Malformações congênitas da coluna vertebral decães braquicefálicos com “cauda em parafuso”: revisão de literatura


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Por Dra. Lais Elias

Malformações congênitas da coluna vertebral decães braquicefálicos com “cauda em parafuso”: revisão de literatura

Congenital malformations of the vertebral column of brachycephalic “screw tailed” dogs: literature review

Resumo

As malformações vertebrais congênitas são muito comuns nos cães braquicefálicos de “cauda em parafuso”, porém, de etiologia ainda desconhecida. Tais alterações são consideradas um achado incidental nos exames radiográficos e demais exames de imagem. A popularidade dessas raças tem chamado atenção para o número de casos. Embora muitos cães com malformação em coluna vertebral não apresentem manifestações neurológicas, os casos em que estas alterações estão presentes evidenciam grande relevância. Este trabalho tem como objetivo expor a importância dos exames de diagnóstico por imagem para auxiliar na detecção destas alterações em pacientes que potencialmente serão acometidos por alterações neurológicas.

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Palavras-chave: diagnóstico por imagem, malformações em coluna vertebral, braquicefálicos.

Abstract

Congenital vertebral malformations are very common in “screw-tailed” brachycephalic dogs; however, the etiology is still unknown. Such alterations are considered an incidental finding in radiographic and other imaging tests. The popularity of these breeds has drawn attention to the number of cases. Although many dogs with spinal malformations do not present neurological manifestations, the cases in which these alterations are present show great relevance. This work aims to expose the importance of diagnostic imaging tests to assist in the detection of these alterations in patients who will potentially be affected by neurological alterations.

Keywords: diagnostic imaging, spinal malformations, brachycephalic patients.

Introdução

A popularidade das raças braquicefálicas de pequeno porte, como os Boston Terriers, Buldogues Franceses, Buldogues Ingleses e Pugs aumentou nos últimos anos e, com ela, tem chamado a atenção para os casos de hemivértebras relacionados à raça. Uma particularidade destes animais é a conformação da “cauda em espiral” ou “cauda em parafuso” e esta característica anatômica comumente está associada a malformações na coluna vertebral1.

A avaliação e classificação das malformações vertebrais congênitas (CVM – Congenital Vertebral Malformation) tornou-se mais precisa graças à disponibilidade da tomografia computadorizada (TC). Achados tomográficos indicam que a CVM é mais prevalente em Buldogues Franceses que em Pugs, embora não esteja diretamente relacionada a alterações neurológicas. No entanto, a presença de cifose associada à CVM mostrou-se extremamente relevante nos pacientes da raça Pug com manifestações neurológicas2.

Embora a etiologia seja desconhecida, a ocorrência em animais da mesma linhagem sugere característica hereditária3. As malformações foram classificadas como defeitos de segmentação caso os elementos vertebrais não se dividissem (vértebras em bloco) ou se uma porção do corpo vertebral fosse deficiente. Os defeitos de formação foram então classificados em hipoplasia simétrica, aplasia ventral, aplasia lateral, aplasia ventrolateral, aplasia ventral e medial, hipoplasia ventral e hipoplasia lateral do corpo vertebral.

A fisiopatologia do mecanismo de desenvolvimento dessas alterações com envolvimento de manifestações clínicas é considerada multifatorial, onde o desalinhamento vertebral, instabilidade e estenose vertebral são fatores importantes4.

Figura 1 – Radiografia da coluna vertebral de um Buldogue Francês, fêmea, de 2,5 anos, em projeção laterolateral com mensuração do ângulo de Cobb (Fonte: Lackmann et al 2021).

As malformações em coluna vertebral destas raças são identificadas como um achado radiológico incidental, onde cerca de 78% a 93% destes pacientes não apresentam alteração neurológica. Estudos recentes sugerem que a gravidade da cifose espinhal eventualmente presente deve ser considerada um fator crítico no desenvolvimento da disfunção da medula espinhal4.

Segundo Decker et al (2019)2 cães braquicefálicos de “cauda em espiral” sem manifestações clínicas neurológicas são significativamente mais velhos, geralmente passaram por castração, cães da raça Pug apresentaram menos hemivértebras, mesmo não sendo castrados, porém, apresentaram cifose mais acentuada, mais subluxação vertebral e redução do canal vertebral, em comparação com as demais raças. Hemivértebra com aplasia lateral foi mais prevalente em Buldogues Franceses. A presença de hemivértebras torácicas em cães da raça Pug está mais associada às manifestações neurológicas que nas demais raças.

Lackmann et al (2021)5 observaram radiograficamente que não há relação entre malformação vertebral e sexo. A região da coluna vertebral de maior prevalência de lesão foi entre a quarta e nona vértebras torácicas e lesões em coluna cervical e lombar foram raramente observadas. A malformação mais prevalente foi a forma de cunha (48% dos animais estudados) e em 61% dos animais avaliados o ângulo de Cobb >30º aumentou o risco de déficits neurológicos.

A displasia do processo articular caudal da vértebra é uma malformação frequentemente identificada em Pugs, e é caracterizada tanto pela ausência (aplasia) ou formação incompleta (hipoplasia) do processo articular caudal, com uma prevalência variando de 64% a 97% à raça. Supõe-se que esta malformação pode criar instabilidade focal, que, ao passar do tempo, pode resultar em alterações vasculares peridurais e fibrose ou aderências durais, podendo causar distúrbios no fluxo do líquido cefalorraquidiano, hipertrofia do ligamento amarelo (ligamento flavo), degeneração do disco intervertebral e, finalmente, edema e isquemia da medula espinhal6.

