Diagnóstico veterinário: área de crescimento consistente impulsionada pela valorização da saúde animal

Fatores como a medicina preventiva em ascensão e o envelhecimento da população pet têm contribuído para a expansão do setor

Foto: SeventyFour/iStock

Os fatores que têm impulsionado o segmento de diagnóstico veterinário no Brasil são diversos e englobam toda a cadeia da saúde animal. Desde a indústria, focada em desenvolver testes cada vez mais precisos e que contribuem para o diagnóstico precoce de doenças, até a outra ponta da cadeia, com os pets ficando mais velhos e exigindo maiores cuidados com a sua saúde. Para entender um pouco como este segmento tem se movimentado no Brasil, conversamos com três médicos-veterinários de referência.

GERIATRIA DE PEQUENOS ANIMAIS

O envelhecimento da população pet também é um dos fatores que contribuiu com o desenvolvimento do setor de diagnósticos no geral. Segundo o médico-veterinário Dr. Diego Mendes, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV), nos últimos cinco anos, houve uma transformação bastante significativa no perfil dos pacientes e das famílias nos atendimentos geriátricos, com o aumento progressivo na idade dos animais que chegam até os consultórios. “Com isso, passamos a lidar com uma nova realidade, na qual as doenças crônicas, degenerativas e relacionadas ao envelhecimento se tornaram cada vez mais frequentes na rotina, porém, diagnosticadas de forma cada vez mais precoce graças aos esforços da comunidade médico-veterinária em medicina preventiva. Nos últimos anos também houve uma evolução importante na própria estrutura da veterinária no Brasil. Isso porque houve maior acesso a equipamentos e técnicas diagnósticas mais avançadas, como tomógrafos computadorizados e tomógrafo veterinário de feixe cônico, aparelhos de ressonância magnética de alto campo, aceleradores lineares para tratamento oncológico, aparelhos para exames laboratoriais mais específicos e testes genéticos com resultados em 15 dias, além do crescimento de áreas como oncologia, cardiologia, nefrologia, endocrinologia, neurologia, fisioterapia e cuidados paliativos”, aponta Dr. Diego.

Ainda se acordo com o médico-veterinário, esse avanço permitiu não apenas aumentar a sobrevida dos pacientes, mas também melhorar a qualidade de vida dos animais idosos, o que hoje é um dos principais objetivos da medicina veterinária moderna. “Outro ponto que merece destaque é a mudança no perfil dos responsáveis, que atualmente têm maior vínculo afetivo com seus pets e buscam cada vez mais atendimentos especializados, acompanhamento preventivo de rotina e abordagens individualizadas, especialmente quando os animais atingem idade mais avançada. Isso impulsionou o crescimento do segmento voltado aos pacientes geriátricos e reforçou a necessidade de profissionais capacitados para lidar com as particularidades do envelhecimento. Nesse contexto, a SBGV tem contribuído com atualização profissional de seus associados, capacitando-os para oferecerem um serviço em geriatria veterinária de elevado padrão técnico-científico”, finaliza.

“Nos últimos anos houve uma evolução importante na própria estrutura da medicina veterinária no Brasil, com maior acesso a equipamentos e técnicas diagnósticas mais avançadas”

diz Dr. Diego Mendes, presidente da SBGV

PATOLOGIA CLÍNICA

Segundo a Dra. Michelly Fernandes de Macedo, presidente da Associação Brasileira de Patologia Clínica Veterinária (ABPCV), nos últimos cinco anos, o mercado de patologia clínica e diagnóstico veterinário no Brasil apresentou um crescimento consistente, impulsionado principalmente pela expansão do setor pet e pela maior valorização da saúde animal.

“A automação dos laboratórios, com equipamentos mais modernos para hematologia, bioquímica e imunodiagnóstico, trouxe maior padronização, rapidez na liberação dos resultados e maior reprodutibilidade dos exames”

diz Dra. Michelly Fernandes de Macedo, presidente da ABPCV

“O país possui um dos maiores mercados pet do mundo, e isso se reflete diretamente no aumento da procura por serviços vets e exames. Paralelamente, a medicina veterinária de pequenos tornou-se mais complexa e especializada, aproximando-se cada vez mais da humana. Áreas como oncologia, endocrinologia, cardiologia e medicina intensiva passaram a demandar diagnósticos laboratoriais mais precisos e rápidos, o que fortaleceu o papel dos laboratórios dentro da rotina clínica”, relata a veterinária.

