Principais indicações do exame de ressonância magnética na medicina veterinária de pequenos animais

Main indications for magnetic resonance examination in veterinary medicine

Figura 1- Cão posicionado para o exame de coluna vertebral no aparelho de ressonância magnética.
Fonte: Vet MR Grande 0,25T Esaote- Prodimagem Veterinária

▪ Por Laís Melicio Cintra Bueno, Gustavo Carneiro de O. C. e Maria Fernanda Gonçalves Gomes Amemiya

RESUMO

O uso da ressonância magnética (RM) na medicina veterinária teve seu início no final da década de 1980. Inicialmente, sua aplicação era realizada em clínicas depois da rotina em humanos, indicando que não havia uma infraestrutura ou protocolos estabelecidos para o uso da tecnologia em animais. É um exame não invasivo, que se baseia em princípios físicos complexos que utilizam campos magnéticos, radiofrequência e prótons de hidrogênio para gerar imagens multiplanares de alta resolução de regiões anatômicas, com ou sem a administração de contraste. É um método diagnóstico essencial na avaliação de diversas enfermidades, especialmente as neurológicas, auxiliando na investigação, tratamento, planejamento cirúrgico e monitoramento evolutivo. A RM permite direcionar os médicos-veterinários dentre as possíveis enfermidades como as congênitas, inflamatórias, infecciosas, vasculares, neoplásicas e traumáticas. Inicialmente aplicada ao neurocrânio, coluna vertebral e membros para pequenos animais e neurocrânio e membros em grandes animais. A imagem por ressonância magnética trouxe um avanço aos médicos-veterinários na elucidação de casos que, muitas vezes, eram inconclusivos ou concluído apenas com o exame de necropsia. Com a acurácia da ressonância magnética, pode-se diagnosticar as enfermidades com êxito, prolongando ainda mais a expectativa de vida dos animais. O futuro da tecnologia da ressonância magnética está em ascensão e certamente continuará a trazer muitos benefícios para a medicina veterinária.

Palavras-chaves: diagnóstico por imagem avançada, animais, enfermidades neurológicas, futuro

ABSTRACT

The use of magnetic resonance imaging (MRI) in veterinary medicine began in the late 1980s. Initially, its application was performed in clinics after human procedures, indicating that there was no dedicated infrastructure or established protocols for the use of this technology in animals. MRI is a non-invasive examination based on complex physical principles involving magnetic fields, radiofrequency, and hydrogen protons to generate high-resolution multiplanar images of anatomical regions, with or without contrast administration. It is an essential diagnostic tool for evaluating various diseases, especially neurological disorders, assisting in investigation, treatment, surgical planning, and follow-up monitoring. MRI enables veterinarians to narrow down potential conditions, including congenital, inflammatory,  infectious, vascular, neoplastic, and traumatic diseases. It was initially applied to the brain, spinal cord, and limbs in small animals, and to the brain and limbs in large animals. Magnetic resonance imaging has provided veterinarians with significant advances in diagnosing cases that were often inconclusive or could only be confirmed through necropsy. With the accuracy of MRI, it is possible to successfully diagnose diseases, thereby extending the life expectancy of animals. The future of MRI technology is rapidly advancing and will undoubtedly continue to bring numerous benefits to veterinary medicine.

Keywords: advanced diagnostic imaging, animals, neurological diseases, future.

BREVE HISTÓRIA DA RM NA VETERINÁRIA
A introdução da modalidade diagnóstica da ressonância magnética (RM) na medicina veterinária clínica ocorreu no final da década de 1980, por acordos entre veterinários e hospitais humanos que permitiam o uso dos equipamentos em horários alternativos. A partir da década de1990, instituições veterinárias passaram a adquirir seus próprios aparelhos de RM, como o Animal Health Trust em Newmarket, Reino Unido, que utilizou um magneto supercondutor de 0,5T em 1992, e a Universidade Estadual de Washington, que instalou um sistema de 1,0T em 1996 (DENNIS,1993). Inicialmente, os estudos se concentravam na avaliação do encéfalo de cães, mas logo se expandiram para a investigação de alterações da coluna vertebral e ortopédicas. Após estudos com membros equinos em cadáveres, a Universidade Estadual de Washington foi pioneira na realização de exames de RM em cavalos adultos vivos. Atualmente, é amplamente reconhecido que a RM é a modalidade de imagem mais eficaz para o diagnóstico de afecções encefálicas em cães e gatos, e tem sido cada vez mais aceita como o método de eleição para a avaliação de claudicação crônica em equinos (GAVIN,2011).

