Estudo global revela que, embora médicos-veterinários sejam os principais influenciadores da vacinação felina, divergências de percepção e lacunas de informação ainda barram a adesão aos protocolos preventivos

O crescimento da população de felinos nos lares brasileiros e globais trouxe consigo a necessidade de um olhar mais atento e especializado para o manejo e os cuidados preventivos específicos da espécie. Muitas vezes vistos erroneamente como animais de cuidados mais simples devido à sua independência, os gatos demandam uma rotina rigorosa de saúde que tem na vacinação um de seus pilares mais críticos.
Para compreender a fundo essa dinâmica e identificar os principais gargalos na proteção desses animais, a MSD Saúde Animal realizou um amplo levantamento global com responsáveis por felinos e médicos-veterinários. Intitulada “Drivers, Barriers, and Unmet Needs affecting Feline Vaccination Compliance: Insights from a Global Survey of Cat Owners and Veterinarians”, a pesquisa foi apresentada no Congresso Mundial Felino de 2026 (World Feline Congress 2026) e publicada na revista científica Veterinary Sciences, revelando um distanciamento significativo entre o que as famílias e os profissionais pensam sobre a relevância de vacinar os pets.
Enquanto 69% dos médicos-veterinários consideram a vacinação um fator essencial para a saúde felina, apenas 16% dos responsáveis compartilham dessa mesma percepção. O estudo expôs que 58% das famílias dependem diretamente do médico-veterinário para obter informações sobre vacinas, mas somente 23% dos profissionais relatam compartilhar ativamente materiais educativos sobre o tema. Por outro lado, a recomendação do médico-veterinário (71%) foi identificada como o principal fator de estímulo para que o animal receba as doses, evidenciando que o público busca mais dados sobre os benefícios e enxerga o profissional como uma fonte de extrema confiança.
Diante desse cenário desafiador, que evidencia a urgência de uma comunicação mais próxima e consultiva nas clínicas para reverter a vulnerabilidade dos animais a enfermidades evitáveis, os especialistas apontam que o alinhamento de expectativas é o primeiro passo. Para Melissa Bourgeois, médica-veterinária, PhD e diretora técnica global de Biológicos para Animais de Companhia da MSD Saúde Animal, a descoberta desses gargalos serve como um mapa para o setor:
“Nosso estudo mostra uma oportunidade clara para melhorar a adesão aos protocolos vacinais. Os responsáveis por gatos confiam nos médicos-veterinários para obter informações sobre vacinas, e os profissionais estão na posição ideal para remover barreiras, preencher lacunas de conhecimento e elevar as taxas de vacinação”, afirma a diretora.
Desinformação e divergência de prioridades no manejo diário
A análise aprofundada dos dados aponta que a falta de conhecimento técnico molda diretamente a rotina de cuidados dentro de casa. Ao serem estimulados a listar, de forma espontânea, três fatores cruciais para manter a saúde dos felinos, a esmagadora maioria dos responsáveis (94%) apontou uma alimentação de alta qualidade. Itens como consultas de rotina (39%), afeto (35%) e momentos de brincadeira (17%) também ganharam prioridade frente à vacinação, mencionada por apenas 16% do público. Em contrapartida, para os médicos-veterinários, a vacinação divide o topo do ranking de relevância com a nutrição de alta qualidade, acumulando 69% das citações em ambos os casos.
Essa disparidade de percepção também ajuda a explicar os motivos que levam à não vacinação. Entre os responsáveis que optam por deixar os gatos desprotegidos, as principais justificativas são a crença de que as vacinas seriam desnecessárias para animais saudáveis (27%) ou para aqueles que vivem exclusivamente em ambientes internos (27%). Esse comportamento reflete perfeitamente os maiores obstáculos identificados pelos médicos-veterinários no dia a dia dos consultórios, que listam a falta de entendimento do cliente (53%) e a disseminação de informações incorretas (51%) como as barreiras mais complexas a serem superadas.
Curiosamente, o motor para reverter esse quadro está na própria relação de confiança estabelecida na clínica. Entre os entrevistados que mantêm a carteira de vacinação dos felinos em dia, os fatores de maior influência foram o desejo intrínseco de manter o pet saudável (62%) e a indicação direta do médico-veterinário (57%). O dado se conecta à percepção dos próprios profissionais, dos quais 71% confirmam que a sua recomendação verbal é o principal fator de engajamento da família. O grande desafio, portanto, reside em transformar essa influência em uma prática constante de compartilhamento de dados, rompendo o silêncio atual onde a minoria dos médicos-veterinários (23%) fornece materiais educativos explicativos, a despeito de 58% dos clientes desejarem receber esse tipo de suporte.
Prevenção personalizada e o papel da inovação clínica
Diante desse cenário, a vacinação permanece como uma das principais estratégias para prevenir doenças infecciosas que podem comprometer a saúde e a qualidade de vida dos felinos ao longo de toda a vida. As diretrizes internacionais recomendam que o protocolo vacinal seja definido de forma individualizada, considerando fatores como idade, histórico de saúde, ambiente em que o animal vive e seu risco de exposição a agentes infecciosos.
Para José Carlos Pereira Jr., diretor da unidade de Animais de Companhia da MSD Saúde Animal Brasil, os resultados do levantamento reforçam que ampliar o acesso à informação é tão importante quanto disponibilizar tecnologias de prevenção:
“Os dados globais mostram que ainda existe uma distância significativa entre a percepção dos responsáveis e a realidade dos riscos aos quais os gatos estão expostos. Muitos acreditam que um animal que vive exclusivamente dentro de casa não precisa ser vacinado, quando, na prática, a prevenção continua sendo fundamental para protegê-lo de doenças potencialmente graves. O médico-veterinário desempenha um papel decisivo nesse processo, e nosso compromisso é apoiá-lo com evidências científicas, ferramentas de educação e um portfólio completo de vacinas”, afirma o diretor.
Metodologia
Realizado entre maio de 2024 e agosto de 2024, o estudo capturou dados de uma amostra representativa de 1.330 médicos-veterinários de animais de companhia e 5.071 responsáveis por gatos em 14 países: Estados Unidos, Canadá, Japão, Brasil, México, Austrália, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Polônia, Bélgica, Holanda e Dinamarca.
Por Samia Malas



