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Por Denise Cerqueira de Sousa, Leandro Cavalcanti Souza de Melo, Aline Rocha de Menezes, Almir Alves dos Santos Filho, Lorena Adão Vescovi Séllos Costa e Fabiano Séllos Costa.

INTUSSUSCEPÇÃO INTESTINAL SECUNDÁRIA A LINFOMA MULTICÊNTRICO EM CÃO – RELATO DE CASO

INTUSSUSCEPTION SECONDARY TO MULTICENTRIC LYMPHOMA IN A DOG – CASE REPORT

Resumo: O linfoma é a neoplasia linfohematopoética maligna mais frequente em cães e apresenta etiologia multifatorial. Os sinais clínicos são variados e inespecíficos, sendo os mais comuns linfoadenopatia generalizada, apatia, perda de peso e hiporexia 

Objetivou-se com este trabalho descrever um caso de intussuscepção intestinal secundária a linfoma multicêntrico em cão, sendo esta achado pouco descrito na literatura veterinária. Destaca-se a necessidade de incluir a intussuscepção intestinal entre as possíveis formas de curso do linfoma multicêntrico canino. Ressalta-se também que a interpretação dos achados ultrassonográficos em associação com o estado geral do paciente torna-se fator necessário para instituição da terapia mais adequada em cada caso.

Palavras-chave: linfossarcoma; intussuscepto; neoplasia; cães.

Abstract: Lymphoma is the most common malignant lymphohematopoietic neoplasm in dogs and has a multifactorial etiology. The clinical signs are varied and nonspecific. The most common clinical signs are generalized lymphadenopathy, apathy, weight loss and hyporexia. The aim of this study was to describe a rare case of intestinal intussusception secondary to multicentric lymphoma in a dog, which is infrequently reported in the veterinary literature. The need to include intestinal intussusception among the possible forms of canine multicentric lymphoma is highlighted. It is also noteworthy that the interpretation of ultrasound findings in association with the patient’s general condition becomes a necessary factor for choosing the most appropriate therapy.

Keywords: lymphosarcoma; intussuscept; neoplasia.

Introdução

O linfoma é uma neoplasia maligna originária em órgãos linfohematopoéiticos sólidos, como linfonodo, baço, fígado e agregados linfoides associados às mucosas8 e é caracterizado por apresentar comportamento biológico maligno16. Dentre as neoplasias linfohematopoética, é a mais frequente em cães em todo o mundo. A etiologia é descrita como multifatorial e inclui infecções virais, predisposição genética e fatores ambientais5. Foram propostas diversas classificações para o linfoma, sendo que a mais utilizada em medicina veterinária é baseada na localização anatômica das massas tumorais, podendo ser multicêntrico, mediastínico, alimentar e extra-nodal11, sendo o multicêntrico o tipo mais comum na espécie canina3.

Os sinais clínicos do linfoma variam de acordo com a localização do tumor, sendo este fato demonstrado por um estudo clínico retrospectivo dos sinais clínicos de linfoma em cães. O estudo demonstrou que a manifestação clínica mais comum foi linfoadenopatia generalizada em 87,04% dos casos, seguido de apatia (68,52%), perda de peso (68,52%) e hiporexia (42,59%). Os autores concluíram que os sinais clínicos do linfoma nesta espécie são variados e inespecíficos2.

Diante disso, é possível observar que esses sinais clínicos também podem estar presentes em várias patologias, requerendo que seja estabelecido um correto diagnóstico diferencial. Dentre os possíveis diagnósticos diferenciais a serem considerados para o linfoma canino, estão sinais clínicos decorrentes de intussuscepção no trato gastrointestinal. Embora seja pouco relatada na literatura veterinária, a intussuscepção intestinal pode estar associada a linfoma multicêntrico6,1,17. Quadros de intussuscepção secundários ao linfoma são mais frequentemente descritos em pacientes humanos7,18,4, e por se tratar de uma condição que requer uma análise terapêutica cuidadosa e, em muitos casos urgente, essa deve estar incluída entre as possíveis formas de curso evolutivo do linfoma multicêntrico.

A intussuscepção é caracterizada pela invaginação de uma porção do trato gastrointestinal para o lúmen do segmento adjacente. O segmento invaginante denominado intussuscepto e a porção que o envolve é denominada intussuscepiente14. A intussuscepção apresenta ocorrência elevada dentre as alterações obstrutivas do aparelho gastrointestinal de pequenos animais, estando relacionada a alterações da atividade motora nos segmentos acometidos, sendo as causas etiológicas mais comumente relatadas as gastroenterites e neoplasias 15, 8.