COMO É REALIZADO O EXAME DE RM?
A realização de exames de RM em animais demanda uma preparação rigorosa para assegurar a qualidade das imagens e a segurança. Além da indução de anestesia geral, que é imprescindível para garantir a imobilidade e o bem-estar do paciente durante o procedimento, a remoção de todos os itens metálicos é uma etapa crucial e pode comprometer a interpretação das imagens. O posicionamento adequado do paciente em decúbito esternal ou dorsal, garantindo um alinhamento reto e estável (GRECO et al., 2023). Após a aquisição dos planos localizadores, a definição da espessura de corte é ajustada. A aquisição de imagens por RM ocorre por meio de um processo sequencial. Inicialmente, o paciente é posicionado no interior do magneto, onde os núcleos atômicos alinham-se ao campo magnético principal, originando um vetor de magnetização. A aplicação de gradientes magnéticos permite a codificação espacial dos sinais. Em seguida, pulsos de radiofrequência são emitidos, promovendo o ganho de energia pelos núcleos. Após a cessação dos pulsos, os núcleos retornam ao estado de equilíbrio, gerando sinais de relaxação que são captados pelas bobinas receptoras. A detecção do sinal de RM é possível apenas quando os prótons precessionam em fase, isto é, de forma coerente ao redor do eixo longitudinal (z). Esses sinais são processados por meio da transformada de Fourier, o que permite a formação da imagem ponto a ponto em uma matriz (MAGALHÃES, 1999).

PRINCIPAIS APLICAÇÕES DA RM EM PEQUENOS ANIMAIS
A RM é utilizada, principalmente, no diagnóstico de distúrbios neurológicos e musculo esqueléticos que envolvem tecidos moles, devido ao seu alto contraste tecidual. A RM contribui na delimitação da extensão e gravidade das lesões, bem como na avaliação do estágio da lesão, informações essenciais para o planejamento terapêutico e definição do prognóstico do paciente. Para a realização dessa interpretação, é fundamental um conhecimento aprofundado da anatomia nos cortes transversais, dorsais e sagitais de cada região (GIELEN et. al, 2012).
As indicações mais frequentes para o exame de RM, envolvem a investigação de possíveis alterações do SNC. Sinais clínicos como convulsões, ataxia, alterações dos nervos cranianos, paresia e paralisia são situações que justificam a realização do exame. A RM permite uma avaliação detalhada, padrão ouro, do parênquima intracranianos incluindo o cérebro, cerebelo e tronco encefálico, oferecendo imagens de alta qualidade e excelente contraste entre os tecidos moles (POOYA, 2004).
Por proporcionar um excelente contraste entre os tecidos moles, a RM, é principalmente indicada para o diagnóstico de tumores cerebrais e para a visualização de características tumorais secundárias, como edema, formação de cistos e áreas de necrose. Além disso, alterações sutis, como o deslocamento do sistema ventricular (efeito de massa), a alteração na profundidade dos giros, as alterações de sinais nos lobos e presença de herniação do cerebelo, podem ser identificadas com maior precisão por meio da RM (GIELEN et. al, 2012).

Figura 2 – Imagens por ressonância magnética da região cervical de um cão. (A) T2W (B) STIR no corte sagital e (C) T2W no
corte transversal, evidenciando material discal hipointenso em medula espinhal referente a C4-C5.
Fonte: Vet MR Grande 0,25T Esaote- Prodimagem Veterinária

PRINCIPAIS APLICAÇÕES PARA O NEUROCRÂNIO MALFORMAÇÃO CONGÊNITAS CEREBRAIS
As alterações congênitas compõem aproximadamente 6% da casuística de diagnósticos sendo assim 3% dessas afecções congênitas pertencem a hidrocefalia. O cisto aracnoide e o cisto quadrigeminal ocorrem frequentemente em animais de pequeno porte e são comuns em cães (SAITO et al., 2003). A Malformação do tipo Chiari, também chamada de hipoplasia occipital, é uma herniação cerebelar e é observada em cães com uma elevação da medula ou torção, com uma predominância com 40-68% em raças mini e pequenas e 66-100% em cães da raça Cavalier King Charles Spaniel (CERDA-GONZALEZ; GRIFFITH, 2015). O exame de RM contribui para o diagnóstico preciso em animais (LAUBNER ET AL., 2015).

