EXAMES COMPLEMENTARES UTILIZADOS NA AVALIAÇÃO DO SISTEMA URINÁRIO


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Lilian Stefanoni Ferreira Blumer, Giovana Galerani, Thaynara S. S. Sá e Larissa L.Greve

EXAMES COMPLEMENTARES UTILIZADOS NA AVALIAÇÃO DO SISTEMA URINÁRIO

1. INTRODUÇÃO

Os rins, os ureteres, a bexiga e a uretra compõem o sistema urinário, sendo responsáveis pela produção, condução, armazenamento e excreção da urina, respectivamente. Os néfrons são as unidades morfofuncionais dos rins, formados por glomérulos, a partir dos quais ocorre a filtração sanguínea, e por túbulos, cujas funções incluem a reabsorção de água, eletrólitos e nutrientes necessários ao organismo, e a secreção de produtos residuais metabólicos e substâncias tóxicas.

Além do equilíbrio hidroeletrolítico, os rins também atuam na manutenção do pH sanguíneo por meio do equilíbrio ácido-básico, no controle da pressão arterial pela ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, na síntese de eritropoietina em situações de baixa oxigenação, e na ativação de vitamina D, permitindo o controle de cálcio e fósforo nos ossos e na corrente sanguínea.

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O sistema urinário é sujeito a alterações congênitas ou adquiridas capazes de comprometer sua morfologia e seu funcionamento, resultando no decréscimo de suas funções, acúmulo de toxinas no organismo e/ou perda de nutrientes vitais para a homeostase. Entre essas afecções destacam-se a insuficiência renal aguda ou crônica, urólitos, infecções virais e bacterianas, processos inflamatórios e neoplasias, e muitas dessas doenças resultam em comprometimento sistêmico. 

Na avaliação clínica é necessário obter a identificação do animal, o histórico completo, e realizar exame físico detalhado. Visto que muitas vezes os sinais clínicos decorrentes dos distúrbios urinários são inespecíficos, os exames complementares são imprescindíveis para elucidar o quadro clínico apresentado, incluindo testes laboratoriais e de imagem, para que seja possível esclarecer o diagnóstico e instituir o protocolo terapêutico adequado, aumentando a qualidade de vida e longevidade do paciente.

2. EXAMES COMPLEMENTARES

2.1 Urinálise

O exame de urina é essencial na avaliação diagnóstica do sistema urinário, sendo um teste de triagem indicado para pacientes com quaisquer sinais sugestivos de doenças urinárias em trato superior ou inferior, alterações sistêmicas, enfermidades graves com origem desconhecida, pacientes geriátricos e animais que serão submetidos a anestesias.

A urinálise é um teste qualitativo e quantitativo, que compreende a avaliação macroscópica da urina – quanto à sua cor, odor, turbidez, volume e densidade –, exame químico com uso de tiras reagentes – para mensurar o pH urinário e componentes químicos como proteínas, glicose, corpos cetônicos, bilirrubina, urobilinogênio e sangue oculto – e a análise do sedimento urinário – em busca de cilindros, cristais, células epiteliais neoplásicas, hemácias, leucócitos, ovos de parasitas, bactérias, leveduras e fungos.

Muitos dos parâmetros avaliados pelo exame de urina são influenciados pelo método de coleta e armazenamento, que devem ser considerados durante a aferição dos resultados. A obtenção da urina pode ser feita por meio de micção espontânea, cateterismo uretral ou cistocentese, sendo a última a mais recomendada. As análises devem ser feitas dentro de 30 minutos após a coleta, ou em até 24 horas caso a amostra seja refrigerada.

2.2 Hemograma

O hemograma é realizado a partir de coleta de 1 a 3mL de sangue venoso, depositados em tubo coletor com anticoagulante. É indicado como exame de triagem em qualquer paciente doente, uma vez que inclui a contagem e avaliação morfológica das hemácias e leucócitos, valor de hematócrito, concentração de hemoglobina, índices hematimétricos e contagem de plaquetas, fornecendo informações a respeito de quadros inflamatórios agudos ou crônicos, infecções do sistema urinário, bem como a presença e características de anemias.

 

2.3 Bioquímica sérica – ureia e creatinina

A partir da mensuração sérica de ureia e creatinina, é possível avaliar a capacidade de excreção renal, visto que essas substâncias normalmente são eliminadas pela urina. Quando a função dos rins é comprometida em mais de 75%, esses compostos se acumulam na corrente sanguínea e se apresentam acima dos valores de referência, resultando em azotemia. Como essa alteração também pode ocorrer por fatores pré-renais – desidratação severa ou insuficiência cardíaca – ou fatores pós-renais – obstrução uretral ou em colo vesical, ruptura ou deslocamento de vesícula urinária –, os números devem ser associados ao quadro clínico do paciente e aos demais exames complementares.

