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Por Samia Malas

Pandemia impulsiona serviço de veterinária à distância no Brasil

Com o crescimento, a telemedicina volta a ser debatida pela classe veterinária

Foto divulgação
Com a possibilidade de acessar a plataforma de qualquer lugar, o home office pôde ser feito na radiologia – Foto: Divulgação

A pandemia realmente trouxe muitas mudanças para a classe veterinária. Uma delas, foi a aceleração do mercado de serviços à distância como a telerradiologia veterinária, oferecido há cerca de 9 anos no país. As clínicas que trabalham com esse tipo de diagnóstico puderam fornecer o serviço a tutores que evitavam deslocamentos em meio aos protocolos de distanciamento social. A ferramenta permite que laudos de exames de imagem sejam feitos com certificação após a avaliação presencial e, em seguida, sejam enviados diretamente para o veterinário e para o responsável pelo animal. Segundo Eduardo Ayres, um dos sócios da Imagem.vet, primeiro centro de Telerradiologia do Brasil, a pandemia ajudou a impulsionar e a fazer com que os veterinários entendessem melhor o serviço. “Quando começamos a realizar o serviço de forma profissionalizada, em 2013, havia bastante resistência por parte dos veterinários. Demorou uns 4 ou 5 anos para que começassem a entender que a telerradiologia permitia um suporte melhor para aquele clínico que não tinha um radiologista no local”, revela Eduardo, que também é coordenador do Curso de Especialização em Tomografia computadorizada e Ressonância magnética em pequenos animais da Anclivepa-SP e membro de equipes de tomografia dos Hospitais Seres e Pet Care, em São Paulo-SP. “A pandemia foi um catalisador desse serviço porque fez as pessoas entenderem a necessidade de ter uma estrutura montada para um suporte à distância. Tivemos um aumento expressivo tanto de novos clientes como de clientes que já estavam conosco e esse aumento está se mantendo até agora. Hoje fazemos mais de 3.000 laudos por mês e estamos crescendo, aumentando a equipe, que já está em 16 radiologistas e três cardiologistas”, acrescenta Eduardo. Eduardo explica que a primeira grande vantagem do serviço é ter o respaldo técnico de radiologistas para “laudar” exames onde não há esses profissionais ou o volume da clínica ainda não justifica contratar um radiologista fixo. “Tornamos a radiologia mais acessível”, enfatiza. O segundo ponto é a redução de custo, pois a empresa cobra por laudo e não por exame. Outro ponto é o fato de o serviço ser realizado 24 horas, inclusive em feriados. “Temos vários tipos de clientes desde hospitais veterinários até volantes e serviços de radiologia itinerante”, completa.

Já o mais antigo Centro de Diagnóstico Veterinário da América Latina, a Provet, oferece o serviço de telerradiologia para 30 clínicas em todo o país. Conforme o responsável técnico da Provet, o radiologista veterinário Carlo Grieco, houve crescimento de 20% no número de exames por telerradiologia, ou seja, laudos feitos à distância, no primeiro trimestre de 2021. Responsável pelo setor de imagem do centro, o especialista afirma que a pandemia também impulsionou os atendimentos remotos. “O número de exames mensais deu um salto incrível. Realizamos mais que o triplo de atendimentos registrados antes da pandemia”, conta.

Telepatologia: Ainda restrito ao exterior

“Infelizmente nenhum exame de Telemedicina é liberado no Brasil pelo CFMV e a Telepatologia é um dos ramos da Telemedicina. A Telemedicina, assim como a Telepatologia é legalizada nos Estados Unidos, em alguns países da Europa e também na China”, aponta Felipe Augusto Ruiz Sueiro, CEO e Coordenador de Diagnósticos do VETPAT – Patologia e Biologia Molecular Veterinária, de Campinas-SP, Mestre em Patologia Animal pela UNESP e Doutor em Anatomia Patológica pela Unicamp.

Ainda segundo Felipe, a Telepatologia consiste em analisar imagens pré capturadas ou “lâminas escaneadas” de biopsias ou principalmente exames citológicos. “O clínico pode fazer um exame citológico na clínica dele, capturar as imagens e enviar via internet/nuvem ao laboratório de Patologia, e em poucas horas receber o resultado. Hoje esse processo leva alguns dias, pois o clínico tem de enviar as lâminas para o laboratório (via motoboy/logística) para que possa ser analisado e ter seu resultado liberado. Então, o ganho de tempo é enorme, além de economizar custos, pois elimina totalmente a logística”, explica o veterinário que realiza o serviço desde 2015 para China, Qatar, Colômbia, Peru e Uruguai, já que no Brasil, a prática ainda não é permitida.

