Cistite Intersticial Felina: um desafio para o clínico veterinário e para o tutor


Deprecated: strpos(): Passing null to parameter #1 ($haystack) of type string is deprecated in /home/medicinaveterinariaemfoco/public_html/wp-content/themes/blocksy/inc/components/blocks/blocks-fallback.php on line 16

Por Vitória Fontes

Cistite Intersticial Felina: um desafio para o clínico veterinário e para o tutor

1. INTRODUÇÃO

A doença do trato urinário inferior felino (DTUIF), antiga Síndrome Urológica Felina (SUF), corresponde a um conjunto de sinais clínicos como hematúria, polaciúria (micção difícil, em gotejamento), periúria (micção em locais inapropriados) e obstrução uretral, em que a etiologia é multifatorial, podendo ser decorrente de urolitíase, defeitos anatômicos (persistência de úraco e divertículo), infecções bacterianas, fúngicas ou parasitárias e neoplásicas, além de idiopática (WESTROPP, 2007). Considerando que sinais urológicos são comuns dentro da medicina felina, é de suma importância conhecer as patologias que acometem a espécie, sendo a principal delas a Cistite Intersticial Felina (CIF), também conhecida como Cistite Idiopática Felina.

{PAYWALL_INICIO}

2. DEFINIÇÃO

A CIF é definida como um processo inflamatório crônico estéril da bexiga urinária com etiologia não totalmente esclarecida, sendo uma doença frustrante tanto para o veterinário quanto para o proprietário devido às altas taxas de recidiva e não responsividade ao tratamento (LITTLE, 2015). É o diagnóstico mais comum em gatos jovens (2 a 6 anos de vida) com DTUIF e é considerada uma doença psicossomática, termo utilizado para designar doenças que pertencem tanto ao psíquico quanto ao físico (JUSTEN; SANTOS, 2018).

3. FISIOPATOLOGIA

Muitos estudos vêm sendo conduzidos a respeito da CIF, que embora não tenham definido sua exata etiologia, afirmam que há correlação entre a vesícula urinária, sistema nervoso simpático (SNS) e sistema endócrino (eixo hipotálamo-hipófise-adrenal), sendo o estresse o principal agente desencadeador (SILVA et al., 2013; BUFFINGTON; BAIN, 2020).

3.1. Sistema Nervoso Simpático (SNS)

Gatos com CIF demostraram em diversos estudos realizados possuírem hiperativação do SNS (reação de “luta ou fuga”) desencadeada por uma sensibilização através de um agente estressor no sistema nervoso central, levando à liberação das catecolaminas. Essas substâncias sensibilizam fibras condutoras do estímulo doloroso, as fibras C, que liberam a substância P, um neuropeptídeo responsável pela informação da dor e que também provoca um infiltrado inflamatório na parede vesical, principalmente mediado por mastócitos, resultando na produção e liberação dos mediadores inflamatórios que causam dor, edema, espasmos e sangramento vesical por vasodilatação e aumento da permeabilidade. Esse mecanismo é denominado inflamação neurogênica e leva à destruição da camada de glicosaminoglicanos (GAGs), uma fina camada protetora do epitélio vesical que mantem a permeabilidade da bexiga e evita a aderência de bactérias e cristais ao epitélio (MOHAMADEN; HAMAD; BAHR, 2019). Essa destruição leva ao contato da urina com a mucosa urinária, gerando mais inflamação e dor ao gato.  A própria dor sentida pelo animal comporta como um agente estressor, que reinicia o processo da inflamação neurogênica.

Outros estudos demonstraram que gatos com CIF possuem aumento da atividade da enzima tirosina hidroxilase no tronco encefálico e no hipotálamo, que é responsável pela produção e velocidade da síntese das catecolaminas e consequente aumento de sua produção durante o estresse quando comparado a gatos normais (LITTLE, 2015). Além disso, receptores para a substância P na bexiga estão aumentados nesses animais (MOHAMADEN; HAMAD; BAHR, 2019).

