treatment implications. International Journal of Cardiology, v. 430, p. 133182, 1 jul. 2025 https://doi.org/10.1016/j.ijcard.2025.1331

SANTILLI, R. et al. Electrocardiography of the dog and cat: diagnosis of arrhythmias. 2. ed. Milão: Edra S.P.A, 2021. 348 p.

VILA, B. C. P.; CAMACHO, A. A.; SOUSA, M. G. T-wave peak-end interval and ratio of T-wave peak-end and QT intervals: novel arrhythmogenic and survival markers for dogs with myxomatous mitral valve disease. Journal of Veterinary Cardiology, v. 35, p. 25–41, 1 jun. 2021. https://doi.or g/10.1016/j.jvc.2021.02.004