Confira o que profissionais destes setores compartilharam conosco

Por Samia Malas
Três especialidades vêm crescendo bastante nos últimos anos devido à importância que têm na Medicina Veterinária: Endocrinologia, Gastroenterologia e Nefrologia, que têm tido grande interesse de estudantes recém-formados. No Congresso Vet em Foco elas estavam entre as que mais atraíram público, juntamente com Dermatologia e Medicina Felina. Assim, neste Especial Endócrino, Gastro & Nefro, conversamos com profissionais destes setores para entender um pouco como anda a área de diagnósticos.
Gastro: na mira das doenças inflamatórias
Segundo Ana Rita Pereira, sócia da Gastrovet, em São Paulo-SP, membro da Comparative Gastroenterology Society (CGS) desde 2019, e coordenadora da pós-graduação em Gastroenterologia do IEP Ranvier, a maioria dos atendimentos gastroenterológicos em cães e gatos é para enteropatias crônicas, antigamente chamada de doença inflamatória intestinal. “São doenças inflamatórias que acometem o estômago e o intestino dos cães e gatos, levando a êmese e/ou diarreia crônicos”, acrescenta. Ainda de acordo com Ana Rita, o diagnóstico dessas enteropatias crônicas é seriado e envolve, inicialmente, descarte de alergias alimentares e, posteriormente biópsia, em sua maioria feita por endoscopia e colonoscopia. “Exames iniciais de triagem com ultrassonografia abdominal, exames sanguíneos de avaliação renal, hepática e de doenças infecciosas e hormonais também são de suma importância”, diz.

“O tempo de gap entre os exames diagnósticos serem lançados no exterior e o início do uso deles
no Brasil tem sido cada vez menor. Infelizmente o que não ajuda é o valor, que segue sendo muito alto” diz Ana Rita Pereira, sócia da Gastrovet
Foto: divulgação
Aliás, a endoscopia e a colonoscopia são exames bem específicos da especialidade, porém, outros exames de imagem também são utilizados, conforme explica Ana Rita: “tomografia abdominal para diagnósticos de hepatopatias vasculares (shunts) e avaliação de vias biliares, e exames básicos como ultrassom para avaliação geral do paciente”. Já em avaliações hematológicas, são utilizados incontáveis marcadores para cada doença. “Ainda indicamos, mais recentemente, exames de avaliação da microbiota fecal – o painel de disbiose fecal – em cão e gatos, que é capaz de avaliar a microbiota do paciente, e auxiliar no planejamento terapêutico deles. Existem alguns exames que não estão disponíveis no Brasil, tanto hematológicos, laboratoriais, quanto de imagem. O mais recente é a capsula endoscópica, que é administrada aos cães e gatos para avaliar visualmente o trato gastrointestinal por dentro, auxiliando no diagnóstico de sangramentos gastrointestinais”, completa.
Sobre os desafios na área de diagnóstico em Gastro, Ana Rita acredita que estejam bem ligados à individualidade de cada tutor. “Por exemplo, temos muita dificuldade em indicar exames diagnósticos de biópsia hepática, pois os tutores não querem anestesiar e submeter os pets deles à cirurgia, quando parece que eles não têm nenhuma alteração clínica, somente laboratorial. Em exames de endoscopia e colonoscopia também há diversos tutores que não aceitam submeter os pets à anestesia geral para coleta de biópsia. E em ambos os casos são procedimentos bem custosos, o que também é um grande fator limitador. Mas essas dificuldades são, muitas vezes, superadas com bastante diálogo e orientação correta, no intuito de colocar a real necessidade do diagnóstico e o quanto ele influenciará o tratamento e prognóstico do paciente”, afirma. Em relação ao avanço dos métodos diagnósticos, Ana Rita diz que “o tempo de gap entre os exames diagnósticos serem lançados no exterior e o início do uso deles no Brasil tem sido cada vez menor. Infelizmente o que não ajuda é o valor, que segue sendo muito alto, principalmente em exames que são cobrados em dólar.”
Endócrino: busca por exames menos invasivos, mais rápidos e confiáveis
Para Dra. Sofia Borin Crivellenti, membro da diretoria da Associação Brasileira de Endocrinologia Veterinária (ABEV), pós-doutora em Clínica Médica com ênfase em Endocrinologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Jaboticabal) e responsável pelos Serviços de Clínica Médica de Pequenos Animais e pelo Serviço de Endocrinologia do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em cães, as doenças endócrinas mais comuns incluem hipercortisolismo (Síndrome de Cushing), diabetes mellitus e hipotireoidismo, e, em gatos, as mais frequentes são o hipertireoidismo e o diabetes mellitus. “Os exames disponíveis na especialidade de endócrino variam dependendo da doença, mas incluem principalmente: para hipotireoidismo, dosagem de T4 total e livre, TSH e exames de imagem (US da tireoide); para hipercortisolismo, teste de estimulação com ACTH, teste de supressão com dexametasona, dosagem de ACT Hendógeno e exames de imagem (US das adrenais; TC, RM das adrenais e da hipófise); para diabetes mellitus, glicemia de jejum, frutosamina e urinálise; e para hipertireoidismo, dosagem de T4 total e livre, TSH e exames de imagem (US e cintilografia da tireoide). É sempre importante frisar que os exames considerados de ponta incluem dosagens hormonais realizadas em laboratórios especializados e confiáveis”, aponta Dra. Sofia.

