Veterinários de pets têm papel importante no combate às bactérias multirresistentes

Com uma prescrição criteriosa e conscientização dos donos de pets, este profissional ajuda a controlar um dos maiores problemas de saúde única global.

Foto: ClaudioVentrella e EvaBlanco/iStock

Por Samia Malas

Um dos assuntos mais sérios da saúde pública global é o crescimento de bactérias multirresistentes. O alerta já foi dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que, em 2019, colocou a resistência de bactérias a antimicrobianos (RAM) como um dos dez problemas de saúde pública mais urgentes do século XXI. Estudos recentes mostram que, se nada for feito, até 2050, mais de 39 milhões de pessoas podem morrer por ano em função de infecções causadas por bactérias multirresistentes. A previsão da OMS é a de que a resistência aos antimicrobianos possa causar mais mortes do que câncer em 2050. “O surgimento de bactérias multirresistentes é, na verdade, um fenômeno natural, mas intensificado pela ação humana. As bactérias estão sempre se adaptando para sobreviver. O problema é que esse processo ficou muito mais rápido por causa do uso excessivo e, muitas vezes, inadequado de antibióticos — em pessoas, em animais e até em plantas. Os cientistas sabem da capacidade evolutiva das bactérias desde a descoberta dos antibióticos, mas o alerta cresceu muito nas últimas décadas. Isso porque, as bactérias estão evoluindo e se espalhando mais rápido do que conseguimos desenvolver novos medicamentos. Hoje, já existem casos em que os antibióticos não funcionam e infecções antes tratáveis se tornam graves — e isso ainda é pouco monitorado”, explica Juliana Silva Corrêa, doutora em Saúde Pública e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP) e do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (CEPIDARIES). Diante deste cenário, Juliana aponta que, em 2015, a OMS, em parceria com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), lançou um plano de ação global e convocou os países-membros a desenvolverem seus próprios planos nacionais de enfrentamento à resistência antimicrobiana. “Esse enfrentamento envolve não só bactérias, mas também fungos, vírus e parasitas resistentes. A ideia é promover políticas coordenadas entre a saúde humana, animal e ambiental”, diz. No Brasil, o Ministério da Saúde desenvolveu o Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito da Saúde Única (PAN-BR) em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que desenvolveram planos específicos alinhados a ele.

Foto: arquivo pessoal
“O primeiro passo é entender que todos podemos contribuir – seguindo corretamente as orientações de uso de
antibióticos e cobrando ações mais amplas de governos e da indústria” diz Juliana Silva Corrêa

“O PAN-BR articula os setores de saúde, agricultura e meio ambiente e segue diretrizes internacionais. Mas, para que essas ações tenham efeito real, é essencial que o tema ganhe visibilidade pública e seja comunicado de forma simples e compreensível mostrando que a resistência antimicrobiana é um problema atual, universal e que pode afetar qualquer um de nós”, enfatiza Juliana. Ela acrescenta que a resistência microbiana é um desafio coletivo, mas solucionável, desde que haja engajamento e políticas públicas adequadas. “Não basta pedir que as pessoas usem antibióticos com responsabilidade — é preciso criar condições para isso: fortalecer o diagnóstico laboratorial, garantir acesso à vacinação e aos serviços de saúde humana e animal, e capacitar profissionais para prescrever e utilizar antimicrobianos com segurança”, acrescenta Juliana.
Porém, o foco na área de saúde animal ainda se concentra mais em animais de produção, algo que precisa mudar, segundo Luciana Sartori, médica–veterinária, doutora em Ciências Farmacêuticas e Patologia Experimental pela USP, mestre em Sanidade Animal pela UEL e, atualmente, pesquisadora de pós-doutorado no CEPID-ARIES. Ela foi uma das palestrantes do simpósio “Políticas Públicas em Resistência aos Antimicrobianos”, evento realizado em setembro de 2025, na FGVEAESP. “Este simpósio foi direcionado a debater políticas públicas para o enfrentamento da RAM. Nele, apresentei a realidade na Medicina Veterinária, onde temos um programa apenas voltado a ações em animais de produção. Para pensarmos em Uma Só Saúde, precisamos de ações voltadas também aos pets, pois se temos por volta de 60 milhões de cães e 34 milhões de gatos no Brasil, esta população também está intimamente envolvida na problemática da RAM. O subcomitê veterinário do BRCAST, do qual sou coordenadora, promove vários simpósios e workshops para entender a RAM em Medicina Veterinária. Todos estes eventos são gratuitos e estão na página do YouTube do BRCAST. O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) aprovou um projeto de minha autoria onde também iremos realizar palestras sobre RAM para médicos-veterinários do país todo”, destaca Luciana.