A mensuração do perfil renal é feita por meio da coleta de 0,5 a 2mL de sangue venoso, depositados em tubo coletor sem anticoagulante. As concentrações normais de ureia sérica variam entre 15 e 40mg/dL para cães e 10 a 60mg/dL para gatos, enquanto os valores de referência para creatinina são de 0,3 a 1,4mg/dL em cães, e de 0,8 a 1,6mg/dL em gatos.

A ureia é um composto nitrogenado sintetizado no fígado como produto final do catabolismo proteico, por meio do ciclo de ureia. A excreção renal corresponde a cerca de 85% do total de eliminação ureica pelo organismo, enquanto outra porção ocorre pelo trato gastrointestinal. Em geral, a concentração sérica desse composto é relacionada à função renal, sendo inversamente proporcional à taxa de filtração glomerular (TFG). Entretanto, outras condições podem ser associadas ao aumento de ureia no sangue, incluindo o consumo excessivo de proteínas pela dieta, hemorragias gastrointestinais, desidratação, estados catabólicos de caquexia ou hipermetabolismo, podendo também haver diminuição de seus valores devido à inanição, dietas pobres em proteínas, hepatopatias graves ou uso de esteroides. 

A creatinina, por sua vez, é o produto final do metabolismo muscular, produzida em taxa constante a partir da creatina, e eliminada diretamente pelos rins, sendo pouco afetada por fatores extra-renais. Por esse motivo, a creatinina é o biomarcador de função renal mais utilizado, pois permite a avaliação direta da filtração glomerular. Dentre as desvantagens, a produção diária desse composto é dependente do volume muscular, sendo influenciada pelo escore corporal do paciente.

 

2.4 Eletrólitos

Considerando que os eletrólitos são quase totalmente passíveis à filtração glomerular, esses precisam ser reabsorvidos pelos túbulos renais para manter o equilíbrio eletrolítico do organismo. Assim, a mensuração sérica desses compostos é utilizada para evidenciar distúrbios tubulares que possam resultar em perda excessiva de eletrólitos pela urina, devendo-se avaliar principalmente os níveis de fósforo, cálcio iônico, sódio e potássio.

A concentração de fósforo sérico complementa os resultados de ureia e creatinina, havendo a estimativa de que o aumento dos níveis desse eletrólito no sangue ocorra quando há aproximadamente 85% de néfrons comprometidos. Em nefropatas, a hiperfosfatemia é associada a distúrbios em sua reabsorção renal, regulada pelo paratormônio, sendo que os níveis médios normais em cães e gatos adultos variam de 2,5 a 5,0 mg/dL.

Adicionalmente, é necessário mensurar o cálcio iônico sérico para acompanhamento do doente renal com hiperfosfatemia, visto que essa alteração é acompanhada por hipocalcemia e, em casos persistentes, por hiperparatireoidismo secundário renal devido ao estímulo excessivo da paratireoide. Os níveis normais de cálcio sérico em pequenos animais se encontram entre 8,5 e 10,2 mg/dL.

O sódio desempenha funções importantes na osmolaridade do sangue e do líquido extracelular, controlando o volume e distribuição de líquidos corporais. Os valores normais de sódio na corrente sanguínea variam de 135 a 145mEq/L, podendo estar reduzidos em casos de doença renal ou síndrome nefrótica, enquanto a hipernatremia pode ser relacionada à perda excessiva de água ou aumento da retenção de sódio.

Quanto ao líquido intracelular, seu volume é regulado principalmente pelo potássio, que também atua no controle do potencial de membrana. Quadros de hipocalemia podem ser relacionados a distúrbios renais, doença renal crônica (principalmente em felinos) e/ou acidose tubular, ao passo que a hipercalemia pode ser associada à redução na excreção de potássio pela urina (anúria ou oligúria), obstruções ou rupturas uretrais, sendo que os valores séricos normais se encontram entre 3,5 e 5mEq/L.

2.5 Hemogasometria

A avaliação dos gases do sangue arterial e venoso auxilia no diagnóstico e monitoramento de doenças que culminam com desequilíbrio ácido-base, distúrbios em ventilação e/ou desordens em oxigenação, fornecendo os valores de potencial hidrogeniônico (pH), pressão parcial de dióxido de carbono (PCO2), bicarbonato (HCO3-) e diferença de bases (EB). Os valores normais, em cães e gatos, são respectivamente 7,35 a 7,45, 29 a 42mmHg, 17 a 24 mEq/L e -2 a 2 mEq/L.

Os rins atuam no equilíbrio ácido-base por meio do sistema tampão, com o controle dos níveis de bicarbonato sérico. Sendo assim, pacientes com insuficiência renal são sujeitos à ocorrência de acidemia, devido à redução do pH sanguíneo. Para analisar a porção metabólica, é recomendada a gasometria venosa, obtida a partir da punção com seringa pré-heparinizada, com filtros de ar para evitar a formação de bolhas.