Buldogues Franceses diagnosticados com cifose, pela tomografia computadorizada, podem apresentar alteração cinética de deambulação não evidentes na avaliação visual, sendo detectável apenas no teste de marcha na esteira, sugerindo que estes cães podem sofrer uma adaptação compensatória secundária a uma anormalidade estrutural sem estar relacionado à neuropatia. O fato de que a maioria dos Buldogues Franceses neurologicamente hígidos são afetados com malformações em coluna vertebral (cerca de 93,5% desta população), cria uma dificuldade para definir o que é “normal” para a raça1.

As hemivértebras com cifose podem alterar a biomecânica da coluna vertebral, o que é capaz de contribuir para o desenvolvimento de doenças degenerativas, incluindo degeneração e herniação do disco intervertebral. Portanto, a gravidade do grau de cifose associada à instabilidade vertebral deve ser considerada comoum indicador confiável da presença de manifestações neurológicas secundárias à hemivértebra7, 8.

A extrusão discal é considerada uma afecção multifatorial, com envolvimento de fatores genético, biomecânico e anatômico. A coluna cifótica e a idade avançada devem ser consideradas como um fator de risco independente para o desenvolvimento de extrusão do disco intervertebral em coluna toracolombar em Buldogues Franceses4.

De acordo com Rohdinetal (2018)9, as manifestações clínicas secundárias às malformações vertebrais, em Pugs, têm relação com estenose do canal vertebral e/ou instabilidade focal, gerando mielopatia. Tais alterações possuem maior prevalência na coluna torácica. Observou-se, também, que há associação entre déficit neurológico e a presença de vértebra de transição em coluna lombossacra, assim como em 90% dos animais avaliados, a malformação vertebralera adjacente ao foco de lesão em medula espinhal.

Considerações Finais

A presente revisão de literatura demonstra a importância dos exames de imagem para a detecção de anomalias em coluna vertebral em cães braquicefálicos com “cauda em parafuso” e sua possível evolução para manifestações neurológicas. Demonstra, também, a importância da relação entre as malformações em coluna vertebral e cifose nesses animais, desta forma, auxiliando os médicos-veterinários no diagnóstico e consequentemente em um melhor tratamento para seu paciente.

Referências bibliográficas

1.RYAN, R.; GUTIERREZ-QUINTANA, R.; HAAR, G. T.; DECKER, S. Relationship between breed, hemivertebra subtype, and kyphosis in apparently neurologically normal French Bulldogs, English Bulldogs, and Pugs. American Journal of Veterinary Research. v. 80, 2019.

2. DECKER, S.; PACKER, R; CAPELLO, R.; HARCOURT-BROWN, T.R.; SHAW, T. A.; LOWRIE, M.; GUTIERREZ-QUINTANA, R. Comparison of signalment and computed tomography findings in French Bulldogs, Pugs, and English Bulldogs with and without clinical signs associated with thoracic hemivertebra. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2019.

3. BROCAL, J.; DECKER, S.; JOSÉ-LOPES, R.; GUEVAR, J.; ORTEGA, M.; PERKIN, T.; HAAR, G. T.; GUTIERRES-QUINTANA, R. Evaluation of radiography as a screening method for detection and characterization of congenital vertebral malformations in dogs. Veterinary Record. v.10, 2018.

4. INGLEZ DE SOUZA, M.C.; RYAN, R.; PACKER, R. A.; VOLK, H. A.; DECKER, S. Evaluation of the influence of kyphosis and scoliosis on intervertebral disc extrusion in French bulldogs. BMC Veterinary Research, 2018.

5. LACKMANN, F.; FORTERRE, F.; BRUNNBERG, L., LODERSTEDT, S. Epidemiological study of congenital malformations of the vertebral column in French bulldogs, English bulldogs and pugs. Veterinary Record published by John Wiley & Sons Ltd on behalf of British Veterinary Association,v. 190, e509, 2021.

6. LOURINHO, F.; HOLDSWORTH, A.; MCCONNELL, J. F.; GONÇALVES, R.; GUTIERREZ-QUINTANA, R.; MORALES, C.; LOWRIE, M.; TREVAIL, R.; CARRERA, I. Clinical featuresand MRI characteristics of presumptive constrictive myelopathy in 27 pugs. Veterinary Radiology Ultrasound. p. 1-10, 2020.

7. DECKER, S.; PACKER, R; WYATT, S. E. Gait analysis in French bulldogs with and without vertebral kyphosis. The Veterinary Journal. 2018.

8. BERTRAM, S.; HAAR, G.; DECKER, S. Congenital malformations of the lumbosacral vertebral column are common in neurologically normal French Bulldogs, English Bulldogs, and Pugs, with breed-specific differences. American Collegeof Veterinary Radiology. v. 60, p. 400-408, 2019.

9. ROHDIN, C.; HÄGGSTRÖM, J.; LJUNGVALL, I.; LEE, N. H.; DECKER, S.; BERTRAM, S.; LINDBLAD-TOH, K.; JÄDERLUND, K. H. Presence of thoracic and lumbar vertebral malformations in pugs with and without chronic neurological deficits. The Veterinary Journal. p. 24-30. 2018.

Anexo: LACKMANN, F.; FORTERRE, F.; BRUNNBERG, L., LODERSTEDT, S. Epidemiological study of congenital malformations of the vertebral column in French bulldogs, English bulldogs and pugs. Veterinary Record published by John Wiley & Sons Ltd on behalf of British Veterinary Association,v. 190, e509, 2021.

Dra. Lais Elias

Pós-graduanda em Diagnóstico por Imagem pela Anclivepa-SP; Colaboradora científica externa do setor de Terapia Gênica do HCPA-UFRGS e fisiologia da UFRGS; Formada pela Faculdade de Medicina Veterinária na Unifaa - Valença-RJ no ano de 2012.

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