“Um dos principais desafios na área de diagnóstico endócrino é a variabilidade dos resultados
laboratoriais devido a fatores fisiológicos, particularidades espécie-específicas, e, principalmente, diferenças entre os laboratórios” diz Dra. Sofia Borin Crivellenti,
Foto: divulgação
Sobre novidades no mercado, a médica-veterinária ainda acrescenta: “não temos previsão de novos exames no mercado, porém a cintilografia é relativamente nova no Brasil, e agregou significativamente no diagnóstico e tratamento dos felinos com hipertireoidismo”.
Ainda segundo Dra. Sofia, “um dos principais desafios na área de diagnóstico endócrino é a variabilidade dos resultados laboratoriais devido a fatores fisiológicos, particularidades espécie-específicas, e, principalmente, diferenças entre os laboratórios”. “Ademais, muitas doenças endócrinas apresentam sinais clínicos inespecíficos, o que dificulta a confirmação diagnóstica rápida e precisa, requerendo uma boa experiência clínica e paciência por parte dos tutores! Outro desafio importante é a necessidade de testes específicos e de alta sensibilidade e especificidade, que muitas vezes são caros e de difícil acesso em algumas regiões. Por fim, a busca por exames menos invasivos, mais rápidos e confiáveis continua sendo um foco importante (inclusive para mim, como pesquisadora) para melhorar o diagnóstico e o manejo clínico dessas doenças”, finaliza.
Nefro: cada vez mais integrada entre clínicos gerais e especialistas
Maria Eduarda Cunha, atua no atendimento do Setor de Nefrologia e Urologia Veterinária do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia, além de realizar atendimento volante em Uberlândia e em clínicas de especialidades Veterinárias. Nos últimos anos, ela tem percebido um crescimento expressivo da nefrologia veterinária, impulsionado por uma maior conscientização dos tutores dos animais e dos colegas clínicos gerais. “Hoje em dia, é mais comum que sinais sutis de disfunção renal sejam valorizados desde o início, levando a encaminhamentos mais precoces para avaliação especializada, o que nos permite oferecer um tratamento mais individualizado, considerando as particularidades de cada paciente, o estádio da doença e a presença de comorbidades. É muito gratificante ver a nefrologia ganhando esse espaço, com uma abordagem cada vez mais integrada entre clínicos gerais e especialistas”, comenta. Sobre os desafios de quem atua na área, Maria Eduarda cita o diagnóstico precoce como um dos principais, já que muitas doenças renais são silenciosas nas fases iniciais. “Infelizmente, ainda é comum o encaminhamento tardio, quando o quadro já está avançado e as opções terapêuticas são limitadas. Além disso, a adesão ao tratamento crônico por parte dos tutores pode ser difícil, pois envolve mudanças na rotina, uso contínuo de medicações, dietas específicas e monitoramento frequente. Também enfrentamos limitações de acesso a exames e terapias especializadas em algumas regiões”, revela. Um grande desafio na área de diagnóstico em Nefrologia, acrescenta a veterinária, é a dependência de serviços terceirizados de qualidade, como laboratórios e exames de imagem. “Como o diagnóstico definitivo muitas vezes depende de resultados laboratoriais precisos e de exames de imagem confiáveis para avaliação estrutural dos rins, qualquer falha técnica, atraso ou interpretação inconsistente por parte desses serviços pode comprometer o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento do paciente. Garantir parcerias com profissionais capacitados e laboratórios de confiança é, portanto, essencial para oferecer um atendimento eficaz e seguro”, enfatiza.