Nesse período de 5 anos, Dra. Michelly diz que também ocorreram transformações importantes, sobretudo no campo tecnológico. “O diagnóstico molecular, por exemplo, tornou-se mais acessível e presente na rotina clínica, com exames como PCR, permitindo diagnósticos mais precoces e específicos para diversas doenças infecciosas e genéticas. Além disso, a automação dos laboratórios, com equipamentos mais modernos para hematologia, bioquímica e imunodiagnóstico, trouxe maior padronização, rapidez na liberação dos resultados e maior reprodutibilidade dos exames. Outro ponto relevante foi o crescimento do uso de equipamentos point of care em clínicas e hospitais veterinários, o que ampliou a realização de exames dentro das próprias instituições e aumentou a demanda por profissionais capacitados para interpretar esses resultados”, diz.

Todas essas mudanças relatadas por Dra. Michelly também impactaram diretamente os tratamentos disponíveis. “A oncologia veterinária, por exemplo, evoluiu bastante nos últimos anos, com maior acesso a protocolos de quimioterapia, imunoterapia e terapias mais direcionadas, que dependem de diagnósticos laboratoriais e histopatológicos cada vez mais precisos. Ao mesmo tempo, houve um avanço significativo da medicina preventiva, com maior utilização de check-ups laboratoriais e exames de rastreamento, especialmente em animais idosos. A medicina veterinária também tem incorporado cada vez mais o conceito de medicina baseada em evidências, no qual decisões clínicas são sustentadas por dados laboratoriais e biomarcadores”, exemplifica.

“Tivemos um boom na oferta de serviços de Tomografia e Ressonância Magnética no Brasil nos últimos 6 anos, pois a quantidade de equipamento que tínhamos no país dobrou e passou a ser uma ferramenta de mais fácil acesso ao veterinário”

diz Dr. Alex Adeodato, sócio proprietário da rede CRV Imagem

Na prática do dia a dia, Dra. Michelly acredita que essa evolução é percebida pelo aumento no número e na diversidade de exames solicitados, pela maior interação entre clínicos e patologistas e pela valorização crescente do laudo interpretativo.

“O laboratório deixou de ser visto apenas como um prestador técnico de exames e passou a ocupar uma posição estratégica no processo de diagnóstico, monitoramento terapêutico e acompanhamento dos pacientes. Nesse contexto, a ABPCV tem um papel fundamental no fortalecimento e no desenvolvimento desse segmento. A associação atua promovendo a qualificação profissional por meio de congressos, simpósios e atividades de atualização científica, contribuindo para que os profissionais acompanhem a evolução das tecnologias e metodologias diagnósticas. Além disso, também incentivamos a difusão de boas práticas laboratoriais e promovemos a integração entre laboratórios, universidades, clínicos e pesquisadores, fortalecendo a comunidade científica da área. Ao valorizar e divulgar a importância da patologia clínica veterinária, a associação contribui diretamente para consolidar o diagnóstico laboratorial como um pilar essencial da medicina veterinária moderna”, finaliza Dra. Michelly.

DIAGNÓSTICO POR IMAGEM

Outro setor da área de diagnósticos que cresceu bastante no Brasil é o voltado para exames de imagem, especialmente o de imagem avançada. “Tivemos um boom na oferta de serviços de Tomografia e Ressonância Magnética no Brasil nos últimos 6 anos, pois a quantidade de equipamento que tínhamos no país dobrou e passou a ser uma ferramenta de mais fácil acesso ao veterinário. Além do mais, a faculdade não prepara as pessoas para usar estas ferramentas, tanto como imagiologista como clínico e cirurgião. Diria que nos próximos 5 ou 10 anos vamos dobrar a quantidade de exames que estão sendo feitos e isso impacta no mercado de trabalho”, aponta o Dr. Alex Adeodato, sócio proprietário da rede CRV Imagem, do Rio de Janeiro.

Ainda segundo o médico-veterinário, existe um parque grande de equipamentos ainda subutilizados no país, pois faltam profissionais para laudar estes exames. “Hoje, percebemos que estes exames são muito importantes em outras áreas, não somente na neurologia ou ortopedia, mas a Tomo e a RM também são exames muito importantes na Onco, Nefro, Dermato, Gastro, Cardio etc. E estas ferramentas começam a virar rotina para todo mundo. Hoje temos cerca de 300 Tomógrafos e 30 Ressonâncias no Brasil, números bastante expressivos considerando que há 18 anos não tínhamos nenhum, pois fui o primeiro a trazer tais equipamentos ao Brasil. Isso é uma mudança na evolução dos diagnósticos que permite um salto gigante no crescimento das especialidades também, pois se você não tem diagnóstico você não consegue desenvolver e treinar cirurgiões e clínicos e avançar em terapias, deixando tudo estagnando. Assim, o diagnóstico traz avanço às especialidades, que se estruturam em cima dele”, finaliza Dr. Alex.

Por Samia Malas