Foto: arquivo pessoal
“Os hospitais veterinários que possuem profissionais conscientes em diminuir a RAM em seus estabelecimentos podem fazer
várias ações como protocolos de desinfecção, estabelecer um comitê para decisões de uso de antimicrobianos de última escolha, envolvimento
de toda a cadeia e educação e treinamentos contínuos” diz Luciana Sartori

Vanessa Gmyterco, é médica-veterinária e possui especialização em Clínica Médica de pequenos animais e em Dermatologia e Alergologia Veterinária pela Anclivepa-SP, além de ser doutoranda em Ciência Animal pela PUCPR. Ela aponta que as bactérias resistentes ou super-resistentes têm aumentado também entre os pets e isso está diretamente ligado a diversos fatores, como a prescrição indiscriminada de antibióticos, sem que haja um diagnóstico evidente de infecção bacteriana. “Na área de Dermatologia Vet existem infecções que são super comuns, como as bacterianas superficiais de pele e, hoje, existem fortes recomendações e evidências científicas de que não se deve usar antibióticos para tratá-las, mas na prática clínica ainda é muito prescrito”, exemplifica. Ainda segundo Vanessa, o mesmo acontece em quadros de diarreia, em que existe o mito de que se há sangue nas fezes, o veterinário precisa prescrever antibiótico. “Hoje sabe-se que isso não é uma verdade absoluta”, enfatiza. Outro fator que acaba fomentando a RAM é a prescrição inadequada em relação ao tempo de uso do antibiótico ou até na frequência da administração. “Precisa seguir a recomendação do fabricante para aquele tipo de antibiótico específico”, reforça Vanessa.

FÁCIL ACESSO AOS ANTIBIÓTICOS
Segundo Luciana, a retenção da receita veterinária para que se possa ter maior controle na venda e compra de antimicrobianos é urgente. “Uma iniciativa está em discussão tanto no CFMV quanto no MAPA, mas uma mudança de comportamento dos médicos-veterinários impulsionaria a uma discussão mais apropriada e colocaria maior consciência do uso racional de antimicrobianos para os responsáveis”, explica.
Vanessa reforça que o fácil acesso do responsável na compra de antibióticos para o pet é uma grande preocupação. “Muitas vezes, eles administram antibiótico com orientações de balcão, feitas no pet shop ou na agropecuária, sem nenhuma avaliação de um médico-veterinário. Isto é muito preocupante”, alerta.
Segundo Juliana, os impactos da resistência nem sempre são fáceis de reconhecer, mas já acontecem. “Quando um tratamento não funciona, dura mais tempo e exige medicamentos mais caros e restritos, normalmente isso é atribuído apenas à gravidade da infecção. Mas, na verdade, esses casos podem também refletir fatores como o uso prévio inadequado ou excessivo de antibióticos, falhas no diagnóstico e práticas de prescrição que poderiam ser aprimoradas”, comenta.

NOVOS MEDICAMENTOS
O desenvolvimento de novos antimicrobianos é muito longo e envolve muitas etapas, destaca Luciana, que ainda completa: “para se ter ideia é necessário selecionar mais de 10 mil moléculas com potencial antimicrobiano para que no final consiga um medicamento viável”. “Existem muitas opções no mercado e o veterinário deve pensar na prevenção e no uso racional de antimicrobianos, além de alternativas terapêuticas que envolvem outros agentes”, acrescenta Luciana.
Vanessa recorda que, quando se começou a falar sobre RAM, a indústria se preocupou em buscar novas alternativas dentro da classe dos antibióticos, novas gerações com mecanismos de ação diferentes. “Porém, sinto que esta preocupação mudou para melhor, pois a indústria tem focado em alternativas aos antibióticos convencionais, desenvolvendo produtos como antissépticos com ação antimicrobiana e, mais recentemente, com antimicrobianos naturais com extratos vegetais e óleos essenciais. Claro que tudo necessita de estudos para que consigamos aplicar na rotina clínica, mas a indústria tem trazido esta preocupação e várias novidades até no setor de pré-biótico, probiótico e pós-biótico, para tentarmos não só combater o microrganismo que é patogênico, mas preservar os bons microrganismos”, acrescenta Vanessa.
Juliana destaca que a indústria também tem papel fundamental nesta questão. “Na saúde humana, é proibido fazer propaganda de antibióticos diretamente ao público, mas no mercado pet isso ainda não acontece. Muitos sites de venda não trazem alertas sobre o uso responsável ou o descarte correto dos medicamentos, o que representa riscos para os animais, para as pessoas e para o meio ambiente”, diz.