“A endoscopia urinária, é uma ferramenta valiosa tanto para diagnóstico quanto para procedimentos terapêuticos minimamente invasivos; a biópsia renal, embora não seja um exame novo, tem se consolidado como um recurso cada vez mais utilizado, sobretudo no diagnóstico definitivo das glomerulopatias” diz Maria Eduarda Cunha, nefrologista veterinária que atua em Uberlândia-MG
Foto: divulgação
Maria Eduarda ainda diz que, “em cães, as doenças renais mais frequentes incluem a doença renal crônica (DRC), glomerulopatias, pielonefrite, lesão renal aguda associada a doenças infecciosas, como as hemoparasitoses, além de cistites e urolitíases. Nos gatos, a DRC é disparadamente a mais comum, seguida de obstruções ureterais e uretrais e cistite idiopática felina”. “Os exames indicados variam de acordo com a doença, sendo fundamentais para o diagnóstico e para o monitoramento de progressão e tratamento. Entre os principais, destacam-se a urinálise completa, a razão proteína: creatinina urinária (RPC), exames bioquímicos (como creatinina, ureia, SDMA, cálcio e fósforo), hemogasometria, ultrassonografia abdominal, radiografias simples e contrastadas, eletroforese de proteínas urinária, técnicas de laparoscopia, avaliação da pressão arterial e, em casos selecionados, a biópsia renal.

O diagnóstico definitivo, muitas vezes, depende de resultados laboratoriais precisos
A combinação desses exames possibilita uma abordagem diagnóstica precisa e um plano terapêutico individualizado, de acordo com as necessidades do paciente”, explica.
Atualmente, Maria Eduarda aponta alguns exames de ponta que a especialidade possui: “a endoscopia urinária, que é uma ferramenta valiosa tanto para diagnóstico quanto para procedimentos terapêuticos minimamente invasivos; a cintilografia renal, que oferece uma avaliação funcional e morfológica dos rins, permitindo a estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG) de forma diferenciada para cada rim, o que auxilia na tomada de decisões clínicas; a biópsia renal, embora não seja um exame novo, tem se consolidado como um recurso cada vez mais utilizado, sobretudo no diagnóstico definitivo das glomerulopatias; e a análise histopatológica, imunohistoquímica e, em alguns centros, microscopia eletrônica, que através delas é possível estabelecer o tipo de lesão glomerular, orientando a escolha terapêutica mais apropriada”. A ampliação do uso de exames de imagem avançados como técnicas endoscópicas e cintilografia renal, continua Maria Eduarda, permite uma avaliação mais detalhada e menos invasiva dos rins e do trato urinário. “As terapias dialíticas vêm ganhando espaço e oferecendo novas opções para pacientes com lesão renal grave. Essas novidades são impactantes porque possibilitam diagnósticos mais rápidos, tratamentos personalizados e melhor qualidade de vida para os pacientes, além de aumentar as chances de sobrevida em casos graves”, explica.
Entre os exames que ainda não estão disponíveis no mercado brasileiro, Maria Eduarda destaca o marcador cistatina B, utilizado para a detecção precoce de lesão renal. “Já incorporado à rotina diagnóstica em diversos países, esse biomarcador apresenta potencial para identificar disfunções renais antes de alterações em parâmetros tradicionais, como a creatinina. A expectativa é de que, em breve, esteja disponível também no Brasil”, finaliza.