Vale ressaltar que, quanto mais se conhece as possíveis formas de curso de uma doença e os possíveis diagnósticos diferenciais, torna-se mais provável estabelecer um correto prognóstico e a instituir a terapia mais adequada para o paciente, garantido assim o bem estar animal. Diante do exposto, objetivou-se com este trabalho relatar um caso intussuscepção intestinal secundária a linfoma multicêntrico em cão.

Relato de Caso

Foi encaminhado ao Setor de Diagnóstico por Imagem do Hospital Veterinário Escola da Universidade Federal Rural de Pernambuco em Recife-PE para realização de ultrassonografia abdominal, um paciente da espécie canina, fêmea, sem raça definida e com 8 anos de idade. O histórico clínico relevava que o paciente havia sido diagnosticado previamente com linfoma multicêntrico, a partir de análises clínica, laboratorial e exames citopatológicos obtidos de múltiplos linfonodos periféricos pela técnica de citoaspiração por agulha fina (FIGURA 01).

Figura 01: Fotomicrofia da amostra citopatológica do linfonodo pré-escapular direito de um paciente da espécie canina, fêmea, sem raça definida, 8 anos de idade, demostrando alta relação núcleo:citoplasma e célula com núcleo redondo a oval, sinais compatíveis com linfoma de célula pequenas. A. Objetiva 10x. B. Objetiva 40x – Foto de arquivo pessoal

Para realização do exame ultrassonográfico o paciente foi devidamente preparado com a realização tricotomia abdominal e aplicação de gel acústico, visando retirar o ar presente entre a pele e o transdutor, evitando assim a formação de artefatos de imagem. Utilizou-se aparelho de ultrassom FIGLABS® modelo FT 412, obtendo-se imagens em modo-B e modo Doppler, com transdutor microconvexo multifrequencial.

Clinicamente, momento do exame, o paciente apresentava significativo desconforto abdominal. Ao exame ultrassonográfico foi possível observar alterações importantes no baço, fígado, linfonodos intra-abdominais e alças intestinais. No baço foi notado suas dimensões aumentadas, contorno regular, parênquima apresentando ecogenicidade mista e ecotextura heterogênea com presença de diversas áreas hipoecóicas difusamente distribuídos por todo parênquima, sendo o maior deles medindo cerca de 1,79 x 2,21 cm, caracterizando presença de padrão macronodular difuso (FIGURA 02). O fígado apresentava aumento importante após a análise subjetiva, ultrapassando o limite caudal do gradil costal. Também apresentava bordas arredondadas, parênquima com ecotextura homogênea e hipoecogenicidade difusa. O sistema porta e veias hepáticas apresentavam-se com calibres normais e distribuição anatômica. Diversos linfonodos abdominais, apresentavam aumento importante, formato arredondado e ecogenicidade mista.

Figura 02: Imagem ultrassonográfica do baço de cadela com linfoma multicêntrico, demonstrando lesão nodular em corpo do órgão de características hipoecogênica, com limites irregulares e mensurando aproximadamente 1,79 x 2,21 cm.

Na avaliação das alças intestinais em plano transversal, foi notado a presença de múltiplos anéis concêntricos hiperecoicos e hipoecoicos ao redor e de centro hiperecoico (sinal de alvo) e espessamento das camadas intestinais (FIGURA 5B), e em plano longitudinal foi notado a presença de multicamadas (FIGURA 5A), achados compatíveis com intussuscepção intestinal. Na avaliação através do modo color Doppler foi notado sinal de fluxo sanguíneo no mesentério contido na intussuscepção (FIGURA 5C), demonstrando dessa forma que se trata de um quadro de intussuscepção intestinal com possibilidade de ser redutível14.

Figura 05: Imagem ultrassonográfica de uma intussuscepção intestinal em um paciente da espécie canina, fêmea, sem raça definida, 8 anos de idade. A. Imagem em plano longitudinal notando a presença de multicamadas. B. Imagem em plano transversal, demonstrando a presença de múltiplos anéis concêntricos hiperecoicos e hipoecoicos ao redor e de centro hiperecoico (sinal de alvo). C. Imagem em modo color Doppler notando sinal de fluxo sanguíneo presente no mesentério contido na intussuscepção.