AFECÇÕES INFLAMATÓRIAS CEREBRAIS
Doenças inflamatórias cerebrais podem acometer o parênquima encefálico (encefalite), as meninges (meningite) ou ambas as estruturas simultaneamente (meningoencefalite). Dependendo da etiologia, pode haver também envolvimento da medula espinhal, caracterizando mielite ou meningomielite (HECHT et. al, 2010). Processos não neoplásicos, como infecções e inflamações, podem ser identificados por meio da RM. No entanto, mesmo com a utilização desse método de imagem padrão ouro, a diferenciação entre lesões expansivas de origem neoplásica e não neoplásica nem sempre é definido (GIELEN et. al, 2012).
A meningoencefalite granulomatosa (MEG), enfermidade inflamatória do SNC de causa desconhecida, acomete cães de diversas raças, principalmente jovens. Corresponde a 25% de todas as inflamações intracranianas em cães. Suas lesões podem ser focais ou multifocais, geralmente localizadas no tronco encefálico, com predileção pela substância branca, mas sem padrão anatômico específico. A meningite ou meningoencefalite eosinofílica idiopática em cães pode apresentar achados normais ou alterações variáveis na RM, como áreas irregulares de hiperintensidade em T2, realce contrastado no córtex cerebral, massas únicas ou múltiplas, realce meníngeo. (HECHT et al., 2010). Meningoencefalomielite necrotizante também chamada de encefalite do Pug (DELUCCHI et al., 2015) é relatada como uma inflamação progressiva rápida e fatal que causa um transtorno cerebral. Sua etiopatologia ainda não é conhecida apesar de pesquisas moleculares rigorosas não foi encontrado um agente infeccioso efetivo para o seu desenvolvimento (COOPER et al., 2014).

Figura 3 – Imagens por ressonância magnética do crânio de um gato. (A) T2W no corte sagital (B ) no corte transversal e (C)
no corte dorsal T1W com contraste, evidenciando provável neoplasia em região de ponte.
Fonte: Vet MR Grande 0,25T Esaote- Prodimagem Veterinária

DISTÚRBIOS CEREBROVASCULARES
No acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, o fluxo sanguíneo é interrompido por obstrução arterial ou venosa intracraniana. As alterações na RM tornam-se evidentes entre 12 e 24 horas após o episódio, com infartos isquêmicos aparecendo como áreas homogêneas hiperintensas em T2, bem delimitadas, com efeito de massa discreto ou ausente. As lesões geralmente acometem a substância cinzenta, podendo estender-se à substância branca em casos graves. Já o AVC hemorrágico é classificado conforme a localização (intraparenquimatosa, epidural, sub-dural, subaracnoidea ou intraventricular), além de tamanho, tempo de evolução e causa, que pode incluir neoplasias, coagulopatias, migração parasitária, malformações vasculares ou ser idiopática (HECHT et al., 2010).

AFECÇÕES CEREBRAIS NEOPLÁSICAS
A RM é uma ferramenta valiosa no diagnóstico de neoplasias do sistema nervoso central. Entre os tumores intracranianos que podem ser identificados destacam-se meningioma, astrocitoma, oligodendroglioma, ependimoma, glioma misto, cisto dermoide, papiloma do plexo coróide, carcinoma e carcinomatose meníngea. (POOYA, 2004). Algumas características específicas das neoplasias, como no caso do meningioma, que são localizados extra-axiais, bem delimitados, com hipersinal e realce homogêneo ao contraste. as trocitomas e oligodendrogliomas são localizados intra-axiais, geralmente com padrão de imagem variável. Tumores do plexo coróide aparecem como massas intraventriculares bem definidas e hiperintensas. Já grandes tumores hipofisários, localizados na região da sela túrcica, apresentam captação uniforme de contraste (GIELEN et. al, 2012).
Para determinar o tipo de tumor cerebral, a avaliação por biópsia, citologia ou a excisão cirúrgica da massa continua sendo a melhor opção diagnóstica. A análise do líquido cefalorraquidiano é usada para diferenciar lesões infecciosas de neoplasias, mas tem suas limitações (GIELEN et.al, 2012), e muitas vezes não é realizada em associação com o exame de RM.

PRINCIPAIS APLICAÇÕES PARA A COLUNA VERTEBRAL
Para a avaliação principalmente da medula espinhal e de estruturas adjacentes como os músculos, ligamentos e os discos intervertebrais, a RM fornece informações detalhadas, sendo a modalidade diagnóstica capaz de avaliar o parênquima espinhal, os tecidos moles perivertebrais e permite a diferenciação entre componentes extradurais de intradurais, além de avaliar o forame intervertebral e os espaços extradurais. Lesões intramedulares também podem ser identificadas com precisão (GIELEN et al., 2012). RM tem sido amplamente utilizada para o diagnóstico de siringomielia, hidromielia e displasia occipital em cães, além de cistos aracnoides espinhais em cães e gatos. O exame permite identificar deslocamento de raízes nervosas, perda de gordura epidural, degeneração, extrusão e protrusão de discos intervertebrais causando ou não compressão no canal vertebral, avaliação dos forames intervertebrais, além de osteofitose e fraturas. Tumores da coluna vertebral também foram diagnosticadas com precisão pela RM, permitindo a localização, extensão (POOYA, 2004).