Dr. Felipe aponta que esse serviço tem sido impulsionado não pela pandemia, mas sim “pela tecnologia avançada em se digitalizar e capturar imagens de lâminas e amostras histopatológicas e principalmente pela falta de profissionais especialistas (patologistas com experiência) em outros países.” “A qualidade do serviço vai depender da capacidade e qualidade em se digitalizar ou capturar imagens de boa qualidade, e também do profissional que vai analisar essas imagens para chegar no diagnóstico. Só a correta regulamentação da Telemedicina e todas suas variações (Telepatologia) vai poder garantir uma melhor qualidade da operação”, afirma.

Foto 01: Felipe Augusto Ruiz Sueiro: CEO e Coordenador de Diagnósticos – VETPAT: oferecem serviço de telepatogia para China, Qatar, Colômbia, Peru e Uruguai – Foto 02: (Da esq. à dir.) Eduardo Ayres, Paulo Cazé Frazão e Gabriela Rodrigues, sócios da Imagem.vet: empresa foi pioneira em oferecer serviço de telerradiologia no Brasil – Fotos: Divulgação

Novas possibilidades

O aumento no número de exames por telerradiologia abriu espaço para outro serviço: o de armazenamento de imagens na nuvem. “Após a realização do exame no animal, todas as imagens ficam armazenadas de forma segura, sem necessidade de manutenção de servidores e equipes de TI”, explica Jihan Zoghbi, presidente da Dr. TIS. A Provet, por exemplo, usa a plataforma da Dr. TIS há 3 anos.

A startup, que desenvolve sistemas para área de saúde desde 2016, oferecia a plataforma para 60 clínicas quando o novo coronavírus chegou. Entre março e dezembro de 2020 viu o número de contratos crescer 43%, chegando a quase 90 clientes diretos. Hoje, o produto chamado PACS Vet corresponde a uma fatia de 40% do faturamento da healthtech — que também trabalha com telerradiologia e telemedicina para pessoas. “Montamos um produto com todos os parâmetros veterinários para atendimento específico de animais, o que facilita a análise e dá precisão no diagnóstico. Não é uma plataforma de prateleira. É customizada para cada cliente”, relata o analista de Suporte e Implantação da Dr. TIS, Franklin Consoli Bertanha.

Evolução que vem para ficar

Na Semeve, o primeiro hospital veterinário da Bahia, os serviços de radiologia à distância são utilizados apenas em unidades próprias. “Oferecemos a telerradiologia há 3 anos e, quando a pandemia chegou, já estava tudo implementado. Foi mais fácil para se adaptar. Conseguimos manter um número bem reduzido de profissionais em regime presencial sem prejudicar o atendimento”, explica a médica veterinária Kátia Requião.

Com a possibilidade de acessar a plataforma de qualquer lugar, os especialistas do grupo de risco ficavam em regime de home office e acessavam, de casa, os exames feitos presencialmente. O laudo e a imagem eram enviados pela internet. “Importante, também, o fato de garantirmos o armazenamento da imagem para nosso cliente sem necessidade de servidores. É uma tranquilidade, além da redução de custos, claro”, conta Kátia. “A rotina funcionou tão bem para o hospital durante a pandemia — percebemos uma alta no rendimento — que devemos seguir com regime híbrido de trabalho”, conclui.

Outro serviço que ganhou destaque na pandemia foi o de Unidades Móveis que oferecem serviços de exames de imagem. Uma delas é a Raio X Animal, que oferece exames de Raio X Digital, Eletrocardiograma, Ultrassonografia e Ecodoppler em Salvador-BA. “Os exames são enviados para os tutores e/ou veterinários através do nosso portal”, aponta Guttenberg Braun Neto, sócio- responsável técnico da empresa. Atuante há 3 anos, portanto, na maior parte durante a pandemia, Guttenberg percebeu aumento de procura em exames em domicílio. “Desde que começamos nosso serviço só cresceu, mesmo que a pandemia tenha atrapalhado um pouco a demanda. Já somamos mais de 9 mil exames cadastrados no portal”, aponta. O diferencial do serviço oferecido pela empresa é ter uma sala climatizada pronta com todos os certificados para prática de Raio X. “Isso confere mais segurança na realização do exame”, explica. “Nossos laudos são disponibilizados no máximo em 24 horas. Temos uma veterinária no serviço de marcação e atendimento ao cliente, para esclarecer possíveis dúvidas técnicas”, finaliza.