2.6 Relação proteína: creatinina urinária

A relação proteína:creatinina urinária (UPC) substitui a necessidade de se coletar a urina por 24 horas com o intuito de avaliar proteinúria, uma vez que a creatinina é produzida em taxa constante e reflete a condição diária de excreção. Na ausência de sedimento urinário ativo, a ocorrência de proteinúria reflete lesão glomerular, sendo um marcador confiável no diagnóstico de nefropatias e acompanhamento da função renal. Cães e gatos hígidos apresentam UPC inferior a 0,4, e valores acima desse são associados a subestágios da DRC, devendo ser investigados e associados a outros exames complementares, principalmente a urinálise. 

2.7 Exames de imagem

Existem muitas modalidades de exames de imagem para avaliação do sistema urinário em pequenos animais, sendo a ultrassonografia, a radiografia (simples e contrastada) e a tomografia computadorizada as mais utilizadas.

A ultrassonografia permite a visualização interna dos rins e vesícula urinária quanto à sua arquitetura, volume, vascularização, presença de massas, cistos, mineralização, abscessos, dilatações e outras possíveis alterações, de forma não-invasiva, além de auxiliar na realização de cistocentese e biópsias para execução de outros exames diagnósticos.

As radiografias podem ser solicitadas para avaliar o tamanho, formato e posicionamento dos rins, identificar cálculos no trajeto urinário e auxiliar no manejo de traumas. O animal deve ser submetido a jejum alimentar de 12 horas e, se necessário, a enemas para limpeza do trato intestinal, contribuindo para a obtenção do máximo de informações possíveis durante o exame. O posicionamento adequado é essencial para garantir a visibilidade dos rins, ureteres, vesícula urinária e ureteres.

Os exames contrastados podem ser necessários para avaliações mais minuciosas, como ectopia, rupturas ou urólitos em ureteres e uretra, fístulas, herniação de vesícula urinária e metástases. Podem ser realizadas urografias excretoras, uretrografias retrógradas e cistografias retrógradas com contraste positivo, negativo ou duplo, analisando-se a necessidade de sedação para melhores resultados.

Quanto à tomografia computadorizada (TC), seu uso é crescente na medicina veterinária devido ao maior detalhamento das estruturas e ausência de sobreposições. As imagens podem ser solicitadas para confirmar diagnósticos de doenças do trato urinário, tais como ureteres ectópicos, torção de vesícula urinária e tumores, auxiliando os cirurgiões na avaliação e planejamento cirúrgico das diferentes afecções.

 

2.8 Pressão arterial sistêmica

A mensuração da pressão arterial sistêmica com uso de Doppler é indicada para estadiamento e acompanhamento de doentes renais, sendo a pressão sistólica (PAS) normal para cães e gatos de 110 a 120mmHg. Esses valores podem estar aumentados em pacientes com DRC, devido à ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e, consequentemente, instalação de vasoconstrição.

A PAS em animais nefropatas é aceitável até 150mmHg e, a partir disso, são considerados como hipertensos.  O manejo dessa alteração deve ser instaurado para melhorar o quadro clínico dos pacientes e controlar a progressão da doença, visto que a cronicidade amplifica a inflamação e fibrose renal.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sistema urinário desempenha diversas funções essenciais no organismo, portanto as anormalidades envolvendo seus componentes podem ter consequências sistêmicas quando não diagnosticadas e corrigidas de maneira precoce. Para complementar as informações obtidas a partir da anamnese e do exame físico dos pacientes, são indicados os exames complementares, pois, além de auxiliarem na identificação e localização das lesões em trato urinário, contribuem para a decisão do médico veterinário quanto à abordagem a ser escolhida para tratamento das enfermidades.

Lilian Stefanoni Ferreira Blumer

Graduação em Medicina Veterinária pela Unesp - Campus Araçatuba Residência em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Unesp - Campus de Jaboticabal Mestrado em Medicina Veterinária com ênfase em Nefrologia e Urologia de cães e gatos pela Unesp - Campus de Jaboticabal Membro do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinárias - CBNUV Professora de graduação e pós-graduação em Faculdades de Medicina Veterinária Atendimento em Nefrologia de cães e gatos.

Giovana Galerani

Graduanda do 10º semestre de Medicina Veterinária pela UNIP - Universidade Paulista – Campinas. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq pela USP - Universidade de São Paulo. Estagiária na Clínica Cat & Dog e outros bichos desde 2020.

Thaynara Suellen Souza Sá

Graduada em Medicina Veterinaria pela Universidade Paulista - Campus de Campinas 2015-2019. Residente em Clínica Médica de Pequenos animais pela PUC Campinas 2020-atualmente.

Larissa Ligero Greve

Graduação em Comunicação Social- Jornalismo, pela UNIFRAN - Universidade de França e Graduanda do 10° semestre em Medicina Veterinária, pela UNIP - Universidade Paulista - Campus Campinas.

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