Ao término do exame foi indicado aos tutores o retorno imediato ao oncologista para avaliar a necessidade de intervenção cirúrgica no paciente para reversão do quadro de intussuscepção.

Discussão

A intussuscepção intestinal em pacientes humanos é comum em crianças e rara em adultos, sendo que em adultos 90% dessas complicações em pacientes adultos estão associadas a presença de massas tumorais 7,18. Os sinais clínicos em adultos humanos geralmente são inespecíficos e incluem distensão abdominal, náusea, vômito4, sendo esta apresentação semelhante aos sinais descritos nos cães.

Dentre os exames de rotineiramente indicados para pacientes diagnosticados ou com suspeita de neoplasias, está a ultrassonografia abdominal, haja vista que é útil na confirmação ou exclusão de diagnósticos e permite coleta de materiais ecoguiados para possibilitar coletas para análises citológicas e/ou histopatológicas. O paciente do caso relatado foi encaminhado para realização de exame ultrassonográfico devido ao seu diagnóstico prévio de linfoma, tendo em vista que essa ferramenta diagnóstica auxilia na definição da origem dos tumores, nos órgãos envolvidos, no estadiamento, na monitorização e na avaliação das possíveis complicações dos tumores abdominais ou infiltrativos 10.

No presente caso a ultrassonografia foi imprescindível para o diagnóstico da intussuscepção intestinal, esse é considerado um método de diagnóstico preciso, substituindo totalmente o radiologia convencional tanto para pacientes humanos quanto para animais. Para esse tipo de alteração as principais vantagens da técnica ultrassonográfica em relação à radiográfica são: avaliação de estruturas adjacentes como linfonodos, avaliação da viabilidade intestinal e redutibilidade da intussuscepção, a partir da visualização da presença de fluxo sanguíneo nos vasos mesentérios do segmento intussusceptado, com o auxílio do modo Doppler14. A tomografia computadorizada (TC) tem sido utilizada de forma crescente para o diagnóstico de intussuscepção intestinal e obstrução intestinal em humanos, no entanto, até o momento, o uso da TC no diagnóstico de intussuscepção em animais não foi descrito na literatura veterinária 13.

Neste estudo a intussuscepção intestinal foi uma complicação acarretada devido ao linfoma multicêntrico, e apesar de sua ocorrência ser pouco relatada, outros autores também associaram a presença dos quadros de intussuscepção intestinal com linfomas 6,1,17.

Embora o terapia indicada em casos de intussuscepção intestinal seja o tratamento cirúrgico, nos casos em que essa é consequência de linfomas, essa medida deve ser analisada de forma cautelosa, visto a malignidade desse tipo de tumor torna possível a disseminação de células tumorais nesses procedimentos 12, fato esse que torna ainda mais necessário a realização do diagnóstico diferencial da etiologia da intussuscepção intestinal, visando instituir a terapia mais adequada para cada paciente.

Conclusão

A intussuscepção intestinal deve ser incluída entre as possíveis formas de apresentação clínica do linfoma multicêntrico canino e também colocada como diagnóstico diferencial para os quadros de linfoma, mas sempre associando com as outras informações obtidas a partir do exame clínico do paciente.

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Denise Cerqueira de Sousa

MV, MSc, Doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal Tropical – UFRPE.

Leandro Cavalcanti Souza de Melo

MV, MSc, Doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal Tropical – UFRPE.

Aline rocha de Menezes

MV, Residência Multiprofissional em Área da Saúde, em Medicina Veterinária, Clínica Médica de Pequenos Animais – UFRPE. Médica Veterinária do Hospital Dr. Vicente Borelli da Faculdade Pio X.

Almir Alves do Santos Filho

MV, Residência em Patologia Animal – UFRPE. Mestrando no Programa de Pós graduação em Medicina Veterinária pela UFRPE.

Lorena Adão Vescovi Sellos Costa

MV, MSc, Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Veterinária – UFRPE. Radiologista Veterinária do Hospital Veterinário da UFRPE.

Fabiano Séllos Costa

MV, MSc, DSc. Pós-doutorado pela Universidade de Edimburgo. Professor de Diagnóstico por Imagem, DMV – UFRPE. Professor do Programa de Pós-graduação em Ciência Veterinária – UFRPE