3.2. Eixo Hipotálamo-hipófise-adrenal

Também são encontradas alterações no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal em gatos portadores da Cistite Intersticial Felina, que ao contrário do que é observado com o SNS, parece estar inativado. Dentre as inúmeras funções do cortisol está o controle da produção e liberação das catecolaminas, equilibrando assim a resposta ao estresse. Entretanto, no felino com CIF, o cortisol produzido não é capaz de modular essa resposta, gerando exacerbação dos níveis de catecolaminas na corrente sanguínea (JONES et al., 2021). Além disso, as glândulas adrenais se apresentam de tamanho diminuído nas zonas reticular e fasciculada (LITTLE, 2015). Embora haja diminuição da resposta adrenocortical, o tratamento com corticoides não é eficaz (UCHOTSKI, 2022).

4. FATORES DE RISCO

Fatores de risco relacionados à CIF incluem estilo de vida indoor, obesidade, alimentação exclusivamente seca e sedentarismo.

Embora o estilo de vida indoor proteja os gatos de traumatismos, maldade humana e doenças infectocontagiosas, o confinamento pode trazer consequências para alguns gatos que passaram por uma adaptação mal sucedida ou que vivem em ambientes sem enriquecimento ambiental para a espécie (LITTLE, 2015).

A resposta ao estresse desses gatos pode vir acompanhada de outras sintomatologias como desordens gastrointestinais, anorexia, distúrbios comportamentais e respiratórios, caracterizando a Síndrome de Pandora. Esses achados sugerem que a CIF seja uma doença muito além da bexiga (SILVA et el., 2013).

5. SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos mais comuns incluem disúria, hematúria, polaciúria, periúria, vocalização durante tentativas de micção, lambedura excessiva da região genital e iscúria (retenção urinária por obstrução uretral). Alopecia da região abdominal pode estar presente em felinos que se automutilam por dor. Esses sinais clínicos não são específicos da CIF e outras causas podem estar envolvidas, sendo necessária a realização de exames complementares (WESTROPP, 2007).

Geralmente, os episódios são de curta duração (3 a 7 dias), autolimitantes e recorrentes.

Figura 1: Gato na vasilha sanitária com micção dolorosa e apresentando gotejamento da urina – Fonte: JUSTEN; SANTOS, 2018.
Figura 2: Hematúria: achado comum em gatos com DTUI – Fonte: JUSTEN; SANTOS, 2018.

A complicação mais comum da CIF é a obstrução uretral, que pode trazer consequências renais graves e até o óbito se não tratada precocemente (LITTLE, 2015). A inflamação vesical pode levar a formação de tampões uretrais, também conhecidos como plugs, que impedem a eliminação da urina, caracterizando a obstrução uretral. Os tampões são compostos por debris celulares, células inflamatórias e cristais que obstruem principalmente a porção peniana da uretra, que possui 0,7 mm de diâmetro. Gatos obstruídos podem apresentar depressão, êmese, salivação, fraqueza generalizada decorrentes da hipercalemia, azotemia, hipocalcemia e acidose metabólica intensas. A gravidade dos sinais clínicos depende do tempo de obstrução (WESTROPP, 2007)

6. DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da Cistite Intersticial Felina baseia-se na exclusão das demais causas de DTUIF, tais como anomalias congênitas (divertículo vesicouretral, persistência de úraco), urolitíase, neoplasias e infecções bacterianas, fúngicas ou parasitárias (UCHOTSKI, 2022).

É necessária a obtenção do histórico do animal, dados do exame físico e resultados de exames laboratoriais. Gatos filhotes ou jovens com menos de dois anos de idade são mais propensos às anormalidades anatômicas. Em contrapartida, os idosos são mais acometidos por neoplasias urinárias ou infecções urinárias secundárias a doenças sistêmicas como a doença renal crônica e hipertireoidismo (SILVA et al., 2013).

Para a diferenciação de alterações urinárias de origem comportamental e patológicas, devem-se estabelecer as características da urina (coloração, odor, frequência), informações sobre o manejo da caixa sanitária (limpeza, localização e quantidade) e contactantes (presença de hierarquia ou conflitos), por exemplo. É crucial a realização de exames complementares como hemograma, perfil renal, urinálise com UPC, urocultura com antibiograma, ultrassonografia e radiografia abdominal (LITTLE, 2015).