ALTERAÇÕES EM DISCO INTERVERTEBRAL
A doença do disco intervertebral (DDIV) é uma síndrome neurológica caracterizada pela compressão da medula espinhal, provocada pelo deslocamento ou herniação do disco intervertebral para o canal vertebral e forames intervertebrais (BRISSON, 2010). A avaliação neurológica deve começar desde a chegada do paciente, observando postura, locomoção, comportamento, agressividade e integridade visual. A palpação da coluna é essencial, pois a dor vertebral é um sinal frequente em casos de DDIV. Além disso, devem ser avaliados os reflexos espinhais e os nervos cranianos para localização de possíveis lesões (ROSA; KATAOKA, 2019). A RM é considerada o método mais eficaz para o diagnóstico de doenças degenerativas da coluna, permitindo a identificação de alterações intramedulares. Normalmente, o núcleo pulposo apresenta-se com alta intensidade em imagens ponderadas em T2; contudo, em casos de DDIV, pode não haver distinção entre o núcleo e o anel fibroso, devido à hipointensidade do núcleo discal (DA COSTA et al., 2020).

AFECÇÕES MEDULARES DA COLUNA VERTEBRAL
A mielite, inflamação da medula espinhal, pode ser causada por infecções, doenças imunomediadas ou trauma. Seus sintomas, como dor, fraqueza e dificuldade de locomoção, podem mimetizar tumores espinhais ou hérnias de disco. Tumores benignos, como meningiomas, podem gerar sintomas severos por compressão medular, enquanto malignos, como osteossarcomas, invadem a medula (GIELEN et. al, 2012). A RM é crucial para diferenciar as etiologias medulares, pois detalha, identifica e avalia o tamanho, localização da lesão (MAI, 2018). Os meningiomas são os tumores primários mais comuns da medula espinhal em cães. Geralmente benignos e de crescimento lento, originam-se das células da aracnoide e de suas granulações, provocando mielopatia crônica progressiva e dor vertebral por compressão medular. Na RM, o achado mais característico é uma massa intradural/extramedular com base dural ampla, realce intenso ao contraste e sinal variável nas sequências ponderadas em T1 e T2. A análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) pode ser normal ou revelar discreto a moderado aumento na concentração de proteínas, com ou sem pleocitose (JOSÉ-LÓPEZ et. al, 2013).

PRINCIPAIS APLICAÇÕES PARA AS ARTICULAÇÕES
Na ortopedia veterinária, a RM é crucial para o diagnóstico de diversas afecções articulares para as regiões como ombro, cotovelo e joelho. As indicações incluem a identificação de osteocondrose, insuficiência ligamentar (como a ruptura do ligamento cruzado cranial), meniscopatias (BUNZENDAHL, 2025), alterações no osso subcondral, diagnóstico precoce de neoformações ósseas, tendinites, tenosinovites e tendinopatias (BAIR et al., 2008, CHAEFER; FORREST, 2006, BAEUMLIN et al., 2009). A RM também é valiosa na avaliação de rupturas musculares (CHO et al., 2020) e neoformações musculares ou adjacentes (ZALCMAN et al., 2018).

CONCLUSÃO
A ressonância magnética (RM) tem se consolidado como ferramenta diagnóstica essencial na medicina veterinária, devido à sua capacidade de fornecer imagens detalhadas. Sua crescente ascensão impulsiona a necessidade de aprimoramento no ensino e formação profissional, sendo crucial para diagnósticos acurados e planejamento cirúrgico. Contudo, o alto custo, a exigência de sedação e o número pequeno de aparelhos disponíveis no Brasil representam desafios que, se superados, garantirão a expansão contínua e o futuro promissor da RM na prática veterinária.

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Laís Melicio Cintra Bueno
Graduada em Medicina Veterinária pela FMVZ Unesp Botucatu.
Mestre e Doutora em Radiologia Animal pela FMVZ Unesp Botucatu.
Pós-doutoranda na FMVZ Unesp Botucatu: Aplicação e laudos em Ressonância Magnética veterinária

Gustavo Carneiro de Oliveira Cordeiro
Graduado em Medicina Veterinária pela Universidade de Marília (2023).
Mestrando em Saúde Animal, Produção e Ambiente na Universidade de Marília.
Membro da Associado da Associação Brasileira de Radiologia Veterinária (ABRV)

Maria Fernanda Gonçalves Gomes Amemiya
Graduanda em Medicina Veterinária na Universidade de Marília. Monitora de Diagnóstico por Imagem da mesma instituição