Foto: arquivo pessoal
“Algumas cepas de Escherichia coli podem circular dos responsáveis para cães e vice-versa. […] Este intercâmbio mostra a importância
da Saúde Única e do uso responsável de antibióticos” diz Vanessa Gmyterco

INFECÇÕES BIDIRECIONAIS
Segundo Luciana, muitos estudos mostram que pets e humanos podem se infectar de forma bidirecional com bactérias super-resistentes. “A disseminação de bactérias resistentes tem aumentado em humanos nos últimos anos, assim como a proximidade dos cães e gatos com seus responsáveis. Já sabemos que a troca bidirecional de bactérias entre responsáveis e seus pets tem ocorrido, e se uma bactéria resistente estiver envolvida, poderá acometer os indivíduos. Se algum deles estiver com baixa imunidade, estas bactérias poderão desenvolver patologias e dificultar o tratamento, pois não responderão aos antimicrobianos. Estudos demonstram que a microbiota de um cão domiciliado é mais parecida com a microbiota do humano responsável por ele do que de outro cão não domiciliado. Isto pode ser respondido pela presença dos pets em nossa vida, onde convivem intimamente conosco, subindo no sofá, compartilhando a cama etc.”, acrescenta Luciana.
Vanessa ainda destaca que alguns microrganismos como Staphylococcus aureus, resistente à meticilina, são uma preocupação muito grande para a Medicina a níveis de infecção hospitalar. “Até algumas cepas de Escherichia coli podem circular dos responsáveis para cães e vice-versa. Nos cães, por exemplo, existem infecções de pele causadas pelo Staphylococcus pseudintermedius que também podem afetar pessoas e os relatos são, principalmente, de pessoas mais vulneráveis, como idosos, imunossuprimidos ou crianças. Porém, este intercâmbio mostra a importância da Saúde Única e do uso responsável de antibióticos”, acrescenta Vanessa.

HOSPITAIS VET E A RAM
Existem vários relatos de bactérias isoladas de hospitais humanos sendo encontradas nas internações veterinárias, aponta Luciana. “Um fator importante é que os animais estão vivendo mais tempo, por isso temos mais internações e utilização maior de medicamentos. Outro é o aumento de hospitais veterinários com maior complexidade, onde casos mais severos são encaminhados e, muitas vezes, com envolvimento de RAM. Os hospitais veterinários que possuem profissionais conscientes em diminuir a RAM em seus estabelecimentos podem fazer várias ações como protocolos de desinfecção, estabelecer um comitê para decisões de uso de antimicrobianos de última escolha, envolvimento de toda a cadeia e educação e treinamentos contínuos. Os hospitais que possuem estas ações têm tido bons resultados em diminuição de casos de RAM em seus estabelecimentos”, aponta Luciana.

DESAFIOS NA PRÁTICA
O principal desafio para controlar a RAM segundo Luciana, é conscientizar tanto a população quanto os profissionais para o uso racional de antimicrobianos em animais. “Precisamos entender que devemos fazer o diagnóstico correto com exames microbiológicos e utilizar medicamentos direcionados ao tipo de infecção. Além disso, devemos pensar sempre na profilaxia, com vacinas e manejo adequado e, no caso do dono do pet, sempre consultar o veterinário para a prescrição correta de antimicrobianos”, diz. Vanessa também reforça que a recomendação atual é individualizar o tratamento levando em conta não só a infecção, mas também o estado de saúde do animal, o risco e o impacto na saúde pública, cada vez mais buscar prescrever de forma criteriosa, segura e responsável.
Juliana destaca que enfrentar a resistência antimicrobiana exige ação conjunta e contínua, com políticas bem estruturadas, transparência e engajamento de todos os setores da sociedade. “Embora a relação nem sempre seja direta, já sabemos o que pode ser feito para reduzir o problema – e isso passa por mudanças de comportamento, melhor acesso a serviços de saúde e diagnósticos adequados, além de políticas públicas bem coordenadas que ajudem a prevenir infecções e garantir o uso responsável desses medicamentos, que são um recurso que precisa ser preservado. O primeiro passo é entender que todos podemos contribuir – seguindo corretamente as orientações de uso de antibióticos e cobrando ações mais amplas de governos e da indústria. Enfrentar a resistência antimicrobiana exige uma ação conjunta entre saúde humana, animal e ambiental, a chamada abordagem de Saúde Única. É um desafio global, mas que começa com atitudes simples, tanto nos cuidados com as pessoas quanto com os pets”, finaliza Juliana.