Na grande maioria das vezes, os resultados do hemograma e perfis renais estão dentro dos valores de normalidade para a espécie, exceto na presença de doenças concomitantes ou obstrução uretral. Quando obstruídos, os gatos podem apresentar alterações como azotemia, eritrocitose (desidratação) e leucograma de estresse (JUSTEN; SANTOS, 2018).

Na urinálise, podem ser observadas alterações tais como aumento da densidade urinária, hematúria, leucocitúria, cristalúria, diminuição ou aumento do pH e bacteriúria. Vale a pena ressaltar a importância da realização da urocultura e antibiograma para a diferenciação entre bacteriúria transitória ou patológica da urina. Na grande maioria dos casos, a urocultura é negativa, não sendo necessária a utilização de antibióticos (JONES et al., 2021).

A ultrassonografia abdominal é importante para o diagnóstico diferencial da cistite por urólitos, neoplasias e em alguns casos é possível observar anomalias anatômicas. Gatos com CIF apresentam parede vesical espessa, que pode estar irregular na presença ou não de sedimentos (LITTLE, 2015).

A radiografia simples do abdome não revela alterações em gatos com cistite não obstrutiva. Quando contrastada, é possível observar espessamento da parede da bexiga urinária, assim como irregularidades, além de também contribuir para o diagnóstico diferencial das anomalias anatômicas (SILVA et al., 2013)

A cistoscopia, embora seja um exame de pouca rotina, pode revelar hemorragia petequeal da parede vesical, apontando o diagnóstico da CIF (LITTLE, 2015).

Após todos os exames feitos, na ausência de alterações compatíveis com as demais causas de cistite, fecha-se o diagnóstico para CIF.

7. TRATAMENTO

Diante da etiologia da CIF ainda ser desconhecida, o tratamento é direcionado para a diminuição da gravidade e frequência dos sinais clínicos. É necessário instruir o tutor sobre possíveis crises de cistite e que também não há cura para a doença. Considerando que a CIF é uma patologia desencadeada por estresse, o alvo do tratamento a longo prazo é direcionado principalmente para o manejo ambiental, visando a diminuição dos agentes estressores no ambiente em que o gato vive (JUSTEN; SANTOS, 2018).

Durante a crise aguda de cistite, o tratamento pode durar de 5 a 10 dias. O uso de antiinflamatórios não esteroidais, como o meloxicam, deve ser usado para diminuir a inflamação da bexiga. A dose estabelecida para o gato é de 0,01 a 0,05 mg/kg SID. Para gatos acima de 8 anos ou doentes renais crônicos, não deve-se utilizar doses acima de 0,03 mg/kg SID. A analgesia é um importante ponto do tratamento desses gatos, visto que a inflamação neurogênica causa muita dor vesical, podendo levar a anorexia e automutilação. É preconizado a utilização de opioides, como o cloridrato de tramadol (1 a 2 mg/kg BID), associado ou não a dipirona (12,5 a 25 mg/kg BID). Relaxantes uretrais também podem ser usados para reduzir a chance de obstruções por espasmos uretrais principalmente nos machos. Os fármacos utilizados são a prazosina (0,25 a 1 mg/gato BID), tansulosina (0,004 a 0,006 mg/kg BID) ou acepromazina (0,01 a 0,02 mg/kg BID). Quando a urocultura for positiva, é recomendado o uso de antibióticos de acordo com o antibiograma (SILVA et al., 2013).

O tratamento crônico visa reduzir os agentes estressores ambientais e o tutor deve ser instruído a evitar situações que podem levar ao estresse, como introdução de novo animal ou moradores na casa, viagens e mudanças bruscas de dieta. É de suma importância identificar o agente desencadeador no ambiente do gato, porém nem sempre isso é possível. As vasilhas sanitárias devem ser limpas diariamente e estarem localizadas em um ambiente tranquilo com o substrato de preferência do animal. Todos os recursos como vasilhas sanitárias, bebedouros e comedouros devem estar em abundância e em número adequado de acordo com a quantidade de animais da casa, para que se evite assim a competição por eles. Áreas de descanso individuais devem ser providenciadas, assim como áreas de esconderijo para que o gato possa se esconder na presença de uma ameaça. Brincadeiras que estimulem o instinto de caça devem ser feitas para estimular o comportamento predatório normal da espécie felina. A introdução de dieta úmida também é benéfica nesses gatos, pois resultam em maior ingestão hídrica. O uso de antidepressivos, como a amitriptilina, é recomendado somente para tratamento crônico e naqueles animais em que a terapia comportamental e ambiental não for bem sucedida. A amitriptilina é um antidepressivo tricíclico, com propriedades anti-inflamatórias, analgésicas, anticolinérgicas e anti-histamínicas que pode ser utilizado na dose de 2,5 a 12,5 mg/gato, SID. Os efeitos colaterais incluem ganho de peso e sonolência (administrar à noite para reduzir esses efeitos), que tendem a diminuírem com o uso. O período de tratamento deve ser feito por pelo menos seis meses para a avaliação de sua eficácia. É importante ressaltar que é uma medicação que necessita de desmame gradativo e que não pode ser associado a fármacos como o cloridrato de tramadol devido à ocorrência da síndrome serotoninérgica (SILVA et al., 2013; LITTLE, 2015).

Para gatos obstruídos, a mesma terapêutica com analgésicos, antiinflamatórios (deve-se ter cuidado em animais azotêmicos) e relaxantes uretrais deve ser instituída, além de tratamento suporte com fluidoterapia e correção de hipercalemia se necessário. A sondagem uretral com lavagem vesical deve ser realizada com extrema cautela para não danificar a uretra desses gatos. Para casos recorrentes de obstrução uretral, a uretrostomia perineal pode ser indicada (JUSTEN; SANTOS, 2018).

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A CIF compreende um desafio tanto para o tutor quanto para o clínico veterinário, pois muitos animais podem não responder às terapias convencionais e ter diminuição da qualidade de vida.

Diante de estudos escassos elucidando a etiologia da Cistite Intersticial Felina, são necessários mais estudos para tal finalidade, visando tratamentos mais específicos para a diminuição da recorrência e da gravidade dos sinais clínicos.

9. REFERÊNCIAS

BUFFINGTON, C. A. T.; BAIN, M. Stress and feline health. Veterinary Clinics: Small Animal Practice, v. 50, n. 4, p. 653-662, 2020.

JONES, E.; PALMIERI, C.; THOMPSON, M.; JACKSON, K.; ALLAVENA, R. Feline Idiopathic Cystitis: Pathogenesis, Histopathology and Comparative Potential. Journal of Comparative Pathology, v. 185, p. 18-29, 2021.

JUSTEN, H.; SANTOS, C. R. G. R. Cistite Idiopática Felina: Aspectos clínicos, fisiopatológicos e terapêuticos. Agener União: Vetsmart Cães e Gatos, 2018.

LITTLE, S. E. O Gato: Medicina Interna. 1 Ed. Ottawa: Elsevier, 2015.

MOHAMADEN, W. I.; HAMAD, R.; BAHR, H. I.; Alterations of Pro-Inflammatory Cytokines and Tissue Protein Expressions in Cats with Interstitial Cystitis. Pakistan Veterinary Journal, v. 39, n. 2, p. 151-156, 2019.

SILVA, A. C. da; MUZZI, R. A. L.; OBERLENDER, G.; MUZZI, L. A. L.; COELHO, M. de. R., HENRIQUE, B. F. Cistite idiopática felina: revisão de literatura. Arq. Ciênc. Vet. Zool. UNIPAR, Umuarama, v. 16, n. 1, p. 93-96, jan./jun. 2013.

UCHOTSKI; T. M. In cats which treatment, meloxicam or prednisolone, most quickly reduces clinical signs of feline interstitial cystitis?. Veterinary Evidence, vol. 1, n. 7, p. 1-16, 2022.

WESTROPP, J.L. Cats with lower urinary tract sings. Veterinary Focus. v. 17, n. 1, p.10-17, 2007.

M.V. Vitória Fontes

Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade de Franca (UNIFRAN); Aprimoramento em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Universidade de Franca (UNIFRAN); Pós-graduanda em Clínica Médica de Felinos (Equalis); Membro associado ABFel.

{PAYWALL_FIM}